domingo, agosto 22, 2021

Impeachment de Moraes é combustível para incendiar a manifestação de 7 de setembro

Publicado em 22 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

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Os adoradores do AI-5 vão se manifestar novamente nas ruas

Felipe Frazão
Estadão

O presidente Jair Bolsonaro passou das ofensas à ação. Mesmo desaconselhado por auxiliares e pela cúpula do Congresso, assinou nesta sexta-feira, dia 20, um pedido formal de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo andamento de processos contra ele e apoiadores no Supremo Tribunal Federal.

O ato inédito do chefe de um poder, o Executivo, ao pedir a destituição de um membro da cúpula de outro, o Judiciário, inflama os militantes bolsonaristas para a manifestação de viés antidemocrático que ameaçam promover no Sete de Setembro.

MEDIDAS CAUTELORES – Organizadores e parlamentares governistas foram alvos mais cedo de medidas cautelares, assinadas por Moraes. Querem promover marchas, acampamento em Brasília e greve de caminhoneiros por tempo indeterminado, às custas da economia, o que pode prejudicar o próprio governo.

Bolsonaro deixou de sair na foto caminhando do Palácio do Planalto ao gabinete do presidente do Senado Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que segue pregando ao vento “pacificação” e consenso.

Um funcionário da Presidência protocolou o documento no Legislativo, mas é o presidente quem assina, com firma reconhecida às 15h31 desta sexta, a peça de impeachment encomendada à Advocacia-Geral da União.

ENGAVETAMENTO – Líderes do Congresso condenaram a papelada de 18 páginas ao engavetamento. A cúpula da Suprema Corte repudiou a ofensiva. Bolsonaro interditou de vez as reuniões entre os poderes, expediente fugaz para momentos de crise entre as cúpulas do Legislativo, do Judiciário e do Executivo.

Mas a militância aplaudiu. Prontamente, o protocolo da denúncia contra Moraes serviu de combustível nas redes de WhatsApp da tropa bolsonarista que clama por uma ruptura institucional, com fechamento do Supremo e intervenção militar. A palavra de ordem bolsonarista agora é: “ou abrem o impeachment ou paramos o País”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Está armado o clima para “comemorar” o Sete de Setembro. Cercado de militares de tendência ditatorial, que pouco se importam com os ritos e as regras democráticas, o presidente da República trabalha incansavelmente para forçar uma situação que justifique a intervenção militar. Apressado, não quer ver a eleição se aproximar e faz uma aposta alta na radicalização do Sete de Setembro, que ele próprio pretende provocar, fazendo discursos inflamados em Brasília e São Paulo. O clima é de altíssima irresponsabilidade. (C.N.)

Bolsonaro mandou FAB sobrevoar STF para quebrar vidraças, diz Jungmann

 

"[Bolsonaro] Determinou que sobrevoassem o STF acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio", conta ex-ministro da Defesa

atualizado 21/08/2021 14:57

FABIO MOTTA/ESTADÃO

O ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública Raul Jungmann (foto em destaque) disse, em entrevista à revista Veja publicada nessa sexta-feira (20/8), que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) determinou que jatos sobrevoassem o Supremo Tribunal Federal (STF) acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio.

Jungmann afirmou que os últimos comandantes do Exército Brasileiro (EB), da Marinha do Brasil (MB) e da Força Aérea Brasileira (FAB) decidiram deixar os cargos por respeito à Constituição Federal.

Os então titulares do Exército, general Edson Pujol; da Marinha, almirante Ilques Barbosa Junior; e da Aeronáutica, brigadeiro Antônio Carlos Moretti Bermudez, deixaram os postos em março deste ano, após se reuniram com o ex-ministro da Defesa general Fernando Azevedo e Silva, que também deixou o cargo.

“Ele [Bolsonaro] chamou um comandante militar e perguntou se os jatos Gripen estavam operacionais. Com a resposta positiva, determinou que sobrevoassem o STF acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio. Bolsonaro mandou fazer isso, tenho um depoimento em relação a isso. Ao confrontá-lo com o absurdo das ações desse tipo, eles foram demitidos”, disse Jungmann.

Jungmann também garantiu que as Forças Armadas não estão disponíveis para nenhuma aventura ou golpe, mas avaliou que o desfile de blindados da Marinha, no último dia 10, se tratou de uma “ameaça real ou simbólica”.

https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/bolsonaro-mandou-fab-sobrevoar-stf-para-quebrar-vidracas-diz-jungmann

https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/bolsonaro-mandou-fab-sobrevoar-stf-para-quebrar-vidracas-diz-jungmann

Balanço do governo

 



Quantos anos serão necessários para desfazer os estragos deixados pela pior equipe econômica da história do país?

