sexta-feira, junho 20, 2025

Michelle turbina PL Mulher para consolidar liderança e causa racha bolsonarista

 Foto: Divulgação/Arquivo

Michelle Bolsonaro20 de junho de 2025 | 06:36

Michelle turbina PL Mulher para consolidar liderança e causa racha bolsonarista

brasil

Michelle Bolsonaro parece estar em toda parte. O rosto da presidente do PL Mulher se confunde com o perfil do partido, dentro e fora das redes sociais.

No Encontro Nacional de Mandatárias, que aconteceu no início do mês num centro de convenções em Brasília, Michelle lançou o livro “Edificando a Nação: Sobre Bases e Valores”, em que apresentou suas diretrizes para a atuação feminina na vida pública.

No evento, mobilizou a sua base e reuniu mil participantes, entre senadoras, deputadas, prefeitas e vereadoras.

Há três anos, ela deixou de atuar no assistencialismo, como fez no governo do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e, pouco a pouco, entrou de vez na política institucional.

Cotada para ser candidata à Presidência no ano que vem, Michelle usa agora o PL Mulher para consolidar sua liderança, provocando um racha entre os bolsonaristas.

“A gente percebe que Michelle trouxe uma identidade para o partido”, diz a deputada estadual Dani Alonso, vice-presidente do PL Mulher no estado de São Paulo.

Alonso afirma que a ex-primeira-dama pensou um plano de reestruturação da sigla, apostando em uma série de estratégias: a promoção de eventos para angariar mais filiadas, o uso intensivo das redes sociais, a criação de diretórios municipais e a realização de viagens para nacionalizar a causa do partido, que é a criação de uma representação política para as mulheres conservadoras.

A ex-primeira-dama assumiu o cargo em março de 2023, indicada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e obteve um orçamento de R$ 860 mil por mês.

Em 2023 e 2024, o número de filiadas do PL Mulher cresceu 14%, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Atualmente, tem 995 mandatárias, como são chamadas as filiadas que ocupam algum cargo político.

Como primeira-dama, Michelle escolheu ajudar pessoas com deficiência. Na posse de Bolsonaro, usou a língua de sinais em seu pronunciamento e, nos quatro anos em que esteve no Planalto, desenvolveu programas para esse público, como o Projeto Sinais e o LibrasGov.

Em geral manteve-se discreta e avessa à imprensa. Evangélica, sempre é vista em cultos e tem conhecida proximidade com lideranças religiosas.

Na visão de Alonso, a popularidade de Michelle começou a se formar nas eleições presidenciais de 2022, quando a então primeira-dama passou a discursar nos palanques para tentar diminuir a rejeição de Bolsonaro entre as mulheres.

Já à frente do PL Mulher, transformou o batom em um símbolo da campanha pela anistia aos participantes do ataque golpista do 8 de Janeiro.

Com a inelegibilidade de Bolsonaro, seu nome passou a ser especulado para disputar as eleições presidenciais.

“É preciso reconhecer o carisma da Michelle. A primeira vez que ela falou, em ambiente político, eu estava lá, testemunhei, foi no Rio de Janeiro e foi uma surpresa para todos”, lembra a deputada federal Bia Kicis (PL).

“À medida que o trabalho aparece, o nome dela vai ficando mais forte. Ninguém tem dúvida que é um dos nomes mais fortes da política nacional.”

Com Bolsonaro inelegível, as projeções mais recentes do Datafolha mostram que, no primeiro turno, Michelle, somando 26% das intenções de voto, é o nome que mais se aproxima de Lula, líder nas pesquisas, com a marca de 37%. No segundo turno, a ex-primeira dama perderia para Lula por uma margem estreita —46% ante 42%.

Mesmo com o crescente apelo popular, Michelle está longe de ser unanimidade na base bolsonarista.

Em maio, o UOL publicou uma troca de mensagens em que o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, e Fabio Wajngarten, assessor do ex-presidente, criticavam Michelle.

Cid chegou a escrever, ironicamente, que preferiria Lula como candidato à Presidência. Wajngarten, por seu turno, afirmou não apoiar a mulher de Bolsonaro e disse que os filhos também não a aprovavam.

Em demonstração de força política, Michelle, descontente com as mensagens, mandou demitir Wajngarten do PL.

A ala feminina do partido tenta minimizar a divisão interna. “Nem Cristo agradou a todos”, diz Alonso.

“Michelle é um rosto novo na política. Agora as pessoas vão enxergar uma nova Michelle. Críticas todo mundo vai sofrer, mas a rejeição ao nome dela é baixa”, afirma Kicis. De todo modo, as restrições a Michelle dentro do partido continuam.

