segunda-feira, fevereiro 16, 2026

O defeito está na vista – e na memória curta da política brasileira

 


O defeito está na vista – e na memória curta da política brasileira


Por José Montalvão

Quando assisto a setores da direita criticarem a esquerda, afirmando que “nada foi feito pelo Brasil”, não consigo deixar de lembrar do artigo “O defeito está na vista”, de Luiz Amorim. A metáfora do cavalo cego vendido pelo cigano é perfeita para retratar parte do debate político nacional: o defeito estava na vista — mas muitos preferiram não enxergar.

Durante séculos, o Brasil foi governado por elites conservadoras, herdeiras de um modelo colonial excludente. Do Império à República Velha, das oligarquias agrárias ao regime militar, passando por longos períodos de hegemonia liberal-conservadora, foram grupos ligados à direita que moldaram as estruturas políticas e econômicas do país. Se hoje ainda enfrentamos desigualdade brutal, concentração de renda, deficiência estrutural em educação e saúde, não se pode ignorar quem esteve majoritariamente no comando por tanto tempo.

É simplista — e até desonesto — afirmar que apenas um campo político é responsável por todos os males nacionais. Mas também é injusto apagar da história o peso de cinco séculos de poder concentrado nas mãos de elites que sempre governaram mais para poucos do que para muitos.

O discurso de que “a esquerda nada fez” ignora políticas públicas que ampliaram o acesso ao ensino superior, reduziram a pobreza extrema e fortaleceram programas sociais que mudaram a vida de milhões. Pode-se criticar erros, apontar falhas e denunciar casos de corrupção — que existiram e devem ser combatidos sem distinção ideológica —, mas negar avanços concretos é negar a realidade.

O problema maior está quando políticos que passaram a vida inteira no poder, muitos deles envolvidos em escândalos, reaparecem como “novos salvadores da pátria”. Mudam o discurso, vestem a roupa da moralidade repentina e tentam convencer o eleitor de que agora, finalmente, farão o que não fizeram durante décadas. É exatamente aí que a metáfora do cavalo cego se encaixa: o defeito estava na vista.

Assim como o comprador que não percebeu que o animal era cego, parte do eleitorado muitas vezes ignora o histórico daqueles que se apresentam como solução. A cegueira não está na política — está na falta de memória.

O artigo de Luiz Amorim também fala sobre responsabilidade profissional e ética. Quando uma empresa tenta empurrar um produto defeituoso ao cliente, está apostando na desatenção ou na ignorância de quem compra. Na política ocorre o mesmo: quando gestores falham repetidamente e depois culpam apenas os outros, estão apostando na amnésia coletiva.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria. Precisa de instituições fortes, transparência, responsabilidade fiscal e social, e sobretudo de eleitores conscientes. A alternância de poder é saudável; o fanatismo, não. Nenhum grupo político detém monopólio da virtude — nem do erro.

A história ensina que não se pode enganar todos o tempo todo. Em cada eleição, o cidadão precisa perguntar: quem já governou? O que fez? O que prometeu e não cumpriu? O defeito estava onde?

Se existe atraso, ele é fruto de escolhas históricas, de omissões acumuladas e de elites que, por muito tempo, preferiram manter privilégios a enfrentar desigualdades. Mas o futuro não está condenado a repetir o passado — desde que o eleitor abra bem os olhos.

Porque, no fim das contas, o defeito pode até estar na vista. O perigo é escolher continuar sem enxergar.

 José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025

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