segunda-feira, novembro 14, 2022

Lembrem, foi a ação política dos militares que levou golpistas a acampar nos quartéis

Publicado em 14 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Apoiadores do presidente derrotado nas eleições Jair Bolsonaro com camisas amarelas e barracas com bandeiras do Brasil no QG do Exército, em Brasília. O céu está azul e com nuvens - Metrópoles

Bolsonaristas estão acampados diante do QG há 14 dias

Bruno Boghossian
Folha

Dias depois da derrota na eleição, Jair Bolsonaro se dirigiu a seus apoiadores, defendeu o direito de manifestações golpistas e se queixou de excessos atribuídos a outras autoridades. Dias depois da derrota na eleição, os comandantes militares se dirigiram a seus apoiadores, defenderam o direito de manifestações golpistas e se queixaram de excessos atribuídos a outras autoridades.

Nunca foi necessário distinguir a ação política de Bolsonaro daquela praticada pela cúpula das Forças Armadas nos últimos anos. Seja por respeito ao princípio da hierarquia, por convergência doutrinária ou simplesmente pela identificação de interesses comuns, todos falaram a mesma língua nesse tempo.

Ainda que esses militares tenham caprichado no latim ou eventualmente feito cálculos que recomendassem alguma discrição, nenhum deles achou prudente se manter dentro dos quartéis. A nota assinada pelos chefes fardados na sexta-feira (11) é apenas mais um manifesto político das Forças neste ciclo bolsonarista.

Os comandantes resolveram divulgar um texto sobre as “manifestações populares que vêm ocorrendo em inúmeros locais do país”. Em vez de mandar para casa os brasileiros que se recusam a aceitar o resultado da eleição, as Forças Armadas preferiram reconhecer a insatisfação dos golpistas e sugerir que eles procurem o Congresso para “corrigir possíveis arbitrariedades”.

Integrantes do comando militar espalharam que a ideia era mandar um recado ao Judiciário sobre decisões recentes do STF e lançar um alerta sobre as tensões pós-eleitorais. Outro objetivo parece ter sido dar alguma satisfação ao público golpista que espera uma ação para impedir a posse do presidente eleito.

Esses grupos não foram às portas dos quartéis por acaso. A própria conduta dos comandantes fez com que bolsonaristas enxergassem uma instituição disposta a fazer política com as armas que tem. A decisão de responder com uma nota pública, além de ser uma anomalia, é a reafirmação desse comportamento.

Bolsonaristas farão uma supermanifestação diante do QG do Exército nesta terça-feira

Publicado em 14 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Cada vez chegam mais manifestantes e mais caminhoneiros

Victor Correia
Correio Braziliense

Movimentos bolsonaristas que defendem um golpe militar organizam uma manifestação para amanhã, no feriado da Proclamação da República. No acampamento em frente ao Quartel General do Exército, no Setor Militar Urbano, a informação é de que caravanas de diversos estados estão vindo para a capital federal.

“Os patriotas têm que vir todos aqui para Brasília, não adianta ficar nos estados”, discursou um dos líderes do acampamento, em cima de um trio elétrico, na noite de ontem.

ANTIDEMOCRATAS – Os manifestantes, com pautas antidemocráticas, reuniram-se no meio da via que separa o QG e a Praça dos Cristais, um espaço que estava demarcado por cones e monitorado pela polícia do Exército.

Em suas falas, os líderes criticaram o STF, pediram a saída do presidente eleito Lula da Silva (PT) e clamaram pelo auxílio das Forças Armadas.

“Dizem que nós temos que aceitar o resultado de uma eleição fraudulenta”, soaram os alto-falantes do trio elétrico, que podem ser ouvidos a quilômetros de distância.

MÚSICA GOSPEL – Após os discursos, os manifestantes transmitiram uma música gospel, seguida de apelos para manter o local organizado, respeitar as áreas demarcadas pelos militares e não agir de forma violenta. “Ninguém aqui está incitando a violência nem vai fazer isso”, disse um dos líderes.

A manifestação de amanhã está sendo organizada, principalmente, nas redes sociais bolsonaristas. Entre os presentes no acampamento — instalado em frente ao QG desde o segundo turno das eleições —, a expectativa é que seja a maior mobilização já feita até agora. Além de Brasília, atos antidemocráticos estão acontecendo em diversas cidades do país.

