quinta-feira, dezembro 18, 2008

Carta da Bahia pede o fim do embargo a Cuba

Tribuna da Bahia Notícias-----------------------
Enquanto na Cúpula do Mercosul o discurso predominante foi sobre a crise econômica mundial, na Cúpula da América Latina e Caribe sobre Integração e Desenvolvimento (Calc), iniciada desde anteontem e encerrada ontem, o tema continuou sendo lembrado, mas houve a incorporação de outros itens nos discursos dos chefes de Estado, com ênfase para as questões regionais, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, o fortalecimento da América do Sul e do Caribe e a soberania dos seus países em relação à potência do Norte. A solidariedade a Cuba e o discurso contrário à subserviência dos países do Sul em relação aos EUA foram colocados por quase todos os representantes, principalmente por Hugo Chávez, Evo Morales e Cristina Kirchner. Na Carta da Bahia, divulgada no final do encontro, os presidentes pediram o fim do embargo econômico imposto pelos EUA à ilha de Fidel Castro. A grande novidade da Calc foi a participação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que não havia tomado parte na Cúpula do Mercosul. Normalmente prolixo, o presidente venezuelano surpreendeu a todos ao fazer um discurso rápido, atendendo a um apelo do presidente Lula. Chávez cumpriu à risca. “A grande mudança na América Latina é o Chávez ter encurtado o discurso dele”, brincou Lula. O venezuelano voltou a cutucar os Estados Unidos sobre a “sapatada” que o presidente George Bush levou no último domingo de um jornalista iraquiano, associando o fato à queda do poder americano sobre a região e o mundo. Nesse contexto, Chávez defendeu medidas para reforçar a economia e a soberania dos países da América Latina e do Caribe em relação aos Estados Unidos e também condenou o embargo que este país exerce sobre Cuba. Chávez, que também trava uma luta aguerrida contra os EUA, justificou as suas posições, argumentando que “não dá para vir para cá somente para fazer a foto oficial”. Atraindo a atenção de toda a mesa da Cúpula, ele se declarou “um soldado bolivariano que semeia os sonhos de Simon Bolívar” e defendeu a adoção do socialismo na região. Como anfitrião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o comandante da Cúpula. O brasileiro manteve uma relação amistosa com Chávez, sempre brincando com as polêmicas do venezuelano. “Segura o Chávez aí, Raúl”, disse Lula, ao passar a palavra e cobrar disciplina com o tempo a ser usado. Já no primeiro dia de abertura da Calc, falaram os presidentes Fernando Lugo (Paraguai) e Felipe Calderón (México). Como nas outras Cúpulas, o colombiano Álvaro Uribe continuou representado pelo seu vice-presidente Francisco Santos e o peruano Alan García foi representado pelo vice-presidente Luis A. Giampietri Rojas. A Calc reuniu pela primeira vez os chefes de Estado da América Latina e Caribe sem a presença de países europeus, asiáticos e os norte-americanos (Estados Unidos e Canadá). A mesa foi composta por Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Cristina Kirchner (Argentina), Michelle Bachelet (Chile), Rafael Correa (Equador), Felipe Calderón (México), Fernando Lugo (Paraguai), Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Raúl Castro (Cuba), Daniel Ortega (Nicarágua), Tabaré Vásquez Rosas (Uruguai), Francisco Santos (Colômbia) Luis A. Giampietri Rojas (Peru, entre outros. (Por Evandro Matos)
Morales pede prazo aos Estados Unidos
O presidente da Bolívia, Evo Morales, propôs ontem que os países envolvidos na Cúpula da América Latina e do Caribe dêem um prazo para que o Estados Unidos suspendam o embargo econômico a Cuba, vigente desde 1962, e se solidarizem com Havana. “Seria importante que os presidentes, e sei que muitos não vão gostar, dessem um prazo ao novo governo dos Estados Unidos para que suspenda o bloqueio econômico”, falou. Morales foi ao extremo ao pedir ações concretas: caso os Estados Unidos não retirem o embargo, “nós retiraremos nossos embaixadores (dos EUA)”, afirmou. “Uma medida radical para que essa solidariedade se expresse de verdade.” “Somente três países da ONU, os Estados Unidos e uma ilha não se somaram à decisão dos governos do mundo de suspender o bloqueio”, disse. Cuba foi oficializada como membro pleno do Grupo do Rio