Com o apoio de mais de 70% da população, a PEC que acaba com a escala 6x1 ganhou força e deve ser aprovada na Câmara até o fim de maio. O presidente Hugo Motta tem se mostrado entusiasmado com o projeto e disse que será uma das prioridades da casa em 2026.
Trata-se de um milagre de ano eleitoral, já que Motta costuma evitar a fadiga na hora de defender direitos dos trabalhadores. O mesmo fenômeno se viu até em alguns parlamentares da extrema direita, como é o caso do senador Cleitinho, aquele falastrão do Republicanos, que está cotado para ser o candidato a governador da família Bolsonaro em Minas Gerais.
Mas o jogo não está ganho para quem defende uma jornada minimamente digna para os trabalhadores.
As elites produtivas e financeiras já estão mobilizadas no Congresso e na grande imprensa para tentar vender caro a aprovação do fim da escala 6x1. Empresários têm pressionado deputados para que se mantenha as atuais 44 horas semanais de trabalho, em vez das 36 horas da proposta original da deputada Erika Hilton. Em outra frente de pressão, grandes veículos militaram ostensivamente contra a PEC.
Chilique apocalíptico de patrão
Toda vez que as elites sentem-se ameaçadas por alguma medida a favor dos trabalhadores, segue-se um roteiro que está manjado há séculos.
Apela-se ao terrorismo no debate público, apontando um futuro sombrio para a economia e para a sociedade caso a mudança seja concretizada. A comparação com as reações das elites em outros períodos da história é inevitável.
Na internet, muitos recuperam notícias dos tempos em que se debatia a introdução do 13º salário, a criação do salário mínimo, do direito às férias ou a abolição da escravatura. Impressiona como as reações das elites são semelhantes com as atuais. É tudo tão parecido que chega a ser caricatural.
Os chiliques são sempre apocalípticos, apontando uma crise econômica sem precedentes. O debate público passa a ser tomado pelo terrorismo, e a defesa por novos direitos é tratada como populista e demagoga. Passam-se os séculos, o apocalipse não chega nunca, mas as elites continuam agindo do mesmo jeito.
É um cacoete histórico de uma casta que, durante séculos, enriqueceu com a exploração do trabalho escravo. Toda e qualquer expansão de direitos ao trabalhador sempre foi tratada historicamente como um atentado contra a economia.
Vejamos o depoimento de Barão de Cotegipe, que representava grandes fazendeiros no Senado, durante os debates que antecedem a implementação da Lei Áurea: “Tenho conhecimento da nossa lavoura, especialmente das províncias de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e afianço que a crise será medonha. A verdade é que haverá uma perturbação enorme no país durante muitos anos".
Corta para 2026 com a fala do deputado Sóstenes Cavalcante, do PL do Rio de Janeiro, um dos críticos mais ferozes do fim da escala 6x1: “Este é um tiro de morte no coração da economia”. Mais de um século e meio se passou, mas as trombetas do apocalipse seguem tocando no mesmo tom terrorista.
O papel da imprensa na defesa dos interesses patronais
Na imprensa, não faltam jornalistas empenhados em defender os interesses dos patrões. A proposta por uma jornada de trabalho menos indigna é tratada como um populismo barato em ano eleitoral que trará consequências gravíssimas para a economia.
O Estadão manchetou: “Fim da escala 6x1: entidades da indústria se dizem preocupadas e citam ‘graves prejuízos à economia’” e não se dignou a ouvir opiniões contrárias. É o mesmo jornal que durante a escravidão fazia anúncio de vendas de escravos e que militou para adiar ao máximo a abolição da escravatura.
Na Band, o jornalista Eduardo Oinegue foi escalado para atacar o fim da escala 6x1. Depois de se escorar na falácia de que o trabalhador brasileiro é um dos mais improdutivos do mundo, o jornalista chama afirma que a “redução de jornada de trabalho sem redução salarial é populismo barato".