terça-feira, setembro 20, 2022

O abismo que a pandemia aprofundou - Editorial




Impactos da covid-19 reforçaram desigualdades regionais. Para governadores em busca de diagnóstico sobre problemas de seus Estados, ranking de competitividade é leitura obrigatória

Passados mais de dois anos desde sua eclosão, a covid-19 continua a causar impactos econômicos e sociais em todo o mundo, mas fica cada vez mais claro que o grau de desenvolvimento prévio de cada país foi muitas vezes determinante para o sucesso ou fracasso da estratégia de enfrentamento da pandemia. Há exceções, mas essa é uma conclusão válida para a maioria das nações, inclusive o Brasil. Internamente, regiões menos desenvolvidas também sofreram mais. É o que mostra o ranking anual de competitividade organizado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e pela Tendências Consultoria Integrada, que chega à sua 11.ª edição. Em 2022, os 11 Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste conquistaram as primeiras posições, enquanto os 16 do Norte e Nordeste ficaram com as últimas. Ainda que esse seja um padrão que se repete em todas as edições do levantamento, sempre havia uma exceção a confirmar a regra e ao menos um Estado do Norte ou do Nordeste bem posicionado entre os primeiros 11 colocados. Não mais. Como bem definiu o diretor executivo do CLP, Tadeu Barros, o pós-pandemia reforçou as históricas desigualdades regionais e as diferenças entre os dois “Brasis”.

A intenção do ranking não é apontar culpados, mas oferecer um diagnóstico claro sobre o estágio dos problemas com base em dados e informações públicas. A partir dele, é possível avaliar quais áreas merecem ações urgentes e articular políticas públicas com vistas a objetivos mais amplos, como o desenvolvimento econômico, a atração de investimentos e o aumento da qualidade de vida da população. É, portanto, leitura obrigatória para os governadores que forem eleitos em outubro.

Para cada Estado, o levantamento reuniu 86 indicadores nas áreas de educação, infraestrutura, sustentabilidade ambiental e social, segurança pública, inovação, eficiência da máquina pública, capital humano e potencial de mercado. A exemplo das edições anteriores, São Paulo continua a liderar o ranking geral – embora também esteja em uma situação pior do que aquela que apresentava antes da pandemia. Sem surpresas, o Estado foi o primeiro colocado em infraestrutura e educação e o segundo mais bem posicionado em sustentabilidade e inovação. Santa Catarina continuou em segundo lugar, seguida por Paraná e Distrito Federal, que apenas trocaram de posição de um ano para o outro. Houve mais mobilidade entre os últimos colocados. Em 2021, Pará, Acre e Roraima haviam ficado com as três piores posições. Neste ano, foram substituídos por Piauí, Maranhão e Amapá.

O ranking permite que se chegue a algumas conclusões, especialmente sobre estratégias que não têm dado certo no enfrentamento das desigualdades. Seus resultados reforçam, por exemplo, a necessidade de fortalecimento do pacto federativo e da aprovação de uma reforma tributária que dê fim à fratricida guerra fiscal. A atuação paroquial do Congresso tampouco tem contribuído. Nos últimos anos, as emendas de relator, base do orçamento secreto, privilegiaram justamente os Estados que estão hoje nas piores posições do ranking. Resgatar o papel da União na articulação de políticas públicas com Estados e municípios é essencial para garantir o enfrentamento efetivo de gargalos históricos.

Nem tudo, porém, são notícias ruins. Roraima saiu da 27.ª posição para a 22.ª em apenas um ano, com expressivo avanço em políticas para emissões de gases e destinação de lixo, rede de fibra óptica, custo da energia e dos combustíveis. O Rio de Janeiro, por sua vez, saiu da 17.ª posição para a 11.ª, um desempenho puxado por melhorias relativas em indicadores como eficiência do Judiciário, oferta de serviços públicos digitais, equilíbrio de gênero no emprego público estadual e redução de presos sem condenação. Nem Roraima nem Rio de Janeiro estão no terço superior do ranking, mas isso não é motivo para desprezar seus resultados. Eles provam não haver terra arrasada, mas muitas oportunidades de melhoria rápida quando os Estados trabalham na busca de soluções e do desenvolvimento de suas potencialidades. 

O Estado de São Paulo

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