domingo, junho 22, 2025

STF julga Bolsonaro entre ecos da Lava Jato e freio a ameaças antidemocráticas

 Foto: Antonio Augusto/Arquivo/Ascom/STF

O ex-presidente Jair Bolsonaro22 de junho de 2025 | 07:09

STF julga Bolsonaro entre ecos da Lava Jato e freio a ameaças antidemocráticas

brasil

Concentração de poder em um juiz, imparcialidade posta em dúvida, uso de prisões preventivas e delação premiada sob questionamentos.

Apesar das diferenças entre um caso e o outro, esses são alguns dos paralelos que fazem com que ecoe a já finada operação Lava Jato em parte das críticas aos inquéritos que desaguaram na ação da trama golpista e são conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Especialistas argumentam que uma parcela da atuação heterodoxa da corte precisa ser analisada a partir da posição do STF como principal anteparo às investidas antidemocráticas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em meio à inação de outras instituições de controle ao longo de seu governo como da PGR (Procuradoria-Geral da República).

Ainda assim, há medidas que são vistas como erros e excessos pelo tribunal.

Com isso, ainda que de um lado a realização do julgamento de um ex-presidente junto a militares de alta patente por uma tentativa de golpe indique uma corte em certa medida fortalecida, de outro alguns dos métodos utilizados no decorrer das investigações colocam no horizonte a pergunta quanto ao risco de também eventuais condenações envolvendo a trama golpista virem a desmoronar mais adiante.

“Existe, sim, um paralelo relevante entre a Lava Jato e os processos do golpe agora. Ambos desvelaram crimes gravíssimos, juntaram provas, gravações, documentos, falas, reuniões ilícitas, gravemente ilícitas. Mas ambos os processos padecem de vícios. E de vícios graves”, diz Miguel Gualano de Godoy, professor de direito constitucional da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Para ele, apesar de o Supremo ter ajudado a proteger a democracia, há uma série de problemas na forma como ele fez isso.

Ele vê como problemática, por exemplo, a concentração de relatorias em Alexandre de Moraes e a decisão de não considerá-lo impedido para relatar o caso da trama golpista depois de as investigações o apontarem como vítima de um plano de assassinato.

Também para Rubens Glezer, professor da FGV Direito SP, é possível estabelecer uma aproximação entre a atuação da corte nos diferentes inquéritos conduzidos por Moraes e a Lava Jato.

“É inegável que você vai ter vícios processuais no inquérito das fake news, no inquérito das milícias digitais, na condução [desses casos], na falta de transparência que o tribunal tem”, diz ele.

Glezer vê como um erro que a corte não ceda minimamente a pleitos das defesas, como o de levar o julgamento ao plenário ao invés da Primeira Turma, assim como entende que o STF deveria tomar medidas para mitigar as acusações de parcialidade.

No caso da questão de impedimento, no entanto, Glezer pondera que há um risco em se validar o entendimento de que ameaças à corte e aos ministros possam dar base para afastá-los dos processos. “É muito sensível esse caso porque o presidente atacou o tribunal e atacou o tribunal como um todo”, diz.

Desde que se tornou relator do inquérito das fake news (por determinação de Dias Toffoli) e dos atos antidemocráticos de 2020 (por sorteio), Moraes acumulou uma série de outras relatorias sem que houvesse sorteio entre os ministros, mas por “prevenção”, quando se entende que há algum tipo de relação entre os processos.

Especialistas, no entanto, têm apontado que a prática vem sendo utilizada de modo extremamente amplo pelo Supremo. Além disso, muitas dessas ramificações não foram abertas a pedido do Ministério Público.

Entre os aspectos explorados pela defesa de Bolsonaro está a atuação proativa do ministro no decorrer das investigações.

Ela alega ainda que teria havido pesca probatória, falta de acompanhamento da PGR em parte da investigação, além de centrar fogo especialmente na delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Até aqui, no entanto, esses questionamentos vêm sendo todos negados pela corte.