Existe a avaliação de que o aumento na popularidade da ex-primeira-dama corresponde a um projeto de poder de Valdemar. Segundo esse raciocínio, o presidente do PL viu em Michelle uma figura tutelável, passível de ser influenciada por ele.

Nesse sentido, há um incômodo com a quantidade de dinheiro investido na liderança feminina. Em contraste, dizem integrantes da sigla, Eduardo Bolsonaro (PL) não recebeu o mesmo investimento da diretoria do partido.

Michelle, em suma, é vista por esses integrantes como uma política inexperiente e uma pessoa de temperamento instável e difícil de lidar, porque não aceita ser contrariada, o que não é compatível com a realidade da vida pública.

Em um passado remoto, o próprio Bolsonaro pensava assim. Há dois anos, disse que sua mulher precisava de “algo mais” para ser candidata.

O tempo passou, Michelle tornou-se uma líder e a posição de Bolsonaro sobre Michelle muda a cada entrevista, mantendo o discurso oficial de que é candidato em 2026. Por vezes, sinaliza que sua mulher pode ocupar uma vaga no Senado. Valdemar, que sempre a elogiou, afirmou que a decisão final sobre a candidatura de Michelle será do ex-mandatário.

Para Paulo Henrique Cassimiro, professor de ciências políticas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Michelle desempenha um papel central no eleitorado de Bolsonaro, porque é a única pessoa de sua família que é de fato evangélica.

Nesse aspecto, Cassimiro destaca o poder de oratória dela, com intervenções típicas de lideranças religiosas, e a capacidade de organização institucional da direita, para garantir sua ascensão política. “A esquerda tem dificuldade de lidar com a mulher além do próprio empoderamento”, diz. “A direita fala para a mulher que é mãe, mas trabalha, cuida da casa, trata a mulher como fenômeno social complexo.”

Gustavo Zeitel/FolhapressPoliticaLivre

Bolsonaro no STF recorre a narrativa sobre ditadura militar para afastar acusação de golpe

 Foto: Ton Molina/STF/Arquivo

O ex-presidente Jair Bolsonaro20 de junho de 2025 | 06:44

Bolsonaro no STF recorre a narrativa sobre ditadura militar para afastar acusação de golpe

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) usou a ditadura militar de 1964 no interrogatório sobre a trama golpista no STF (Supremo Tribunal Federal) como argumento para negar a tentativa de golpe de 2022 que teria liderado para anular as eleições e impedir a posse de Lula (PT).

O político, que admite ter conversado com chefes militares sobre as possibilidades depois da derrota eleitoral, também mobilizou narrativa que relativiza o período e já foi defendida por ele em propostas legislativas de quando era deputado federal.

Em depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro falou da “questão de 64 que a esquerda chama de golpe até hoje” e ressaltou o apoio de setores da sociedade à ruptura democrática ocorrida na época.

Esse seria, para o ex-presidente, um argumento para falar sobre a impossibilidade de chamar sua movimentação junto a militares no fim de 2022 como uma tentativa de golpe.

A linha de raciocínio de Bolsonaro, já explicitada em entrevistas, é a de que não haveria “clima” ou suporte suficiente para um golpe atualmente, uma vez que tal ruptura precisaria do apoio da sociedade para acontecer e, em seguida, sustentar o “after day”, nas palavras do ex-presidente.

No processo da trama golpista, Bolsonaro é acusado pelos crimes de golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração do patrimônio tombado.

Se condenado, pode pegar mais de 40 anos de prisão e aumentar a sua inelegibilidade, que atualmente vai até 2030.

A fala de Bolsonaro sobre o golpe de 64 em seu interrogatório no STF recupera uma linha de raciocínio comum no meio militar que tenta justificar a instauração do regime: a noção de que as Forças Armadas teriam, na época, apenas atuado como “tradutoras” da vontade nacional e “salvadoras” da nação frente a uma possibilidade de “ditadura do proletariado” que poderia ocorrer no Brasil da época.

Essa ideia já foi defendida por ele em propostas legislativas do tempo em que atuou por 27 anos como deputado federal, como no projeto de lei 8246, de 2014, em que o parlamentar propôs a criação de uma CNV (Comissão Nacional da Verdade) alternativa para contar o “outro lado” de militares perpetradores de crimes durante a ditadura.

Com o objetivo de criar “a Comissão da Verdade (CV) no âmbito da Casa Civil da Presidência da República”, o projeto falava em “esclarecer fatos e graves violações de direitos humanos” não avaliados pela CNV, que apurou violações de direitos ocorridas de 1946 a 1988.

