
Freire Gomes “inventou” a presença de Torres em reuniões
Eduardo Barretto
Estadão
A defesa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, réu na ação do golpe que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), está confiante de que o general Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, vai recuar nas acusações feitas contra Torres. A avaliação é que Freire Gomes não conseguirá detalhar as suspeitas contra Torres. A pedido do ex-ministro, os dois farão uma acareação no STF na próxima terça-feira, 24.
Nesse procedimento, pessoas que deram versões conflitantes em um processo judicial ficam frente a frente para esclarecer os fatos. Freire Gomes disse que Torres participou de reuniões de teor golpista, o que o ex-ministro rechaça. A principal aposta da defesa de Torres é porque o ex-comandante atenuou sua versão durante o depoimento ao STF.
SERÁ AO VIVO – Na terça-feira, 17, o ex-comandante do Exército solicitou ao STF que a acareação com Torres acontecesse por vídeo. Alegou que o deslocamento de Fortaleza, onde mora, até Brasília seria “excessivamente oneroso”. O general tem um salário de R$ 38 mil mensais. Um dia depois do pedido, contudo, Freire Gomes recuou: informou que irá à Corte.
A principal aposta da defesa de Torres se baseia no fato de que o ex-comandante atenuou sua versão durante o depoimento ao STF.
Em 2024, o general disse à Polícia Federal (PF) que Torres dava “suporte jurídico” à trama golpista no governo Bolsonaro. Também afirmou, na ocasião, que a “minuta golpista” discutida pelo então presidente e comandantes militares era a mesma apreendida pela PF na casa de Torres.
NÃO TEM CERTEZA – No entanto, Freire Gomes, em depoimento ao Supremo no mês passado, como testemunha de acusação, disse não ter certeza se a minuta era a mesma. O general também não detalhou quantas vezes Torres participou das reuniões de teor golpista.
Para mostrar que os documentos são diferentes, a defesa apresentará uma perícia ao STF. A medida foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal.
“A perícia vai demonstrar que a minuta do Google, encontrada na residência do ex-ministro da Justiça, nada tem a ver com a minuta do golpe, supostamente discutida com os comandantes militares”, disse o advogado de Anderson Torres, Eumar Novacki, à Coluna do Estadão.
MINUTA DO GOOGLE – No interrogatório, Torres também se referiu ao documento encontrado em sua casa como “minuta do Google”, ressaltando que o material estava disponível na internet antes da apreensão.
A esse respeito, o ministro Moraes já determinou que o Google informe quem inseriu o ofício na internet.
“Não é a minuta do golpe. Eu brinco que é a minuta do Google, né? Porque está no Google até hoje. Isso foi uma fatalidade. Eu nunca trabalhei isso. O documento era muito mal escrito. Não sei quem fez, não sei quem mandou fazer e nunca discuti esse tipo de assunto”, disse o ex-ministro a Moraes.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O advogado do general Estevam Theóphilo está de bobeira e não pediu acareação com Freire Gomes. A acusação é de que o general Estevam seria a favor do golpe, mas ninguém diz ter certeza a respeito nem há provas nos autos. A informação surgiu porque o general foi chamado por Bolsonaro para ir sozinho ao Palácio da Alvorada, sozinho. Estevam confirma ter ido à reunião e haver saído direto para a casa de Freire Gomes, onde teria relatado a conversa ao comandante. Ao depor, porém, Freire Gomes não confirmou. Disse que não se lembra de Estevam ter ido à sua casa, o que é uma grossa mentira. Como um chefe do Exército pode ter “esquecido” de reunião tão importante, em sua casa, à noite, sem agenda? O que se diz é que Freire Gomes teria ficado furioso por Estevam ter aceitado ir ao Palácio sem lhe pedir autorização. Se ficou melindrado ou não, Freire Gomes erra ao possibilitar a condenação de outro general que ele sabe ser inocente. É difícil acreditar que isso esteja acontecendo. (C.N.)