terça-feira, janeiro 25, 2022

Patrulhamento dos próprios jornalistas sobre discussão do racismo não pode ser tolerado

Publicado em 25 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Jornalistas da Folha de S. Paulo se rebelam contra direção do jornal.  "Racismo é fato concreto", fazem advertência aos chefes - Brasil 247

Jornalistas da Folha criticam a discussão sobre o racismo

Eduardo Affonso
O Globo

Existiu, até os anos 60, o Index Librorum Prohibitorum, lista das publicações que iam contra os preceitos da Igreja Católica — motivo por que eram “canceladas” pela Inquisição e seus sucessores no departamento de censura religiosa. Heresia, concupiscência ou o que quer que desafinasse o coro canônico estava condenado à fogueira ou, no melhor dos casos, a ser banido das estantes. Eventualmente, o autor era queimado com a obra, como no caso do Giordano Bruno.

Censura e intolerância nunca foram monopólio de uma religião ou de Estados totalitários. Mesmo nas democracias, arrumam um jeito de dar as caras. E onde menos se esperaria: nas universidades (centros de produção e difusão do conhecimento) e na imprensa (que vive não só da notícia, mas também da informação crítica, da manifestação do pensamento).

IMPRENSA LIVRE? – Pluralismo e liberdade de expressão devem ser os princípios de qualquer publicação que pretenda ter alguma relevância. Não se espera de um folheto de sindicato que abra espaço à opinião do patrão, ou que o porta-voz oficial de um partido (principalmente se for do tipo partido único) permita o contraditório. Mas de que adianta uma imprensa livre se ela mesma se impuser tabus, lançar anátemas?

A tese de que discutir o racismo seja relativizá-lo é a desculpa de quem deseja que o tema seja interditado ao debate. Saem de cena os mandamentos do sagrado e entram os da ideologia. Divergência vira blasfêmia. O assunto passa a ser tão somente uma relação entre opressores e oprimidos — a velha luta de classes reloaded.

Usar a noção de raça para discriminar alguém — mesmo que de forma positiva — tem como efeito reforçá-la, e não o contrário. Acreditar que raças existem é a base de todo o racismo. E não é outra coisa o que fazem os devotos do identitarismo. Demétrio Magnoli já discorreu brilhantemente sobre o tema, em “Uma gota de sangue: história do pensamento racial”, e Antonio Risério, em suas obras mais recentes.

É PROIBIDO DISCORDAR – Porém, de algum tempo para cá, tudo o que diga respeito a essa questão (“racismo estrutural”, “racismo reverso”, “lugar de fala”) tomou ares de virgindade perpétua de Maria, estendendo a infalibilidade papal aos militantes da causa identitária.

Discutir, debater, investigar ganharam, na novilíngua dos progressistas, o sentido de normalizar. Quem discorda ou questiona é automaticamente rebaixado a racista, supremacista — assim como os críticos da linguagem neutra são homofóbicos, transfóbicos, de masculinidade frágil, os que não se alinham à esquerda são isentões ou fascistas etc.

Ideias devem ser refutadas, não caladas. Ou o que se terá é autoritarismo sob a pele de justo combate às injustiças. Imprensa livre é a que estimula o exercício da liberdade de expressão e abre espaço à pluralidade de pensamento. Quando um jornalista se transforma na D. Solange de si mesmo e dos colegas, e propõe um novo Index, ficamos todos mais burros.

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