quinta-feira, novembro 10, 2022

A conduta de Bolsonaro após perder nas urnas




Aliados criticam ida do presidente à sede do Supremo Tribunal

Por Fernando Exman

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) acompanham com atenção o comportamento heterodoxo adotado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) desde o dia da eleição. Mas a despeito do sumiço do mandatário, pondera-se, o fato mais importante a destacar é que a equipe de transição começou a trabalhar normalmente e assim deve seguir até o dia da posse.

Bolsonaro não tomou a iniciativa de dar o pontapé inicial nos ritos republicanos que tradicionalmente ocorrem quando há alternância de poder, mas as instituições o fizeram. E o mesmo deve ocorrer no dia 1º de janeiro, se ele deixar o país ou, mesmo permanecendo em território nacional, recusar-se a passar a faixa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

É craque em desviar a atenção do que realmente importa. No dia seguinte à derrota nas urnas, por exemplo, enquanto ainda mantinha-se em prolongado silêncio, produziu a “notícia” segundo a qual ele e a primeira-dama haviam deixado de se seguir no Instagram. Bobagem.

Esse período foi monitorado com serenidade no Judiciário, sobretudo porque rapidamente a cúpula do Congresso deu por encerrado o processo eleitoral com Lula saindo dele vitorioso. Isso isolou Bolsonaro e acabou levando-o a cometer o erro tático de convidar alguns ministros do STF para encontrá-lo no Palácio da Alvorada.

Ele não procurou a presidente do Tribunal, ministra Rosa Weber. Como sempre, ignorou os ritos institucionais. Seus interlocutores chamaram atenção para isso e o convenceram a convidar todos os integrantes da Corte - inclusive seu desafeto, Alexandre de Moraes.

Em paralelo, alguns ministros do STF concluíram que, do ponto de vista simbólico, seria um equívoco realizar esse deslocamento em direção a alguém que poderia colocá-los em situação constrangedora. Além disso, apresentou-se uma condição: a reunião só ocorreria depois que o chefe do Poder Executivo reconhecesse a derrota na disputa pela reeleição.

Bolsonaro então convocou a imprensa para um pronunciamento. Foi quando agradeceu os milhões de votos obtidos, disse que respeitaria a Constituição e passou a palavra para o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, falar do início do processo de transição.

Como se pronta estivesse, uma nota logo foi divulgada pelo Supremo afirmando que Bolsonaro reconhecia o resultado do pleito. Não tardou, também, para um emissário do presidente procurar seus interlocutores no STF dizendo que o chefe já havia feito sua parte no acordo e, portanto, agora caberia aos integrantes da Corte encontrá-lo. E rápido.

A resposta, contudo, não foi a que o presidente esperava: teria que ser ele, Bolsonaro, a se dirigir ao Supremo. E assim ele agiu.

A portas fechadas, procurou ser agradável. Palmeirense, fez piada sobre futebol com Alexandre de Moraes, torcedor do Corinthians. Tentou limpar a barra do diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Silvinei Vasques, cuja atuação no dia da eleição vinha sendo bastante criticada pela Justiça e passaria a ser investigada.

Segundo relatos, não se falou de forma explícita das investigações em curso nas quais ele próprio é citado, mas este era o óbvio tema que servia de pano de fundo da visita: até mesmo aliados próximos viram sua decisão de ir pessoalmente ao Supremo naquele momento como uma rendição.

Agora, aguarda-se a conduta que adotará a partir desta quarta-feira, depois que o Ministério da Defesa divulgar seu relatório sobre o mais do que testado e aprovado funcionamento das urnas eletrônicas. Será um fator determinante para o tratamento que receberá a partir de agora de um Poder que tanto atacou nos últimos quatro anos.

Até a véspera, os sinais que haviam sido emitidos em direção ao edifício-sede do Poder Judiciário apontavam para um parecer sem grandes novidades. E é com este cenário que a cúpula do Supremo trabalhava até então, a despeito da insatisfação com a forma com a qual o Ministério da Defesa conduziu o assunto.

Isso porque na segunda-feira o ministério divulgou nas redes sociais que apresentaria o seu parecer e, com isso, criou um clima de suspense que alimentou as esperanças dos bolsonaristas mais radicais. Ao mesmo tempo, no Supremo o que se ouvia era que a força-tarefa organizada pela pasta da Defesa teria sido incapaz de concluir o teste de integridade com biometria por falta de voluntários.

Em uma mensagem dúbia, o relatório da Defesa pode dizer que não conseguiu colher provas objetivas e consistentes contra o sistema eleitoral, mas, ainda assim, deixar a porta perigosamente aberta para que atos em frente aos quartéis continuem sendo realizados. Do outro lado da Praça dos Três Poderes, irão ficar de olho como esse material será explorado, a partir do Palácio do Planalto, pelo candidato derrotado.

*

A despeito de os radicais a rejeitarem, a política tradicional é feita de símbolos: a entrevista coletiva do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na qual foi anunciada a nomeação de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente de honra do partido, teve muitos deles.

O partido adotou novo slogan: “Liberdade, verdade e fé - pelo bem do Brasil”. E mudou as cores: saíram o vermelho e o azul, entraram o verde e amarelo. Tudo isso para deixar a ala bolsonarista mais à vontade na casa nova.

Nos próximos dias, ficará pronta a sala que vai acolher Bolsonaro e seus assessores diretos na sede da sigla, em Brasília. Continuará ao seu lado o general Walter Braga Netto, ex-candidato a vice, e um dos poucos capazes de influenciar Bolsonaro.

Em sua nova fase, correligionários esperam que Bolsonaro seja capaz de manter a mobilização do eleitorado de direita e direcione esses votos para os candidatos a prefeito do PL em 2024. Depois de construir as maiores bancadas do Senado e da Câmara, além de vencer em Santa Catarina e no Rio de Janeiro a disputa para governador, o objetivo do partido agora é aumentar a capilaridade nas eleições municipais.

Valor Econômico

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