Por Rodrigo Zeidan* (foto)

Um ministro da economia com superpoderes. Demanda reprimida por anos de crise econômica. Reformas, como a da Previdência, encaminhadas no Congresso. Um mundo em expansão.

O cenário estava desenhado para uma forte recuperação da economia brasileira quando o governo subiu ao poder. Mais de dois anos e meio desde que quatro pastas foram agregadas em um ministério, qual a avaliação que podemos fazer do comando de Paulo Guedes e seus secretários, que supostamente subiram ao poder pela sua capacidade técnica?

Infelizmente, essa capacidade era ouro de tolos e não só o ministério foi incapaz de negociar politicamente qualquer reforma importante para o país, como errou em todos os momentos importantes dos últimos anos. O resultado é que desde então estamos presos no Dia da Marmota, com promessas de crescimento, redução de desemprego e inflação que se deterioram à medida que o ano avança. E isso independe da crise trazida pela Covid-19.

Este deveria ser um ano de forte recuperação da economia, como o PIB mundial está em franca recuperação. Entretanto, temos esse ano exatamente o mesmo cenário de 2019: semana a semana, as expectativas para inflação aumentam e, para o PIB de 2022, caem, resultado da incapacidade política e técnica da equipe econômica.

O governo assumiu em 2019 com expectativas de que o crescimento no ano fosse ser de 2,55% e a inflação fosse terminar em 4%. Mas o ano terminou com o PIB crescendo somente 1,1%, e o IPCA, em 4,31%. A equipe econômica conseguiu a façanha de aumentar o número de desempregados no país, no meio do que deveria ser um período de recuperação econômica (em 2019, a taxa de desemprego terminou em 11,9%, contra 11,6% em 2018).

E as coisas não mudam em relação às expectativas para o ano que vem.

Quando um governo é competente e o cenário externo ajuda, é normal que as expectativas de crescimento para os anos subsequentes melhorem. Todavia, mesmo antes da crise da Covid-19, esperava-se que o PIB de 2022 fosse crescer 2,5%. E o governo conseguiu a façanha de jogar o futuro no lixo. Hoje, de acordo com os indicadores do relatório Focus do Banco Central, que resume as perspectivas de mercado, espera-se que a economia vá crescer somente 2,04% em 2022, com inflação em franca escalada (o IPCA deve fechar o ano acima de 7% e o IGP-M, 20%).

O governo está entregando estagnação, desemprego e inflação. E tudo por incompetência técnica. A gestão das contas públicas em 2019 foi um desastre. Em 2020, a equipe econômica lutou contra a extensão da situação de emergência e prorrogação do auxílio emergencial (e foi contra o auxílio desde o início, com o Congresso enfiando goela abaixo do ministério o valor de R$600).

Como não encaminhou nenhuma reforma decente nos últimos meses, as contas públicas se deterioraram. E o que eles inventaram? Uma PEC dos precatórios que simplesmente vai jogar a lei do teto de gastos no lixo.

Ao invés de desenhar reformas, a equipe econômica achou tempo para estimar um modelo epidemiológico, no qual concluíram que não haveria segunda onda no Brasil. Por causa da sua incompetência, morreram centenas de milhares de brasileiros e, agora, o espectro do descontrole inflacionário nos ronda.

A questão não é mais se ela vai deixar a economia em frangalhos, mas quantos anos vai demorar para desfazer os estragos deixados pela pior equipe econômica da história do país.

*Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Folha de São Paulo

"Bolsonaro vai preso se tentar golpe", diz Alessandro Vieira

 



Para o senador, já existem fatos que podem configurar crime por parte direta do presidente na condução do combate à pandemia do novo coronavírus

Julinho Bittencourt, da Revista Forum: O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), suplente na CPI da Covid, afirmou em entrevista ao Congresso em Foco neste sábado (21), que o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) será preso se vier a tentar um golpe. Para ele, já existem fatos que podem configurar crime por parte direta do presidente na condução do combate à pandemia do novo coronavírus.

“Ele acredita que o caminho autoritário é melhor. Bolsonaro realmente mostra um absoluto desapreço pela democracia, pelas instituições e não quer fazer um esforço pela democracia de negociar, dialogar, ouvir a sociedade. Isso aponta para uma postura golpista, então eu acredito que Jair Bolsonaro possivelmente tentaria um golpe”, declara o senador. “A postura dele é muito baseada no seu desejo de permanecer no poder, seja através de uma reeleição ou seja através do golpe. Então tudo que ele faz é focado nisso, não tem uma base mobilizada.”