Preso em maio de 2023 no âmbito das investigações sobre falsificação de cartão de vacina, Mauro Cid seguiu detido até setembro daquele ano, tendo sido solto depois de firmar um acordo de delação premiada –sucessão de fatos que à época suscitou comparações com o ex-juiz Sergio Moro.

Arquivos encontrados nos dispositivos de Cid, como um plano de golpe, conversas com outros militares sobre as medidas em estudo no final de 2022, além de seus depoimentos são algumas das provas que integram a denúncia.

Parte das informações que municiaram a investigação sobre as vacinas, por sua vez, tiveram origem em uma quebra de sigilo ordenada por Moraes em meio a uma outra investigação contra Bolsonaro iniciada em 2021.

Ao mesmo tempo em que questiona uma série de atos processuais de Moraes que culminaram na prisão de Cid, a defesa de Bolsonaro contesta ainda a validade de sua delação. Argumentam que não haveria voluntariedade por parte do tenente-coronel e que ele teria descumprido o acordo. Também questiona a participação de Moraes na colheita de provas.

Godoy (UFPR) avalia que hoje não existe um cenário de anulação na corte, porque o Supremo tem refutado tais objeções, ainda que, segundo ele, com argumentos muito frágeis. “Mas nada garante que, com a mudança da composição do Supremo, esses processos não possam eventualmente ser anulados lá na frente.”

Segundo Glezer, a conjuntura política importará mais que a jurídica nesse quesito. Ele aponta que se, de um certo ângulo, o tribunal está mais forte do que nunca ao julgar o ex-presidente e militares, em paralelo um outro processo pode estar acontecendo: o de corrosão de sua autoridade.

“Se em algum momento a gente nunca pensou que uma ordem do STF pudesse ser desobedecida, o fato é que existe uma certa apreensão, você tem que ficar checando. O quanto que ele consegue esticar a corda agora?”

Para ele há um paradoxo na medida em que, ao mesmo tempo em que a corte age para coibir os ataques às instituições, ela dá também ainda mais munição para as investidas contra o próprio tribunal e para que sua atuação seja deslegitimada.

Fabiana Luci, professora da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) que analisou a forma como a atuação do Supremo foi noticiada pela imprensa durante o governo Bolsonaro até o 8 de Janeiro, considera que o saldo para a imagem da corte teria sido negativo, com potencial impacto em sua legitimidade.

Segundo ela, enquanto as decisões envolvendo a gestão da pandemia teriam sido acompanhadas por uma visão mais positiva da atuação da corte, no casos ligados a atos antidemocráticos e de relação entre Poderes, a abordagem teria sido mais crítica, no sentido de que a corte estaria concentrando poderes em excesso.

Concentração de relatorias com Moraes
Ao longo dos últimos anos a relatoria de uma série de investigações que miram o bolsonarismo foram sendo atribuídas a Moraes sem que houvesse sorteio entre demais ministros da corte.
Nesses casos, a relatoria foi definida por “prevenção”, o que no jargão jurídico ocorre, por exemplo, quando um juiz já tiver antecedido aos outros na prática de algum ato relacionado ao processo ou por conexão probatória.

Inquérito das milícias digitais (Inq. 4.874)
Investigação em cujo guarda-chuva foram incluídos desde a investigação do cartão de vacina, das joias sauditas e da trama golpista, foi instaurada em 2021 por Moraes em um drible à PGR, que tinha pedido o arquivamento do inquérito referente aos atos antidemocráticos de abril de 2020. O ministro arquivou a investigação como solicitado pelo órgão, mas abriu em sequência a nova investigação. E usou o caso arquivado, do qual tinha se tornado relator por sorteio, para justificar a relatoria do novo.

