sexta-feira, agosto 05, 2022

EUA pressionam Rússia a aceitar troca de prisioneiros após condenação de Griner




Jogadora de basquete norte-americana Brittney Griner, que foi condenada a 9 anos de prisão 04/08/2022 

Por Heather Timmons, em Washington

WASHINGTON - Os Estados Unidos pressionaram a Rússia a aceitar um acordo que busca libertar dois norte-americanos presos na Rússia, após um deles, a estrela do basquete Brittney Griner, ser condenada a 9 anos de prisão nesta quinta-feira em uma acusação por posse de drogas.

“É uma proposta séria. Nós os incentivamos a aceitarem. Eles deveriam ter aceitado semanas atrás quando a fizemos pela primeira vez”, disse o porta-voz de segurança nacional da Casa Branca, John Kirby, sem dar mais detalhes.

Washington ofereceu trocar o traficante de armas russo Viktor Bout, que cumpre sentença de 25 anos de prisão nos Estados Unidos, por Griner e o ex-fuzileiro naval Paul Whelan, disseram fontes com conhecimento da situação à Reuters.

A Rússia havia tentado acrescentar o assassino condenado Vadim Krasikov, que está preso na Alemanha, à troca, disse uma fonte com conhecimento do assunto à Reuters.

Ao ser questionado nesta quinta-feira se Washington estaria disposto a reconsiderar o pedido da Rússia após a sentença de Griner, Kirby rechaçou: “Acho que nem chamaríamos isso de uma contraproposta”.

Whelan, que tem passaportes de EUA, Reino Unido, Canadá e Irlanda, foi condenado a 16 anos de prisão em 2020 na Rússia por espionagem. Griner foi condenada e sentenciada nesta quinta-feira por levar cartuchos de vape com óleo de haxixe à Rússia.

Reuters / SWI

Lei seca nacional e controle de armas: o apelo de servidores e mesários com temor de violência nas eleições




Mesárias em eleição de 2020; servidores da Justiça Eleitoral pedem medidas de segurança para aqueles que trabalharão no dia de votação

Por Mariana Alvim, em São Paulo

Servidores da Justiça Eleitoral estão preparando uma carta a ser enviada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo providências para que a segurança deles e de mesários seja resguardada nesta eleição, em meio a notícias falsas e a declarações do presidente Jair Bolsonaro colocando em dúvida a segurança e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Entre as principais demandas dos servidores, está o controle para garantir que pessoas armadas não entrem nos locais de votação e a volta de uma lei seca nacional que proíba a venda e o consumo de álcool nos dias de votação, em 2 e 30 de outubro.

O documento, assinado pela Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal e Ministério Público da União (Fenajufe), entidade que representa, entre outras categorias, servidores da Justiça Eleitoral nacionalmente, deve ser enviado ao TSE até esta sexta-feira (5/8), mas a coordenadora executiva da federação, Fernanda Lauria, adiantou o conteúdo à BBC News Brasil.

De acordo com ela, o ofício a ser enviado ao tribunal é fruto de um encontro nacional ocorrido em julho em Brasília, que teve representantes de 16 Estados — o Encontro Nacional das Servidoras e Servidores da Justiça Eleitoral (Eneje).

"Normalmente, nesses encontros são tratadas questões de estrutura das eleições, das dificuldades de se organizar as eleições em um país com dimensão continental. Mas a tônica nos debates desse ano foi a segurança nas eleições", disse Lauria à reportagem. "É uma preocupação muito real, e tem muito motivo. O servidor nas zonas eleitorais é quem está na ponta. São os servidores que lidam com as urnas."

Hoje, cada Estado define se e como implementará a lei seca, por meio de seu Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em articulação com as secretarias estaduais de Segurança Pública. Entretanto, os servidores pedem que uma lei nacional seja instaurada, embora isso provavelmente demande uma deliberação e aprovação do Congresso.

Lauria avalia que, por resoluções próprias, o TSE poderia implementar normas para controle da circulação de armas nos dias de votação, mas reconhece que um plano do tipo deve ser desenvolvido por órgãos competentes, incluindo as forças de segurança. Segundo a coluna do jornalista Guilherme Amado no site Metrópoles, lideranças do PT, PCdoB, PSol, PSB, PV, Solidariedade e Rede entregaram em 13 de julho um documento ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que assumirá no dia 16 de agosto a Presidência do TSE, pedindo que nos dias de votação o porte de arma fique restrito a atividades policiais e de segurança.

"Cabe aos órgãos competentes (definir a estratégia de controle de armas), mas eu não vejo outra maneira de fazer isso sem um detector de metais", afirma a coordenadora da Fenajufe, que também é secretária geral do Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Estado do Rio de Janeiro (Sisejufe-RJ).

"A combinação bebida alcoólica, arma e ânimos exaltados é muito explosiva."

'Servidores reivindicam controle de armas nos dias de votação'

Em março, servidores tiveram uma reunião com o presidente do TSE, o ministro Edson Fachin, sobre a segurança deles e de mesários na eleição; agora, eles esperam conseguir mais uma reunião sobre o assunto com o futuro presidente do tribunal, Alexandre de Moraes, que assumirá o cargo em 16 de agosto.