O senador, entretanto, diz ter certeza que Bolsonaro não teria condições de concluir um golpe de Estado no Brasil. “Tentar é possível sim e acredito que vai gerar um trauma nacional muito grande. Acredito que nossas instituições são robustas o suficiente para suportar esse desafio”, explica o parlamentar. “São poucos crimes que são mais graves que uma tentativa de golpe. A consequência é a cadeia.”

Jornal do Brasil

A batalha eleitoral num pedaço do Nordeste, onde comer é mais importante do que em quem votar

 



A agricultora Maria de Fátima entrega carta ao presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro emula os passos de Lula para tentar conquistar filão petista beneficiado pelo Auxílio Emergencial. Mas esbarra na falta de confiança de eleitores, que sentem na pele a alta inflação

Por Beatriz Jucá

Juazeiro do Norte - Com uma carta em punho, Maria de Fátima Pinheiro Evangelista, de 57 anos, está decidida a atravessar o abismo entre a sua vida e as principais bandeiras ideológicas de Jair Bolsonaro para tentar sobreviver à crise brasileira. Da casa alugada e sem reboco em que vive sozinha na periferia de Juazeiro do Norte (Ceará), ela ―que não sabe ler ou o que é comunismo― insistiu para que a única filha escrevesse uma carta ao presidente. Quer alcançar o direito à aposentadoria rural, negada porque não conseguiu comprovar o tempo de serviço na roça, onde trabalha desde os oito anos.

Maria de Fátima até chegou a receber o auxílio emergencial no ano passado e viu a vida melhorar por um tempo. Mas foi cortada do programa depois de ter feito o pedido de aposentadoria e agora vive com pouco mais de 250 reais por mês, que consegue lavando roupas para vizinhos. A energia já não é paga há meses e com o gás tão caro ela precisa cozinhar também à lenha para economizar. A comida vem do que planta e de doações. Por isso, a carta é uma esperança. E ela esgueira o corpo para entregá-la a Bolsonaro, que passava acenando de cima de um carro ao lado de sua casa.

A ida do mandatário brasileiro a Juazeiro do Norte na semana passada tinha como justificativa oficial a inauguração de um conjunto habitacional. Mas também é parte de uma estratégia que busca abocanhar votos em um reduto majoritariamente lulista para as eleições do ano que vem. Em 2018, Bolsonaro conseguiu apenas 24% dos votos no segundo turno na cidade, contra 76% de Fernando Haddad, substituto de Lula, impossibilitado de concorrer àquela eleição. No ano que vem, entretanto, ele deverá disputar contra o próprio ex-presidente, criador do Bolsa Família, programa que tirou milhares da pobreza e ao qual Bolsonaro já chamou de “voto de cabresto”. Uma pesquisa recente do Datafolha aponta que o presidente só tem 16% da preferência do eleitorado na região Nordeste enquanto Lula conta com 64%. O Nordeste também lidera a rejeição a seu Governo, como mostrou pesquisa da Poder Data esta semana, feita entre os dias 16 e 18 de agosto: 72% classificam a gestão Bolsonaro ruim ou péssima, enquanto no Sudeste a rejeição é de 59%, e 58% no Sul e Centro-Oeste. No Norte, o presidente ainda tem preferência, e a rejeição fica em 46% contra 52% de aprovação.

Com sua popularidade derretendo no mercado financeiro e entre filões de eleitores de uma classe média descontente com sua postura antidemocrática e sua gestão da pandemia, Bolsonaro tenta avançar sobre regiões mais carentes, onde os investimentos federais tendem a aparecer mais. Ele sabe que precisa abocanhar parte do eleitorado de Lula —que inclui pessoas beneficiadas pelo auxílio pago durante a pandemia— para tentar estancar a sangria provocada por sua impopularidade crescente, quando o voto antipetista que o ajudou em 2018 também está em fuga. Onde falta o básico como comida e trabalho, não sobra muita margem para a polarização política. E muitos estão dispostos a votar em quem, de fato, indique que pode melhorar suas vidas.

“Se fosse Lula o presidente, eu fazia igual. Bolsonaro se quiser tomar água na minha casa, toma. Acho que presidente é de todo mundo e tem que olhar para quem é pobre”, diz Maria de Fátima, que já foi eleitora do PT e não faz ideia a quem dará seu voto no ano que vem. “Nem sei quem são os candidatos ainda. Espero que Bolsonaro leia minha carta e faça a vida da gente andar. Não sei de quem é a culpa, só sei que está tudo muito difícil”, emenda. Ela não conseguiu entrar no local onde o presidente discursou.

