domingo, outubro 16, 2022

Debate na Band: Lula e Bolsonaro trocam ataques sobre pandemia e acusações de corrupção

 Rafael Galdo

O combate à pandemia pelo governo federal gerou um dos confrontos inaugurais da noite deste domingo entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro debate do segundo turno entre os dois candidatos, na TV Bandeirantes. O petista responsabilizou o atual mandatário pelas mais de 600 mortes pela Covid-19 e pelo atraso na vacinação no país, lembrando episódios como o vídeo em que seu adversário imitava uma pessoa com falta de ar . Bolsonaro rebateu, defendeu que sua gestão e disse que comprou 500 milhões de doses de imunizantes para quem quisesse se vacinar. O encontro dos dois, então, virou uma troca de acusações, numa disputa de narrativas em que os dois se chamavam de "mentirosos" nos vários temas trazidos à tona, das obras de transposição do Rio São Francisco à distribuição de fake news.

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Logo no começo do debate, quando a pandemia dominava o embate, Lula chamou o adversário de rei da fake news e da estupidez.

— O senhor debochou, riu, disse que quem tomasse vacina virava jacaré, homossexual, deixou as pessoas morrerem afogadas sem oxigênio em Manaus. Virou vendedor de remédio que não servia pra nada. Não respeitou o Butantan e a Fiocruz, que são laboratórios de excelência — disse Lula. — Os números estão aí. Você é o rei da fake news, o rei da estupidez, de mentir para a sociedade brasileira. Você mentiu sobre a vacina. — E o Brasil carrega a pecha de ser o país que tem mais mortes pela Covid. É lamentável. E mais ainda, o senhor não se dignou a visitar uma família que perdeu alguém para a Covid. Depois, para parecer bonzinho, foi ao enterro da rainha da Inglaterra, quando poderia ter visitado centenas de pessoas que morreram de Covid aqui. Disse que não morreram crianças. Morreram duas mil crianças de Covid — acusou Lula.

Logo em seguida, foi a vez de Bolsonaro tentar desmentir as declarações de Lula:

— Seu Lula, entenda uma coisa. Os enterros eram com caixão lacrado. Não se podia ir a enterros. Nem familiares. E eu visitei hospitais, sim. O senhor que não tem conhecimento. Só que eu não precisou fazer propaganda do que faço. Me preocupei com cada morte no Brasil — afirmou o atual presidente. — Repito. Nós compramos 500 milhões de doses de vacina. O Brasil foi exemplo do mundo no tocante à vacinação. Menos de um mês depois da primeira dose aplicada do mundo, o Brasil começou a aplicar. E todas as vacinas foram compradas pelo governo federal. Nos orgulhamos desse trabalho. Salvamos milhões de vida. Se fosse alguém do seu governo, alguém do consórcio Nordeste, vocês teriam roubado tudo e tinha morrido muita gente cuja morte poderia ter sido evitada — acrescentou depois.

Em meio às acusações mútuas foram trazidos temas como a CPI da vacina e as denúncias com relação ao pedido de uso emergencial dos imunizantes da Covaxin. "A CPI provou que tinha gente negociando US$ 1 por cada dose de vacina", disse Lula, antes de Bolsonaro afirmar que o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a decretar estado de emergência, mas o governo teria sido "ignorado por aqueles que queriam o carnaval a qualquer preço".

Fake news e controvérsia sobre pedofilia

Um tema central nesta corrida eleitoral, a distribuição de fake news foi mais enfaticamente discutida após pergunta da jornalista Patrícia Campos Melo, no segundo bloco. Primeiro a responder, Lula pontuou os processos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para retirar do ar trechos da campanha bolsonarista.

— Trinta e seis fake news o TSE tirou dele. Numa demonstração de que faz parte do cotidiano dele. A imprensa publica fartamente que são pelo menos seis ou sete mentiras por dia contadas, brinca de falar mentira. Levanta de madrugada, tem vontade, vai e conta uma mentira. Faz uma live, e conta mentira. Levanta até 1h da manhã pra fazer live.

Em sua vez de se pronunciar, Bolsonaro, então, tocou, na controvérsia da semana, depois de a internet ter sido inundada por um vídeo em que o atual presidente afirma que "pintou um clima" com adolescentes venezuelanas na comunidade de São Sebastião, nas proximidades de Brasília – declaração interpretada de maneira diferente pelos dois lados da disputa.