A reportagem pediu um posicionamento do TSE sobre as demandas dos servidores e sobre a segurança dos que trabalharão na eleição, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. Na reunião de março, Fachin garantiu que o tribunal está realizando reuniões com os TREs sobre o assunto e que há "portas abertas" para as demandas de seus funcionários.

Além da Fenajufe, sindicatos estaduais já se manifestaram pedindo maior segurança para servidores — não só nos dias de votação, mas no cotidiano das zonas eleitorais.

Em Minas Gerais, o Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado (Serjusmig) solicitou no dia 20 que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) contrate empresas privadas para garantir a segurança nos cartórios eleitorais.

"O acirramento político que marcará o pleito dessas eleições, a falta de segurança nos cartórios e até mesmo a falta de contingente policial em muitas cidades do interior colocam em risco direto todos os servidores e servidoras, o que requer providência urgente por parte desse Eg. Tribunal", afirmou o sindicato no pedido.

Em 18 de julho, o Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal em Pernambuco (Sintrajuf-PE) publicou uma nota de repúdio à postura de Bolsonaro "contra a Justiça Eleitoral e o processo eletrônico de votação e apuração" e pediu "medidas urgentes e suficientes para garantir segurança no pleito de outubro, como proibir a circulação de armas, comercialização de bebidas alcóolicas e intensificar a campanha de informação e advertência contra o cometimento de crimes contra servidores, mesários, candidatos e equipamentos da Justiça Eleitoral".

Cotidiano já tenso

'A gente sabe que o maior alvo (de hostilidades) são as urnas eletrônicas', diz Fernanda Lauria, da Fenajufe

De acordo com Fernanda Lauria, os funcionários dos cartórios eleitorais já estão "descobertos" em termos de segurança no cotidiano.

"A eleição pra gente começa quase um ano antes do dia da eleição. E já houve atentados no sentido de pessoas entrarem filmando, constrangendo servidor, pichando o cartório", relata. "A cada fake news, é um problema."

A servidora conta também que funcionários das zonas eleitorais têm tido dificuldade em recrutar mesários, que demonstram medo em se expor no dia da votação.

"Uma das coisas que a gente vai pedir para o TSE é justamente um treinamento de segurança para todos os envolvidos no processo eleitoral. Sobre o que fazer, o que não fazer se tiver uma pessoa armada, causando confusão... Um treinamento para todos: servidores, mesários, até das forças de segurança. De todos os envolvidos, porque a gente acha que dessa vez vai ser muito diferente do que em qualquer outra época."

"Claro, sempre teve preocupação com a segurança em relação à disputa eleitoral, à violência entre candidatos — por exemplo, a Baixada Fluminense no Rio de Janeiro é sempre uma área complicada. Agora, essa preocupação com a segurança dos servidores da Justiça Eleitoral na execução do seu trabalho, é a primeira vez."

Para a Fenajufe, o TSE deve apresentar um plano nacional de segurança com diretrizes mínimas para os tribunais regionais, de modo a garantir que as medidas não dependam da decisão de gestores locais. Os servidores pedem também reforço policial e orientação dos agentes de segurança para o dia de votação.

"Precisa ter força de segurança no local fazendo esse trabalho, não pode ser um mesário ou um servidor da Justiça Eleitoral", defende Lauria.

"Há preocupação com os locais de votação, por conta da presença das urnas eletrônicas. A gente sabe que o maior alvo (de hostilidades) são as urnas eletrônicas", diz a servidora, apontando em especial a preocupação com os momentos finais dos dias de votação, em que as mídias com resultados são recolhidas e os votos são transmitidos pelas zonas eleitorais. 

BBC Brasil

Baderna à beira-mar




Não é coincidência que ameaça bolsonarista convirja com palanque petista em colisão no Rio

Por Maria Cristina Fernandes (foto)

No momento em que o presidente Jair Bolsonaro se organiza para uma exibição de baderna no Rio no 7 de setembro, o palanque eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Estado entra em rota de colisão. E nada disso é coincidência.

Em setembro de 2020 apareceram novos trechos da delação do ex-secretário Edmar Santos que levantavam suspeitas sobre a participação do então governador em exercício, Cláudio Castro, do PL, e do presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano, do PT, num suposto esquema de propinas na Secretaria de Saúde do Rio.

Ambos negaram a acusação e, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, atendeu ao pedido do presidente da República para não colocá-los no mesmo balaio de Wilson Witzel, removido do Palácio da Guanabara, ficou tudo por isso mesmo.

Daí conclui-se que Bolsonaro tem Castro e, consequentemente, sua polícia militar, na mão, circunstância inexistente no 7 de setembro do ano passado, quando a PM de São Paulo foi mantida sob rédea curta.

Se não se promove um golpe de Estado com um desfile militar na Avenida Atlântica, é, sim, possível, quando se tem controle da polícia, orquestrar atentados, ocultar mandantes e provocar um fato político a menos de um mês do primeiro turno. Foi isso que aconteceu em 2018 quando mataram Marielle Franco num Rio sob intervenção militar.