Desde junho do ano passado, Bolsonaro intensificou suas viagens ao Nordeste. Em 2020, foi três vezes mais a cidades da região do que no seu primeiro ano de mandato. Neste ano, já passou por cinco dos nove estados nordestinos. No seu discurso em Juazeiro do Norte, afirmou que o valor investido no auxílio em 2020 equivaleria a 13 anos de Bolsa Família. Admitiu a inflação, que criou alimentos proibitivos como a carne e levou famílias a voltarem a cozinhar à lenha, mas colocou a conta da crise no colo dos governadores. E ainda que tenha defendido suas pautas conservadoras —como o combate ao comunismo e a defesa da família e da propriedade—, se vendeu como um grande finalizador de construções inacabadas pelos Governos anteriores. Tem dito que já inaugurou mais de 4.700 obras desde 2019 na região, entre elas a Transposição do São Francisco, iniciada nos Governos petistas. Para coroar, prometeu prorrogar o auxílio até novembro e explorou o que poderá ser seu grande trunfo eleitoral no ano que vem: um novo e turbinado Bolsa Família, que agora se chamará Auxílio Brasil, apagando o nome que é marca lulista.

“Vou votar em Bolsonaro. Já votei a primeira vez e não acho que ele seja ruim pro comércio. Se não fosse o auxílio, tinha muito mais gente passando fome. Eu mesma parei de trabalhar por meses na pandemia e passei até precisão”, conta a comerciante Maria Lúcia da Silva, de 65 anos, que trabalha há mais de 40 anos em uma lanchonete no mercado público do centro de Juazeiro do Norte.

Ainda que a implantação do auxílio tenha lhe rendido alguma simpatia de parte dos beneficiários, a tarefa de Bolsonaro em conquistar este eleitorado não é fácil diante de tanta gente que se agarra a uma memória de estabilidade econômica e de maior facilidade de consumo durante o Governo Lula, enquanto associa a alta inflação e a redução do poder de compra ao atual presidente.

“Bolsonaro vai prometer um monte de coisa para não sair da Presidência, mas aqui nosso voto é de Lula. Foi ele que deu mesmo oportunidade ao pobre, até pra estudar”, diz Idenilson Lima Monte, de 27 anos. Ele trabalha em um terreno arrendado na zona rural de Juazeiro, onde planta para comer e cuida do gado do patrão. Ao lado dele, a esposa Luana Neves de Oliveira, de 30 anos, afirma, com a filha pequena nos braços, que também pretende votar no petista. “O auxílio do Bolsonaro está só caindo e o preço de tudo subindo. Recebo 250 reais e hoje só dá mesmo para a fralda e o leite da minha filha. Um perfume que a gente precisa não podemos mais comprar”, emenda.

Carne todo dia

Quando Maria Jocimar da Silva recebeu as primeiras parcelas de 1.200 reais do auxílio no ano passado, a família conseguiu comer carne todos os dias e colocar gasolina no carro que usa para levar os vizinhos que precisam ao hospital. Mas o valor do benefício diminuiu para 250 reais em abril deste ano, e o preço de tudo aumentou. O resultado é que um botijão de gás, que custa 130 reais, dura mais de um mês porque há pouca comida para cozinhar, conta o marido dela, o agricultor Francimar de Lima, de 41 anos, morador da Vila Horácio, zona rural de Juazeiro do Norte. “Não tem mais aquela história de comer a hora que quer aqui”, ele diz. “Agradeço a Bolsonaro porque foi uma comida a mais na mesa naquele tempo, mas o que ele deu já tirou com tudo caro. Ele dá com uma mão pra tirar com a outra”, reclama.

A família de Francimar vive com a ajuda dos programas do Governo, do que planta e da venda do excedente. Ele conta que a energia está atrasada, a plantação neste ano não foi farta e o dilema agora é vender ou não o carro conquistado a duras penas há 10 anos e que agora só roda em situações de máxima emergência. “O que a gente tem neste Governo é dívida. Bolsonaro só quer mudar o nome das coisas que Lula fez, como o Bolsa Família, mas não faz as dele e nem olha pro pobre. Foi Lula que abriu crédito pra eu comprar o carro, e agora não tenho nem o [dinheiro] da gasolina”, queixa-se. “Eu tenho até medo. Bolsonaro diz que vai aumentar o Bolsa Família, mas e se acabar? O que ele diz não se escreve né?”, emenda Maria Jocimar.