“Meu cunhado está mandando 40 caminhões do Sul para cá”, contou um dos manifestantes. Segundo ele, seu cunhado é frotista, ou seja, dono de todos os veículos. Mais de 300 carretas estão estacionadas na Praça dos Cristais.

COMIDA GRÁTIS – O acampamento em frente ao QG está bastante organizado, com áreas demarcadas para as barracas, banheiros químicos esvaziados diariamente, alimentação gratuita — com três refeições — e trio elétrico.

Mesmo à noite, subia fumaça das barracas destinadas à alimentação, onde o jantar era preparado. Segundo alguns manifestantes, empresários fornecem a estrutura necessária para a permanência dos bolsonaristas. A presença dos frotistas é a mais marcante, com caminhões padronizados, pertencentes ao mesmo dono.

O Ministério Público Federal (MPF), um dos alvos dos discursos antidemocráticos, monitora as manifestações em pelo menos 17 estados e no Distrito Federal, e está identificando os financiadores do movimento. Quem visita o acampamento em Brasília nota que há padronização de bandeiras, faixas e dos demais materiais.

OUTRAS INVESTIGAÇÕES – Há pelo menos outras quatro frentes de investigação pelo MPF: violações ao direito de ir e vir dos cidadãos; uso de mulheres, crianças e idosos como escudo humano para evitar ações policiais; discursos de ódio e gestos nazistas; e listas de boicotes por motivação política.

Em comunicado, o órgão considerou que as autoridades locais têm sido “lenientes” com os manifestantes. Procuradores confirmaram a falta de empenho em alguns estados para dispersar os atos, mesmo após ordem do STF.

O procurador federal dos Direitos do Cidadão Carlos Alberto Vilhena, um dos nomes à frente da articulação do MPF, disse que as manifestações, “por se dizerem patriotas, tendem a ter maior leniência e tolerância das autoridades públicas federais e estaduais”. “No entanto, os ânimos estão mais exaltados por conta da divisão ideológica e não podemos admitir manifestações que violem outros direitos, como a nossa ordem democrática” defende.

EM MUITOS ESTADOS – Os protestos investigados ocorreram em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Paraíba, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Roraima, Rio Grande do Norte, São Paulo, Santa Catarina e Tocantins.

O advogado Carlos Alexandre Klomfahs entrou na Justiça com um pedido de habeas corpus coletivo para todos os manifestantes que protestam contra o resultado das urnas em frente aos quartéis. Segundo o advogado, o salvo conduto é necessário para assegurar a liberdade de manifestação, reunião e locomoção.

Klomfahs diz ainda que o “único meio jurídico e republicano de obrigar” Moraes a “concretizar o direito de manifestação” é por meio de uma decisão colegiada. Mas o plenário do STF já confirmou, em julgamento unânime no plenário virtual, a ordem do ministro para liberar vias públicas bloqueadas por bolsonaristas. (Com informações da Agência Estado)

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Muitos empresários que financiam os atos antidemocráticos foram facilmente identificados, porque enviam caminhões com o logotipo de suas empresas. O ministro Moraes vai meter a caneta neles, mas a multa de R$ 100 mil deveria ser diária. Multar por hora parece ser um monte de exageros. (C.N.)


Mais de 50 servidores indicados por Bolsonaro seguirão no governo Lula




Eles ocupam cargos nas dez agências reguladoras e em colegiados de fiscalização do mercado e do setor privado

Um amigo e advogado pessoal do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um assessor da ala ideológica do bolsonarismo, um advogado tratado como "meu menino" pelo ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), e a irmã do ministro da Economia, Paulo Guedes. Esses são alguns dos integrantes de uma lista de mais de 50 indicados do presidente Jair Bolsonaro (PL) que permanecerão em agências reguladoras, conselhos e autarquias durante o primeiro ano, e, em alguns casos, até o fim do mandato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

São conselheiros e diretores de órgãos do governo federal cujas indicações foram feitas por Bolsonaro e que, por força de mandato, vão continuar nesses órgãos nos próximos anos. Ocupam cargos nas dez agências reguladoras ligadas ao governo federal e em colegiados de fiscalização do mercado e do setor privado. Somente neste ano, Bolsonaro indicou mais de 20 integrantes para atuar nestas repartições.

Lula terá ainda de trabalhar nos dois primeiros anos de seu terceiro mandato com o economista Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, que foi indicado pelo atual chefe do Executivo.