A comissão foi concluída em 2014, no governo de Dilma Rousseff (PT).

No documento, o então deputado propõe a apuração de episódios sobre organizações da esquerda armada, mobilizando uma retórica que tenta equiparar a violência de militantes à do Estado brasileiro e desconsidera investigações, condenações e mortes que atingiram o grupo.

Ele também pede a apuração do assassinato em 2002 de Celso Daniel, episódio frequentemente explorado por adversários do PT que tentam ligar o caso, sem provas, a Lula.

Na justificativa para apurar fatos já discutidos por estudiosos sobre o regime militar, Bolsonaro fala sobre a possibilidade da instauração na época de uma “ditadura do proletariado”, em narrativa negacionista que despreza os fatos da época, afirma Caroline Silveira Bauer, professora do departamento de história da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e integrante do Luppa (Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado).

Segundo a estudiosa, é consenso na historiografia que não havia no Brasil ações de guerrilha de esquerda naquele momento. Ela também chama de “equívoco” e “falseamento da realidade” a tentativa de Bolsonaro de tentar comparar os cenários de 1964 e 2022 para indicar que ele e aliados não teriam tentado um golpe.

Em proposta legislativa de 2013, Bolsonaro também repetiu a ideia de que as Forças Armadas instauraram o regime ditatorial para combater “grupos armados que tentavam implantar, à força, um sistema socialista comunista em nosso território”.

Dessa vez, em um requerimento para a instalação de uma “subcomissão especial para a defesa da história das Forças Armadas na formação do Estado brasileiro”.

Em outra proposta legislativa, de 2004, ele encaminhou um requerimento à Câmara pedindo uma sessão solene em homenagem aos “bravos e heróicos militares” mortos na Guerrilha do Araguaia (1972-74).

Na proposta, Bolsonaro afirma que a “grande maioria” dos idealizadores da guerrilha estavam vivos e “sem qualquer sequela”, minimizando a violência das Forças Armadas, narrativa negacionista também contestada pela historiografia e pelo relatório da CNV, aponta Bauer.

A Folha registrou na época a sessão solene, ocorrida em junho de 2005. Ao lado do filho Flávio, então deputado estadual no Rio, Bolsonaro exaltou a tortura e atacou o então presidente do PT, José Genoino, e o governo Lula.

Caroline Silveira Bauer identifica nas propostas elementos de reatividade —todas ocorreram em anos em que a discussão sobre a ditadura estava em pauta— e certo ressentimento sobre o papel dado a militares na história nacional.

“O negacionismo se relaciona com essa ideia de não aceitação de uma realidade”, afirma Bauer.

“Bolsonaro não aceitou que a esquerda já foi julgada e condenada. Por isso, ele pede uma outra comissão [CNV]. Ele não aceitou que houve mortos no Araguaia e que essas mortes foram violações de direitos humanos, então ele pede uma sessão de homenagem aos militares”, diz.

Ana Gabriela Oliveira Lima/FolhapressPoliticaLivre

Deputados da UE enviam carta à Motta criticando flexibilização do licenciamento ambiental

 Foto: Kayo Magalhães/Arquivo/Câmra

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados20 de junho de 2025 | 06:53

Deputados da UE enviam carta à Motta criticando flexibilização do licenciamento ambiental

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Deputados da União Europeia enviaram uma carta, nesta quinta-feira (19), ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), demonstrando preocupação com o projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental no Brasil.

O Projeto de Lei Geral de Licenciamento Ambiental (PL 2.159/2021) foi aprovado com modificações pelo Senado em 21 de maio e será votado na Câmara, ainda sem data prevista.

A proposta prevê andamento acelerado para empreendimentos classificados como estratégicos, independentemente do risco ambiental, caso, por exemplo, da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Segundo o texto enviado por membros do Parlamento Europeu, as revisões adotadas nessa proposta modificam e removem disposições essenciais existentes no processo de licenciamento ambiental brasileiro.

“Como certamente é de seu conhecimento, o Parlamento Europeu está atualmente avaliando a ratificação do acordo comercial UE-Mercosul. Caso este projeto de lei seja aprovado, ele alteraria significativamente o marco de proteção ambiental do Brasil, exacerbando preocupações existentes na Europa sobre os impactos potenciais do acordo na floresta amazônica e em outros ecossistemas”, diz trecho do documento.

A carta é assinada por 16 eurodeputados, como a alemã Anna Cavazzini, do Partido Verde. No texto, eles afirmam que estão preocupados com o curto prazo para essa “votação significativa”, especialmente diante das potenciais consequências adversas do projeto de lei.