Mais cedo, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, havia determinado a remoção de vídeos postados por perfis da campanha de Lula em redes sociais que reproduziram a fala de Bolsonaro sobre as venezuelanas ou qualquer conteúdo relacionado ao tema. Moraes também tinha decidido que a campanha se abstivesse de promover novas manifestações sobre "os fatos tratados" em representação protocolada pela campanha do atual presidente. No debate, Bolsonaro elogiou a determinação de Moraes, ministro que o presidente e bolsonaristas recorrentemente questionam.

— Lula, se você não mentisse, não seria você. Me chama o tempo todo de miliciano, genocida, canibal. No seu último programa, influenciado por Gleisi Hoffmann, me acusou de pedofilia. Tentando me atingir no que tenho de mais sagrado: defesa da família brasileira, das crianças. Ato contínuo o que aconteceu no dia de hoje: o senhor Alexandre de Moraes dá uma sentença contrária a essas fake news, essas mentiras. E diz a sentença: “ a postagem realizada pela representada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, em 15 de outubro, se descola da realidade por meio de inverdades, fazendo uso de recortes, encadeamentos inexistentes, da falas gravemente descontextualizadas do representante jair bolsonaro, com o intuito de induzir o eleitorado negativamente" — afirmou.

Lula só tocou no assunto mais tarde. Disse que Bolsonaro foi obrigado a acordar à 1h para

Nordeste em foco

Em diferentes momentos, Bolsonaro também tentou se dirigir aos nordestinos, inclusive no tema da pandemia, ao criticar os governadores do Consórcio Nordeste, que se uniram para tentarem tomar medidas contra a Covid-19. A região do país, onde Lula tem ampla vantagem sobre Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, também foi citada por Bolsonaro quando o debate girou em torno do Auxílio Brasil. E voltou ao foco quando Bolsonaro questionou Lula sobre a transposição do Rio São Francisco.

— Era pra ter acabado em 2010, no seu governo. Passou para 2012, governo Dilma (Rousseff). Só que o Brasil vivia uma explosão de corrupção. O senhor negou água para os seus irmãos nordestinos — disse o atual mandatário. — O senhor fez uma obra que não chegava a lugar nenhum. Pegamos uma obra parada há quase dez anos. O senhor desviou, sim, foi muito dinheiro para a corrupção. Tudo tinha corrupção no seu governo — completou.

Veja também: Moraes manda plataformas e campanha de Lula excluírem vídeo de Bolsonaro dizendo que 'pintou um clima' com venezuelanas

Ao rebater o rival, Lula o chamou de "cara de pau", e defendeu as obras realizadas durante seu governo.

— Se tem uma coisa que é cara de pau, é a cara de pau desse cara. Fiz 88% das obras do São Francisco. Ele fez 3,5%. Da mesma forma que ele fala que fez ferrovia, a 163. Tudo feito pelo governo do PT, mais de 80% das obras feitas. Quando eu tomei posse em 2003, o Fernando Henrique Cardoso estava fazendo uma ponte lá na divisa Minas-Mato Groso. E eu fui lá inaugurar. E fiz justiça ao FHC, disse que era dele. Você poderia ter pelo menos sensatez, e dizer que “essa obra aqui é do presidente Lula", foi mais competente que eu, ele fez a obra, vou só dar um empurraõzinho para acabar — disse o ex-presidente.

Mais tarde, Bolsonaro voltou a atacar:

— A grande verdade: o senhor não fez nada, a não ser transpor dinheiro para o seu bolso e seus amigos.

Complexo do Alemão

Lula trouxe à cena também as polêmicas nas redes sociais após sua visita, na semana passada, ao Complexo do Alemão, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na ocasião, Lula usou um boné com a sigla CPX, que designa "complexo". Na internet, grupos associaram o acessório à criminalidade.

— Fui no Complexo do Alemão, povo extraordinário, trabalhador. E ali, não tinha bandido. Tinha mulher e homens que trabalham. Os bandidos o senhor sabe onde estão. Tinha um vizinho seu que tinha 100 armas dentro de casa. Não morava na favela do Complexo do Alemão, morava em um apartamento na Avenida em Copacabana. Achar que bandido está só no lugar dos pobres... Os bandidos estão, na verdade, no lugar dos ricos. Os pobres são trabalhadores e eu vou voltar ao Complexo do Alemão. Porque não foram os presos que votaram em mim, foi o povo brasileiro — disse.