No ano passado, passou a vigorar a lei que determina a independência do BC, o que impede o petista de escolher um nome de sua preferência para o cargo logo após assumir o Palácio do Planalto.

Advogado pessoal

Responsável pela fiscalização do mercado financeiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) será presidida até 2027 pelo advogado João Pedro Barroso Nascimento. Indicado pelo presidente em abril, ele é amigo de infância e atuou como advogado pessoal de Flávio Bolsonaro. Em 2016, Nascimento costurou um acordo entre o parlamentar e uma incorporadora para a entrega de uma cobertura em um edifício nas Laranjeiras, no Rio.

O imóvel, comprado por R$ 1,7 milhão, foi objeto de um capítulo da denúncia apresentada contra o filho do presidente pelo Ministério Público do Rio no caso das rachadinhas.

A cobertura foi paga, em parte, com dinheiro do ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, apontado como operador do esquema, e por um policial militar do Rio investigado por suspeita de lavagem de dinheiro.

A denúncia foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nascimento não é investigado e atuou apenas como advogado em ação em que Flávio questionou o atraso na entrega do imóvel.

'Meu menino'.

Até o início de 2024, Lula também vai conviver com o advogado Alexandre Cordeiro como presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Cordeiro é apadrinhado pelo ministro Ciro Nogueira.

Como mostrou o jornal O Estado de S. Paulo, um inquérito que apura suspeitas de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro atribuídos pela Polícia Federal ao atual titular da Casa Civil mostra a proximidade dos dois.

"Um cara de bom senso. Meu menino, ele era meu chefe de gabinete, eu botei ele lá (...) E ele conseguiu se entrosar lá", disse Ciro Nogueira, em uma conversa gravada com o empresário Joesley Batista, da J&F. O diálogo é de 2017, época em que Cordeiro era superintendente do Cade.

No mesmo órgão, a procuradora-geral é Juliana Oliveira Domingues Ela ficará no cargo até o início de 2024 e é ex-assessora do atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres.

Agências reguladoras

É nas agências reguladoras e autarquias do governo, porém, que está lotada a maior parte dos indicados do atual presidente da República. São órgãos que já foram criticados tanto por Lula quanto por Bolsonaro pelo mesmo motivo: o de possuírem grande poder de influência e decisão.

Em março, Bolsonaro afirmou que uma agência reguladora "pode mais, muitas vezes, que o próprio ministério" e que elas existem para "criar dificuldade e vender facilidade". Lula, durante a campanha, também falou sobre a atuação das agências. "Muitas vezes, a gente cria uma agência para ela facilitar, mas quando o cidadão toma posse na agência ele acha que manda mais do que o ministro", declarou o petista, em agosto.

Pelo menos dois dirigentes destes órgãos são militares. Até dezembro de 2024, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) será chefiada pelo contra-almirante Rodolfo Saboia. Para a mesma agência, Bolsonaro indicou outros quatro dirigentes cujos mandatos se estendem até, no máximo, 2026.

O almirante Antônio Barra Torres também ficará no comando da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) até dezembro de 2024. Amigo de Bolsonaro, Barra Torres chegou a participar com o presidente, em março de 2020, de uma manifestação em frente ao Planalto.

Sem máscara, ambos descumpriram protocolos sanitários em meio à pandemia de covid-19. Os dois acabaram rompendo depois que Barra Torres acusou Bolsonaro de incentivar ameaças a funcionários da agência.

Na Anvisa, o presidente indicou outros quatro diretores. Entre eles, um ex-assessor do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Ouvidor

Integrante de uma ala mais ideológica do governo federal e defensor ferrenho de Bolsonaro, o ex-assessor da Casa Civil Robson Crepaldi será ouvidor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) até 2025. Ele foi nomeado neste ano. Enquanto esteve na pasta, Crepaldi chegou a lidar com a compra de vacinas Foi um despacho assinado por ele que pôs fim à tramitação de uma carta da Pfizer em outubro do ano passado direcionada à Presidência da República. Ele considerou que o documento já era tratado pelo Ministério da Saúde.

No apagar das luzes de seu governo, Bolsonaro também nomeou quatro integrantes do Conselho Nacional de Educação (CNE), que terão mandatos de quatro anos. Um deles é Elizabeth Regina Nunes Guedes, irmã do ministro Paulo Guedes. Elizabeth é presidente da Associação Nacional de Universidades Particulares. Em entrevista ao site Migalhas, ela criticou o governo por não tratar a área como prioridade.