“Segundo especialistas da ONU, essas mudanças podem causar sérios impactos negativos aos direitos humanos, ‘especialmente os direitos dos povos indígenas e comunidades quilombolas’, bem como ‘danos graves e irreversíveis ao meio ambiente'”, afirma outro trecho da carta.

Os deputados europeus questionam ainda o fato de o projeto de lei permitir que empreendimentos com potenciais impactos socioambientais realizem “autolicenciamento” por meio de formulários online.

“O projeto de lei também isenta certas atividades agrícolas de licenciamento adequado, sem qualquer avaliação de impacto socioambiental —uma disposição que pode favorecer o ‘agronegócio predatório’ e intensificar o desmatamento na amazônia e em outros ecossistemas”, aponta a carta.

“Nesse espírito, instamos você a preservar o nível de ambição do marco legal de licenciamento ambiental no Brasil, necessário para proteger adequadamente a natureza e os direitos dos povos indígenas”, segue o texto.

Em geral, a lógica do projeto que será votado na Câmara dos Deputados é simplificar e acelerar o licenciamento ambiental no Brasil, ampliando possíveis punições.

Um dos principais instrumentos para isso é a LAC (Licenciamento por Adesão e Compromisso).

Esse mecanismo permite ao Conselho do governo federal escolher empreendimentos classificados como estratégicos, que passam por uma análise muito mais simples e rápida, de etapa única e com prazo de um ano, independentemente do seu potencial impacto ambiental e do uso de recursos naturais.

Neste procedimento, o empreendedor recebe o aval para iniciar sua atividade por se comprometer a cumprir exigências ambientais previamente estabelecidas, sem passar por uma análise individualizada.

O licenciamento é uma análise dos possíveis impactos ambientais para empreendimentos como obras, exploração de petróleo e minérios.

Estariam aptos a conseguir autorização por meio da LAC iniciativas de até médio porte e potencial poluente.

O projeto também restringe as áreas protegidas que devem ser consideradas na análise ambiental apenas às terras indígenas homologadas (fase final da demarcação) e territórios quilombolas titulados (oficializados), excluindo processos de regularização em andamento.

Além disso, a proposta, isenta do licenciamento ambiental atividades relacionadas à agropecuária extensiva e de pequeno impacto ambiental.

Se aprovada, essa flexibilização do licenciamento ambiental pode impulsionar empreendimentos polêmicos, como mineração em terras indígenas ou a extração de petróleo na Foz do Amazonas.

Dispositivos do texto ainda revogam trechos da Lei da Mata Atlântica e beneficiam empreendimentos na região Norte.

Tayguara Ribeiro/FolhapressPoliticaLivre

A escalada de Trump e o xadrez global da tensão


Charge do Amarildo (amarildocharge.wordpress.com)

Pedro do Coutto

Por mais improvável que pareça aos olhos da razão diplomática, o mundo volta a flertar com o abismo. Donald Trump tem elevado o tom em relação ao Irã. Com declarações que soam mais como um ultimato imperial do que como uma estratégia ponderada, Trump sugeriu uma “rendição incondicional” do regime iraniano em meio à escalada de tensões com Israel. Seu discurso, no plural majestático, carrega ecos de uma ambição geopolítica que ultrapassa as fronteiras da razoabilidade e se aproxima perigosamente do delírio de poder.

O pano de fundo é conhecido, mas não menos explosivo. Israel e Irã travam uma guerra de sombras há anos — ora por meio de ataques cibernéticos, ora por bombardeios indiretos por grupos aliados. A diferença agora é a possível reentrada dos Estados Unidos, sob uma liderança que flerta com uma retórica bélica agressiva. Ao acenar com a possibilidade de destruir o sistema nuclear iraniano, Trump acende alertas que vão de Teerã a Moscou, passando por Bruxelas e Pequim.

SUPERFICIALIDADE – A fala  de Trump sobre “matar Kamenev” — numa provável referência equivocada a Ali Khamenei, o líder supremo do Irã — revela a superficialidade com que temas de altíssima complexidade são tratados, numa lógica que mistura personalismo com demonstração de força bruta.

Mas o mundo do século XXI não se curva tão facilmente a imposições unilaterais. O presidente russo, Vladimir Putin, vê no Irã não apenas um parceiro estratégico, mas uma peça-chave no equilíbrio de forças do Oriente Médio. Com a guerra na Ucrânia ainda em curso e a Rússia sob sanções severas do Ocidente, Teerã tornou-se uma válvula de escape econômica e política para Moscou. Uma ofensiva americana contra o Irã seria, portanto, percebida por Putin como um ataque indireto à sua própria influência na região.