A baderna pode acontecer quando já terá entrado em vigor o auxílio emergencial de R$ 600, que a campanha de Lula já reconhece, pode reduzir sua vantagem sobre Bolsonaro, para o patamar dos dez pontos. Só uma oposição unida, principalmente, no Rio, pode ser capaz de reagir a fatos como este. E é esta unidade que está ameaçada pelo embate entre PT e PSB no Rio, terceiro maior colégio eleitoral do país.

O palanque do deputado federal Marcelo Freixo (PSB) se apresenta com estas credenciais, por unir o ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários, Marcelo Trindade (Novo), à líder da favela do Borel, zona Norte do Rio, Inês Ferreira, passando pela companhia, na chapa, do ex-prefeito e hoje vereador, Cesar Maia (PSDB).

Só o eleitor será capaz de confirmar a competitividade eleitoral indicada nas pesquisas, mas o apoio a Freixo representa uma resistência à ordem bolsonarista no Estado que deu expressão eleitoral ao presidente e à sua família. É isto que o PT ameaça sacrificar. Como nem o deputado federal Alessandro Molon (PSB) nem Ceciliano se põem de acordo sobre qual deles vai perder para Romário, candidato à reeleição ao Senado pelo PL, PT e PSB arriscam pôr abaixo a competitividade de seu palanque estadual.

Molon sabia, desde a entrada de Freixo no PSB, que o PT exigiria um dos cargos majoritários em disputa. Só não contava que seu novo correligionário levasse à frente, de fato, a disposição de disputar o governo. Lula nunca engoliu o que enxerga como lavajatismo de Molon. Por isso, se for derrotado na disputa pelo Senado, o deputado do PSB não teria chance de assumir ministério num eventual governo do PT.

Molon, porém, pode ficar sem mandato e manter sua liberdade. Eleito duas vezes, como candidato único, à Presidência da Assembleia Legislativa do Rio, notório entreposto do crime, Ceciliano já não desfruta da mesma prerrogativa. Por isso, aposta o PSB, acabará por recuar do Senado. Se Lula não está disposto a queimar caravelas por Molon, tampouco o fará por Ceciliano, que não lhe agrega eleitor. O presidente da Alerj chove no molhado do eleitorado bolsonarista da Baixada Fluminense e não vira voto.

Ao preterir a candidatura do ex-deputado constituinte Vladimir Palmeira, em 1998, o PT foi escada para que a dinastia Garotinho proliferasse no Rio de Janeiro. Naquele ano, Lula ganhou por dois mil votos no Estado, mas lhe faltaram 14 milhões para impedir a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O PT fluminense tanto fez que perdeu aqueles com os quais hoje busca se aliar e deixou que a legenda fosse comandada pelo atraso. Como não pode intervir nas candidaturas de outras legendas, resta a Lula enfrentar a ala bolsonarista de seu partido e manter palanque duplo para o Senado, como acontece em muitos outros Estados.

A era Bolsonaro interrompeu uma sucessão de cinco vitórias de candidaturas presidenciais petistas no Rio. Desta vez, Lula está à frente, mas por uma vantagem inferior àquela que pontua nacionalmente. Enfrenta, ainda, o peso do voto evangélico bolsonarista, que pode fazer diferença na reta final. E não apenas no Rio.

A sobrevivência eleitoral da família Bolsonaro depende, em grande parte, do resultado das urnas fluminenses. Não apenas pelo que pode representar para as bases eleitorais de seu grupo político uma troca de guarda nas instituições policiais e de controle do Estado, como também pelo simbolismo de manter o Rio como um reduto do antilulismo.

Esta é outra razão pela qual Bolsonaro escolheu o Rio para sua grande investida do sete de setembro. Só a preservação de um palanque amplo e democrático de resistência será capaz de garantir ao eleitor a prerrogativa de dono da festa.

Fardas e togas

O deslocamento das ameaças bolsonaristas de Brasília para o Rio sinaliza que as Forças Armadas cultivam melhores expectativas em relação ao próximo ministro do TSE, Alexandre de Moraes, do que o presidente gostaria. A aproximação dos militares com as instituições de controle não param por aí. Ontem o ministro da Defesa, general Paulo Sergio Oliveira, levou representantes das Três Forças para um almoço com todos os ministros do Tribunal de Contas da União na sede da Corte.

Redução do diesel à vista

Depois de duas reduções seguintes no preço da gasolina, chegou a vez do diesel. A queda no preço, que se deve a uma combinação de câmbio favorável e redução na cotação internacional do barril, é esperada ainda esta semana. Pelo peso no transporte de cargas, a queda no preço do diesel pode ajudar na deflação de alimentos mais do que a da gasolina. Se a redução deste combustível já se refletiu no avanço de Bolsonaro nas pesquisas, a do diesel se somará à entrada em vigor do auxílio de R$ 600 na próxima semana. O Planalto pressiona por uma estratégia de reduções sistemáticas no combustível até 2 de outubro. No PT, o sinal de alerta virou uma sirene.

