Carlos Chagas
Com todo o respeito aos patriarcas que sobraram no PMDB, fiéis à legenda responsável pela queda da ditadura militar e à memória de gente como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas e outros, a verdade é que o partido foi atrás da vaca. Para o brejo, onde se encontra submergindo cada vez mais.
A última do PMDB, ou do grupo que o controla, é de não ter candidato à presidência da República no primeiro turno, posicionando-se, no segundo, em favor do provável vencedor. Quer dizer: arriscar-se, de jeito nenhum. Manter-se sempre à sombra do poder, qualquer que ele seja, beneficiando-se com ministérios, diretorias de estatais e altas funções, das ostensivas às encobertas.
Não dá para aceitar sem protestar uma estratégia dessas. Primeiro porque como ainda o maior partido nacional, o PMDB tinha obrigação de apresentar candidato próprio. Depois, porque contentar-se com as migalhas do banquete antes servido por Fernando Henrique, e hoje pelo Lula, significa carimbar passaporte para o desaparecimento. Pouco representa para o partido dispor do maior número de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais e senadores. Apenas bilhetes para usufruir das benesses governamentais. O preço a pagar tem sido o envelhecimento, a perda de identidade e, acima de tudo, a subserviência. Tucanos e companheiros olham de cima para baixo essa federação de divergências transformada num aglomerado insosso, informe e inodoro.
Paranóia
A paranóia ecológica e ambientalista internacional não tem limites. Surgiu na Europa uma nova acusação contra o Brasil, que além de queimar florestas, poluir rios, plantar cana e arrombar a camada de ozônio, transforma-se agora no maior produtor de gás metano, ameaça fundamental ao aquecimento do planeta.
Sabem porque essa investida? Porque as vacas andam fazendo cocô em demasia, responsável pela formação e pela invasão de gás metano na atmosfera. Lá da Holanda surge a denúncia de que possuímos o maior rebanho bovino do mundo, o que é verdade. Mas que, por conta disso, somos os maiores produtores de gás metano, ou melhor, as vacas é que são.
Fazer o quê? Condenar as vacas? Submeter o rebanho a um regime rígido, para que produza menos bosta? Limitar a natalidade no pasto? Ou vender menos carne no mercado internacional, favorecendo a concorrência?
Certos absurdos costumam pegar, e esse é um deles, se o ministro Reinhold Stephanes não reagir de imediato.
O mesmo Senado de sempre
Raras vezes se viu, no Senado, amontoado tão cheio de impropérios, agressões e adjetivos virulentos como no discurso de um fim de tarde, esta semana, do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Extrapolou e abusou o competente jurista, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, nas críticas ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
O chanceler foi chamado de “anedota de proporções planetárias, mentiroso, megalonanico, trapalhão, pitbull” e dezenas de outros rótulos, tudo por conta do apoio do Brasil a um egípcio derrotado dias atrás para diretor-geral da Unesco. Convenhamos, por mais que o Itamaraty tenha errado ao rejeitar a candidatura de um brasileiro, fica difícil incluir a catilinária do senador oposicionista no rol dos pronunciamentos que honram o Congresso.
Foi tão chocante o impacto de suas palavras que José Sarney, na presidência dos trabalhos, encerrou abruptamente a sessão, negando até mesmo apartes a Eduardo Suplicy e Marina Silva, que pretendiam defender o ministro agredido.
Mais uma do Marco Aurélio
Corre em Brasília que toda a lambança decorrente do asilo a Manoel Zelaya em nossa embaixada em Honduras deveu-se à inspiração do chanceler do B, Marco Aurélio Garcia. A ele cabe definir a política diante da América Latina, sob irritação do Itamaraty. Oferecer nossa representação em Tegucigalpa para abrigar o presidente deposto e seus adeptos significa, antes de mais nada, ingerência nos negócios internos de um país soberano, por mais execrável que tenha sido a troca do poder em Honduras. Sozinho, o presidente deposto teria o direito de lá refugiar-se, mas levando com ele quase todo o antigo ministério e promovendo reuniões do ex-governo “no exílio” tornou-se algo inadmissível. O pior na história é que o presidente Lula continua apoiando o gesto inusitado.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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