Vazamento de dados sigilosos da PF (Inq. 4.878)
Com base no inquérito das fake news, do qual se tornou relator por determinação do então presidente do STF, Dias Toffoli, Moraes se tornou relator por prevenção do inquérito aberto de ofício, em 2021, após pedido do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A nova investigação mirava o ex-presidente por suposto vazamento de dados sigilosos de uma investigação sobre um ataque hacker contra o TSE em 2018. A partir de dados obtidos em quebras de sigilo de Mauro Cid nesse processo foram obtidos elementos que se desdobraram em outras investigações como a d o cartão de vacina

Cartões de vacina (Petição 10.405)
Já a investigação envolvendo a suspeita sobre os cartões de vacinação teve a relatoria distribuída a Moraes usando como fundamento o inquérito das milícias digitais

Trama golpista sob gestão Bolsonaro (Petição 12.100)
Já a relatoria da petição da trama golpista, em que Bolsonaro foi denunciado, teve a prevenção justificada pela investigação sobre suposta falsificação de cartões de vacina –foi nessa apuração que Mauro Cid foi preso

Renata Galf/Folhapress

Centrão sonha em apoiar Tarcísio e passa a fazer oposição a Lula


Com Ciro e Rueda, União e Progressistas oficializam federação nesta terça | CNN Brasil

Rueda e Ciro unem seus partidos para comandar a sucessão

Vera Rosa
Estadão

Partidos de centro-direita que ocupam ministérios e outros cargos de destaque no primeiro escalão articulam uma estratégia para deixar o governo Lula “sangrando” até as eleições.

Empenhados em construir uma candidatura única ao Palácio do Planalto, dirigentes do Centrão flertam com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e se movimentam para montar um bloco de atuação no Congresso que sinalize para a disputa de 2026.

PP E UNIÃO BRASIL – A iniciativa é liderada pelos presidentes do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e do União Brasil, Antônio Rueda. No fim de abril, os dois partidos se uniram numa federação e, com o casamento, formaram uma bancada de 109 deputados – a maior da Câmara – e 14 senadores.

Nesta segunda-feira, 16, mesmo dia em que o presidente Lula sofreu uma derrota na Câmara ao ver aprovado o requerimento de urgência contra decreto que aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), Ciro procurou os presidentes do Republicanos, Marcos Pereira, e do MDB, Baleia Rossi, para uma conversa reservada.

Ex-ministro da Casa Civil na gestão de Jair Bolsonaro (PL), Ciro está costurando um acordo para que partidos da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) combinem os próximos passos como se estivessem na oposição.

DECRETO DO IOF – Na prática, o sinal de insatisfação dado pela Câmara ao decidir acelerar a votação destinada a barrar o decreto de Lula que aumenta alíquotas do IOF não foi apenas por causa do atraso na liberação das emendas parlamentares.

O movimento político capitaneado pelo Centrão é para mostrar ao Planalto que o processo de divórcio litigioso está em curso e deve ser assinado ainda no primeiro semestre do ano que vem.

É a sucessão presidencial, irrefreável, que já está nas ruas.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – É o começo do fim. Com esse movimento, a direita isola Lula e Bolsonaro, ao mesmo tempo, para enfraquecer a polarização e compor um grupo parlamentar altamente majoritário e capaz de enfrentar o Supremo, que está levando pancada aqui e lá fora, com participação direta de Donald Trump, e vai ter de refluir dessa posição de hegemonia que julga ter. (C.N.)             


Um mundo com Trump tem mais guerras e potências desembestadas


CRÉDITO: DAVE WHAMOND_CAGLE CARTOONS

Charge do Dave Whamond (Arquivo Google)

Vinicius Torres Freire
Folha

Guerra no Oriente Médio suscita discussões estereotipadas a respeito do preço do petróleo, além de especulações sobre a “escalada do conflito”, hipótese debatida, no entanto, sob a perspectiva do impacto econômico. É fácil perceber que uma carestia grande e persistente de combustíveis causa dano econômico imediato.