Valor Econômico

Jair Bolsonaro está em rota de colisão com a Fiesp




Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Fracassaram os esforços da cúpula da Fiesp, que articula o manifesto dos empresários em defesa da democracia e das urnas eletrônicas, para que todos os candidatos à Presidência assinassem o documento, numa espécie de pacto de respeito mútuo ao resultado das eleições. Ontem, o Palácio do Planalto anunciou que Jair Bolsonaro não subscreverá o documento, assinado por entidades empresariais e federações sindicais de trabalhadores, e cancelou a ida do presidente da República ao lançamento do documento, no dia 11 de agosto, na sede da Fiesp. Também foi cancelado o jantar com empresários que estava programado.

A ida de Bolsonaro à Fiesp fora antecipada para 11 de agosto a pedido do Palácio do Planalto. Para evitar mais constrangimentos, o recolhimento de assinaturas de apoio ao manifesto da federação ficou restrito às entidades empresariais e sindicatos de trabalhadores, para que as assinaturas dos candidatos dos presidentes fossem recolhidas antes de as pessoas físicas aderirem o documento. Ocorre que Bolsonaro não digeriu as manifestações em defesa da urna eletrônica, da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF), e torpedeou as iniciativas.

Na terça-feira, Bolsonaro atacou o documento da Fiesp, que considerou uma “carta política”. Chamou de “cara de pau” e “sem caráter” os empresários que assinassem o documento, o que provocou o cancelamento do jantar que estava marcado com eles. Também houve muita discussão entre os que já haviam aderido ao manifesto, se os empresários deveriam assinar ou não o documento como pessoa física. O texto em nenhum momento cita o presidente da República. Os candidatos Felipe D’Ávila (Novo), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), que já estiveram na Fiesp, subscreveram o documento.

Sociedade civil

O episódio tende a aprofundar o confronto de Bolsonaro com a sociedade civil, a praticamente dois meses das eleições. Em termos gerais, esse é um espaço de organização e representação que não se confunde com o Estado, a família nem o mercado, que são os ambientes específicos e mais homogêneos onde Bolsonaro atua intensamente. A sociedade civil engloba instituições de caridade, grupos de autoajuda, associações profissionais, religiosas, sindicatos, entidades empresárias, movimentos sociais etc. É um universo complexo que, no Brasil, ganhou autonomia durante o regime militar, protagonizando movimentos de resistência em defesa da democracia e dos direitos humanos.

Os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas, à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente depois de seu encontro com diplomatas estrangeiros para levantar suspeitas sobre a segurança das urnas eletrônicas, despertaram forte e inédita reação da sociedade civil. A defesa das urnas eletrônicas até então estava sendo feita pelos ministros do Supremo, pela grande mídia e pela oposição. Esses ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua segurança e eficiência, funcionaram como um catalisador dessa reação.

Congresso

Ontem, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), na abertura da sessão do Plenário, reiterou sua confiança no sistema eleitoral. Disse que as urnas eletrônicas são motivo de “orgulho nacional”. Segundo ele, nestes 26 anos de uso no Brasil, trouxeram transparência, confiabilidade e velocidade na apuração do resultado das eleições. “Elas têm-se constituído em ferramenta poderosa contra vícios eleitorais muito frequentes na época do voto em papel. Representam, portanto, um verdadeiro aperfeiçoamento institucional”, enfatizou.

A fala de Pacheco coincidiu como a ida de militares do Ministério da Defesa ao Tribunal Superior Eleitoral (STF) para conferir a segurança dos códigos-fonte das urnas eletrônicas, um trabalho que poderia ter sido feito nos últimos 10 meses. O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, vem reproduzindo à frente da pasta a narrativa de Bolsonaro sobre a segurança das urnas eletrônicas. Na verdade, a postura de Bolsonaro sinaliza temor de perder as eleições e suas intenções golpistas, o que acaba fortalecendo a oposição. 

Correio Braziliense

EUA se comprometem a apoiar desnuclearização da Coreia do Norte




Presidente da Câmara Nancy Pelosi encontrou autoridades coreanas

Seul - A presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi e o presidente da Assembleia Nacional da Coreia do Sul, Kim Jin-pyo, prometeram nesta quinta-feira (4) apoiar a campanha de desnuclearização da Coreia do Norte.

"Ambos os lados expressaram preocupação com a terrível situação da crescente ameaça da Coreia do Norte", disseram Pelosi e o presidente da Assembleia Nacional da Coreia do Sul, Kim Jin-pyo, em comunicado conjunto após reunião em Seul.

"Concordamos em apoiar os esforços dos dois governos para alcançar a desnuclearização prática e a paz por meio da cooperação internacional e do diálogo diplomático, com base na dissuasão forte e estendida contra a Coreia do Norte."

Pelosi também disse em entrevista coletiva que ela e Jin-pyo discutiram maneiras de aumentar a cooperação em segurança regional e questões econômicas e climáticas.

A congressista norte-americana chegou à Coreia do Sul na noite de quarta-feira (3), após uma breve parada em Taiwan, o que causou irritação na China.

O presidente sul-coreano, Yoon Suk-yeol, não se encontrou com Pelosi devido às férias programadas para esta semana, mas manteve um telefonema de 40 minutos com ela, em que prometeu estreita cooperação com o Congresso dos EUA, disse o vice-conselheiro de Segurança Nacional, Kim Tae-hyo.