Eles esperam que o próximo presidente priorize projetos para o campo e o pequeno agricultor, como linhas de crédito para comprar materiais para a plantação e estímulo à pecuária, o que os permitiria melhorar a renda mensal com seu trabalho. Ambos votaram no petista Fernando Haddad nas últimas eleições e dizem que votarão em Lula ou em quem ele indicar em 2022. “Não queria votar no Lula porque acho que ele não tem mais idade pra cuidar de um Brasil desse jeito que tá não, mas confio nele pelo histórico de tirar gente da pobreza. Bolsonaro acha que agradando os ricos vai ter os pobres com ele”, argumenta Francimar.

Às investidas de Bolsonaro com inaugurações de obras e promessas de aumentar em pelo menos 50% o valor do atual Bolsa Família, Lula reage com a primeira caravana pelo seu berço eleitoral desde que voltou a ser elegível. Sua estratégia neste momento foca na costura de alianças políticas com vistas a 2022 e em encontros com movimentos sociais. O petista está no final da excursão de 11 dias por seis Estados nordestinos e já mudou até seu avatar nas redes sociais para uma imagem em que usa um chapéu de cangaceiro, como quem indica sentir-se em casa. Mas também terá de trabalhar para manter sua ampla vantagem de preferência nas eleições.

“Tem mais gente na disputa”

“A única certeza que eu tenho é que neste presidente que tá aí [Bolsonaro] eu não voto. Lula hoje está em primeiro lugar, mas ainda não tenho 100% de certeza se vou nele”, diz o agricultor Juarez Timóteo, de 52 anos. Da televisão de sua casa no assentamento 10 de Abril, uma comunidade rural a cerca de 25 quilômetros da cidade de Crato, ele acompanha tudo o que acontece no país pela televisão. Acredita que Bolsonaro virou as costas para os pobres e errou em não comprar vacinas logo para combater a pandemia. Também está aborrecido com o “mau exemplo” provocando aglomeração até na vizinha Juazeiro do Norte e diz morrer de vergonha ao assistir a CPI da Pandemia. “Lula ainda vou observar porque foi bom, mas tem mais gente que vai disputar. Ciro Gomes e Cid também ajudaram muito a gente aqui”, diz.

Foi no Governo Lula que a família de Juarez conseguiu uma cisterna para armazenar água da chuva, a casa e uma moto para tanger o gado. “Com este de agora onde a gente anda é só lamentação. Ele disse que ia ajudar o Nordeste. Em quê? Não vi nada ainda. No lugar de ter gastado estes rios de dinheiro em obra e asfalto, devia comprar vacina para diminuir a crise dessa pandemia. A gente aqui no Brasil tem pressa para outras coisas”, reclama ele, que perdeu dois primos com covid-19.

Na caótica crise brasileira, Juarez não está certo nem se irá mesmo escolher um candidato nas próximas eleições. “Para um presidente ganhar meu voto, eu vou ter que observar muito”, diz, ao lado da filha Vitória, de 18 anos, que vai votar pela primeira vez no ano que vem e diz simpatizar com Bolsonaro. “O Auxílio Emergencial dele foi bom. Não acho Bolsonaro ruim, talvez eu vote nele”, justifica. Com os 1.200 reais do programa no ano passado, a mãe dela, Cirene Ventura dos Santos, realizou o sonho de cimentar todo o piso da casa onde eles moram.

Mas quatro meses depois o valor do benefício caiu para 600 reais e agora está em 250 reais, complicando o orçamento doméstico. Cirene não viu faltar comida à mesa como tantas famílias brasileiras durante a crise, mas precisou voltar a cozinhar à lenha porque já não consegue comprar gás suficiente para usar só o fogão. Ela quer uma estabilidade financeira para realizar um novo sonho, o de construir um alpendre em casa. Acha que o discurso de Bolsonaro está muito distante da realidade deles, com críticas ao comunismo, ataques ao voto eletrônico e defesa às armas. É a única da família que já sabe o número que vai digitar na urna no ano que vem. “Voto 13, em Lula, que no tempo dele a vida era mais fácil. Com fé em Deus o próximo presidente vai ser ele.”

El País

O peso das instituições

 



Os radicais fazem barulho, mas mandam pouco no cotidiano público

Por Murillo de Aragão (foto)

Em um momento em que a tensão institucional permeia o cenário político, é importante saber até onde a instabilidade poderá nos levar. Para tal, é relevante entender as forças institucionais que atuam no país e as suas motivações.