Respostas

Robson Crepaldi disse que foi sabatinado e aprovado pelo Senado e destacou o "compromisso de cumprir" seu mandato na ANTT "até o fim do período". "Espero que a transição seja, como está sendo, tranquila, como deve ser em qualquer democracia."

João Pedro Barroso Nascimento, da CVM, afirmou que se prepara há mais de 20 anos e que tem experiência técnica. No caso do imóvel de Flávio, disse que não houve pagamento de honorários. "A construtora, que passava por problemas de natureza econômico-financeira, atrasou a entrega, o que gerou prejuízos. Assim, foi necessária a propositura de ação judicial, que culminou em um acordo." Ele declarou já estar "trabalhando de forma cooperativa e democrática com a equipe de transição".

A Anvisa disse que é um órgão de Estado, "com decisões técnicas e pautadas pela ciência". A ANP afirmou que ainda "não foi contactada pela equipe de transição".

Os outros citados pela reportagem foram procurados, mas não se manifestaram até a conclusão desta edição. A equipe de transição não comentou.

Estadão / O Tempo

Semipresidencialismo perde força no Congresso após vitória de Lula




Corredores no interior da sede da Câmara dos Deputados, na praça dos Três Poderes, no Distrito Federal 

Deputados que acompanham as discussões dizem que as prioridades do novo Congresso mudaram com a chegada do petista

A proposta de mudar o sistema de governo brasileiro para o semipresidencialismo perdeu força na Câmara dos Deputados após a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para deputados que acompanharam as discussões sobre o assunto, as prioridades do novo Congresso mudaram com a chegada do petista ao Palácio do Planalto.

A equipe de transição de Lula dialoga com os parlamentares sobre uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para aumentar investimentos sociais já em 2023. Na negociação estariam um possível apoio do PT à reeleição de Arthur Lira (PP-AL) à presidência da Câmara e a manutenção do orçamento secreto.

Se o acordo se confirmar e Lira for reconduzido ao cargo, será difícil que o projeto do semipresidencialismo seja pautado em breve, avaliam estes parlamentares. Não se descarta, porém, que a proposta funcione como uma "carta na manga" em futuras discussões.

"A possibilidade real de aprovar o semipresidencialismo seria sob Bolsonaro, que não tinha agenda, isso abria um vácuo para o Legislativo ocupar. O problema do governo Lula vai ser o contrário. Ele vai ter muita agenda com dificuldade para aprovar, vai ter de fazer muitas concessões para o Centrão", disse a cientista política da FGV Graziella Testa.

O projeto começou a ser encampado pelo presidente da Câmara em 2021, como forma de tentar contornar ataques do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao sistema eleitoral e diminuir a pressão por um impeachment do chefe do Executivo. Na ocasião, Lula afirmou que o semipresidencialismo seria um "golpe" para evitar a vitória do PT nas eleições. "Não dá pra brincar de reforma política", disse o petista em entrevista à Jovem Pan.

Em outubro deste ano, porém, um grupo de trabalho da Câmara aprovou em votação simbólica um relatório favorável à mudança do sistema de governo. O modelo implementa a figura do primeiro-ministro e transfere ao Congresso a chefia de governo, o que aumenta o poder dos parlamentares.

A ideia também já foi patrocinada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) e pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

Estudo

Em março deste ano, Lira instituiu um grupo de trabalho na Câmara destacado para estudar o tema. Após sete meses de reuniões, depois do primeiro turno da eleição presidencial, os parlamentares coordenados pelo deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) concluíram em relatório que é "forçoso e imprescindível" modificar o relacionamento entre Executivo e Legislativo.

"Para tanto, há que mudar o sistema de governo e adotar o semipresidencialismo", diz o documento, que anexa ainda uma minuta de convocação de um plebiscito nacional para consultar a população sobre o tema e sugere que a mudança ocorra em 2030. A justificativa é que o presidencialismo brasileiro seria rígido, e apresentaria tendência disfuncional.

A proposta do grupo separa a chefia de Estado, que ficaria nas mãos do presidente da República, e a chefia de governo, que seria coordenada por um primeiro-ministro indicado pelo presidente eleito e acatado por maioria do Congresso. Os ministérios seriam substituídos por um gabinete de ministros.