A mídia sul-coreana especulou que Yoon poderia ter se esquivado do encontro com Pelosi pessoalmente para evitar antagonizar a China, depois que sua visita a Taiwan indignou Pequim, que reivindica a ilha autônoma como seu território.

Reuters / Agência Brasil

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Navio de grãos que saiu da Ucrânia deve chegar ao Líbano até domingo

Embarcação foi inspecionada em Istambul

Kiev - O primeiro navio de carga transportando grãos que partiu da Ucrânia graças a um acordo histórico está a caminho de seu destino final, o Líbano, onde deve chegar no próximo fim de semana.

Carregamentos de grãos da Ucrânia foram interrompidos pelo bloqueio da Rússia no Mar Negro. O navio, que transporta milho ucraniano, partiu na segunda-feira do porto de Odessa, no sul da Ucrânia. Na quarta-feira (3), ele foi inspecionado por três horas ao largo da cidade de Istambul, na Turquia, antes de zarpar rumo ao Líbano.

Dezesseis outros navios de carga permanecem no sul da Ucrânia para transportar mais grãos. Resta saber, agora, se os carregamentos poderão continuar em meio à ofensiva da Rússia na região.

NHK - emissora pública do Japão

Agência Brasil

O discurso identitário e a falta de Freud




É apenas a liberdade que nos permite simultaneamente empatizar uns com os outros e guardarmos para com eles uma indiferença positiva que é uma forma de reconhecer a sua autonomia. 

Por Paulo Tunhas (foto)

A propósito de um artigo de Pacheco Pereira e outro de Ricardo Araújo Pereira, em torno da chamada “linguagem inclusiva” e do glossário LGBTetc., houve um pequeno caudal de prosa abespinhada que se publicou por aí, nomeadamente no Público, que cada vez mais toma para si a missão de educar os verdadeiros “portugueses de bem” nas delícias do delírio contemporâneo. Essa prosa não era muito importante. Na verdade, era insignificante, oscilando entre o furor indignado – um estilo recorrente na opinião jornalística – e uma muito cómica pretensão à cientificidade – uma não menos habitual manifestação da ignorância que a si mesma se ignora. Tudo isso sem que a língua portuguesa se ria, galhofeira, como Alexandre O’Neill queria, com quem assim escreve – antes, como O’Neill desqueria, falando bonito, chique e pudico. Por essa razão, o simples bom senso aconselharia a deixar a prosa sossegada nas suas agitações e a passar a matérias verdadeiramente interessantes.

Acontece, no entanto, que a prosa em questão, a tal prosa chique e pudica, acaba por ser significativa de um certo ponto de vista: ela exprime, à sua maneira fruste, uma tendência geral do pensamento democrático contemporâneo que encarna, sem verdadeiro paradoxo, uma vocação despótica, uma tendência que, com uma presciência que nunca será demais sublinhar, Tocqueville diagnosticou já em meados do século XIX. Na sua forma actual, essa tendência manifesta-se de múltiplas maneiras, que são coerentes entre si e que transcendem de longe as questões de género: o apelo a uma regimentação da linguagem, tão mais invasiva quanto novas proibições do uso linguístico se sucedem umas às outras, acompanhando a luxuriante criação de novos termos, quer de utilização obrigatória, quer denominando o que se poderia chamar “crimes de palavra” (por exemplo, “capacitismo”); a divisão da sociedade em identidades estanques que não comunicam entre si, já que tal comunicação seria vista como um modo de ceder ao poder opressivo de uma suposta maioria que tem por objectivo único a destruição dessas mesmas identidades; a própria exorbitação das identidades, que as alça a um patamar metafísico absoluto; e a dissolução dos indivíduos, com a sua dinâmica própria, na identidade metafísica que são supostos representar (veja-se tudo o que se diz sobre o “género”). Poderia continuar, mas isto chega.

É difícil não ver neste tipo de discurso uma quase paródia do platonismo, sem, obviamente, a consciência das aporias que o génio de Platão reconheceu na sua própria construção. Como se sabe, Platão distinguia o mundo das ideias, ou das formas, eterno e inamovível, do mundo fenomenal, passageiro e mutável. Os habitantes do mundo fenomenal “participavam” dos habitantes do mundo das ideias, recebendo destes o que de precária realidade ontológica possuíam. O que obrigava Platão a reconhecer, no mundo das ideias, o kosmos noetos, ideias como, por exemplo, a de pêlo, da qual os pêlos sensíveis seriam uma cópia ou imitação. O novo platonismo do discurso identitário reproduz, na sua essência, este arranjo metafísico das coisas. Até na sua dissolução dos indivíduos em identidades absolutas das quais são provisórias encarnações. E não há a mínima variação sensível que, à imagem do pêlo, não encontre logo uma ideia eterna que lhe corresponda e que a “ciência” justifica (aquele “+” em “LGBTQIA+” indica exactamente o infinito dessa população no mundo das ideias). A diferença principal entre as duas construções reside aqui, é claro, para além daquela que resulta do génio de Platão, em que a primeira foi, logo desde Aristóteles, vista por muitos como como uma depreciação do sensível e da sua riqueza e a segunda é concebida como uma “libertação”.