ontem durante cúpula na Costa do Sauípe (BA). Em discurso de agradecimento durante o encontro, o presidente Raúl Castro comemorou a adesão, uma vez que o país está fora dos organismos multilaterais liderados pelos EUA desde que foi expulso da Organização dos Estados Americanos (OEA), nos anos 60. Durante seu discurso, o presidente boliviano defendeu ainda a mudança dos sistemas econômicos e financeiros internacionais, o estímulo aos movimentos revolucionários e condenou o acúmulo de riquezas em poucas mãos, de empresários que só pensam “no dinheiro e não na nação”. “Só temos dois caminhos. Estes modelos econômicos devem mudar ou devem ser estimulados movimentos revolucionários em nosso países, nos quais se pense na igualdade, na solidariedade, na vida de cada ser humano”, acrescentou.
Humor dos presidentes esconde bastidor
Embora as imagens e os discursos da maioria dos chefes de Estado presentes durante as quatro grandes cúpulas realizadas entre os dias 16 e 17 em Costa do Sauípe sejam de contentamento, a realidade não mostra isso. Por traz de cada sorriso há o interesse mais forte de cada nação pelas divisas econômicas, isso sem contar a silenciosa disputa pelo espaço político tanto no aspecto regional quanto no internacional. Dessa forma, aparentemente não há nenhuma insatisfação entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o equatoriano Rafael Correa por conta do calote da dívida com o BNDES, tampouco entre o venezuelano Hugo Chávez e colombiano Álvaro Uribe, que enviou representante, por conta das querelas fronteiriças. Mas é sobre o prisma de nação mais forte ou do chefe de Estado mais influente do bloco latino-americano que se percebe uma surda disputa nos bastidores políticos, principalmente entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) e Hugo Chávez (Venezuela). Como maior economia e maior área territorial do continente, o líder brasileiro destaca-se sobre os seus pares, e reforça isso com a sua popularidade conquistada dentro do seu país com a adoção de importantes programas sociais, além de contar com uma facilidade de comunicação acima da média. Por outro lado, embora a Venezuela não possua a mesma área territorial do Brasil, o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o que possibilita ao seu presidente Hugo Chávez ter assento e ouvido em várias partes da América e do planeta Terra. Chávez pode até não ter a mesma popularidade de Lula no seu país, mas o seu estilo polêmico o torna uma das grandes referências da América Latina, principalmente depois que o cubano Fidel Castro saiu de cena. Dessa forma, o grande contraponto entre Lula e Chávez parece ser justamente os Estados Unidos, com o qual os dois países têm mantido relações diferentes nos últimos anos. Enquanto o brasileiro adota uma política diplomática de boas relações, embora os dois países tenham batido de frente em algumas questões comerciais, o venezuelano adota uma linha de confronto, representando a antítese e a resistência do discurso norte-americano em relação aos interesses dos países da América do Sul e do Caribe. Embora Lula e Chávez se considerem amigos e publicamente joguem confetes um no outro, diplomaticamente Brasil e Venezuela estão em posição de confronto. Não tanto pelos dois presidentes, mas pelas relações que perpassam pelas esferas de outros poderes. A não entrada da Venezuela ainda no Mercosul, por exemplo, que depende de votação do Senado brasileiro, é um fato que irrita a Chávez. Certamente em retaliação a esse fato, ele boicotou a 36ª Cúpula do Mercosul, talvez a principal das quatro grandes cúpulas realizadas em Costa do Sauípe. Mesmo estando na Bahia, o presidente venezuelano chegou a Sauípe exatamente quando esta cúpula estava próxima do fim.As diferenças entre os dois ficaram delineadas também durante as entrevistas concedidas ontem após o encerramento das cúpulas. Enquanto Chávez mostrou-se cético em relação a uma melhora na relação com os Estados Unidos com a posse de Barack Obama, o presidente Lula preferiu ser mais cauteloso. “Estou esperançoso de que mude”, declarou o brasileiro ante um Chávez desconfiado e irônico. Contudo, vaidades à parte, em pelo menos uma questão a maioria dos países que participaram das cúpulas em Costa do Sauípe têm em comum. Um pouco pela autonomia dos países latinos em relação aos Estados Unidos, mas de forma acentuada pelo fim do embargo da potência do Norte em relação a Cuba. Dentro desse contexto, a entrada de Cuba no Grupo do Rio já foi um forte sinal de integração da Ilha de Fidel ao resto da América do Sul e do Caribe, numa posição, se não de confronto e enfrentamento aos Estados Unidos, pelo menos de solidariedade a Cuba. (Por Evandro Matos)
