“Um homem mau queimará sua própria nação até o chão, só para governar sobre as cinzas.” – Sun Tzu
A PERSISTÊNCIA DE LINHAGENS GOLPISTAS NO BRASIL À LUZ DE MAQUIAVEL
Qualquer pesquisa honesta associa o golpe militar de 1964 — que depôs João Goulart e instaurou uma ditadura até 1985 — a uma linhagem familiar de elites conservadoras que perpetuam agendas antidemocráticas. Figuras como os descendentes de oligarquias rurais, militares e empresários, frequentemente retratados como defensores de "Deus, Pátria e Família" (slogan adotado por integralistas e bolsonaristas), são acusadas de priorizar interesses econômicos sobre a equidade social.
Exemplos incluem famílias como os Bolsonaro, com raízes em redes conservadoras, ou clãs políticos no Nordeste e Sudeste que alternam entre apoio a regimes autoritários e oposições seletivas. Essa "herança golpista" se manifesta em eventos recentes, como as tentativas de contestar eleições em 2018-2022, onde filhos e netos de atores do regime militar (e.g., descendentes de generais ou políticos da Arena/UDB) emergem em movimentos contra as reformas sociais, como as do governo Lula.
Maquiavel, em O Príncipe (capítulos 3-5), defende a eliminação radical de ameaças para consolidar o poder: ao conquistar um território habituado à liberdade ou a um príncipe anterior, o novo governante deve "destruir" opositores e suas linhagens, pois "os homens se vingam das injúrias leves, mas das graves não podem". Ele argumenta que famílias ofendidas pela perda de status se tornam focos de rebelião, e a estabilidade exige erradicar "a memória do antigo príncipe".
Aplicado ao contexto brasileiro, isso sugere que governos progressistas, como os petistas, falharam em "extirpar" essas raízes — via reformas institucionais, como a desmilitarização ou punições por crimes da ditadura — permitindo que gerações subsequentes reciclarem narrativas autoritárias, agora via redes sociais e milícias digitais.
No Brasil, a impunidade (por exemplo, anistia de 1979) perpetuou ciclos, mas poderia ser eliminada sem evocar autoritarismo, alienando aliados e violando liberdades. Em vez disso, uma abordagem crítica priorizaria educação cívica, regulação de heranças políticas e responsabilidade judicial para quebrar esses padrões. Substanciado historicamente, o padrão geracional existe (por exemplo, relatórios da CNV mostram continuidade familiar em abusos). Maquiavel alerta para a instabilidade, mas a verdadeira estabilidade vem de inclusão, não extermínio.
Considerando que a resistência persiste nas memórias, nas linhagens e nos ressentimentos, tornando o controle frágil se não for acompanhado de medidas radicais — como a destruição de opositores ou a erradicação de potenciais focos de rebelião. Maquiavel reconhece limites práticos nessa abordagem: o ódio gerado por crueldade excessiva ou opressão sistemática pode destruir o príncipe mais rapidamente do que qualquer inimigo externo. Ele adverte que "o ódio destrói a autoridade" e que o governante deve evitar ser odiado, priorizando o temor sem ultrapassar o limiar do desprezo coletivo.
Essa tensão revela que a estabilidade não reside apenas na eliminação física ou na repressão brutal. Maquiavel sugere que o príncipe deve equilibrar a "crueldade bem usada" (rápida, calculada e pontual, para prevenir desordens maiores) com a "piedade mal-usada" (clemência excessiva que permite o caos). Mais importante: o povo, em geral, "quer apenas não ser oprimido". Quando satisfeito nesse mínimo — segurança, ausência de abusos graves e alguma percepção de benefícios —, tende a apoiar ou ao menos tolerar o governante. O amor é instável e volúvel, mas o temor (sem ódio) é mais confiável para a manutenção do poder.
Aplicando ao contexto brasileiro, a "verdadeira estabilidade" que contrasta com o extermínio maquiavélico puro reside exatamente nessa inclusão pragmática. Eliminar linhagens ou opositores pode dar uma vitória imediata, mas gera ciclos de vingança e instabilidade (como visto em ditaduras que colapsam por ódio acumulado). Governos que priorizam a inclusão — via políticas redistributivas, responsabilização judicial, educação cívica, regulação de elites e canais democráticos para expressar descontentamentos — quebram heranças autoritárias de forma mais sustentável. Não se trata de ingenuidade moral, mas de realismo maquiavélico: o poder se mantém melhor quando o povo se sente parte do sistema, não apenas súdito passivo ou vítima. A opressão perpetua inimigos; a inclusão os desarma ou os transforma em aliados relutantes.
No Brasil contemporâneo, isso significa que combater "linhagens golpistas" por meio de exclusão punitiva pode falhar; a via mais eficaz é deslegitimá-las pela inclusão social e institucional, tornando o autoritarismo obsoleto e impopular. Assim, a lição maquiavélica atualizada: inclusão não é fraqueza, é a crueldade mais eficaz contra a instabilidade de longo prazo.
Luis Celso - Jornalista