sábado, junho 25, 2022

A guerra linguística contra as mulheres




Como a palavra “mulher” se tornou proibida na sociedade woke. 

Por Brendan O'Neill (foto), Spiked

Há algumas semanas, assistimos a dois machos biológicos — ou homens, como costumávamos chamá-los — vencendo o primeiro e segundo lugares em uma prova de ciclismo feminina. Vimos o Ministério Público inglês (Crown Prosecution Service, ou CPS) contratar uma consultora de diversidade, que é trans e já havia sugerido que a palavra “mulher” em inglês (“woman”) poderia ser substituída por “womxn” — algo como “mulhxr”.

Ficamos sabendo que funcionários públicos receberam treinamento de equalitarismo, que os instruiu que a expressão “humana adulta” — que é a definição do dicionário para mulher — é uma mensagem cifrada transfóbica. Vimos a publicação de um novo estudo da King’s College London que sugere que uma maneira de evitar polêmicas relacionadas a sexo/gênero seria mudar a formulação de questões em documentos oficiais, como o censo. Por exemplo, você pode perguntar à pessoa entrevistada “você menstrua?”, em vez de “você é uma mulher?”.

Qualquer pessoa que duvide de que a palavra mulher, e toda a ideia da condição da mulher, está sendo apagada, sacrificada no altar da ideologia da transgeneridade com certeza levou um susto nos últimos dias. Enquanto homens reivindicam prêmios em esportes femininos, fica claro que os esportes femininos correm o risco de se tornar uma coisa do passado. Quando instituições poderosas, como o CPS e o funcionalismo público, flertam com a ideia de que é pecado dizer as palavras “humana adulta”, é óbvio que até falar sobre mulheres se tornou algo arriscado.

Quando alguém tão mundialmente influente quanto Michelle Obama usa a palavra impronunciável “womxn”, como aconteceu nos “Stories” de sua conta de Instagram, você sabe que não são só universitários malucos com tempo livre e cabelo pintado de roxo que entraram no túnel da fluidez de gênero. Não, do mundo dos esportes à política, do sistema judicial à burocracia estatal, a ideia de que o sexo pode ser alterado e que a linguagem deve ser alterada para evitar que a minoria trans seja ofendida se tornou a ortodoxia.

“Mulher” é um termo ofensivo?

Surpreendentemente, o uso da palavra “womxn” por Michelle Obama estava relacionado à polêmica do caso Roe versus Wade. Ela compartilhou no Instagram uma série de slides criados pela organização sem fins lucrativos When We All Vote. Um deles dizia: “Legisladores do Estado terão o poder de privar as mulherxs do direito de tomar decisões sobre seu corpo ou seus cuidados de saúde”. Existe uma ironia sombria nesse comentário, um comentário que expõe como a guerra contra a condição da mulher se tornou uma confusão.

Que os “Stories” do Instagram endossados por Michelle Obama se preocupem com as mulheres sendo privadas do direito de controlar o próprio corpo e, no entanto, implicitamente privem as mulheres do direito de usar certas palavras quando falam sobre si mesmas e de suas necessidades. “Womxn”, ou “mulhxr”, é um termo repressor, usado para fazer as massas femininas lembrarem que a categoria delas agora também inclui homens. Como o dicionário on-line Dictionary.com afirmou em 2019, o verbete “womxn” foi criado para ser “inclusivo para pessoas trans e não binárias”.

É isso, amigos. Ao excluir a palavra antiga e supostamente problemática “mulher”, mesmo enquanto se preocupa que as mulheres — desculpem, mulhxr — sejam privadas da autonomia sobre seu corpo, When We All Vote involuntariamente destaca as profundas confusões e o profundo não liberalismo por trás do atual apagamento da condição da mulher.

Praticamente nenhum dia se passa sem novos relatos sobre a guerra linguística contra a condição da mulher. Então, a recente questão sobre o funcionalismo público envolve um grupo chamado A:gênero, que defende pessoas trans e intersexo que trabalham em departamentos do governo. O jornal The Times conseguiu alguns vídeos de treinamento que o A:gênero produziu, que são vistos por milhares de funcionários públicos todo ano. Um deles afirma que é impossível definir uma mulher e que dizer “humana adulta” pode ser “transfóbico”.

Atenção, esses educadores woke alertam o funcionalismo público para a “transfobia, que é cada vez mais apresentada como feminismo”. Para reforçar, estamos falando de funcionários públicos, das pessoas responsáveis pelo bom funcionamento da nação. E está sendo explicado a eles que, se você disser em voz alta o que o dicionário define sobre o que é uma mulher, você é preconceituoso. Tem sido ensinado a eles que figuras como JK Rowling, cujo grande crime de pensamento é entender a biologia, promovem o ódio disfarçado de feminismo.

“Você menstrua?”

E então temos o CPS, que contratou Sophie Cook, uma ativista trans, para ocupar um cargo importante de diversidade e inclusão. Essa é a mesma Sophie Cook que já usou o termo ofensivo TERF (trans exclusionary radical feminists, ou feminista radical transexcludente) para se referir a mulheres que acreditam que o sexo é imutável e que os direitos das mulheres devem prevalecer sobre as necessidades emocionais de homens que acham que são mulheres. Cook também defendeu o termo woke inclusivo “womxn” e perguntou em uma discussão no programa Newsnight por que algumas feministas ficam “tão ofendidas com ele”. Talvez porque esse termo limite de forma explícita sua capacidade de falar exclusivamente sobre mulheres? (Mulheres de verdade.)