É mais difícil discutir esta situação mundial em que há muito menos meios de contenção do risco de novas guerras muito perigosas — e logo. Torna-se frequente a menção ao uso de armamento nuclear, como voltou a fazer a Rússia, a respeito das consequências de um ataque americano contra o Irã. Trump agrava um estado de coisas degradado faz década e meia.

ISOLACIONISMOS – Pelo menos no núcleo ideológico ou na propaganda, o trumpismo e o MAGA seriam “isolacionistas”. Isto é, a favor do corte do financiamento militar de aliados, enxugamento de bases militares no exterior e indiferença a guerras que não envolvam o interesse direto dos EUA.

O “isolacionismo”, porém, não é empecilho para novos tipos de intervenções americanas (a anexação da Groenlândia apenas parece piada).

Isto posto, em menos de uma semana de guerra, Trump passou a insinuar que poderia atacar o Irã e matar o dito “líder supremo”, Ali Khamenei. Nesta quinta, disse que pensaria melhor no assunto.

HÁ CONTROVÉRSIAS – Boa parte do trumpismo continua a se opor a um ataque. Segundo pesquisa YouGov/Economist, 60% dos americanos e 53% dos republicanos também.

Um conflito descontrolado pode colocar (mais) areia na economia americana e na popularidade presidencial. São esses os riscos ponderados por Trump? De fora, vemos apenas o “reality show” a serviço do projeto de tirania e nenhuma estratégia de estabilização política do mundo —ao contrário.

O que sabemos faz mais tempo é que os limites do jogo de poder internacional se esfarelaram. Trump espalha essa farofa de maneira mais assustadora.

ARMAS ECONÔMICAS – O conflito sino-americano intensificou o uso de armas econômicas na política: nacionalismo e política industrial nos EUA, restrições a exportações e a investimentos na China e outras sanções, o que não é novo, mas foi escancarado sob Trump.

A China ataca e contra-ataca nos mesmos termos. Mais: nos comunicados em que relata negociações comerciais com os EUA, manda que não se metam em Taiwan.

A epidemia havia suscitado reações autárquicas (segurança de abastecimento e produção de bens ditos essenciais ou estratégicos). O ataque da Rússia contra Ucrânia reforçou a preocupação com segurança energética, mas não só (vide o medo brasileiro com o risco de ficar sem fertilizantes).

EUROPA SE REARMA – A Europa começa a se rearmar. O confisco das reservas russas pelo dito Ocidente (entre outras sanções) colocou mais barbas de molho. Para dar um exemplo rápido, a China passou a diminuir as reservas que mantém nos EUA. Trump arruinou o sistema de regulação comercial mundial, que já vinha sendo detonado desde Barack Obama. Ameaça países recalcitrantes de boicotes econômicos e militares.

O salve-se quem puder na economia tem sido radicalizado (nunca deixou de ser assim). A ideia de ter mais autonomia militar ou de se juntar a um bloco bem armado é assunto forte outra vez. O rearmamento agrava problemas fiscais e, pois, prejudica crescimento e políticas sociais.

Dizer que as instituições multilaterais foram à breca é pouco. Não há concerto de países poderosos, acordo para colocar ordem no mundo, nem segundo os interesses deles.


EUA entraram na guerra e Trump manda bombardear instalações nucleares do Irã

Publicado em 21 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Avião em forma de asa voadora visto de frente durante pouso. Ele é cinza, o céu está cinzento e o solo, marrom

As superbombas foram lançadas pelos bombardeiros B-2

Igor Gielow
Folha

Os Estados Unidos entraram na guerra de Israel contra o Irã. Segundo o presidente Donald Trump, bombardeiros americanos atacaram instalações do programa nuclear da teocracia neste sábado (21) e estão a salvo.

“Nós completamos nosso muito bem-sucedido ataque. Um complemento inteiro de bombas foi lançado no alvo primário, Fordow”, escreveu o americano na rede Truth Social. “Nenhuma outra força armada do mundo poderia fazer isso. AGORA É TEMPO PARA A PAZ”, escreveu, com as usuais maiúsculas.