Opositores criticaram a discricionariedade da composição desse grupo, majoritariamente governista. Diferentemente das comissões especiais, o modelo não obriga proporcionalidade.

Parlamentares que compuseram o grupo pontuam que a minuta não tem força vinculante e, apesar de maioria reformista, o colegiado apenas estudou a proposta.

"O grupo se reuniu para fazer um estudo de viabilidade da implementação do semipresidencialismo para mapear a discussão, rastrear os principais pontos de convergência ou divergência e os principais desafios constitucionais", disse o deputado Enrico Misasi (MDB-SP). "O resultado prático depende das circunstâncias políticas. Vai depender do novo presidente da Câmara ou do Arthur Lira, se reeleito, querer dar continuidade."

Temer e os ex-ministros do STF Ellen Gracie e Nelson Jobim também foram consultados no processo.

Para Samuel Moreira, o objetivo é aumentar a responsabilidade do Parlamento. "Ao mesmo tempo que aprova (o primeiro-ministro), se torna cúmplice. Não dá para o Congresso só ter o bônus, (também deve ter) o ônus de governar, administrar as contas, a inflação "

Tramitação

O grupo não tem poder para apresentar uma PEC, de modo que o relatório tem função consultiva. Moreira destacou que um plebiscito, porém, pode ser pautado se 171 parlamentares assinarem o pedido. Este seria o primeiro plebiscito nacional sobre sistema de governo no Brasil desde 1993, quando a população escolheu entre presidencialismo ou parlamentarismo.

Para se transformar em PEC, seria necessária maioria qualificada favorável, o que, no atual desenho de composição de forças do Congresso, não deve se configurar nem para Lula nem para a oposição. "Nem o governo nem Lira teria maioria constitucional. Pode ser fator de pressão, mas não vejo que seja questão prioritária", disse o deputado Gustavo Fruet (PDT-PR).

"A relação com o Congresso vai depender muito do programa do governo do presidente que está liderando", disse a cientista política e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Argelina Figueiredo. Em qualquer dos sistemas, afirmou, haverá a necessidade de se formar coalizão.

Estadão / O Tempo

Entrevista: Felipe Salto: ‘Teto de gastos pode ser trocado por limite de dívida’




Secretário da Fazenda de São Paulo afirma ter enviado proposta a Persio e Alckmin e diz que foi sondado para integrar governo Lula

Por Alexa Salomão

O economista Felipe Salto, secretário de Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, está redigindo uma proposta de reforma da regra fiscal para substituir o teto de gastos. Uma minuta já foi enviada ao vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e ao economista Persio Arida, que integra o grupo de transição da economia.

"Persio disse que iria ler com atenção, que a transição estava apenas no começo e que queria conversar. Para não parecer que estamos colocando carroça na frente dos cavalos, preciso dizer que a proposta é um exercício intelectual que fazemos há anos", afirmou. "Agora, com outros economistas e gente do direito financeiro, estamos tentando bolar algo razoável para não perder mais uma oportunidade de fazer mudanças que vão além do apagar incêndios."

Segundo Salto, o teto já não existe, depois de o ministro da Economia, Paulo Guedes, aprovar sucessivas licenças para gastar acima do teto nos anos de 2020, 2021 e 2022.

"É óbvio que você não pode dar um cavalo de pau nas regras fiscais, mas é preciso entender que nesse aspecto não tem nada de novo em 2023", diz ele. "É mais um ano em que você vai precisar de licença constitucional para furar o teto, com todo o custo político de negociar uma nova PEC [Proposta de Emenda à Constituição].

O economista confirma que foi sondado para integrar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Fico muito honrado porque recebi duas abordagens. Numa delas, Alckmin me sondou para saber se tenho interesse. Não houve convite", afirmou.

Estamos acompanhando o périplo do governo eleito na tentativa de fazer uma PEC para a transição, o que basicamente significa abrir espaço no Orçamento para elevar o gasto. É preciso mesmo elevar os gastos? Qual é a situação das finanças federais quando se observa a peça orçamentária que está no Congresso? 

O primeiro ponto a destacar é que, sim, é necessário uma espécie de licença para um gasto superior ao previsto no teto, que está em R$ 1,8 trilhão. Se a gente ajustar esse teto previsto à estimativa mais recente de IPCA, ele fica ainda mais baixo em cerca de R$ 15 bilhões a R$ 17 bilhões.

