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Senador tem muito a explicar sobre a relação com Vorcaro
Míriam Leitão
O Globo
O senador Flávio Bolsonaro não conseguiu esclarecer o caminho percorrido pelos milhões de dólares pedidos a Daniel Vorcaro em sua entrevista à GloboNews na última quinta-feira.
Desde que os áudios do diálogo entre o candidato à Presidência e o ex-dono do Banco Master foram divulgados pelo Intercept, as versões sobre os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro já se modificaram várias vezes. Flávio Bolsonaro mostrou-se muito preocupado em negar que esse dinheiro teria sido usado para manter seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos, insistindo que todo o recurso foi destinado à produção do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas admitiu que o dinheiro passou por uma empresa do advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto, a Havengate Development Fund, sediada no Texas.
DINHEIRO “PRIVADO” – Outro ponto que não se sustenta é o argumento de Flávio Bolsonaro de que todo o dinheiro é privado. Não se pode esquecer que muitos dos recursos do Banco Master foram obtidos com a venda de carteira fraudulenta ao BRB, banco público, e com a captação de fundos de pensão de servidores de vários estados brasileiros. Ou seja, Daniel Vorcaro captava muito dinheiro no setor público, dando calote e cometendo fraudes.
A alegação do pré-candidato à Presidência de que suas conversas com Vorcaro ocorreram antes de pesarem sobre o banqueiro todas as acusações que o relacionam a fraudes e a uma organização criminosa também não se sustenta. Basta observar a cronologia das conversas e dos fatos envolvendo o dono do Master para confirmar que os contatos se deram quando já se sabia que ele estava sendo investigado: a Polícia Federal já havia aberto inquérito, e Flávio Bolsonaro continuava cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro. Um dos contatos, inclusive, ocorreu um dia antes da primeira prisão do ex-banqueiro pela PF.
É importante destacar também que não se trata de um simples filme em homenagem ao pai, como diz Flávio Bolsonaro, mas de uma peça de campanha eleitoral, com lançamento programado para cerca de 40 dias antes do primeiro turno.
CONFIDENCIALIDADE – Outro ponto relevante é a alegação de Flávio Bolsonaro de que não teria falado antes sobre o investimento de Vorcaro no filme porque havia um contrato de confidencialidade. Na entrevista à GloboNews, a colunista Malu Gaspar o questionou sobre o contrato, afinal a essa altura o contrato acabou, não haveria mais necessidade de confidencialidade, e seria fundamental apresentar o documento que poderia explicar como se organiza essa relação e o financiamento do ex-banqueiro ao filme sobre Jair Bolsonaro.
Chama ainda atenção, nos diálogos, a intimidade entre o senador e o ex-banqueiro, intimidada que Flávio tentou negar durante a entrevista à GloboNews. Todas as conversas representam uma demonstração inequívoca de proximidade entre os dois, apesar de ele ter dito que mal conhecia Daniel Vorcaro. Em uma das mensagens, Flávio Bolsonaro escreve para Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”
EXPLICAÇÕES – O senador Flávio Bolsonaro ainda tem muito a explicar. A Polícia Federal precisa continuar investigando, porque está tudo muito nebuloso. É importante não perder de vista o modus operandi de Daniel Vorcaro é justamente criar complexos mecanismos financeiros para fraudar o sistema usando transferências entre fundos para dificultar a identificação do caminho do dinheiro.
A missão da PF tem sido tornar esse percurso cada vez mais compreensível para quem acompanha o caso. E os desdobramentos não param: a sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira, prendeu o pai do ex-banqueiro, Henrique Vorcaro, ao mostrar a relação do grupo com o submundo do crime, como o jogo do bicho e a cooptação de policiais federais da ativa e aposentados, evidenciando quão extensos são os braços dessa organização criminosa ligada a Daniel Vorcaro.