O projeto The Future of Legal Gender (“O futuro do gênero legal”), da King’s College London, registrou como o ataque linguístico às mulheres pode ser desumanizante. Uma de suas propostas é que o censo poderia se fazer menos ofensivo para as pessoas trans se perguntasse “você menstrua?”, em vez de “você é mulher?”. Más notícias para as mulheres que entraram na menopausa. Elas não contam. Talvez sua existência importe menos do que os sentimentos dos homens que acham que são mulheres?

Todo esse contorcionismo linguístico tem sérias consequências no mundo real. Na semana passada, no universo dos esportes, dois homens — “mulheres trans” — ficaram em primeiro e segundo lugares na prova de ciclismo feminino ThunderCrit, que foi realizada no Velódromo Herne Hill, em Londres. Em resposta às críticas de mulheres que, com razão, perguntaram por que havia apenas uma mulher no pódio de uma corrida supostamente feminina, os organizadores da ThunderCrit disseram que não pretendiam falar com ninguém que só estivesse interessado em “impor sua narrativa”. Por que é uma “narrativa” quando as mulheres dizem que esportes femininos deveriam ser apenas para mulheres, mas não é uma “narrativa” quando a ThunderCrit decide abraçar e promover a estranha ideologia que afirma que qualquer um pode ser uma mulher se quiser?

Uma consequência ainda mais sinistra da nova misoginia linguística também veio à tona na semana passada. Foi revelado que a BBC, em um artigo sobre lésbicas que se sentiram pressionadas a fazer sexo com “mulheres trans”, mudou o gênero do suposto agressor para não ofender ninguém. Uma suposta vítima de estupro conversou com a BBC para essa reportagem e usou os pronomes “ele” e “dele” para se referir ao agressor. Mas a BBC substituiu todos os pronomes masculinos por pronomes neutros (“they” e “them”, em inglês). Uma fonte da BBC disse ao The Times: “Não consigo pensar em nenhuma outra situação em que mudaríamos as palavras de uma suposta vítima de estupro”.

A BBC protege um estuprador

Essa é uma questão muito séria. Se a emissora pública britânica está agora mais preocupada em não ofender supostos estupradores do que em falar a verdade — nesse caso, que uma mulher afirmou ter sido estuprada por um homem —, então está claro que a histeria linguística do momento está impactando nossa capacidade de entender o mundo à nossa volta, de conhecer a verdade. A vergonhosa decisão da BBC de proteger um suposto estuprador de uma ofensa reproduz os desdobramentos do sistema judicial, em que alguns policiais do Reino Unido afirmaram que vão registrar estupros como tendo sido cometidos por mulheres, se o agressor se identificar como mulher. Em pouco tempo, sem dúvida, a requerente vai ser pressionada a dizer “ela” e “dela” sobre o homem que supostamente enfiou o pênis em seu corpo. Será uma conclusão aterrorizante, mas totalmente lógica, para o desvio orwelliano na discussão de todas as coisas relacionadas à mulher.

Tudo isso aconteceu há poucas semanas no Reino Unido. Mulheres banidas do pódio em um esporte feminino. O funcionalismo público e o CPS sendo influenciados por pessoas que acreditam que existe um problema com a palavra mulher. A BBC exposta por sua interferência, por razões ideológicas, no depoimento de um suposta vítima de estupro. Tudo isso são consequências sinistras da sacralização da ideologia trans e do cancelamento de tudo e qualquer coisa que ofenda a sensibilidade trans.

A linguagem é arrogantemente reescrita pelas elites, palavras comuns são redefinidas como expressões de intolerância, é negado às mulheres o direito de se descrever como quiserem, e a própria verdade se torna um sonho distante, enquanto a precisão linguística é substituída pela novilíngua e pelo politicamente correto. Não são os estudantes de estudos de gênero que estão liderando tudo isso — é a BBC, é o governo, são as Cortes e é o establishment cultural. Uma contrarrevolta contra esse terror linguístico é absolutamente necessária.

*Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show.

Revista Oeste

Em 10 anos, inteligência artificial pode ter sentimento, diz executivo




Curitiba sedia Viasoft Connect, evento de inovação

Por Daniel Mello 

Curitiba - Em até dez anos, os sistemas de inteligência artificial serão capazes de ter “sentimentos” e tomar decisões próprias, disse hoje (24) o vice-presidente para América Latina da H2O.ai, Daniel Garbuglio.

“Para que a gente precisa de máquinas que têm sentimento? Isso é um caminho que está se convergindo em futuro de cinco a dez anos”, afirmou durante palestra na Viasoft Connect, evento de inovação que acontece em Curitiba. A empresa, com sede nos Estados Unidos, desenvolveu soluções para mais de 20 mil organizações em todo o mundo.

O executivo explicou que, atualmente, as inteligências artificiais são baseadas em algoritmos, modelos que trazem respostas a partir de dados e cálculos. No entanto, segundo ele, o desenvolvimento desse tipo de tecnologia está avançando na direção de buscar replicar as formas subjetivas de tomada de decisão dos seres humanos.

