Protesto expõe atrito entre Nikolas e ala bolsonarista que evita 'Fora, Toffoli'
Por Ana Luiza Albuquerque/Folhapress
17/02/2026 às 07:05
Foto: Kayo Magalhães/Arquivo/Câmara Dos Deputados
Nikolas Ferreira
O anúncio de um protesto de direita para o dia 1º de março voltou a expor um atrito entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), que chamou a manifestação sob o lema "Fora, Lula, Moraes e Toffoli", e uma ala bolsonarista que avalia não ser estratégico priorizar agora o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli.
Esse grupo defende que o foco deve ser a anistia aos manifestantes do 8 de janeiro e a liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Há meses, são constantes as reclamações sobre uma suposta tentativa de Nikolas de se descolar de Bolsonaro e privilegiar o próprio engajamento e crescimento político —o que aliados do deputado resumem como "dor de cotovelo" e disputa por protagonismo.
Nikolas anunciou o ato na quinta-feira (12), dia em que Toffoli se afastou da relatoria do processo que investiga irregularidades no Banco Master, após a Folha ter revelado conexões entre o ministro, o resort Tayayá e o banco de Daniel Vorcaro.
Nos dias posteriores, políticos que costumam ser ávidos defensores da família Bolsonaro nas redes passaram a anunciar o protesto sob o mote da anistia e liberdade irrestrita, inclusive para o ex-presidente.
Chamaram para a manifestação desta forma, por exemplo, o deputado federal Mário Frias (PL), os deputados estaduais Gil Diniz (PL) e Lucas Bove (PL), e o vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo (PL).
Como mostrou o Painel, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, foi aconselhado a evitar a pauta do impeachment de Toffoli.
Um aliado avalia que o mote está sendo usado pela direita não-bolsonarista, como o MBL, para se promover e para desmobilizar a luta pela anistia e pela liberdade de Bolsonaro, assim como pela derrubada do veto do PL da Dosimetria pelo presidente Lula (PT).
Esse interlocutor também afirma que, apesar de o grupo ser favorável ao afastamento de Toffoli, assim como o de Moraes, um impeachment de um ministro do STF a menos de um ano das eleições não seria benéfico.
Isso porque, segundo esta leitura, esse movimento poderia favorecer Lula, que teria a prerrogativa de indicar mais um ministro. Ele poderia escolher o senador Rodrigo Pacheco (PSD), que era favorito do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), e, com isso, destravar a nomeação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de Luís Roberto Barroso.
No domingo (15), Nikolas reagiu a esse argumento nas redes. "Se impeachment de ministros não é válido agora, por que estão há 3 anos pedindo o do Moraes? [...] Até para criar narrativa, precisa de um mínimo de coerência. Patético a tentativa de esconder isso das pessoas", escreveu.
Políticos bolsonaristas negam tentativa de blindagem de Toffoli com a pauta da anistia. No X, antigo Twitter, o deputado estadual Gil Diniz, preferido do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) para disputar uma vaga no Senado em São Paulo, afirmou que essa acusação é "mau-caratismo" e que uma busca rápida em suas redes revela sua opinião sobre os ministros do STF.
"Muitos aqui parecem ter esquecido dos presos que estão nas masmorras, estão eufóricos com o alcance do algoritmo, parece que engajamento, like e compartilhamento são tudo que importa com 'hype' da vez!", escreveu no domingo (15).
Após a tentativa dos correligionários de modular a pauta do protesto, Nikolas disse nas redes no sábado (14): "Não acredite em ninguém que convoque para a manifestação do dia 01/03 e não peça o impeachment de ministros do STF e Fora Lula".
O parlamentar também afirmou que um dos objetivos do ato é derrubar o veto da dosimetria, que, segundo ele, é a ação mais efetiva para alcançar a liberdade dos presos pelo 8 de janeiro e de Bolsonaro.
Horas depois, Gil Diniz publicou no X: "Não acredite em nenhum alpinista político (pequeno ou grande) que cresceu com o apoio do Presidente Jair Bolsonaro e não tem por prioridade nesse momento a Anistia Geral e Irrestrita para todos os presos políticos!".
Aliados de Nikolas ressaltam que as pautas da ala bolsonarista estão inclusas no protesto anunciado por ele, mas o contrário, não, já que o grupo não se engajou pelo impeachment de Toffoli.
O chamado para a manifestação sob o lema da anistia foi compartilhado por Eduardo Bolsonaro, que marcou na publicação os perfis do deputado Mário Frias e do vice-prefeito Mello Araújo. "Se eu pudesse estaria com vocês aí na Paulista 1º/MAR, às 15h", escreveu.