Mas não é uma “libertação”. Basta ler Montaigne para ver que não é. A identidade dos indivíduos – de todos os indivíduos – é dinâmica, não matemática. Cada um busca para si, ao longo da vida, a criação de uma “forma própria”. Mas essa criação faz-se na vida, que é um movimento imperfeito, avesso à estabilidade e à solidez. “Há pouca relação entre as nossas acções, que se encontram em perpétua mutação, e as leis fixas e imóveis”. Não passamos, como ele diz, de retalhos diversos, no fundo descosidos uns dos outros, e mesmo descosidos de nós mesmos, mesclados e remendados. Montaigne viu bem que a criação da “forma própria” é o resultado de uma dissemelhança constante que permite, no fim, uma auto-imposição de limites, um apanhar da vida como um todo. Aqui sim, trata-se de libertação. A “forma própria” não é o resultado de uma “participação” no mundo das ideias. É o resultado de uma actividade que é, no fundo, uma actividade de auto-elucidação.

Não andamos, por acaso, longe de Freud. Há muito tempo que me apanho a lamentar o modo como Freud se tornou um pensador maldito e propriamente irrecebível para a cultura contemporânea, algo que alguém com a minha idade teria dificuldade, uns anos atrás, em imaginar. Não falo de Freud como o inventor de uma técnica terapêutica nem da psicanálise como um todo: falo de Freud como um filósofo da alma – ou da psique, se se preferir a palavra de origem grega à palavra de origem latina. Nestes tempos, Freud faz imensa falta. Até porque se encontra nos antípodas do platonismo despótico do discurso identitário.

Com efeito, como vários outros filósofos, Freud concedeu uma grande importância ao princípio da continuidade. Há continuidade entre as várias formas de sexualidade. Há continuidade entre cada ser humano e a variedade quase ilimitada da humanidade. Há continuidade entre o pensamento vigil e o pensamento do sonho. Há continuidade entre os factos psíquicos normais e os factos psíquicos mórbidos. E por aí adiante. E é sobre essa continuidade que se estabelecem todos os conflitos dinâmicos que constituem a vida psíquica. O projecto de Freud – fazer nascer o Eu aí onde se encontra o Id, o inconsciente – possui notáveis semelhanças, sob vários aspectos, com o de Montaigne: o Eu freudiano – que, conquistando espaço ao Id, nos permite melhor amar e trabalhar, transformando a miséria neurótica em banal sofrimento – é afim da “forma própria” de Montaigne.

Freud faz falta porque o seu pensamento é um convite à reflexividade que é a condição indispensável da liberdade. E é apenas a liberdade que nos permite simultaneamente empatizar uns com os outros – o que implica a admissão da continuidade que nos liga – e guardarmos para com eles uma indiferença positiva que é uma forma de reconhecer a sua autonomia. Tudo aquilo que o identitarismo contemporâneo, na violência sobre a linguagem comum que exerce, nega, quaisquer que sejam as boas intenções – em Portugal, as boas intenções do puritanismo possível a católicos ateus – que em muitos casos o possam mover.

Observador (PT)

Nazistas queimavam livros. Progressistas cancelam obras em nome do "bem".




Quem tem convicção de ser altamente virtuoso não costuma fazer concessões contra o que imagina ser o mal. 

Por Jones Rossi (foto)

Nesta semana, o influenciador digital Felipe Neto mostrou-se incomodado com a leitura do clássico 'Moby Dick', de Herman Melville. "Queria perguntar uma coisa para quem entende verdadeiramente de literatura. Vi parágrafos profundamente racistas em 'Moby Dick', continuei a leitura do livro de nariz torcido, estou realmente incomodado. O livro é de 1851. O que é recomendado em casos assim? Como vocês avaliam?"

A julgar pela mentalidade censora que vigora atualmente em vários setores da sociedade, não vai demorar para alguém sugerir que o livro seja reescrito, apagando as partes "sensíveis", ou até mesmo banido. Antigamente era fácil condenar tais arroubos autoritários. Hoje em dia a censura é feita em nome do "bem", portanto muito mais difícil de combater.

Afinal de contas, é fácil identificar o inimigo quando ele queima livros em praça pública. Em 1933, ficou claro quem eram os vilões quando os nazistas fizeram uma imensa fogueira em Berlim com obras de Kafka, Freud, Marx e Einstein. Não pararam por aí. Como vaticinou o poeta judeu Heinrich Heine: “Onde se lançam livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens”.

Vinte anos depois, Ray Bradbury publicou 'Fahrenheit 451', que se passa em um futuro distópico no qual todos os livros foram proibidos. Nesta sociedade, a função dos bombeiros não é apagar incêndios, e sim iniciá-los com os volumes clandestinos encontrados nas casas de quem ainda teima em contrariar o regime.

Até aqui, está evidente que todo regime que queime obras literárias é intrinsecamente maligno. E ninguém com o mínimo de bom senso gostaria de ficar ao lado deles. Mas e se eu disser que já estamos jogando livros e mais livros na fogueira, de um modo muito mais insidioso, e tudo isso em nome do bom senso, do bem de todos?