Mas, além da restrição, você tem uma série de gastos que foram prometidos ao longo da campanha, e muitos deles são meritórios. Tanto é assim que os dois lados tocaram nessa questão de aumentar o gasto social, que tem relação com Auxílio Brasil e o auxílio para crianças de até seis anos. Todo esse contexto é uma justificativa para obter uma licença para gastar.

A segunda justificativa é que no período de 2020, 2021 e 2022 ocorreu um gigantesco waiver [dispensa para cumprir a regra fiscal]. No ano da pandemia, 2020, foram R$ 520,6 bilhões. Em 2021, R$ 114,2 bilhões, e em 2022, 155,4 bilhões. Tudo isso foi gasto acima do teto. A regra do teto, na verdade, já não existe mais. Quem acabou com ela chama-se Paulo Guedes, com uma série de emendas à Constituição, as 109, 113, 114 e a 123.

Na prática, o teto como foi concebido lá em 2016 já não existe mais. É óbvio que você não pode dar um cavalo de pau nas regras fiscais, mas é preciso entender que nesse aspecto não tem nada de novo em 2023. É mais um ano em que você vai precisar de licença constitucional para furar o teto, com todo o custo político de negociar uma nova PEC.

A gente até pode falar depois, mas, como economista, pensei em uma proposta de emenda à Constituição para tratar do fiscal. É uma colaboração intelectual para esse debate, com base no que venho estudando todos esses anos. Inclusive, já mandei a primeira minuta para Geraldo Alckmin e Persio Arida, que são as pessoas com quem tenho mais contato.

Mas qual é a proposta? 

Posso até enviar o texto. Josué Pellegrini, que foi da IFI [Instituição Fiscal Independente], está ajudando a escrever. Com essa proposta, pensamos, em primeiro lugar, conseguir autorizar o gasto extra do ano que vem —e restrito ao ano que vem. Seriam algo como R$ 120 bilhões, podendo ser um pouco mais ou um pouco menos.

A grande coisa é mudar o foco do arcabouço fiscal para o limite da dívida. José Serra coordenou o grupo de finanças públicas da Assembleia Nacional Constituinte. Se pegar todas as discussões —e isso está registrado— vai ver que o espírito dos artigos 48 e 52 já indicava que é importante limitar a dívida. Mas isso nunca foi regulamentado para o caso da União, apenas para estados e municípios.

Quer dizer que estamos defendendo um limite fixo para dívida? Não. Estamos defendendo um limite tendencial. Essa palavra é importante. Ninguém consegue controlar todos os fatores que afetam a dívida, como a taxa de juros, o Produto Interno Bruto ou mesmo a projeção de receita. A variável que está mais sob o controle do governo é o gasto, e por isso o teto pode ser um instrumento à mão, só que até a página dois.

A rigidez orçamentária no âmbito federal é de algo como 93,6%, ou seja, não tem muito espaço de manobra. A prova do pudim que essa coisa deu errada são os quatro anos de estouro do teto com necessidade de mudança na Constituição

Então, propomos o limite para a dívida com meta de superávit primário, calculada com base na trajetória da dívida. Não vai sair mais da cachola de alguém esse número que vai para a LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias].

Tem ainda uma terceira perna que é um teto de gastos diferentes. Ele será uma decorrência dessa trajetória da dívida e desse resultado primário.

Quando o teto estava sendo elaborado, o sr. fez ponderações críticas ao mecanismo. Qual a diferença dessa proposta? 

É importante dizer que tudo é aprendizado. Na democracia, temos mudanças incrementais. Não dá para exigir regra fiscal perfeita. O teto teve a sua importância. Permitiu a redução no custo da dívida e reorganizou as expectativas dos agentes de mercado.

Mas, ainda em 2016, publiquei um artigo com José Roberto Afonso mostrando que o teto estava mal desenhado, em que pese que ambos somos a favor de uma regra de controle do gasto. Agora, temos a oportunidade de melhorar isso

A vantagem da proposta é que você reorienta a política fiscal para aquilo que realmente importa, que é trajetória da dívida, e evita ter uma política fiscal excessivamente contracionista. Às vezes, o PIB cresce mais ou você faz medidas de ajustes que abrem espaço fiscal, então há possibilidade de aumentar o investimento. Hoje, o teto de gastos não permite isso.