“O modelo [atual] trabalha em cima de um modelo matemático e pronto. O que estão fazendo, e não quer dizer que eu concorde com isso, a ideia é que a máquina comece a tomar decisões por ela própria, mas não baseada no algoritmo, baseada em um outro modelo que é o que o cérebro faz hoje”, explicou em entrevista à Agência Brasil.

Esse futuro próximo está longe, segundo Garbuglio, das previsões desastrosas de alguns filmes de ficção científica, como o Exterminador do Futuro. Mas, deverá trazer debates importantes. “Como eu vou definir que esse é o sentimento bom e esse é o sentimento ruim? Como isso vai influenciar a decisão das pessoas?”, questionou sobre as portas que serão abertas com a construção dos novos modelos. “Porque, hoje, o processo decisório é fácil”, compara em relação aos sistemas que usam algoritmos.

A inserção de padrões subjetivos na programação deve ser feita, na opinião de Garbuglio, com muita cautela, porque serão definidoras de tudo que a máquina fará dali em diante.

“A hora que eu colocar sentimento, achando você bonito e ele não tão bonito, você monta modelos de padrões de beleza”, exemplificou. Mas, acrescentou, o ponto é justamente no momento da definição inicial. “O problema é na hora que eu decido o que é bonito. Isso é uma coisa que você tem que tomar muito cuidado, porque você começa a colocar nas máquinas a capacidade de decidir 100% por você”, enfatizou.

Análise de comportamento

Atualmente, os modelos de inteligência artificial já são capazes de mapear os sentimentos de pessoas a partir de padrões de comportamento. O executivo citou como exemplo a solução desenvolvida pela H2O para uma grande empresa de cimento do México.

A companhia enfrentava grandes problemas operacionais e prejuízos financeiros toda vez que um dos diretores deixava o cargo. “Nós criamos para eles, para o departamento de recursos humanos, um modelo de previsibilidade, baseado no padrão de e-mail que o cara escreve para saber a chance de ele sair em seis meses”, contou.

A análise leva em consideração os padrões de comportamento anteriores, como tempo de resposta e termos usados, cruzando com outras informações, como se o profissional está ou não de férias.

“Quando você lê um livro, é a mesma coisa que escrever um e-mail, a gente tem algoritmos que conseguem ler e saber se está aumentando o nível de tensão da conversa”, disse.

Esse tipo de tecnologia está, de acordo com Garbuglio, sendo requisitada por empresas que trabalham com marketing político no Brasil, devido à aproximação das eleições.

“Em inteligência artificial, a gente tem alguns clientes que estamos ajudando, empresas de marketing, a analisar perfis de comportamento toda vez que um político posta [conteúdo nas redes sociais]” revelou.

O repórter viajou a convite da organização do Viasoft Connect.

Agência Brasil

Com mortos e feridos, aumentam os prejuízos da invasão da Ucrânia




Guerra por ter matado 100 soldados ucranianos por dia

Tóquio - Em quatro meses desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, os dois lados perderam um grande número de soldados.

No dia 11 de junho, o conselheiro presidencial da Ucrânia, Oleksiy Arestovych, sugeriu que seu país estivesse perdendo cerca de 100 soldados por dia. Ele observou também que o total geral de mortes de soldados ucranianos poderá chegar a 10 mil.

O Ministério da Defesa da Rússia anunciou, em fins de março, que 1.351 soldados do país haviam morrido em batalhas na Ucrânia. Depois disso, a Rússia não voltou a divulgar números.

Contudo, no dia 23 de maio, o Ministério da Defesa do Reino Unido sugeriu que cerca de 15 mil militares russos podem ter morrido na Ucrânia.

Durante uma entrevista concedida à revista norte-americana National Defense, no dia 15 de junho, um comandante de logística do comando de forças terrestres da Ucrânia disse que seu país perdeu cerca de 400 tanques de guerra, 1.300 veículos de combate de infantaria e 700 sistemas de artilharia, podendo chegar a 50% dos respectivos totais.

Poder de fogo

No dia 12 de junho, o ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov, disse à revista The Economist, que em algumas regiões as forças russas têm dez vezes mais poder de fogo que a Ucrânia. O ministro exortou países do Ocidente a apressar o suprimento de armas para a Ucrânia.

O prejuízo econômico dos bombardeios terrestres e aéreos da Rússia também está aumentando.

Segundo um relato da Escola de Economia de Kiev, o prejuízo direto à infraestrutura da Ucrânia até o dia 8 de junho havia atingido 103,9 bilhões de dólares. O relato acrescentou que estradas, aeroportos, instituições de saúde e escolas foram danificados.

Segundo uma estimativa, até o fim de maio o prejuízo econômico da Ucrânia teria atingido o equivalente a cinco vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do país.

NHK (emissora pública de televisão do Japão)

Agência Brasil

Imprensa americana: desconectada do mundo real?




Apenas 30% dos americanos acreditam que os meios de comunicação cobrem os fatos como eles são e 25% que administram bem a informação. 

Por Vilma Gryzinski

O público americano, principalmente fora dos grandes centros, é de Marte e os jornalistas são de Vênus. Esta é, metaforicamente, a conclusão de uma pesquisa do Pew Research Center, que consultou 12 mil jornalistas e cotejou sua opiniões com a do público em geral.