O primeiro ponto que gostaria de abordar é o fato de o Brasil de hoje ser um país com múltiplos polos de poder. O que se revela, por exemplo, na dificuldade de se chegar a consensos em torno de matérias polêmicas, como uma ampla reforma tributária ou mesmo a reforma política.

O segundo ponto que devemos considerar é que a multipolaridade de atores atua de forma a conter excessos. Não somos um país onde poucas oligarquias controlam os destinos da nação. Existem vários atores com poder político atuando na disputa por recursos, influências e políticas públicas.

O terceiro ponto é que a prevalência que o Poder Executivo tinha sobre os demais poderes foi abalada pela Constituição de 1988, ainda que tenha demorado algumas décadas para isso se revelar por inteiro.

Considerando os três pontos mencionados, conclui-se que temos uma realidade multipolar de atores e de tendências que impede que apenas uma força prevaleça — de forma isolada — sobre as demais.

Dois extremos de nossa política — Lula e Bolsonaro — só conseguiram alguma governabilidade a partir do momento em que fizeram alianças com forças políticas de outros campos ideológicos.

“A maior ameaça à democracia está na desigualdade. E é sobre ela que devemos concentrar os nossos esforços”

Lula, que empreendeu uma caminhada ao centro ainda na campanha eleitoral de 2002, consolidou-a com as ações permeadas pelo escândalo do mensalão, em 2005. Bolsonaro, que anunciou o fim do toma lá dá cá, rendeu-se às coalizões em 2020 para assegurar alguma proteção política no final de sua gestão e a possibilidade de reeleição em 2022.

Na prática, os radicais, de lado a lado, servem para compor um cenário em que fazem muito barulho, mas mandam pouco no resultado final das políticas públicas. Lula teve em Henrique Meirelles uma âncora de previsibilidade, assim como Bolsonaro tem em Roberto Campos Neto.

Quem ameaça a previsibilidade desequilibra as relações multipolares dos detentores de poder. Nesse sentido, vale dizer que os principais atores e segmentos políticos do país querem previsibilidade e estabilidade institucional. Inclusive aqueles que são lembrados como potenciais ameaças às regras institucionais.

Respondendo à pergunta embutida no início desta coluna, vemos franjas radicais que podem causar ruído, mas com pouca capacidade de romper a institucionalização. Pois ainda que estejamos em processo de aperfeiçoamento de nossas instituições — e há desequilíbrios graves —, existe um desejo da maioria dos detentores de poder político no Brasil de que as transformações ocorram by the book. Ou seja, seguindo a letra constitucional.

O que fica claro nos dias de hoje é que a ameaça real reside na fome e no abandono de milhões de brasileiros que vivem à margem da economia, longe do alcance dos serviços públicos essenciais e que sofrem com a inflação nos alimentos e o desemprego. São oito anos sem crescimento econômico relevante. E o que vem por aí parece não poder demolir as taxas de desemprego. Enfim, a maior ameaça à nossa democracia está na desigualdade. E é sobre ela que devemos concentrar os nossos esforços.

Revista Veja

A população não quer isso - Editorial

 



Jair Bolsonaro tem feito um governo desastroso. Não apenas não governa – não enfrenta os problemas que lhe cabe enfrentar, especialmente os muitos desafios decorrentes da pandemia –, como cria continuamente confusões e problemas adicionais. Para agravar, o objetivo desta tática não é apenas desviar a atenção da inépcia de seu governo, mas tentar se manter no poder depois do término de seu mandato. Mostrando que não tem limites, Jair Bolsonaro já ameaçou até mesmo a realização das eleições do ano que vem.

Nesse cenário tenebroso, em que se verifica diariamente uma escalada de ignorância, incivilidade e desrespeito às regras mais básicas do regime democrático, há uma boa notícia. A população deu-se conta de quem é Jair Bolsonaro, não apoia o seu governo e não quer vê-lo por mais quatro anos na Presidência da República.

De forma recorrente, os institutos de pesquisa constatam o crescimento da rejeição a Jair Bolsonaro. Por exemplo, na pesquisa XP/Ipespe mais recente, 54% dos entrevistados disseram considerar o governo ruim ou péssimo. Em relação ao mês anterior, houve aumento de dois pontos porcentuais. O crescimento da rejeição ao governo de Jair Bolsonaro tem sido constante desde outubro de 2020, quando 31% disseram considerar a gestão ruim ou péssima.