E não adianta apenas voltar para a sistemática de meta de resultado primário, que foi instituída por Pedro Malan, em 1999, no bojo do acordo com o FMI [Fundo Monetário Internacional].

A meta de primário é pró-cíclica, ou seja, significa que, quando a receita sobe, eu posso gastar mais. Isso não é necessariamente bom. Eu preciso de algum mecanismo que me permita ter controle permanente da despesa pública, sem que seja draconiana como o teto original, mas que exerça algum controle.

Daí vem a cereja do bolo da nossa proposta: a criação de um fundo de reserva fiscal. Toda a vez que a receita superar aquela meta de primário para que a dívida atinja determinada tendência, o excedente vai para o fundo. Não vai ser gasto. E esse fundo vai ser destinado a investimentos selecionados por um comitê, que até poderá ter integrantes do parlamento, mas vai reunir principalmente gente do Executivo.

Mas como vai funcionar isso, até porque excesso de arrecadação é algo que tem sido raro, não? 

Vou dar um exemplo numérico, A dívida bruta do governo geral está em 78% e provavelmente vai subir para casa de 80%. Qual é o resultado primário necessário para mantê-la em 80%?

Para responder a essa pergunta, eu preciso saber quanto vai ser o crescimento —suponha que seja de 1%— e qual vai ser o juro real —suponha que 5%. Bom, para estabilizar a dívida, eu preciso de um superávit primário de 3,2% do PIB. Eu não vou conseguir isso da noite para o dia, OK?

Mas 3,2% é o número que vai aparecer na LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias] e na PLOA. É o superávit primário necessário para manter a dívida no patamar calculado. Vamos supor que a gente consiga um primário de 4%. É essa diferença de 0,8% vai para o fundo. Uma lei complementar pode ajudar a estabelecer como o fundo vai ser utilizado.

Arida e Alckmin deram algum retorno? 

Persio disse que iria ler com atenção, que a transição estava apenas no começo e que queria conversar. Para não parecer que estamos colocando carroça na frente dos cavalos, preciso reforçar que a proposta é um exercício intelectual que fazemos há anos. Agora, com outros economistas e gente do direito financeiro, estamos tentando bolar algo razoável para não perder mais uma oportunidade de fazer mudanças que vão além do apagar incêndios. O waiver é apagar incêndio, mas é preciso ir além.

Temos um clima de mudança, com todo mundo querendo colaborar. Acho inédito na história recente ter de Arminio Fraga a Guilherme Boulos querendo colaborar com um governo. O cardápio que o presidente eleito tem para escolher é muito eclético, o que é bom.

Mas nesta quinta (10), a cotação da Bolsa despencou e a do dólar saltou por causa da transição e do discurso do Lula. Como sr. viu isso? 

O mercado sempre exagera. A reação precisa ser relativizada. Não dá para se guiar por isso, e é preciso ter cuidado para avaliar essas reações da Bolsa e do dólar, que são até naturais agora. Os anúncios da transição estão no começo. O essencial é que a diretriz seja clara, o que, a meu ver, será dada nas próximas semanas.

O seu nome apareceu nas bolsas de aposta para assumir cargo no próximo governo. O sr. foi procurado, recebeu convite? 

Fico muito honrado porque recebi duas abordagens. Numa delas, Alckmin me sondou para saber se tenho interesse. Não houve convite. Minha ligação com o PSDB veio com José Serra, depois Tasso Jereissati e Alckmin, que admiro muito. Antes de vir para a Secretaria da Fazenda me aconselhei com Alckmin, e ele recomendou que eu viesse.

Qual é o seu balanço da gestão do governo Bolsonaro na economia? 

É preciso reconhecer que não foi irresponsável, mas deixou a desejar. Vai terminar com a dívida abaixo de 80%. Ninguém previu isso, mas porque ninguém também imaginava que o Banco Central ia acabar aceitando inflação alta por muito tempo, e manter a taxa juros baixa por muito tempo. Isso explodiu. O Banco Central teve de subir juros como se não houvesse amanhã. Essa pressão vai aparecer no ano que vem.

Mas enquanto a inflação ficou alta, ajudou a turbinar a receita e o PIB, e a dívida PIB ficou num patamar abaixo do que se previa. Não houve nada de estrutural nesse governo que está acabando. Pelo contrário, como já disse, furou o teto várias vezes.