Dos profissionais da imprensa, 65% disseram que seus veículos fazem um trabalho sério na cobertura dos assuntos mais importantes do dia. Apenas 30% do público acha a mesma coisa.

Fiscalizar os detentores do poder político é uma das missões que 52% dos jornalistas consideram que fazem bem. Menos de três em cada dez americanos fora da profissão acham a mesma coisa.

Outro dado: 43% dos jornalistas acham que administram bem a desinformação, contra 25% do público em geral.

Um número parecido, de 46%, se considera bem conectado com seus leitores e ouvintes, mas só um quarto do público sente a mesma coisa.

Escrevendo no The Hill, Joe Concha atribuiu o fenômeno ao fato de que a maioria esmagadora dos jornalistas se concentra no eixo Nova York e Washington (o equivalente a São Paulo-Rio-Brasília). “A bolha é real”, comentou.

Ele lembra que em 2020, Donald Trump teve exatamente 9% dos votos em Manhattan, proporção mais baixa ainda em Washington – 5,4%. É claro que os meios de comunicação refletem este bioma mental. “Não conheço ninguém que votou nele”, se tornou uma das maiores desculpas para o choque de realidade nos meios de comunicação quando Trump foi eleito, em 2016.

O desaparecimento dos pequenos jornais do interior, tragados pela era digital, acabou com o equilíbrio entre liberais e conservadores que a imprensa regional tinha. Restaram os grandes veículos entre os quais, com a única exceção da Fox, prevalece o progressismo.

A maneira apaixonadamente partidária, militante, com que a eleição de 2020 foi coberta produziu até uma aberração. Quando o New York Post publicou uma reportagem mostrando e-mails comprometedores de Hunter Biden, o filho problema (apesar de já estar com 52 anos), do então candidato democrata, a repercussão foi de extrema negação.

O Twitter baniu o Post e a grande imprensa caiu matando para desmerecer os fatos apresentados. Só este ano o Washington Post admitiu que havia errado e o New York Times enterrou o desmentido no milionésimo parágrafo de uma reportagem: os e-mails eram autênticos e mostravam Hunter usando o nome do pai, quando era vice-presidente de Barack Obama, para promover seus negócios com investidores estrangeiros.

Joe Concha deu como exemplo da desconexão com a realidade que o excesso de partidarismo provoca uma declaração, que parece saída de um programa humorístico, do apresentador Don Lemmon: “Aqui na CNN não estamos no ramo da opinião, apresentamos a reportagem e procuramos ficar no caminho do meio”.

Nos primeiros cem dias de Trump, 93% das reportagens da CNN sobre o presidente outsider foram negativas.

Agora, quando até os veículos mais militantemente democratas estão decepcionados com Joe Biden – e que as audiências despencaram, com o fim do “efeito Trump -, estão sendo feitas algumas correções. O novo presidente da CNN (o anterior caiu por causa de uma relação não revelada com a chefe de publicidade da rede), Chris Licht, quer “menos opinião e mais jornalismo”, evocando os tempos em que o canal pioneiro das 24 horas de notícias apresentava fatos sem o excesso de comentaristas – e partidarismos.

“As pessoas perderam a confiança na mídia”, constatou Licht.

Quando canais a cabo, jornais ou sites dedicam-se inteiramente a criticar com virulência, às vezes até com antifatos, um presidente como Donald Trump é claro que uma parcela importante do público se sente mal servida. Só para lembrar: Trump teve 75 milhões de votos em 2020, embora ache que teve mais e que a eleição foi roubada.

No mesmo programa em que declarou a CNN isenta, Don Lemmon disse que “existe um partido que está enganando o público americano, e este é o Partido Republicano”. Já o Partido Democrata “está defendendo a democracia”.

Joe Concha lembrou um estudo feito em 2013 mostrando que apenas 7% dos jornalistas se identificavam com o Partido Republicano.

O relatório anual chamado Digital News Report, feito pelo Instituto Reuters, em 46 países, mostrou que a confiança na mídia caiu em 39 deles. No Brasil, este índice é comparativamente alto – 48% -, mas caiu seis pontos.

Donald Trump se elegeu pelo Twitter, Jair Bolsonaro pelas lives na mesma plataforma e “o velhinho do TikTok”, Rodolfo Hernández, quase chegou lá na Colômbia. Todos eram considerados candidatos folclóricos, outsiders sem chances de disputar o primeiro plano. As reações de choque que a vitória de Trump causou em 2016 na grande imprensa tornaram-se legendárias e deram a pista de como seria a cobertura dali em diante.

Agora, até o New York Times, onde os comitês internos de inquisição praticamente tomaram o poder, está dando uma sutil recalibrada com o novo diretor de redação, Joe Kahn.

Uma fonte, obviamente anônima, disse ao Guardian que havia uma sensação de alívio diante do fato de que Kahn é uma pessoas “com pouca paciência para as eclosões de guerrilha cultural na redação que tanto nos desviaram do principal nos últimos tempos”.

Um New York Times menos devorado pelas fogueiras da inquisição digital é bom para si mesmo, depois de ter incinerado profissionais formidáveis como Bari Weiss, e para o resto da imprensa.