Agora, apenas 23% dos entrevistados avaliaram o governo como bom ou ótimo. No mês anterior, 25% fizeram uma avaliação positiva da gestão Bolsonaro. São as piores avaliações desde o início de 2019. A pesquisa também relatou que 63% dos entrevistados desaprovam a maneira como o presidente Jair Bolsonaro administra o País.

Em contraste com o governo federal, a avaliação de governadores e prefeitos melhorou. Por exemplo, 49% dos entrevistados avaliaram as administrações municipais como boas ou ótimas. Apenas 14% classificaram-nas como ruins ou péssimas. Neste quesito, Jair Bolsonaro recebeu 40 pontos porcentuais a mais: 54% de avaliação negativa.

Outro dado relevante, a suscitar esperança: 61% disseram que não votariam em Jair Bolsonaro de jeito nenhum. Nesse quesito, Luiz Inácio Lula da Silva também mereceu destaque. Quase a metade da população (45%) disse que não votaria no líder petista de jeito nenhum.

Há, portanto, espaço para um candidato de centro, honesto e competente. Pode-se dizer que existe verdadeiro anseio de dispor de alguma opção minimamente responsável. O lulopetismo e o bolsonarismo já foram testados e categoricamente reprovados, como mostram as respectivas taxas de rejeição. “Persistir no que já se mostrou errado não será apenas burrice, será covardia”, disseram Horácio Lafer Piva, Pedro Wongtschowski e Pedro Passos, em artigo neste jornal (Nem Bolsonaro nem Lula, 13.8, A2).

Ao longo deste ano, foram abertas algumas frentes de investigação envolvendo o governo de Jair Bolsonaro. O Senado instaurou a CPI da Covid, a respeito das ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia. Há investigação para apurar se o presidente Jair Bolsonaro cometeu crime de prevaricação no caso da compra da vacina Covaxin. O chefe do Executivo federal também foi incluído no inquérito das fakes news do Supremo.

Tudo isso é de extrema relevância. As instituições não podem estar envolvidas, por meio de seus membros ou dirigentes, em práticas criminosas quaisquer que sejam. De toda forma, num regime democrático, é fundamental que a população esteja atenta e não tolere o que é intolerável. Ainda que investigue e puna os malfeitos, a Justiça é incapaz de dar solução às crises políticas. Isso cabe, em primeira instância, aos partidos – na escolha de sua lista de candidatos – e, depois, aos eleitores.

Por isso, a desaprovação popular de Jair Bolsonaro tem especial relevância. Sua pirraça contra as eleições e seus ataques a outros Poderes só o deixam mais isolado – o que é uma promissora notícia para o País. Da mesma forma, parte significativa dos eleitores não quer Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao Palácio do Planalto. Não se esqueceram do que fez o lulopetismo quando lá esteve.

A pesquisa XP/Ipespe mostra que o eleitor não é indiferente ao presente e tampouco ao passado. E isso é um passo fundamental para que se construa um novo futuro.

O Estado de São Paulo

Preço do desgoverno - Editorial

 



Deterioraram-se rapidamente, nos últimos dias, as expectativas para a evolução da economia no que resta do atual governo. Se neste ano está em curso uma recuperação precária e desigual de perdas provocadas pela pandemia, para 2022 surgem mais projeções de um desempenho abaixo do medíocre.

Sinais da piora dos humores se notam nos indicadores do mercado financeiro, de resposta sempre mais rápida. A cotação do dólar, que chegou a cair abaixo dos R$ 5 em junho, acumula alta de 8,5% desde então, segundo as médias diárias apuradas pelo Banco Central.

O índice da Bolsa de Valores, que passava dos 130 mil pontos há menos de dois meses, fechou em 118 mil nesta sexta-feira (20).

É espantoso que dois dos principais motivos para a onda de pessimismo sejam os mesmos que levaram ao colapso econômico de meados da década passada —a escalada da inflação e o descrédito na gestão das contas do governo.

Com a persistente aceleração dos preços ao consumidor, que tiveram variação de 8,99% em 12 meses, calcula-se que o BC será obrigado a prosseguir na elevação dos juros e a manter uma política monetária apertada no próximo ano, com uma taxa básica já projetada em 7,5% anuais, patamar que não se observa desde 2017.

Já o temor de uma nova crise orçamentária foi acentuado pelos movimentos desatinados do governo em busca da reeleição de Jair Bolsonaro, em especial com a proposta indecorosa de jogar para administrações futuras o pagamento de dívidas determinadas por sentenças judiciais.