O filho do ex-presidente já criticou Nikolas publicamente em algumas ocasiões no ano passado, acusando o deputado de não se engajar como poderia nas pautas em defesa do bolsonarismo. Posteriormente, tiveram uma conversa para tentar uma conciliação, como noticiou a Folha.
A relação com o parlamentar reflete o racha dentro da própria família Bolsonaro. Enquanto Eduardo acumula atritos com Nikolas, sua madastra, Michelle Bolsonaro (PL), que recentemente foi alvo da artilharia dos filhos do marido, apoia o deputado.
No fim de janeiro, após a caminhada liderada por Nikolas de Paracatu (MG) à Brasília (DF), Michelle escreveu nas redes que o parlamentar "é separado por Deus para este tempo" e lhe chamou de "06", como se fosse mais um filho de Bolsonaro.
Na caminhada em protesto contra as prisões pelo 8 de janeiro houve um aparente distensionamento da relação de Nikolas com os filhos do presidente, que o parabenizaram pelo ato.
Como mostrou a Folha, Flávio chegou a considerar lançar o deputado ao Governo de Minas Gerais em aliança com uma ala do centrão. Nikolas, porém, voltou a afirmar publicamente que será candidato à reeleição.
O deputado também tem sido criticado e pressionado por bolsonaristas a trabalhar mais diretamente pela pré-campanha do senador. Na semana passada, ele afirmou no X que já deixou claro que Flávio é o candidato escolhido por Bolsonaro e que ele terá o seu apoio.
Politica Livre
Nota da Redação deste Blog - O noticiário revela mais do que um simples chamado para manifestação. O episódio envolvendo Nikolas Ferreira e a ala bolsonarista escancara uma disputa interna na direita brasileira: uma briga por protagonismo, narrativa e, sobretudo, pela herança política do bolsonarismo.
O protesto marcado sob o lema “Fora Lula, Moraes e Toffoli” abriu fissuras que já vinham sendo comentadas nos bastidores. De um lado, Nikolas tenta ampliar sua identidade própria dentro do campo conservador, defendendo o impeachment de ministros do STF. De outro, uma ala mais alinhada diretamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro prefere concentrar esforços na anistia aos presos do 8 de janeiro e na liberdade do ex-mandatário — hoje condenado a 27 anos de prisão e ainda respondendo a outros processos.
Não se trata apenas de divergência estratégica. Trata-se de disputa por liderança. Cada grupo tenta “puxar a sardinha para seu lado” dentro de um campo político que perdeu seu principal eixo eleitoral competitivo e agora vive um processo de reorganização. A ausência física e jurídica de Bolsonaro cria um vácuo — e todo vácuo no poder tende a ser ocupado.
A divergência sobre o impeachment do ministro Dias Toffoli é simbólica. Parte do bolsonarismo avalia que abrir essa frente agora poderia fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que caberia a ele indicar um eventual substituto no STF. Ou seja, o cálculo político fala mais alto que o discurso inflamado.
Enquanto isso, surgem acusações mútuas de “alpinismo político”, “busca por engajamento” e disputa por likes. A crítica interna é clara: alguns enxergam em Nikolas uma tentativa de se descolar da imagem de Bolsonaro para construir uma liderança própria nacional, talvez já mirando 2026.
Além do conflito interno, há também o pano de fundo de outras crises que atingem o campo conservador, como as investigações envolvendo o Banco Master. Para críticos, elevar o tom contra ministros do STF pode funcionar como estratégia para desviar a atenção de escândalos financeiros e fragilidades jurídicas.
O racha se amplia quando entram em cena nomes como Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que têm posições e interesses distintos dentro do mesmo campo ideológico. O que se vê é uma direita fragmentada entre:
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os que defendem anistia como prioridade absoluta;
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os que querem impeachment de ministros;
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os que pensam já na sucessão presidencial;
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e os que tentam manter a coesão mínima do grupo.
A verdade é que a briga não é contra Lula nem contra o STF — é interna. É uma disputa pela liderança do espólio político de Bolsonaro.
Movimentos políticos sempre passam por fases de transição quando perdem sua figura central. O bolsonarismo não foge à regra. O que se observa agora é um processo de redefinição de comando, narrativa e estratégia eleitoral.
No fim das contas, o protesto revela algo maior: a direita brasileira enfrenta menos um embate externo e mais uma guerra de vaidades e cálculos estratégicos. E, quando a disputa é por herança, raramente há consenso.