Ninguém espera que se torne menos liberal. Inclusive porque perderíamos as oportunidades de sorrir um pouco quando o maior jornal do mundo revela suas tendências em reportagens como a em que tentou desmentir que “os caras bons com armas” são um modo importante para interromper os autores de tiroteios que matam criancinhas e outros inocentes.

O jornal publicou um estudo com 433 casos desse tipo de matança, entre os anos 2000 e 2021. Em 131 deles, a polícia matou ou dominou o atirador. Em 64, foram pessoas comuns, armadas, que subjugaram ou eliminaram os malditos. Ou seja, um total de 195 casos em que os “bons” prevaleceram.

“Mesmo quando agentes da lei respondem rapidamente – às vezes em questão de segundos – ou se policiais já estão no local do crime quando o ataque começa, atiradores ativos podem ferir e matar pessoas”, disse o Times.

A reportagem não se pergunta o que teria acontecido se os “caras bons com armas” não estivessem lá.

Aliás, no último grande caso do tipo, em Uvalde, onde um desgraçado matou 19 alunos e duas professoras de uma escola, a polícia apareceu em questão de poucos minutos, mas o homem no comando não permitiu que usassem suas armas e equipamentos de proteção para salvar vidas inocentes.

Errar faz parte inerente do exercício do jornalismo, que lida com uma dinâmica inexoravelmente fadada a superar os profissionais. Mas quando as opiniões – que obviamente têm um lugar importante – contaminam a esfera dos fatos ou se tornam onipresentes, todos perdem: jornalistas, os veículos onde trabalham e o público que deveria confiar no contrato social implícito entre as partes, mas passa a desconfiar que está sendo mal informado ou manipulado pelos que cedem à tentação da arrogância dos sabe-tudo que desprezam a própria audiência como sabe-nada.

Revista Veja

A importância da Crimeia para a Ucrânia e a Rússia




O objetivo da Ucrânia é expulsar as tropas russas de seu próprio território, inclusive da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. Quão realista é a possibilidade de retomada da península?

Por Thomas Latschan

A ponte de 18 quilômetros de extensão que liga a disputada península da Crimeia à Rússia é de extrema importância para o abastecimento russo. Após a anexação da península, em 2014, Moscou a planejou e a construiu em tempo bastante curto. A ponte abriga uma rodovia de quatro faixas e uma linha de trem. Sua construção teve prioridade sobre quase todos os outros grandes projetos de infraestrutura de transporte russos. Desde 2018, ela conecta a cidade de Kerch, no extremo leste da Crimeia, com a península russa de Taman.

A ponte é de grande importância estratégica para a Rússia, pois assegura o abastecimento das tropas russas na península e em todo o sul da Ucrânia. Esta é uma das razões pelas quais ela tem sido um espinho na carne do Exército ucraniano. Até agora, no entanto, a ponte tem estado fora de seu alcance. Mas isso pode mudar. Se a Ucrânia logo receber as armas necessárias, disse o general ucraniano Dmytro Marchenko, a destruição da ponte seria o "objetivo número 1".

Perigo de escalada

Moscou já ameaçou com severas represálias neste caso e até mesmo ameaçou com uma retomada dos ataques aéreos contra Kiev.

Para a Rússia, bombardear alvos na Crimeia teria um significado diferente do que a guerra no Donbass ou no resto da Ucrânia. Moscou considera a península, que foi anexada em 2014 em violação ao direito internacional, como seu próprio território e, após um referendo internacionalmente não reconhecido, como parte da Federação Russa. De acordo com a interpretação russa, a guerra seria assim estendida ao território russo − ameaçando uma nova escalada do conflito.

No entanto, a Ucrânia também continua considerando a Crimeia como parte de seu território.  "Libertaremos todos os nossos territórios, realmente todos eles, incluindo a Crimeia", disse o ministro da Defesa ucraniano, Olexiy Resnikov, à emissora americana CNN, apesar de seu assessor Yuri Sak ter dito que "o mínimo realista" seja que as forças russas se retirem para as fronteiras válidas antes de 24 de fevereiro de 2022, quando começou a invasão da Ucrânia.

Disputa de longa data

A forte reação do Kremlin tem suas razões: para Moscou, a Crimeia tem um valor mais alto do que o resto da Ucrânia. Por mais de dois séculos, a Crimeia pertenceu à Rússia. Já nos séculos 18 e 19, os czares cada vez mais assentaram ali russos étnicos. Stalin continuou essa política. Como resultado, a maioria da população ainda hoje é pró-russa.

Somente em 1954 a Crimeia foi anexada à então República Socialista Soviética da Ucrânia, sob circunstâncias não completamente explicadas até hoje, por ordem do então secretário-geral soviético, Nikita Khrushchev.

A razão pode ter sido que o próprio Khrushchev era um ucraniano nativo. Após o colapso da União Soviética, a Crimeia permaneceu oficialmente território ucraniano, embora Kiev nunca tenha sido capaz de afirmar adequadamente a reivindicação ao poder sobre a Crimeia e a população tenha permanecido em grande parte pró-Rússia. Assim, Kiev concedeu à península o status de autônoma e concluiu arrendamentos com a Rússia, por exemplo, sobre o porto estrategicamente importante de Sebastopol.