Livros que você não deve ler

Quando a revista americana Esquire publicou uma lista de “80 livros que todo homem deveria ler”, com o subtítulo “Uma lista incompleta, sem ranking e altamente parcial das grandes obras da literatura mundial”, talvez não imaginasse a controvérsia que ela geraria. Embora listas sejam sempre objeto de debates acalorados entre fãs, estudiosos ou simplesmente palpiteiros, a discussão iniciada foi de outra natureza: moral.

A escritora Rebbeca Solnit, conhecida por criar o termo mansplaining (que em português já se tentou traduzir com uma só palavra — homexplicando — , mas, como pode se notar, não caiu nas graças do povão), escreveu um artigo replicando a lista da Esquire sob o título “80 livros que nenhuma mulher deveria ler”. No texto, Solnit critica a lista por vários motivos, e explica que ela, apesar do título do texto, acredita que as mulheres devem ler o que quiserem. Mas deixou claro que as pessoas deveriam substituir a leitura de Saul Bellow, John Updike, Norman Mailer e Philip Roth, “misóginos”, por Philip Levine, Subcomandante Marcos (líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional do México), Eduardo Galeano e Barry Lopez.

A Esquire chegou a publicar uma espécie de retratação. Com o título “80 livros que toda PESSOA deveria ler”, a revista convocou uma série de mulheres influentes na literatura para opinar, como a premiada ex-chefe da seção de crítica literária do New York Times, Michiko Kakutani, e a escritora Lauren Groff, entre outras.

Para Sarah Churchwell, em um artigo no jornal inglês Guardian, a coisa mais importante a ser dita sobre 'Moby Dick', o livro que tanto incomodou Felipe Neto, é que mulheres aparecem em apenas duas das 600 páginas. No texto, além de Updike e Mailer, são igualmente criticados os escritores Jonathan Franzen e J.M. Coetzee por praticarem o gaslighting (outra palavra de difícil tradução, usada para indicar quando um homem tenta fazer uma mulher passar por louca) contra as feministas.

Ambas são análises válidas à luz da evolução da sociedade. Ninguém deseja um retorno a uma época em que as mulheres não tinham voz. O que não faz sentido é desprezar Updike e Mailer como apenas “pênis com um bom vocabulário” porque seus livros, escritos há meio século ou mais, não rezam a cartilha politicamente correta dos anos 2010 e 2020.

Lobato revisado

Desde 2010, a obra de Monteiro Lobato tem passado por um revisionismo histórico. Gerações que passaram a infância lendo as aventuras de Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e Emília descobriram agora, à luz de novas leituras, que foram alfabetizados com uma obra racista. Professores da UERJ descobriram que, em 'Reinações de Narizinho', o escritor se refere à Tia Nastácia como “a negra” 56 vezes.

Em artigo na revista Carta Capital, comentando o caso, Mauricio Dias rejeita vetar o livro. “Os pais têm o direito de comprar as obras do autor e, com elas, presentear os filhos. Pelo aniversário ou por qualquer outra razão”, diz, mas faz uma ressalva sutil. “O poder público não pode propagar a visão racista de Monteiro Lobato.”

No livro 'O choque das raças', Lobato faz afirmações que não deixam dúvida de que era racista e defendia inclusive a eugenia. Se a proibição se faz necessária, aí é outra história. O Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) quis banir o livro 'Caçadas de Pedrinho' das escolas. A iniciativa foi rechaçada por João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infantojuvenil e coautor do livro 'Monteiro Lobato — Livro a livro'. “Tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros, elas se apegam ao que é bom, à essência da história — e, no caso de Lobato, essa essência não é racista.”

O clássico 'As Aventuras de Huckleberry Finn', de Mark Twain, o primeiro grande escritor americano, também foi acusado de ser racista pelo linguajar usado — o terno nigger, de conotação altamente ofensiva, é repetido mais de 200 vezes ao longo da obra. Em 2011, depois de várias reclamações, foi criada uma edição da obra em que o termo é substituído pela palavra “escravo”.

Quando o repertório literário, em nome da virtude, é reduzido, o resultado não é bom. O professor Mark Lilla, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, em seu livro 'O progressista de hoje e o de amanhã', lançado no Brasil pela Companhia das Letras, mostra como essa obsessão com políticas identitárias está empobrecendo o ambiente universitário.

“Os colégios e faculdades supostamente desinteressantes e convencionais dos anos 1950 e começo dos anos 1960 incubaram, talvez, a mais radical geração de cidadãos americanos surgida no país desde a sua fundação”, diz Lilla. “As universidades dos nossos dias cultivam alunos tão obcecados com sua identidade pessoal, que eles têm bem menos interesse e envolvimento no que acontece lá fora. Nem Martin Luther King Jr. (que estudou teologia cristã), nem Angela Davis (que estudou filosofia oriental) receberam uma educação baseada em identidade. E é difícil imaginá-los se tornando o que se tornaram se tivessem tido o azar de receber uma.”