FORDOW JÁ ERA – Mais cedo, monitores haviam identificado a decolagem de dois a seis bombardeiros B-2 da base de Whiteman, no Missouri (EUA). A informação extra-oficial era de que eles iriam para Guam, base americana no Pacífico. Acompanhados por aviões-tanques, cumpriram a missão. Depois, Trump escreveu: “Fordow já era”.

O ataque vinha sendo especulado desde o meio da semana, quando Trump deixou o distanciamento da ação israelense, inédita em seu escopo em 46 anos de rusgas com a República Islâmica. O americano chegou a ameaçar de morte o líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei.

Na quinta (19), disse que iria tomar sua decisão em duas semanas. Há pressão doméstica, de sua base política, que é contrária ao engajamento dos EUA naquilo que Trump chamava de “guerras inúteis”. Mas o prazo, como se viu, era uma cortina de fumaça.

DIPLOMACIA FALHOU – O esforço de França, Alemanha e Reino Unido de se encontrar com a diplomacia iraniana, supostamente para abrir um canal com Trump, foi jogado fora. Neste sábado, o chanceler do Irã, Abbas Araghchi, disse que o envolvimento americano seria “perigoso para todos”.

Enquanto ele falava em Istambul, já estavam no ar bombardeios B-2 furtivos ao radar, que haviam levantado voo da base aérea de Whiteman, no Missouri (EUA). Esses aviões são os únicos capazes de lançar a superbomba GBU-57, citada por especialistas como única capaz de destruir os bunkers profundos do programa nuclear do Irã.1

Há ministros que querem discutir no Supremo a validade de delação de Cid


Quem é quem no gabinete de Alexandre de Moraes, relator do inquérito que  mira Bolsonaro no STF? - Estadão

Moraes prendeu ilegalmente Câmara, assessor de Bolsonaro

Cézar Feitoza
Folha

O STF (Supremo Tribunal Federal) só deve discutir a validade do acordo de colaboração premiada do tenente-coronel Mauro Cid com a Polícia Federal no julgamento dos réus da trama golpista, previsto para o segundo semestre.

A avaliação feita por dois ministros do tribunal ouvidos pela Folha é que a revelação de novas conversas de Cid com um dos advogados do processo, em que o tenente-coronel fala da investigação da Polícia Federal, deve ser analisada com cuidado.

PRESSIONADO – A leitura inicial feita pelos ministros é que o conteúdo das mensagens não é exatamente uma novidade. Em março de 2024, Cid foi preso após a revista Veja revelar gravações em que o militar se dizia pressionado pela PF a delatar o que não sabia e em que fazia críticas ao ministro Alexandre de Moraes.

Depois disso, em três oportunidades, Cid renovou ao STF seus votos de voluntariedade e negou ter sido pressionado. Esse cenário tornaria remota a possibilidade de anulação do testemunho de Cid como prova do processo, ainda que os benefícios do acordo pudessem ser revistos.

O interlocutor de Cid na troca de mensagens revelada nos últimos dias era o advogado Luiz Eduardo Kuntz, defensor do coronel da reserva Marcelo Câmara, ex-assessor de Jair Bolsonaro (PL) e também réu sob acusação de envolvimento na tentativa de golpe.

PRISÃO DE CÂMARA – Moraes determinou na quarta-feira (18) a prisão de Câmara sob a suspeita de tentativa de obstrução de investigação. Segundo o ministro, as mensagens mostram indícios de que Kuntz teria tentado conseguir detalhes dos depoimentos de Cid para interferir no trabalho da Polícia Federal.

“São gravíssimas as condutas noticiadas nos autos, indicando, neste momento, a possível tentativa de obstrução da investigação, por Marcelo Costa Câmara e por seu advogado Luiz Eduardo de Almeida Santos Kuntz, que transbordou ilicitamente das obrigações legais de advogado”, afirmou Moraes.