Anteriormente, Bolsonaro errou o nome do Complexo do Alemão, que ele chamou de Complexo do Salgueiro (conjunto de comunidades que fica no município de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio).

— O senhor esteve atualmente no Complexo do Salgueiro. Não tinha nenhum policial ao seu lado, só traficante. Tanto é verdade a sua afinidade com traficantes, com bandidos, que nos presídios do Brasil, a cada cinco votos, o senhor teve quatro votos — afirmou Bolsonaro.

Durante a visita ao Complexo do Alemão, Lula percorreu a Avenida Itaoca, via que atravessa o conjunto de comunidade, onde estão instaladas escolas, Clínica da Família e uma UPA. Na agenda, o ex-presidente se encontrou com lideranças comunitárias da região.

Orçamento secreto

Ao falar sobre o orçamento secreto, Bolsonaro se enrolou na reposta.

— Falam que eu comprei o Legislativo, mas eu vetei. Se eu comprei, eu tenho voto. [Mas] tenho aqui uma lista de 13 deputados do PT que receberam recurso do tal Orçamento Secreto. Eu não tenho nada a ver com isso. Primeiro, que tenho caráter. Esse Orçamento foi criado por Rodrigo Maia, uma pessoa que queria tirar tirar poder de mim. Eu jamais daria dinheiro para essa turma toda aqui, se não estivesse votando comigo — disse o candidato do PL.

Petrolão

Bolsonaro insistiu em diferentes momentos em debater as denúncias do Petrolão, escândalo de corrupção na Petrobras, e cobrou respostas de Lula sobre o assunto.

— Foi o maior esquema de corrupção da história da humanidade. O endividamento da Petrobras com desvio de recursos, com compra de refinarias como de Passadina. Com o começo da construção de três refinarias: uma no Maranhão, outra em Pernambuco, outra no Rio de Janeiro. Não concluiu nenhuma. Só ali se enterrou R$ 90 bilhões — disse o atual mandatário. —Lula, responda sobre Petrolão — continuou.

O ex-presidente lembrou medidas de seu governo que teriam fortalecido a Petrobras em seu governo. E rebateu o seu rival.

— Se houve corrupção na Petrobras, prendeu-se o ladrão que roubou e acabou. Porque no nosso governo nada era escondido. A gente não tinha sigilo, não tinha sigilo do filho, da filha, do cartão de crédito, das casas, nada — disse. — Se houve corrupção na Petrobras, não precisava ter quebrado as empresas como foi quebrado. Você prendesse quem roubou e deixasse as empresas trabalhando, porque foram 4,4 milhões de empregos que se foi para a casa do chapéu. Por isso, meu caro, não tenho nenhum problema em explicar o Petrolão e o Petrolinho. Eu quero ver você explicar a forma sigilosa que você colocou tantas coisas na sua vida.

'Pintou um clima': assunto dominante antes do debate

O embate entre os dois ocorre após uma semana intensa na campanha, de eventos de Lula no Nordeste e no Complexo do Alemão, e da passagem de Bolsonaro pela Basílica de Aparecida, no feriado da última quarta-feira. E se inicia com a pressão nas alturas, depois da polêmica sobre as jovens venezuelanas. Logo ao chegar ao estúdio da Band, o atual mandatário se manifestou sobre o assunto.

— Vocês acompanharam as últimas 24 horas, as mais terríveis da minha vida. Uma acusação infame, sórdida de pedofilia, (...) potencializada pela presidente do PT. Tentaram me atingir naquilo que é mais sagrado par mim, que é a defesa da família e das crianças. Agora há pouco, uma decisão do senhor ministro Alexandre de Moraes (do TSE), simplesmente mandando retirar toda e qualquer matéria nesse sentido, dizendo que foi descontextualizada e agressiva — afirmou.

Lula, por sua vez, criticou o comportamento de Bolsonaro:

— Do Bolsonaro pode se esperar tudo. Não é a primeira vez que ele zomba, que ele faz coisa que não deveria fazer. É a molecagem que ele sempre faz. Ele é assim, parece que vai terminar a vida assim zombando das coisas sérias.

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O debate desta noite tem formato diferente do convencional: desta vez, os candidatos não precisam ficar parados em seus lugares, mas podem caminhar livremente pelo palco enquanto respondem aos questionamentos, em um modelo já adotado na mesma emissora, no embate de segundo turno entre os candidatos ao governo de São Paulo – Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT). O debate é organizado por um pool de veículos, que inclui também a TV Cultura, UOL e a Folha de S. Paulo.

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