Cubanos aprovados no Grupo
Com uma curta duração, na noite de terça-feira, 16, aconteceu a Cúpula Extraordinária do Grupo do Rio. Durante esta Cúpula, além da inclusão do nome de Cuba, os chefes de Estado participantes assinaram uma declaração que foi aprovada no final da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), uma resolução que pedia o fim do embargo americano a Cuba, que acontece desde 1962. O texto também culpa os países ricos pela crise global e pede que eles assumam os custos de sua solução. Com a decisão, os chefes de Estado demonstram que Cuba não está mais sozinho e cresce entre eles cada vez mais um discurso de antiamericanismo. Ao lado do venezuelano Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, foi responsável pelas críticas mais contundentes à política internacional dos Estados Unidos. Morales condenou com veemência o bloqueio econômico imposto pelos norte-americanos a Cuba e sugeriu a votação de uma proposta que exigia o fim do embargo ou a retirada dos embaixadores dos países da América do Sul e do Caribe dos EUA. “As grandes potências só pensam em dinheiro, não pensam no ser humano”, acusou Morales. Como os outros chefes de Estado, ele também se mostrou preocupado com a crise financeira mundial, colocando a alimentação do povo como prioridade. O boliviano defendeu ainda a criação de um Banco do Sul para suprir o papel de organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial na região. O discurso da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi bastante incisivo. Focada na crise mundial e nos problemas da América Latina, ela também não deixou de mencionar o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, e comemorou a entrada do país de Fidel Castro no Grupo do Rio. “A entrada de Cuba no Grupo do Rio nos parece um sonho muito importante”, disse. Cristina também criticou o Banco Mundial e o FMI, denunciando que “os países ricos não cumprem os acordos internacionais e nada lhes acontece, enquanto os países menores sofrem todo tipo de pressão”. A líder argentina defendeu ainda a integração de todos os países da América do Sul e do Caribe no processo de integração para poder enfrentar “o mundo”.(Por Evandro Matos)
Em Sauípe não dá "vontade de trabalhar"
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, preferiu se distanciar dos temas do Mercosul na sua vez de falar e questionar a escolha do balneário da Costa do Sauípe, na Bahia, como local das quatro reuniões de cúpula que aconteceram até a tarde de ontem. Cristina pediu desculpas pelo seu atraso à reunião, alegando ter chegado “muito tarde” na noite anterior ao complexo hoteleiro. Em seguida, elogiou as belezas do local. “Quando a gente vem aqui, não dá muita vontade de trabalhar”, comentou, provocando risos e concordância da maioria dos presentes. “Aqui não é o lugar mais apropriado para trabalhar”, emendou, sob aplausos. No fim do dia, foi o presidente Lula que provocou risos nos colegas. Preocupado com o atraso da reunião, já que alguns discursos, como o do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, estavam mais longos do que o previsto, Lula interrompeu a reunião e disse: “Temos um problemito”. Lula disse que ia encerrar a cerimônia com Hugo Chávez, que já estava impaciente. Prova disso “é que já tirou seu sapato”. Chávez ironizou o comentário de Lula, lembrando o episódio do presidente norte-americano, George W. Bush, que quase foi atingido por um par de calçado jogado por um jornalista iraquiano. “Calço 48 e se (o sapato) pegar, dá fratura”, brincou, provocando risos na platéia. (Por Evandro Matos)
Fonte: Tribuna da Bahia

Em destaque

Tarcísio se curva a Bolsonaro e afirma: “Meu interesse é ficar em São Paulo”

Publicado em 29 de janeiro de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Tarcísio atende a Jair Bolsonaro e vai disputar s...

Mais visitadas