segunda-feira, outubro 03, 2022

Meu voto, minhas regras.




O discurso identitário vê minorias como incapazes de pensar diferente da militância.

Por Lygia Maria (foto)

A coligação Irmãos da Itália, dirigida por Giorgia Meloni, venceu as eleições legislativas italianas. Desde Mussolini, é a primeira vez que um partido ligado ao fascismo assume o poder. Além disso, pela primeira vez, uma mulher estará no comando do governo. No noticiário, o traço reacionário de Meloni foi mais ressaltado do que o fato de ela ser mulher. Afinal, questões como xenofobia e nacionalismo são mais relevantes do que o sexo do governante que apoia essas pautas.

Porém, não é o que se vê quando a governante é de esquerda. Dilma venceu as eleições e foi exaltada por ser a primeira mulher presidente do Brasil. Ou seja, Giorgia Meloni, assim como Angela Merkel e Margaret Thatcher, prova que o discurso que exige mais mulheres no poder vai só até a página dois da cartilha feminista, na qual fica claro que o objetivo é mais mulheres de esquerda no poder.

De modo semelhante, em artigo recente para a Folha, um acadêmico afirma que não devemos votar em pessoas brancas e indica um site com 120 candidaturas de pessoas negras, todas de partidos de esquerda.

O primeiro problema nesses discursos é a falácia do ad hominem, que enaltece ou desmerece as ideias do interlocutor por suas características físicas, não pela qualidade das ideias. O segundo é a objetificação, que trata minorias como incapazes de pensar e escolher posições político-ideológicas contrárias às da militância. Como se ser uma mulher liberal ou um negro conservador fosse uma incongruência.

Ao tratar do totalitarismo, a filósofa Hannah Arendt critica a objetificação com esta analogia: "um tinteiro é sempre um tinteiro, o ser humano é a sua existência". Logo, não somos coisas que cumprem mera função utilitária. Somos sujeitos livres para pensar e escolher os papéis que vamos representar ao longo da vida. Tratar seres humanos como entes biológicos, por sexo ou raça, é encerrá-los em papéis fixos imutáveis.

Ou seja, o oposto do que qualquer movimento que se diz libertário deve advogar.

Folha de São Paulo

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