Mesmo nos tempos soviéticos, a sede da Frota Russa do Mar Negro estava localizada ali, e Sebastopol é o único porto russo significativo que permanece livre de gelo durante todo o ano. Sob o ponto de vista militar, ele proporciona acesso ao Mar Negro, e sob o ponto de vista econômico, possibilita a entrada de bens importantes. Até 2014, esse acordo entre a Ucrânia e a Rússia não representava um grande problema.

Mas então veio a Euromaidan − a Primavera Ucraniana −, uma onda de manifestações e agitação civil na Ucrânia entre 2013 e 2014. O presidente pró-Rússia Viktor Yanukovytch foi derrubado e teve que fugir para Moscou. Temendo uma aproximação da Ucrânia com o Ocidente e especialmente com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Kremlin viu o perigo de a longo prazo perder o porto de Sebastopol e toda a Crimeia para a aliança de defesa ocidental e decidiu pela anexação, mesmo sendo uma violação ao direito internacional.

Criação de fatos consumados

Na guerra atual, a Rússia tenta consolidar sua presença na região. Além de conquistar o Donbass, o Kremlin declarou a criação de um corredor terrestre ocupado pelos russos dali até a Crimeia como um de seus objetivos de guerra mais importantes.

De fato, sem a ponte sobre o Estreito de Kerch, a península era anteriormente inacessível por terra a partir do território russo. Todo o abastecimento dos cerca de 2,3 milhões de habitantes vem pelo mar ou através dessa ponte.

Com novas conquistas no sul da Ucrânia, Putin também criaria mais fatos consumados: um retorno ao status anterior à anexação se tornaria praticamente impossível.

A Ucrânia ficaria completamente sem acesso ao Mar de Azov e, com a Crimeia se projetando para o Mar Negro como uma cunha gigante, a Rússia também seria capaz de controlar e cortar todo o tráfego marítimo com destino a Odessa, o último porto restante da Ucrânia no Mar Negro. A luta feroz pela pequena Ilha das Serpentes, na costa romena, mostra que este também é um objetivo de guerra russo.

'Odessa é o último porto ucraniano no Mar Negro'

Retomada é realista?

Na Ucrânia, no entanto, há indefinição sobre até onde se iria para trazer a Crimeia de volta ao controle ucraniano. O retorno da península é "uma questão que precisa ser negociada diplomaticamente", disse Sak, assessor do governo.

Militarmente, o presidente Volodimir Zelenski também está ciente de que uma reconquista seria impossível. "Acho que isso significaria centenas de milhares de baixas do nosso lado", disse Zelenski ao portal de notícias americano Axios.

No entanto, como uma devolução da Crimeia ao jugo ucraniano poderia ser alcançado por meios diplomáticos é até agora completamente incerto. Devido à atual relação de forças entre Rússia e Ucrânia e à importância estratégica da Crimeia, mas também por causa da clara lealdade da grande maioria de seus habitantes à Rússia, isso parece pouco realista no momento.

Deutsche Welle

A surpreendente guinada de evangélicos sobre aborto nos EUA após filme e reação feminista




Ativistas antiaborto e feministas protestam em Washington

O direito ao aborto é um dos temas mais polêmicos dos tempos atuais — provocando embates por vezes violentos entre ativistas dos dois lados. Tanto nos Estados Unidos como em outros países, como o Brasil, o aborto é central nas chamadas guerras culturais, a briga sobre valores, crenças e costumes que coloca religiosos e feministas em campos opostos.

O tema voltou à tona na sexta-feira (24/6), quando a Suprema Corte dos Estados Unidos reverteu um precedente criado pelo caso "Roe x Wade" — uma decisão histórica que há quase 50 anos garantia o acesso ao aborto em todo o país. O aborto pode se tornar ilegal em 22 Estados. Os juízes da Corte consideraram válida uma lei criada no Estado do Mississippi, de 2018, que veta a interrupção da gravidez após a 15ª semana de gestação, mesmo em casos de estupro.

O que muitos não sabem é que o aborto — hoje central na pauta das guerras culturais americanas — por muitos anos foi um assunto completamente ignorado por evangélicos.

Isso só mudou nos anos 1970, depois do lançamento de um documentário feito por um carismático líder evangélico americano, cuja pregação introduziu o tema na pauta política americana.

Essa história está contada no podcast Things Fell Apart, da BBC, que entrevistou Frank Shaeffer, filho do líder evangélico Francis Schaeffer.

Frank foi responsável por produzir um segmento contra o aborto em um dos documentários de seu pai. Esse segmento inspirou diversos evangélicos nos EUA a organizarem campanhas contra o direito de mulheres de interromperem a gravidez. O documentário também foi citado como inspiração por um ativista antiaborto que assassinou um médico que realizava o procedimento nos EUA nos anos 1990.

Hoje arrependido de sua contribuição no debate sobre o aborto e crítico de seu já falecido pai e do movimento evangélico nos EUA, Frank Schaeffer contou ao jornalista Jon Roston, da BBC, a história desse documentário que ajudou a mudar o rumo das guerras culturais nos EUA e no mundo.

De Bob Dylan à palavra de Deus

Frank Schaeffer cresceu nos Alpes Suíços, na comunidade evangélica de L'Abri, fundada nos anos 1950 por seu pai, o pastor e teólogo Francis Schaeffer.

"Eu era um menino disléxico vagando pelos Alpes, crescendo em uma estranha comunidade evangélica americana fundamentalista", lembra Frank Schaeffer, em depoimento ao podcast da BBC.

