PF avança em inquérito que investiga participação de ex-presidente do BRB no caso Master
Por Adriana Fernandes, Julia Chaib e José Marques/Folhapress
10/03/2026 às 08:00
Foto: Joédson Alves/Arquivo/Agência Brasil
Sede do BRB
A Polícia Federal avançou nas investigações do inquérito que apura a suposta participação do ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, na triangulação financeira que permitiu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro adquirir ações do banco do governo do Distrito Federal.
A suspeita é de que o dinheiro recebido pelo BRB em duas operações de aumento de capital tenha permitido a expansão da compra de carteiras do Master, que já vinha acontecendo.
Essas operações proporcionaram um aumento de capital de R$ 1 bilhão ao BRB, que turbinou a compra de carteiras do banco de Vorcaro em mais R$ 10 bilhões. Ao todo, o BRB comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras da instituição de Vorcaro.
Paulo Henrique Costa é alvo das investigações e manteve comunicações diretas com Vorcaro registradas no seu celular, que ainda não vieram a público. De acordo com quatro pessoas ouvidas pela reportagem da Folha, na condição de anonimato, há fortes indícios do envolvimento do ex-dirigente do BRB no esquema comandado pelo ex-banqueiro.
A suspeita dos investigadores é a de que Paulo Henrique teria falsificado documentos das operações a posteriori, ou seja, após os acontecimentos. Ele também teria tido papel central na viabilização da triangulação financeira entre os fundos e pessoas físicas que participaram do aumento de capital.
Procurado desde sexta-feira (6), Paulo Henrique Costa não se manifestou. A defesa dele informou nesta segunda-feira (9) que não tinha elementos para responder às perguntas da Folha. A interlocutores, o ex-presidente do BRB tem dito que não reconhece a existência de fraudes e que nenhum documento, nem mesmo do BRB, indica que elas de fato aconteceram.
Em um das mensagens escritas no bloco de notas, retiradas do celular de Vorcaro e encaminhadas à CPI do INSS, Vorcaro escreve: "A turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista que antes estava fazendo perguntas lá (sic). Se vazar algo será pessimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo".
A mensagem foi salva no bloco de notas em 17 de novembro do ano passado, mesmo dia em que o Banco Central deliberou a liquidação do Master, e a PF deflagrou a operação Compliance Zero, que prendeu Vorcaro pela primeira vez por suspeitas de fraudes nas carteiras de crédito vendidas ao BRB.
Essa mensagem sinaliza que o dono do Master recebia informações de dentro do BRB, mesmo depois da rejeição do Banco Central à compra do banco de Vorcaro, em setembro, e da proibição imposta pelo BC ao banco público de comprar novas carteiras do Master. Essa exigência foi feita em 15 de outubro.
Naquele momento, Vorcaro estava vendendo ativos na tentativa de injetar recursos no banco e impedir a liquidação do Master.
Investigadores suspeitam que Paulo Henrique tenha adulterado documentos das operações a posteriori. Ele também teria tido papel central na viabilização da triangulação financeira entre os fundos e pessoas físicas que participaram do aumento de capital do BRB.
Além de Vorcaro, a ciranda financeira envolveria o ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, e o fundador e ex-presidente do conselho de administração da Reag, João Carlos Mansur, segundo as investigações. Eles se tornaram acionistas de 23,5% do capital do BRB.
O inquérito foi aberto após o novo comando do BRB entregar à PF, no início de fevereiro, relatório preliminar de auditoria forense contratada pelo banco junto ao Machado Meyer Advogados com suporte técnico da Kroll.
Pelas investigações, o ex-presidente teria papel central na condução das operações comerciais com o Banco Master e na busca e ingresso dos novos acionistas no BRB. Há indícios de que ele pessoalmente tenha indicado os fundos que compraram as ações e ficaram com uma fatia relevante do banco público, atrás apenas do acionista controlador, que é o próprio governo do DF.
A maioria das ações vendidas (99%) foi adquirida pelos fundos Verbier\Cabreúva, Borneo e Delta. Esses fundos não participaram das etapas iniciais de estruturação do aumento de capital, o que era uma exigência. Eles nem existiam antes e foram criados para viabilizar a operação.
Entre as pessoas que participaram da ciranda financeira como laranjas —ou seja, compraram ações em nome dos investigados—, foi identificado um advogado que representou o Master em negociações com o próprio BRB. Ele teria adquirido ações dos fundos Delta e Borneo por meio da Cartos, empresa vinculada à Reag.
Outro suposto laranja identificado é do município de São Luís (MA). Apesar de ter uma renda mensal de R$ 35 mil, ele comprou R$ 90 milhões em ações do BRB por meio de um financiamento da empresa Qista, também vinculada à Reag.
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