'Militante’
Eis que o jornalismo trouxe à tona os fatos que o senador tentou esconder. Horas antes da #VazaFlavio ser publicada, o repórter do Intercept Thalys Alcântara perguntou para Flávio se ele negociou com Vorcaro pagamentos para a produção do filme sobre o seu pai. Flávio ficou desnorteado com a pergunta. Em um intervalo de 20 segundos, ele negou os pagamentos, gargalhou forçadamente, chamou o jornalista de “militante", virou-se de costas e resmungou: “é dinheiro privado! é dinheiro privado".
O senador começou a resposta negando os pagamentos, quase teve uma síncope e terminou admitindo. Foi uma cena tão constrangedora que quase fiquei com pena do senador (mentira).
Pouco tempo depois, o Intercept completou o drible da vaca e publicou conversas em que Flávio e Vorcaro se tratavam como grandes amigos. “Estou e estarei contigo sempre", prometeu o senador para o maior ladrão do Brasil um dia antes dele parar na cadeia.
De lá pra cá, o senador não só omitiu essa intimidade com o banqueiro como negou de forma veemente qualquer relação com ele. Pior que isso: Flávio se apresentou como um dos maiores indignados com a lama do Banco Master. É um grau de cinismo alto demais até mesmo para os padrões de quem foi criado por Jair Bolsonaro.
Encontro com JB na casa de D
O senador ficou nu em praça pública enquanto era coberto por uma pororoca de mentiras. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, ele contou ao menos 12 mentiras sobre o caso antes da publicação da reportagem. Ninguém pode se dizer surpreso, já que Flávio é reconhecidamente um mentiroso contumaz desde os tempos em que desviava dinheiro do seu gabinete para financiar prédios das milícias no Rio de Janeiro.
Na última quinta-feira, uma nova reportagem do Intercept revelou que a proximidade dos Bolsonaros com o mafioso era ainda maior do que se imaginava. Conversas privadas mostraram que Vorcaro topou receber Jair Bolsonaro em sua mansão em Brasília para “assistirem juntos” a um documentário, possivelmente “A colisão dos destinos” sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A reunião tinha como objetivo pedir o apoio de Vorcaro para financiar a produção do longa “Dark Horse”. Não se sabe se a reunião aconteceu, mas se sabe que o Pix para o filme caiu.
Explicar o inexplicável
A #VazaFlávio foi trágica para o bolsonarismo. Enquanto algumas figuras expoentes da fauna bolsonarista largaram a mão de Flávio, outros entraram em desespero na tentativa de encontrar uma narrativa que explique o inexplicável.
Cada um falou uma coisa diferente. Flávio admitiu que recebeu o dinheiro de Vorcaro para o filme, mas a própria produtora — endossada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — negou ter recebido qualquer centavo.
Ninguém conseguiu explicar até agora onde foi parar a grana que Vorcaro deu pro Flávio. Parece que o filme realmente não recebeu os R$ 61 milhões combinados, já que, segundo o G1, há denúncias na produção de ”comida estragada, alimentação insuficiente, longas jornadas de trabalho e atrasos de pagamento”.
Cadê a grana?
Mas, afinal, onde está a grana do Vorcaro? A Polícia Federal suspeita que ela foi usada para financiar as despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, cuja atividade principal é conspirar contra o governo brasileiro.
O dinheiro prometido a Flávio teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas, nos EUA. Trata-se da mesma empresa utilizada no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.
A ligação carnal de Vorcaro com o bolsonarismo sempre foi límpida e clara.
Por mais que a máfia tenha tragado diversos partidos e poderes para lama, o escândalo do Banco Master sempre foi essencialmente bolsonarista. A roubalheira do Vorcaro não seria possível sem a leniência do Banco Central sob o governo Bolsonaro e sem o apoio de Ciro Nogueira.
O maior bandido do Brasil doou milhões para campanhas bolsonaristas e investiu pesado em um filme panfletário sobre a vida de Jair Bolsonaro a ser lançado em ano de eleição. Será que Vorcaro é bolsonarista? Será?
Cinismo apoiando cinismo
Se antes já estava difícil para a grande imprensa sustentar a tese do “escândalo suprapartidário”, agora ficou ainda mais, certo? Errado. O powerpoint da GloboNews foi só um aperitivo. Poucas horas após a publicação da #VazaFlavio, Lauro Jardim estampou a seguinte manchete em sua coluna no O Globo: “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”.
Pronto! Foi servida a carniça para a urubuzada bolsonarista arrastar o principal adversário de Flávio para a sua lama. A apuração do jornalista se limitou a falas de “pessoas ligadas a Vorcaro". Não há um mísero indício que sustente a manchete. Isso é tudo, menos jornalismo. Não há absolutamente nenhum indício de que Vorcaro financiou o filme sobre Lula.
No dia seguinte, veio a capa da revista Veja, mostrando que a grande imprensa não está para brincadeira em ano eleitoral.