quarta-feira, junho 11, 2025

Vivemos dias difíceis! Um comediante pode ser pior do que um estuprador?

 

Vivemos dias difíceis! Um comediante pode ser pior do que um estuprador?

Léo Lins, humorista

“Meu partido é a piada”, sintetiza o humorista Léo Lins

Joel Pinheiro da Fonseca
Folha

Dias difíceis para a liberdade de expressão no Brasil. Um jornal é condenado por publicar a remuneração de um juiz. Um músico, MC Poze, é investigado por suas letras. Finalmente, um humorista, Léo Lins, é condenado a 8 anos de prisão por suas piadas.

É um índice de nossa polarização o fato de que, via de regra, quem é contra a condenação do humorista é a favor da prisão do músico e vice-versa. Direita e esquerda se espelham: de diferentes lados, a liberdade de expressão está em xeque.

TIPO EUA – Neste momento cabe um alerta: muitos dos indignados com a condenação de Léo Lins defendem que o Brasil deveria ter a liberdade de expressão dos EUA, onde é permitido ser abertamente racista, nazista, etc.

Podemos discutir os prós e contras desse modelo, mas o fato é que essa não é a lei brasileira. Aqui, a liberdade de expressão tem mais limites, especialmente quando ofende grupos historicamente subalternizados.

Aceito isso e inclusive defendo nossa lei: penso que, se um “humorista” fizer de seu show um palanque de discurso de ódio e perseguição a algum grupo, deveria sim receber uma sanção. Mesmo assim, a prisão de Léo Lins é injusta. E a comparação com outros países nos mostra o quão aberrante foi a sentença.

PENA EXAGERADA – França, Alemanha, Inglaterra. Todos esses têm leis contra discurso de ódio; nenhum desses trancafia humoristas provocadores, e muito menos por 8 anos.

A França tem o caso mais emblemático: o humorista Dieudonné M’bala M’bala transformou seu stand-up basicamente num palanque antissemita. Chamou historiador negacionista do Holocausto em seu show. Já lamentou que um jornalista judeu não tenha morrido na câmara de gás.

Ou seja, um discurso de ódio focado, reiterado e com clara intenção de estigmatizar um grupo. Sua punição? Além de indenizações em processos civis das pessoas que ele ofendeu especificamente, a pena máxima que já levou foi uma prisão de 2 meses, prontamente suspensa, servindo mais como ameaça se voltasse a cometer algum crime.

NÃO HAVIA DOLO – No caso de Léo Lins, sua pena foi maior do que a de estupradores, graças a uma acusação que não fez o básico: ao contrário de M’Bala, não havia o dolo, ou seja, a intenção de discriminar ou incitar a discriminação.

“Sou totalmente contra a pedofilia, sou mais a favor do incesto. Se for abusar de uma criança, abusa do seu filho. Ele vai fazer o quê? Contar para o pai?”. Difícil imaginar algo de mais mau gosto. E, no entanto, alguém acha que Léo Lins queira incitar a pedofilia, ou ainda que, no contexto de seu show, os espectadores se sintam incentivados a praticá-la? É claro que não.

A persona de um humorista no palco, assim como a de um músico em seu show, não se confunde com a pessoa real que existe fora dali.

METRALHADORA DE PIADAS – Seu show é uma metralhadora de piadas contra grupos com os quais não se pode brincar —negros, gays, deficientes, cristãos, crianças, judeus, policiais, gordos—, justamente para testar os limites do discurso, dar à plateia o gosto do proibido, fazer o público ficar mal até consigo mesmo. Piadas podem sim ser a arma para discriminar e humilhar. Nesse caso, não eram.

Vivemos numa época moralista, que tem dificuldade em lidar com diferentes registros do discurso, que está sempre ansiosa para condenar.

O eu-lírico e a persona de palco foram abolidos no furor popular. Mesmo assim, a Justiça não deveria se deixar levar, pois dar 8 anos de prisão para Léo Lins é um absurdo.

Nota da redação deste Blog -  A liberdade de expressão, pilar fundamental de qualquer democracia, parece enfrentar tempos desafiadores no Brasil. Casos recentes envolvendo jornalistas, músicos e humoristas acendem um alerta sobre os limites do que pode ser dito, cantado ou escrito no país. A sensação é de que vivemos em uma era de hipersensibilidade, onde a condenação precede a reflexão e diferentes formas de discurso são rapidamente taxadas como inaceitáveis.

Um dos exemplos mais preocupantes é a condenação de um jornal por publicar a remuneração de um juiz. A transparência na administração pública, incluindo os salários de servidores, é um direito da sociedade e um dever do jornalismo. Quando a divulgação de informações de interesse público se torna alvo de punição, a própria função fiscalizadora da imprensa é comprometida, abrindo perigoso precedente para a censura velada.

No campo artístico, a situação não é menos complexa. O músico MC Poze, por exemplo, encontra-se sob investigação devido às letras de suas canções. Embora o discurso de ódio e a incitação à violência sejam inaceitáveis, a arte, em suas diversas manifestações, muitas vezes se utiliza de linguagem provocativa e aborda temas polêmicos. A linha entre a expressão artística e a transgressão legal pode ser tênue, e a interpretação excessivamente restritiva pode sufocar a criatividade e a capacidade de artistas retratarem a realidade, por mais dura que ela seja.

O caso do humorista Léo Lins, condenado a 8 anos de prisão por suas piadas, é talvez o mais emblemático dessa onda de condenações. O humor, por sua natureza, frequentemente explora o absurdo, o controverso e o politicamente incorreto. Ele tem o poder de nos fazer rir de nós mesmos e de questionar tabus. Condenar um humorista a uma pena de prisão tão severa por suas declarações, mesmo que consideradas de mau gosto ou ofensivas por parte da sociedade, levanta sérias questões sobre os limites da liberdade de expressão e a compreensão do papel do humor na sociedade. É crucial distinguir entre piadas que, embora ácidas, visam ao riso, e discursos que genuinamente incitam à violência ou à discriminação.

E não são apenas os grandes veículos de comunicação ou figuras públicas que sentem o peso dessa repressão. Blogs e mídias locais, como o  blogdedemontalvao de Jeremoabo, também são alvo de condenações por republicar supostas irregularidades praticadas por servidores públicos. Isso demonstra que a dificuldade em lidar com a liberdade de expressão perpassa todas as esferas, atingindo inclusive as vozes mais próximas da comunidade.

Essa série de eventos sugere que estamos em uma encruzilhada. A busca por uma sociedade mais justa e respeitosa é legítima e necessária. No entanto, o caminho para alcançá-la não pode passar pela supressão da liberdade de expressão. É fundamental que a sociedade brasileira e suas instituições reavaliem a forma como lidam com diferentes registros do discurso. É preciso cultivar a capacidade de discernir entre o que é criminoso e o que, embora possa gerar desconforto ou discordância, faz parte do direito de manifestar pensamentos e ideias. Sem um debate aberto e a possibilidade de expressar opiniões, mesmo as impopulares, corremos o risco de construir uma sociedade silenciosa, onde o medo de ser condenado sufoca a voz da crítica, da arte e da informação.

Será que estamos perdendo a capacidade de dialogar com o que nos incomoda, optando pela censura em vez da reflexão e do contraponto?


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