Kuntz disse ao STF ter sido procurado por Cid para conversar. Os dois mantêm relação de proximidade há anos por praticarem equitação.

TUDO REGISTRADO – O advogado registrou todas as conversas que manteve com Cid nos primeiros meses de 2024 em um documento chamado Auto de Investigação Defensiva Criminal —instrumento regulamentado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em 2018 para a obtenção de provas que defendam os interesses do cliente.

Ele afirmou à Folha que iniciou o procedimento em setembro de 2023 porque recebia informações fracionadas sobre a investigação. “Quando o Cid começa a falar comigo, eu aproveito que já estou com a investigação instaurada e registro todas as conversas”, disse.

“Esse auto não é muito comum, mas é totalmente previsto e não tem nada de irregular. É previsto, lícito, legítimo, tudo dentro do combinado”, afirmou Kuntz na quarta.

CAUSOU ESTRANHEZA – O advogado também destacou que considera “tudo muito atípico”. “Um delator procurar um advogado para desabafar. Eu até achei que podia ser alvo de uma ação controlada dele, com a Polícia Federal, para produzir provas contra o meu cliente”, completou.

Kuntz disse que estava com todo o material pronto desde março de 2024. Ele afirmou que esperou mais de um ano para divulgá-lo porque aguardava um momento oportuno.

“Eu quase juntei isso na [investigação do cartão de] vacina, porque tinha discrepância. Mas eu não queria queimar essa carta na fase de inquérito, não sabia se ia ter denúncia ou não. O momento de apresentar as provas é na acusação formal”, disse.

DENÚNCIA ANTERIOR – Integrantes do Supremo suspeitam que Kuntz também tenha sido o interlocutor de Cid nos áudios revelados pela revista Veja em março de 2024. As gravações mostram o militar, em desabafo, acusando a PF de pressioná-lo nos depoimentos e Moraes de já ter pronta a condenação pela trama golpista.

O teor do áudio é semelhante às mensagens trocadas entre Cid e Kuntz. A coincidência das datas também é mencionada por integrantes do STF.

A avaliação interna é que o Supremo já decidiu manter válida a delação de Cid após o militar se retratar sobre a voluntariedade de sua colaboração e negar ter sido pressionado pelos investigadores. É preciso analisar o contexto da conversa para confirmar a validade do acordo, segundo um ministro.

NA CORDA BAMBA – A situação jurídica de Cid é considerada delicada no STF. Uma demonstração foi dada quando Moraes decretou a prisão do militar na madrugada (à 1h) da última sexta-feira (13) e revogou a medida horas depois.

A suspeita levantada pela PGR (Procuradoria-Geral da República) era de que Cid planejava sua fuga do país, com o auxílio do ex-ministro Gilson Machado, para evitar o cumprimento de sua possível pena pela trama golpista.

Moraes recuou da prisão pouco depois das 4h. Os policiais federais só souberam da nova ordem quando já estavam na casa de Cid, no Setor Militar Urbano, em Brasília. O tenente-coronel foi alvo de buscas e prestou depoimento à PF.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Excelente matéria de Cézar Feitosa. Mostra que os métodos tão criticados da Lava Jato agora voltam a ser utilizados no cerco a Bolsonaro, mostrando que a Justiça brasileira “se adapta” a qualquer situação. Repita-se que a prisão de Marcelo Câmara foi totalmente ilegal. Como prender o réu por um ato de seu advogado? E a justificativa foi patética: “São gravíssimas as condutas noticiadas nos autos, indicando, neste momento, a possível tentativa de obstrução da investigação”. Ora, ninguém pode ser preso por “possível tentativa”. Moraes continua inventando leis que não existem. Fico envergonhado com essas “decisões judiciais”. E a OAB e o IAB, que representam os advogados, nada fazem. O Conselho Nacional de Justiça e o próprio Supremo ficam inertes, totalmente dominados por Moraes. É inacreditável e vexatória essa situação. (C.N.)

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