"[Meu pai] era um sujeito completamente excêntrico e maravilhoso. Pode parecer contraditório, mas nas manhãs de domingo ele fazia pregações sobre o que ele chamava de a palavra infalível de Deus e no sábado anterior ele podia estar dando uma palestra sobre as letras de Bob Dylan."

Nos anos 1970, L'Abri era frequentado por muitos ocidentais que peregrinavam em direção ao Oriente ou a Israel. A esses viajantes, Schaeffer — um líder diferente de todos os evangélicos da sua geração — dava palestras sobre como os cristãos deveriam se relacionar com arte moderna ou com o festival de Woodstock.

Schaeffer atraía públicos ecléticos. Até mesmo o músico Eric Clapton frequentou L'Abri. Entre os visitantes da comunidade estava Billy Zeoli, produtor de filmes evangélicos que poucos anos depois trabalhou na Casa Branca como líder espiritual do presidente Gerald Ford.

'No Brasil, aborto também é assunto que divide feministas e evangélicos'

"As pessoas falavam para meu pai que ele deveria pegar as palestras que dava sobre as relações entre arte, cultura e cristianismo e colocar em filme. Ele deveria fazer um documentário. Billy Zeoli juntou US$ 3,5 milhões para financiar o projeto, o que naquela época era dinheiro demais para um documentário", lembra Frank Schaeffer.

Sucesso estrondoso

Francis acreditava no potencial de seu filho Frank como diretor de cinema. Fascinado por cineastas como Federico Fellini, Frank se empolgou com a ideia. Ele conta que não tinha muita vontade de fazer um documentário sobre temas religiosos — mas que viu no filme a chance de começar sua carreira no mundo do cinema.

A combinação desses três elementos — as ideias religiosas de Francis Schaeffer, a visão cinematográfica de Frank e o dinheiro de Zeoli — resultou na série de documentário em dez episódios How Should We Then Live (Como Devemos Viver Então, em tradução livre), de 1976. O documentário tinha um grande orçamento, com segmentos em países diferentes, como Itália e França.

A mensagem do filme era que, sem Deus, a humanidade estaria perdida moralmente.

Um dos segmentos do documentário falava sobre o aborto, condenando a prática. A inclusão do tema foi ideia de Frank — até então evangélicos não costumavam discutir o assunto.

"A maioria dos cristãos evangélicos viam isso [aborto] como um assunto 'de católicos'. E naqueles dias nós não queríamos ter nenhuma relação com católicos, se fosse possível. Aliás, a nossa teologia dizia que os católicos iriam para o inferno", lembra Frank.

"Foi por sugestão minha a meu pai que os últimos dois episódios da série foram sobre Roe versus Wade e a legalização do aborto. Minha sugestão veio do contexto de eu ser um pai adolescente. Era um assunto muito pessoal para mim, não tinha nada a ver com um argumento filosófico."

A série de documentários foi um sucesso estrondoso nos EUA. O lançamento foi feito com uma tour em 16 cidades americanas, em arenas com públicos de cerca de 20 mil pessoas. Em Nova York, o lançamento foi no famoso Madison Square Garden.

"Nosso tempo em uma comunidade pequena no interior da Suíça tinha chegado ao fim. Agora meu pai era um grande líder evangélico nos EUA."

Apesar da enorme influência de Francis Schaeffer entre evangélicos, ele continuava sendo ignorado pela grande mídia. Frank Schaeffer afirma que os livros de seu pai estavam vendendo cinco vezes mais do que os best-sellers da época — mas como as publicações eram vendidas em igrejas evangélicas, e não em livrarias, o livro não aparecia na lista dos mais lidos nos jornais.

'Aborto segue sendo tema polêmico nas guerras culturais em diversos países'

Mil bonecas no Mar Morto

Algo no sucesso do documentário incomodava Frank: o público evangélico não gostou dos episódios sobre aborto. Os espectadores religiosos não se sensibilizavam com esse tema.

Frank Schaeffer convenceu seu pai então a fazer uma nova série de documentários — desta vez apenas sobre aborto — chamado Whatever Happened to the Human Race? (O que aconteceu com a raça humana?, em tradução livre).

"Eu comecei a ser agressivo com meu pai. Eu dizia: 'Se você não fizer uma série sobre aborto, é como se você fosse pró-aborto'. Eu estava usando todos os truques que eu conhecia. E para ele, a questão era 'tudo bem, isso é só mais um dinheirinho extra para o meu filho então vou fazer isso por ele'."

Frank ousou artisticamente na nova série de documentários, com imagens extravagantes e avant-garde de crianças fantasmagóricas vagando pelo mundo e um médico anti-aborto diante de mil bonecas no Mar Morto em Israel.

Como na série anterior, os Schaeffer realizaram outra turnê de promoção. Mas desta vez ela foi um fracasso completo. Para tentar salvar a empreitada, pai e filho embarcaram em outro tipo de turnê: uma viagem pelos EUA em busca de apoio de outros pastores evangélicos.

Um dos primeiros a serem contatados foi W.A. Criswell, da Convenção Batista do Sul, a segunda maior denominação cristã dos EUA, atrás apenas da Igreja Católica.

"Eles não queriam nem ouvir falar sobre o assunto", lembra Frank.

