terça-feira, janeiro 25, 2022

Má-fé na política, política da má-fé.

 




A maior parte das ideias políticas opostas poderia ser defendida com idêntica plausibilidade ou implausibilidade, de forma igualmente convincente ou inconvincente, tanto para o bem como para o mal. 

Por Antonio Rocha Martins 

Negação dos factos, mentira, duplicidade, mostrando ser o que não se é e não ser o que se é, tipificam nuclearmente condutas de má-fé.

É um conceito filosófico e um tema amplamente debatido. As páginas mais pertinentes talvez sejam as que lhe são dedicadas por Jean-Paul Sartre, um dos grandes nomes do pensamento existencialista.

O projeto consiste na racionalidade da consciência. Tudo se passa na mediação entre dois polos, a «transcendência» (realidade exterior à consciência) e a «facticidade» (contingência dos acontecimentos), numa recíproca, simultânea, unitária e perpétua remissão.

A má-fé configura o autoengano («automascaramento»). Aplica-se às situações de vida nas quais desviamos o olhar de factos, opções ou escolhas que, de algum modo, sabemos estarem presentes. Negamos a realidade e mentimos a nós mesmos, dissimulando-nos e encobrindo-nos a verdade. «Representamos», para os outros e para nós mesmos. Equivale a mentir, mas difere da mentira pura e simples.

A mentira aparece-nos como uma relação diádica. Há sempre dois elementos: o enganador e o enganado. Mentir supõe que quem engana conheça a verdade que esconde. Não se mente sobre o que se ignora. Nem quando se difunde um erro de que se é vítima ou quando nos equivocamos.

Além disso, a disposição íntima do mentiroso é sempre positiva. Ele tende até a regular cuidadosamente as suas atitudes. Nem dissimula a intenção de pretender enganar, nem a intenção fingida de dizer a verdade: a atitude deliberada de enganar respeita apenas ao personagem que ele representa perante os outros (o «interlocutor»).

Não há dificuldade em conceber que o mentiroso «realiza com toda a lucidez o projeto da mentira», tendo «inteira compreensão da mentira e da verdade que altera».

Sem dúvida que o mentiroso poderá ser vítima da sua própria mentira, acabando mesmo por ser meio persuadido por ela. Mas, ainda assim, conservará sempre a lucidez de que mente e da verdade que tenta esconder. Não mentimos senão conhecendo a verdade da mentira.

No caso da má-fé, o exercício é mais subtil. «Autenticidade» é a antítese. Estaremos de má-fé sempre que invocarmos expedientes externos como forma de dirimir responsabilidades pessoais. Disfarçamos – para nós mesmos – algo que é desagradável. Recusamo-nos a assumir exigências e responsabilidades, através de pretextos plausíveis. E iludimo-nos a nós próprios sobre as nossas verdadeiras intenções e motivações.

É como se fosse a mentira, mas numa relação monádica. Significa que não existe dualidade entre enganador e enganado. Ambos são uma e a mesma pessoa: o indivíduo que mente (a si mesmo).

Desenvolvido o disfarce, o maior problema não está em distinguir entre o que se é e o que se não é. Se assim fosse, seria fácil eliminar a má-fé. O mais grave é que, «fingindo ser alguém que não somos», deixamos de ser quem somos e tornamo-nos alguém que é «no modo de ser o que não é». E mentindo a nós mesmos, mentimos forçosamente aos outros.

Dois exemplos concretos, apresentados por Sartre, atestam o processo. Um «empregado de café» e a história de uma «mulher que aceita visitar um homem que a deseja». O primeiro tende a ver-se como o público o vê. Faz o que se supõe dever fazer, replicando estereótipos (rotinas, maneirismos…). Reproduz comportamentos de forma previsível e indiferenciada do papel que assume representar. Só que, cedendo comportar-se segundo o «olhar» dos clientes («plateia»), ele não só desaparece nessa persona como nega que existam outras escolhas e interpretações – iludindo-se a si mesmo. Representa tão «exageradamente» que parece acreditar na mentira que conta a si próprio.

No exemplo da mulher, imagine-se que ela sabe perfeitamente as intenções do homem que aceita visitar. Também sabe que mais cedo ou mais tarde terá de tomar uma decisão – que vai retardando o mais possível. Assume uma posição ambivalente: toma ao pé da letra as afirmações do anfitrião quando ele lhe diz que a admira, e entende essa admiração em sentido meramente espiritual. A certa altura, o anfitrião pega-lhe na mão; ela finge não reparar e nega a intimidade e as implicações sexualmente implícitas no ato. Ao «não consentir, nem resistir», a mulher age de má-fé: desarmou as ações do companheiro como «se não fosse o seu próprio corpo», como se ela fosse simplesmente um objeto passivo. Apesar de desfrutar do desejo, recusa aceitar que se comprometera com um padrão de conduta. Dissimula para si mesma o carácter inicial do encontro (remetendo o acontecimento para a esfera exclusivamente “intelectual”).

Tendemos a acreditar nas nossas próprias desculpas. Inventamo-las para fugir «daquilo que somos». Uma fuga impossível. Motivo pelo qual «representamos». Tal como no grande teatro, é necessário que as personagens mantenham a simpatia da plateia. Mas a repetição verdadeira de um falso original gera sempre uma falsa autenticidade. Mentimos e ludibriamos, fixando-nos em certos motivos e reprimindo outros. Através da má-fé, tornamo-nos a nossa perfeita alteridade, excluímos o olhar e a resposta do outro, mostramos que nos identificamos apenas pela mediação das coisas que nos devolvem a nossa (deficiente) identidade.

É possível que os nossos políticos não cheguem a compreender a natureza e as implicações da má-fé. No grande jogo da representação, a que todos assistimos, transparece uma espécie de debate trágico continuado. A maior parte das ideias políticas opostas poderia ser defendida com idêntica plausibilidade ou implausibilidade, de forma igualmente convincente ou inconvincente, tanto para o bem como para o mal.

Lembrando o que René Girard diz do desejo, a rivalidade mimética torna os rivais cada vez mais «indiferenciados e idênticos». Uma simetria replicante de quem crê nas coisas unicamente por causa de si próprio e do seu próprio interesse – o genuíno princípio dos dogmáticos. A partir daqui, evidentemente, é impossível distinguir entre o «verdadeiro» e o «falso».

Ter-nos-emos esquecido da noção de Bem Comum. Claro que o poder tem uma função de serviço essencial nas nossas sociedades. Mas se construído com base na ignorância, na mentira e na má-fé será sempre e, por definição, potencialmente explosivo, autodestrutivo, causador de graves danos.

A má-fé cultiva a desagregação da integridade dos indivíduos, dos grupos, das sociedades. Eis o nosso drama. A política da má-fé implantou a má-fé na política.

Observador (PT)

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