Novas formas de censura

Updike e Mailer eram misóginos? Com a mesma certeza que é possível afirmar que Lobato era racista. Seus livros devem sofrer alterações para se adequar ao que a sociedade acha correto hoje em dia, ou mesmo serem banidos? É aqui que começa a se alicerçar as bases para um novo tipo de censura, uma censura “do bem”. Se a sociedade optar por algo menos drástico, como fez a editora que reescreveu 'As Aventuras de Huckleberry Finn', quando será prudente parar, quando ficará evidente a linha que separa a censura das boas intenções?

Pode ser que em alguns anos ou em algumas décadas não seja mais de bom tom publicar livros em que animais são mortos de forma violenta. Se, por algum motivo, toda a humanidade decidir pelo veganismo, será de bom tom vasculhar os livros em busca de refeições carnívoras e reescrever tudo para que nenhuma sensibilidade seja afetada?

Embora possa parecer um exagero, existem situações atuais que tratam quase da mesma coisa. A Associação Americana de Cinema (Motion Picture Association of America, MPAA) enfrenta desde 2016 um processo contra a representação do cigarro nos filmes. Os motivos que pedem a proibição são ótimos: estudos já provaram uma correlação entre o hábito de fumar na adolescência com o cigarro nas telas. O exemplo das estrelas de cinema fumando ultrapassa os modelos familiares, afirmam os pesquisadores. Retirar qualquer tipo de menção aos cigarros dos filmes poderia salvar 18% das 5,6 milhões de vidas que serão perdidas por causa de doenças relacionadas ao hábito.

É difícil não concordar. Esses 18% representam 1 milhão de vidas. Fumar é ruim para a saúde, não há dúvidas. Não tão ruim, mas ainda assim ruim, é ficar sentado durante várias horas ao dia. Fique mais de seis horas e veja seu risco de morrer nos próximos 15 anos aumentar em 40%. Especialistas, pelo bem da sociedade, poderiam criar uma lista com todos os hábitos que de forma alguma poderiam ser representados nas telas. Começariam com os infames cigarros, passariam para as comidas gordurosas, então álcool, açúcar, e assim por diante numa sucessão quase infinita de riscos à saúde.

Melhor ainda, com o apoio da sociedade.

'Fahreinhet 451', de Bradbury, se torna então mais assustadora, pois não é uma distopia em que o totalitarismo foi imposto de forma brutal aos cidadãos. Tudo acontece de forma mais traiçoeira, a partir do senso comum, de uma moral estabelecida a partir das maiorias, contra as inquietações trazidas pelos livros, que por natureza são questionadores, perturbadores.

É justamente essa nova moral, construída pelo bem da sociedade, que está entrando em vigor. Poucos hoje têm a audácia de sugerir proibições e banimentos de obras porque a História está cheia de exemplos de como somente os piores regimes colocaram em prática este tipo de ação. Mas, ao dar uma roupagem progressista à proibição, as chances de sucesso tendem a aumentar conforme elas ganham um status de proteção às crianças, adolescentes e posteriormente são estendidas a toda a população.

Uma característica interessante desse novo tipo de censura que está surgindo é que ela não é proposta por brucutus armados, pessoas mal-intencionadas por natureza. É o contrário. São pessoas instruídas, que buscam o bem. Mas é justamente essa incessante busca por mostrar o tempo todo quem tem sentimentos mais elevados, sem fazer qualquer tipo de concessão, que pode produzir resultados nefastos. Quem tem convicção de ser altamente virtuoso não costuma fazer concessões contra o que imagina ser o mal.

Nelson Rodrigues costumava dizer que “há coisas que o sujeito não confessa ao padre, ao psicanalista, e nem ao médium, depois de morto”. Livros não precisam ser depósitos de justiça social para terem valor. Como o mesmo Nelson, que sofreu tantas vezes com tentativas de censura motivadas pela mais elevada moral então vigente, afirmou: “Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

Gazeta do Povo (PR)

5 Zelensky acusa Anistia Internacional de apologia ao 'Estado terrorista' da Rússia




O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, acusou, nesta quinta-feira (4), a Anistia Internacional (AI) de apologia ao "Estado terrorista" da Rússia, depois que a ONG culpou Kiev por colocar civis em perigo.

A AI "transfere a responsabilidade do agressor para a vítima", acrescentou Zelensky. Poucas horas antes, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, afirmou estar "indignado" com as acusações "injustas" da ONG.

Em um relatório publicado nesta quinta-feira após uma investigação de quatro meses, a AI disse que os militares ucranianos colocaram civis em risco ao estabelecer bases militares em escolas e hospitais e lançar ataques de áreas povoadas para impedir a invasão russa.

Segundo a ONG, essas práticas violam o direito humanitário internacional.

"A agressão ao nosso Estado é injustificada, invasiva e terrorista. Se alguém escreve um relatório em que a vítima e o agressor são de alguma forma equiparados, se alguns dados da vítima são analisados e as ações do agressor são ignoradas, isso não pode ser tolerado", acrescentou Zelensky em seu discurso diário em vídeo.

Kuleba acusou a ONG de estabelecer uma "falsa equivalência" entre as ações das forças invasoras russas e das tropas ucranianas que defendem o país.

Em seu relatório, a AI enfatiza que as táticas ucranianas "não justificam de forma alguma os ataques indiscriminados da Rússia" contra a população civil.

AFP / Estado de Minas

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