CAUTELA – Por sua vez, a China adota uma postura cautelosa, mas não inofensiva. Pequim tem interesses comerciais profundos no Irã e, embora evite o confronto direto, não tolerará um colapso regional que prejudique suas rotas energéticas e projetos de expansão. A posição chinesa, moderada na superfície, é respaldada por uma presença diplomática cada vez mais ativa no Oriente Médio — um contraponto silencioso, porém firme, à agressividade ocidental.

É neste cenário de múltiplas tensões que a pergunta crucial se impõe: o que acontecerá se os Estados Unidos realmente bombardearem o Irã? As consequências seriam imprevisíveis, mas certamente catastróficas. Além das baixas humanas, que seriam incontáveis, o mundo testemunharia uma reação em cadeia que poderia afetar desde os preços do petróleo até a estabilidade de regimes aliados em toda a região.

A aposta de Trump em uma política de força total pode agradar setores militaristas e conservadores, mas ignora os aprendizados históricos das guerras do século XX e início do XXI. O unilateralismo tem limites e, numa era atômica, o risco de erros de cálculo é alto demais. As palavras de Trump são fagulhas reais num barril de pólvora em combustão.

“REI DO MUNDO” – Há, também, um ponto de inflexão simbólico importante: ao agir como se fosse o “rei do mundo”, Trump testa não apenas os limites do poder americano, mas da própria ordem internacional pós-Segunda Guerra. Organismos multilaterais, como a ONU, são sistematicamente desrespeitados ou ignorados. O direito internacional torna-se refém da conveniência das potências. Nesse ambiente, a paz torna-se um ideal frágil e cada vez mais distante.

A comunidade internacional, portanto, precisa reagir não com mais violência, mas com mais diplomacia. Este é o momento de ativar os canais de diálogo — entre potências, entre povos, entre instituições. A escalada de tensões só poderá ser contida se houver responsabilidade de Estado, visão estratégica e coragem política para resistir aos impulsos autoritários travestidos de patriotismo.

Se o século XXI tem alguma lição a oferecer, é que o poder não reside apenas na força, mas na capacidade de evitar a guerra quando ela parece inevitável. Nesse xadrez geopolítico global, as peças já se movem — mas o xeque-mate, desta vez, pode ser contra toda a humanidade.


Desprezo de Motta e Alcolumbre coloca Lula refém do Congresso

Publicado em 19 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Presidente Lula reunido Hugo Motta e Davi Alcolumbre | Agência Brasil

Motta e Alcolumbre sabem como devem tratar Lula

Dora Kramer
Folha

O governo às vezes chega a umas conclusões que nos fazem pensar se são ingênuas ou se fruto de tentativas de emplacá-las no mercado da comunicação. Há quem compre tais ideias, mas o tempo e os fatos se encarregam de desfazê-las no ar.

Uma delas era a de que os problemas com o Congresso estariam resolvidos com a troca de comandos na Câmara e do Senado. Outra atribuía ao deputado Arthur Lira (PP-AL) a raiz das contrariedades e enfrentamentos.

PARALISIA E ATRITO – Pois lá se vão quase cinco meses da eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) e o ambiente não só não melhorou como tornou-se mais hostil. De lá para cá nada andou no Parlamento e, onde havia entraves bem ou mal superados, hoje há paralisia e atrito.

Se o presidente Lula (PT) achou que uma aliança com os presidentes da Câmara e do Senado abriria o caminho para seus projetos e daí em diante a paz estaria selada, calculou errado.

Na época de Lira as coisas eram até melhores. O deputado tinha um acerto claro: na economia ajudava, nos costumes se abstinha e nos interesses diretos do PT o governo que se virasse.

MOTTA E ALCOLUMBRE – Além disso, as divergências internas dele com Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e o modo de agir temperado do então presidente do Senado, davam um certo alento ao Planalto. Agora a coisa é diferente. Motta e Alcolumbre atuam em parceria no atendimento ao compromisso pelo qual foram eleitos: a preservação da força maior do Legislativo frente ao Executivo.

Ambos devem seus poderes aos pares que os escolheram em votações praticamente unânimes, exatamente para manter a dinâmica da pressão constante. Tensão crescente quanto mais se aproxima o ano eleitoral e quanto menor é o grau de aceitação do governo e de Lula nas pesquisas de opinião.

Daí o equívoco de acreditar que o enrosco respondia pelo nome de Arthur Lira e sem o qual estaria tudo resolvido, assim como não se resolveu com os novos nem se resolveria fossem outros os personagens da mesma linhagem de senhores da situação.


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