quinta-feira, novembro 17, 2022

Na ONU, 30 países condenam o Brasil por causa do descaso com os indígenas


Indígenas no enterro de Bruno Pereira, funcionário licenciado da Funai morto em junho no Vale do Javari, no Amazonas

Protesto no velório do sertanista assassinado Bruno Pereira

Camila Asano e Luiz Eloy Terena
O Globo

Após a desastrosa gestão ambiental do governo Bolsonaro, a comunidade internacional fez uma contundente sinalização ao próximo governo, que assumirá a partir de janeiro: o Brasil precisa dar mostras de uma guinada substancial na proteção aos povos originários e defensores dos direitos humanos e ambientais para recuperar sua credibilidade.

A mensagem veio em forma de recomendações feitas por cerca de trinta entre os 119 países que participaram, nesta segunda-feira (14), do quarto ciclo da RPU (Revisão Periódica Universal) do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra (Suíça).

DIREITOS HUMANOS – Criado em 2006, o mecanismo avalia a situação dos direitos humanos de todos os países membros das Nações Unidas a cada quatro anos e meio.

A partir de relatórios do governo, da sociedade civil e da própria ONU, os demais países elaboram recomendações que podem ser aceitas ou rejeitadas, mas servem como um compromisso político internacional e orientam políticas domésticas.

Neste ciclo, países como México, Peru, Espanha, Suíça, Reino Unido, EUA, Canadá, Dinamarca e Alemanha destacaram a necessidade de demarcar territórios indígenas, fortalecer órgãos de proteção como a Funai (Fundação Nacional do Índio) e rejeitar a tese do marco temporal.

PRINCIPAIS CRÍTICOS – A Noruega foi um dos países mais incisivos neste aspecto ao recomendar que o Brasil “complete os processos de demarcação de terras, rejeite a tese do marco temporal e assegure que os povos indígenas sejam protegidos de ameaças, ataques e expulsões forçadas”. A demarcação de terras indígenas, vale recordar, é determinação constitucional, mas o Brasil está longe de cumpri-la.

Outros países recomendaram, ainda, a rejeição do marco temporal e dos projetos de lei que estão no Congresso que propõem garimpo e mineração em terras indígenas, e até uma garantia mais adequada do orçamento para a Funai.

Em sua tentativa de defesa, os representantes da comitiva brasileira, liderada pela atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Cristiane Britto, listaram os insuficientes trabalhos assistenciais realizados em favor das populações tradicionais, sobretudo durante a pandemia da Covid-19, e ainda mencionaram o papel da Funai na proteção dos indígenas. Nada disso foi suficiente para convencer o restante do mundo.

HOUVE RETROCESSO – Nos últimos quatro anos, a sociedade civil atuou intensamente para informar a comunidade internacional sobre as violações ocorridas contra os povos indígenas, a promessa cumprida pelo presidente de não demarcar terras, o aparelhamento e militarização da Funai, o enfraquecimento e subfinanciamento de órgãos de controle como o Ibama, a tentativa de restringir o direito originário à terra por meio da tese do “marco temporal” ou ainda a realização de obras de infraestrutura que violam o direito ao consentimento livre, prévio e informado.

Não à toa, o governo Bolsonaro elegeu as ONGs, os ativistas e jornalistas como inimigos da nação, responsáveis, segundo ele, por “difamar” a imagem do país no exterior.

Também sobre este ponto, a comunidade internacional está atenta: cerca de 16 governos estrangeiros pediram esforços do país na proteção de defensores de direitos humanos e ambientais.

MORTE DE ATIVISTAS – Apesar de a comitiva brasileira ter citado a queda na morte de ativistas, o relatório da ONG internacional Global Witness mostra que o país segue na liderança mundial entre os que mais mata defensores, com 342 assassinatos nos últimos dez anos.

Mais uma vez a RPU cumpriu seu papel de colocar a situação dos direitos humanos do Brasil na berlinda. Ainda que o descumprimento das recomendações não implique qualquer forma de sanção, o processo oferece indicadores para gestores públicos, legisladores e representantes do judiciário de como o país precisa atuar para calibrar suas relações diplomáticas e voltar a ser um ator relevante internacionalmente.

Cabe agora à sociedade civil o papel de continuar cobrando por mudanças efetivas e denunciando violações, ciente do respaldo e dos caminhos apontados por tantas nações.

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