
Permanência de Toffoli no caso ficou insustentável
Pedro do Coutto
A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal de aceitar a renúncia de Dias Toffoli à relatoria do processo envolvendo o Banco Master encerra um dos episódios institucionais mais delicados dos últimos anos na mais alta instância judicial brasileira.
O desfecho, aprovado por dez votos a zero, não surpreendeu quem acompanhava de perto o ambiente interno da Corte: a permanência do ministro na condução do inquérito tornou-se politicamente insustentável, não apenas pelo conteúdo das investigações, mas sobretudo pelo impacto reputacional que começava a irradiar para o próprio tribunal.
ATRITO – A crise ganhou densidade com o crescente atrito entre o ministro e a Polícia Federal, em um momento em que a investigação passou a envolver comunicações com Daniel Vorcaro, controlador do banco sob escrutínio.
Independentemente da natureza jurídica dessas interações, sua mera existência colocou em causa a percepção pública de imparcialidade — um capital simbólico essencial para qualquer relator em processos de elevada sensibilidade política e financeira. No Supremo, onde a legitimidade depende tanto da legalidade das decisões quanto da confiança social em sua neutralidade, a erosão dessa percepção torna-se rapidamente um problema coletivo.
MAL-ESTAR – Foi precisamente essa dimensão institucional que pesou no desfecho. Ao longo das últimas semanas, relatos de bastidores indicavam que o mal-estar deixou de ser individual para assumir contornos sistêmicos, contaminando a imagem da Corte em um momento já marcado por tensões entre poderes e por forte polarização política. A renúncia, nesse contexto, funcionou como uma válvula de contenção: um gesto que busca preservar a credibilidade do tribunal e, simultaneamente, blindar os atos processuais já praticados, evitando que futuras decisões pudessem ser questionadas com base na suspeição do relator.
A unanimidade do plenário é, por si só, um sinal político inequívoco. Mais do que uma simples concordância formal, ela traduz a percepção de que o custo institucional da permanência de Toffoli ultrapassava largamente qualquer benefício jurídico. No Supremo, raramente se assiste a consensos tão claros em matérias que envolvem diretamente um de seus membros. O episódio evidencia, assim, a prioridade atribuída à preservação da autoridade do tribunal enquanto instituição, mesmo que isso implique o isolamento circunstancial de um de seus ministros.
DERROTA DE TOFFOLI – Do ponto de vista pessoal e político, a renúncia representa uma derrota significativa para Toffoli. A condução do processo transformou-se em um foco contínuo de pressão midiática e interna, colocando-o em posição progressivamente mais defensiva e hostil no espaço público. A decisão de abandonar a relatoria não apaga o desgaste acumulado, mas sinaliza uma tentativa de reposicionamento estratégico, em um cenário em que se multiplicam especulações sobre o futuro do ministro na Corte e sobre a possibilidade de abreviar seu ciclo no tribunal.
Mais do que um episódio individual, o caso revela os limites de tolerância institucional do Supremo diante de potenciais conflitos de percepção e da crescente vigilância pública sobre a atuação de seus membros. Em um ambiente democrático marcado por escrutínio permanente, a autoridade das instituições judiciais depende não apenas da correção formal das decisões, mas da confiança social em sua independência. Ao aceitar a renúncia por unanimidade, o tribunal procurou reafirmar esse princípio: a credibilidade da Justiça, sobretudo no topo do sistema, não admite zonas de ambiguidade prolongada.