A gestão da política econômica, a cargo do ministro Paulo Guedes, já dera fartas mostras de inoperância gerencial e desarticulação política, deixando que se aviltasse a agenda de reformas e privatizações. Agora coloca em risco a credibilidade de seu compromisso mais básico com o reequilíbrio fiscal.

Se há algo de tristemente original neste momento de sinistrose é um presidente da República a tumultuar o ambiente político e institucional, misturando seus pendores golpistas a sua aversão pelo trabalho de governar o país.

As mentiras, as bravatas, os conflitos estéreis e, sobretudo, a desídia de Bolsonaro já deixaram um trágico legado de mortes desnecessárias na pandemia, mas suas consequências nas políticas públicas —notadamente em educação e ambiente— ainda se farão sentir por muitos anos.

Na economia, o preço do desgoverno se paga de imediato, na forma de desemprego, informalidade, pobreza e inflação.

Folha de São Paulo

O divórcio

 



Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Primeiro, foram empresários da economia real. Depois, a eles se juntaram banqueiros e economistas do primeiro time. E, agora, o mercado financeiro também entrou no processo de divórcio com o governo Bolsonaro e, muito especialmente, com o ministro Paulo Guedes.

As previsões para os números macroeconômicos já vinham piorando havia semanas: perspectiva de inflação, juros e dólar em alta, expectativa de PIB cada vez menor para este e o próximo ano. Mas isso era percepção. “Só” percepção, se dizia, que poderia mudar assim que o governo e o Congresso se entendessem sobre um Orçamento minimamente equilibrado para 2022 e, com sorte, sobre algumas reformas (tributária?) e privatizações.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, procurou acalmar os mercados justamente com esta tese: tudo isso passa quando o governo mostrar de onde vem o dinheiro para os diversos gastos.

Mas na semana passada aconteceu algo real no mercado financeiro, que não acontecia havia mais de ano: nos contratos de futuros, os títulos do governo foram negociados a juros de quase 11% anuais.

Isso revela enorme desconfiança em relação à capacidade de o governo entregar qualquer coisa que ao menos pareça controle de contas públicas — gastos abaixo do teto — ou reformas.

Ontem o ministro Guedes praticamente sepultou a reforma do Imposto de Renda — no que foi um raro momento de bom senso. Ele disse que, se for para piorar o sistema, então é melhor deixar como está — que é muito ruim.

Sempre pensamos que era impossível complicar e pesar ainda mais o sistema tributário brasileiro. Pois as últimas discussões sobre a reforma do IR mostram que estávamos todos errados.

E reparem: há bons projetos de reforma tributária já longamente discutidos, que até alcançaram um bom nível de apoio. Mas uma mudança dessas exige um presidente que lidere não apenas sua gente, mas todo o país, incluindo governadores, prefeitos, empresários e as pessoas, enfim todo mundo que sofre os efeitos positivos ou negativos do sistema de pagamento de impostos. E mais um ministro da Economia que também saiba ligar o mundo econômico ao político.

Não é o caso, nem de um nem de outro.

Tudo somado e subtraído, temos: o ritmo de recuperação deste ano cai em relação ao previsto no início do ano, quando se achava que a vacinação permitiria a abertura plena da economia; o crescimento em 2022 está apontando para menos de 2%, que é o — baixo — nível de expansão natural do Brasil; desemprego permanecendo elevado; inflação e juros em alta.

O dólar deveria cair, não é mesmo? Se os juros estão altos, se a renda fixa e os títulos do Tesouro voltaram a ser atraentes, era de esperar que investidores externos viessem com muitos dólares para aproveitar esses rendimentos. Ainda mais que os juros continuam a zero lá no mundo desenvolvido.

Mas o dólar continua alto por aqui, bem acima dos R$ 5. É outro claro sinal de desconforto. É seguro investir num país em que o presidente é ameaça às instituições e o governo tem duas políticas econômicas? Sim, duas: uma, a supostamente liberal do ministro Guedes; e a outra, do Orçamento paralelo, ou secreto, comandado pelo Centrão.

Assim nos encaminhamos para um ano de eleições gerais. Bolsonaro está confinado a seu núcleo duro e nada indica que possa sair dali. Sua popularidade desmancha semana a semana.

Isso abre uma enorme avenida para Lula, que já está jogando em todo o país. Mas também abre espaço para a terceira via, um candidato de centro — que ainda não está em campo. Mas toda aquela gente que está em processo de divórcio com Bolsonaro procura justamente essa terceira via. Seria ridículo ter votado em Bolsonaro para tirar Lula, depois votar em Lula para tirar Bolsonaro.

O Globo

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