"O doutor Criswell dizia: 'por que vou me envolver com isso? Por que eu tenho que dizer a alguma mulher que está grávida que ela precisa ter o filho. Eu não vou pregar isso.' Nós tentamos convencer o conselho editorial da revista Christianity Today. Eles responderam: 'Nós achamos que vocês estão errados. Nós não somos pró-vida. Nós achamos que isso é um assunto ambivalente, na melhor das hipóteses. Não vamos nos envolver com isso'."

Feministas x evangélicos

Mas uma resenha elogiando o filme no jornal New York Post mudou os rumos da história do documentário. Outros jornais replicaram a coluna, o que atraiu a ira de feministas.

Associações progressistas e de feministas começaram a protestar em frente a cinemas que exibiam o filme — e isso, por sua vez, atraiu a atenção da grande imprensa.

"Cada vez que isso [o protesto das feministas] aparecia na imprensa, multidões de evangélicos iam para as ruas para nos apoiar contra essas feministas raivosas, que eles viam como inimigas", lembra Frank Schaeffer. "Eles não iam protestar por causa do aborto em si, mas por causa de todo o resto da agenda delas, de queimar sutiãs e defender que mulheres tenham carreiras profissionais."

"As feministas estavam nos fazendo um grande favor. Quanto mais [mulheres protestando], melhor. Nós passamos a ser notícia por causa dessas manifestantes."

Mas o que começou como manifestações pacíficas aos poucos foi ganhando contornos violentos — e a violência virou a tônica do embate sobre o aborto nas décadas seguintes. Mulheres passaram a ser alvo de violência nas proximidades de clínicas de aborto.

Assassinato

Em 1998, um ginecologista que fazia abortos foi assassinado por um ativista. Barnett Slepian foi morto por James Charles Kopp em Amherst, no Estado de Nova York.

A sobrinha de Slepian, Amanda Robb, que diz ter virado jornalista investigativa por causa do assassinato de seu tio, dedicou parte de sua vida entrevistando ativistas antiaborto que cometeram assassinatos. Em suas entrevistas, ela diz que encontrou um padrão comum: todos eles citaram o documentário de Schaeffer como o estopim de seu ativismo contra o aborto.

"Essas pessoas viram o filme, que era exibido em igrejas, e ele iam a clínicas e bloqueavam a entrada. Eles acabavam presos, mas liberados com uma multa de US$ 50 e de noite já estavam em casa", disse Robb à BBC.

Entre os investigados por Robb estava James Charles Kopp, que assassinara seu tio. Antes de cometer o crime, Kopp havia viajado à Suíça para conhecer a comunidade de L'Abri. Ele também havia escrito uma carta aos Schaeffer elogiando os documentários.

A essa altura da vida, Frank Schaeffer já não participava mais de campanhas contra o aborto — e rejeitava boa parte das doutrinas defendidas por seu pai, que morreu em 1984. Frank conta que se desiludiu com seu pai depois que ele se juntou a Jerry Falwell, pastor evangélico do movimento Moral Majority, que prega contra a homossexualidade.

Francis, que inicialmente incluira o tema do aborto no documentário apenas para agradar seu filho, se tornara um ferrenho ativista contra a prática. Seu livro A Christian Manifesto (Um Manifesto Cristão, em tradução livre), de 1981, é até hoje influente entre os evangélicos que lutam contra o aborto.

Remorso

Frank conseguiu estabelecer uma carreira como diretor em Hollywood em diversos gêneros — de comédia pastelão a ficção científica apocalíptica.

Mas com o passar dos anos, ele passou a sentir remorso pelas consequências de seu documentário sobre aborto.

"Eu passei os últimos 30 anos da minha vida tentando desfazer o dano que causei com aquele documentário. Não acho que eu tenha conseguido qualquer avanço em mudar a mentalidade dos evangélicos, mas o que eu acho que consegui foi falar com pessoas que se desiludiram com o movimento evangélico e o abandonaram", conta.

Frank Schaeffer escreveu um livro de memórias e passou a fazer campanha contra a direita religiosa nas mídias sociais.

"Meu pai e eu temos sangue nas nossas mãos por causa da morte de Barnett Sleppian e muitos outros provedores de aborto. Existe uma linha direta entre o que nós Schaeffers fizemos até Jim Kopp matar um médico por ter lido os livros antiaborto de meu pai e visto os filmes que eu produzi. Eu não tenho palavras para expressar o meu remorso e a profundidade do meu arrependimento por minha estupidez e insensível descaso pela decência e valor pela vida humana."

"Eu imploro por perdão. Eu sou ardentemente pró-escolha e trabalho para defender os direitos das mulheres que eu e meu pai tanto atacamos nos anos 70 e 80."

Mas apesar do arrependimento, a obra de Schaeffer continua tendo a repercussão que sempre teve entre americanos que são contra o aborto — a de angariar novos ativistas.

Rusty Thomas, religioso evangélico que lidera a Operação Salve a América — a maior iniciativa contra o aborto nos EUA, em que ativistas visitam comunidades para pregar sobre o assunto — resume a influência que os Schaeffer tiveram em moldar o debate sobre o aborto nos EUA.

"A maioria das pessoas consideram Schaeffer o pai do combate ao aborto."

BBC Brasil

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