A gestão tirou nota 5, e ainda deixou herança ruim para o próximo governo, uma trajetória crescente da dívida. Pergunta para qualquer um que acompanha contas públicas. Mansueto Almeida, José Roberto Afonso, Maílson da Nóbrega.

Eu já vejo uma crítica absurda do mercado de que a dívida vai crescer. A dívida vai crescer em qualquer cenário. Se o papa tivesse sido eleito presidente do Brasil e indicasse Alan Greenspan para ministro da Fazenda, a dívida cresceria. A razão é óbvia: a taxa de juros está em 14%. O custo real da dívida hoje está em 8%. Não há Cristo que aguente.

O sr. e a sua equipe vão encerrar uma gestão de quase 30 anos de PSDB à frente do governo de São Paulo. Como estão entregando a casa para esse novo ciclo? 

Modéstia à parte, vamos entregar uma casa muito bem arrumada. A responsabilidade fiscal foi permanente nesses anos.

Havia uma frase famosa do Orestes Quércia, que foi documentada: "Eu quebrei o Banespa, mas elegi meu sucessor", no caso, Luiz Antônio Fleury Filho. É uma frase muito representativa porque, de fato, quebrou não apenas o banco, mas todo o estado.

Quando o governador Mario Covas assumiu, em 1995, não tinha nem dinheiro para abastecer as viaturas da polícia. O secretário de Fazenda escolhido na época, o professor Yoshiaki Nakano, fez ajustes no Orçamento, por dois ou três anos seguidos, de 30% linear, tamanha a gordura que havia nos gastos de custeio e em contratos superfaturados.

Quando fez 20 anos da morte de Covas, eu escrevi um artigo com Guilherme Tinoco, onde mostramos, com números, como aquele ajuste elevou o patamar de investimento do estado. Covas quase não se reelegeu, mas conseguiu mostrar na campanha com clareza como o ajuste fiscal se transformou em benefício para a população.

Ele permitiu o aumento do gasto social. Foi naquela época que surgiram programas que até agora são bandeiras do estado, como o Poupatempo e o Banco do Povo, para ficar em dois exemplos.

Claro que, de lá para cá, ocorreram momentos melhores e piores, mas nunca o estado de São Paulo ficou numa situação ruim.

Recentemente, São Paulo foi como a fábula da formiga. Durante o inverno a gente fez o dever de casa, o ajuste fiscal na pandemia, que todo mundo criticou. Só que, agora, a gente vai terminar o ano com caixa R$ 33 bilhões e a menor dívida da história, 114% da Receita Corrente Líquida.

O nível de investimento só se compara ao período de José Serra, de 2007 a 2010. No biênio 2021-2022, são cerca de R$ 50 bilhões. Você sabe quanto a União prevê investir no ano que vem por esse PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) que agora está sendo discutido? R$ 22,4 bilhões.

Isso mostra que o estado não apenas tem responsabilidade fiscal como direciona isso para resultados efetivos, como aumento do investimento e do gasto social. Aqui em São Paulo temos um guarda-chuva de programas, a Bolsa do Povo, que tem vários sub programas, como o vale gás, que foi majorado.

Dentro do Programa de Ajuste Fiscal, que renegociou dívidas, São Paulo tirou nota 10. O Tesouro avisou que o estado vai ter R$ 14 bilhões de espaço fiscal no ano que vem. Estamos deixando contratados um aumento 40% da malha metroferroviária.

É importante dizer que ser secretário foi o trabalho mais fascinante que eu pude fazer na minha vida até esse momento. Entregamos uma série de coisas.

A Resolução 51, que dá transparência para o processo de concessão de benefícios tributários, uma demanda antiga do Tribunal de Contas que resolvemos. A regulamentação do programa Nos Conformes. Aumentamos em 50% a liberação de crédito de ICMS. Estava previsto R$ 1 bilhão e vai terminar o ano em mais de R$ 1,5 bilhão.

Também tiramos do papel o sistema de custos, demanda antiga do FMI e do Banco Mundial. Temos prontas avaliações do custo detalhado por escola. Se eu quiser pegar uma escola aqui na rua, tenho condição de saber a composição do custo dela e comparar com o seu Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], e identificar isso em todas as escolas. Bom, foram muitas coisas. O governador Rodrigo Garcia vai deixar uma herança bendita para o eleito Tarcísio de Freitas.

Folha de São Paulo

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