quarta-feira, setembro 14, 2022

Sem desculpas para o péssimo resultado do Brasil no IDH




As sérias falhas do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia são a principal explicação para a queda do IDH

Quando foi divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil referente a 2019, a Casa Civil de Jair Bolsonaro, então chefiada por Onyx Lorenzoni, apressou-se em atribuir aos “governos petistas” do passado o número, que é calculado a partir dos indicadores de saúde, escolaridade e renda da população.

Quatro anos depois é impossível usar a mesma desculpa para explicar o péssimo resultado do IDH que, em 2021, caiu pelo segundo ano consecutivo e ficou em 0,754, o menor patamar desde 2015. Com esse desempenho, o Brasil ficou em 87º lugar entre 191 países do mundo todo acompanhados pelo Pnud, e em 16º na América Latina, bloco liderado pelo Chile, atrás da Argentina, Cuba, México e Peru.

É verdade que o IDH caiu nos últimos dois anos no mundo todo, mas menos do que no Brasil. A pandemia do novo coronavírus teve efeito fulminante nos indicadores globais de saúde, sendo a expectativa de vida um dos pilares do IDH. A expectativa de vida do brasileiro ao nascer caiu de 75,3 anos no primeiro ano do governo Bolsonaro para 72,8 anos em 2021, ou seja, diminuiu em 2,5 anos e voltou ao menor nível em 12 anos. Na média global, a expectativa de vida foi reduzida menos, em 1,6 ano.

As falhas do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia são a principal explicação para a queda do IDH brasileiro. O governo resistiu à compra de vacinas e só agiu após pressão da sociedade e dos governadores. O próprio presidente pôs em dúvida a seriedade da pandemia ao compará-la a uma “gripezinha”, e a eficiência das vacinas, embora agora alardeie na campanha eleitoral quantos imunizantes adquiriu. Criticou e ainda o faz em campanha as medidas de isolamento social. O governo federal foi omisso e negligente, deixando para Estados e municípios a organização da vacinação e do tratamento dos infectados, falhando nos casos em que precisou intervir, como na crise em Manaus.

O país contabiliza quase 700 mil mortos em consequência da covid-19, o segundo maior número oficial de mortos na pandemia, depois dos Estados Unidos que, ainda assim, ficou em 21º lugar no IDH de 2021, com o índice de 0,92. Com a rede hospitalar concentrada em atender os atingidos pela covid-19, outras doenças foram negligenciadas, contribuindo para elevar o número de mortos. Todo o calendário vacinal está agora em risco.

Outro indicador que compõe o cálculo do IDH é a renda da população que, em termos nominais, ficou estável, segundo o Pnud, embora 8,3% abaixo do pico da série histórica, atingido em 2013. A evolução do PIB per capita ilustra melhor o problema. Em 2021, o PIB teve crescimento de 4,6%, compensando a queda de 3,9% do primeiro ano da pandemia. Mas o PIB per capita aumentou 3,9% no ano passado, percentual insuficiente para anular a perda de 4,6% de 2020.

O Pnud também enfoca a questão do ponto de vista da distribuição de renda. Nesse caso, o IDH brasileiro despenca 20 posições, caindo nada menos do que 23,6%, de 0,754 para 0,576. Na questão de gênero, os números são piores. A expectativa de vida das mulheres é 6,4 anos menor do que dos homens; e a renda média anual cai pela metade, sendo US$ 7 mil menor.

O terceiro pilar do IDH é a educação, área entregue a ministros igualmente omissos e voltados para questões desimportantes como o homeschooling. O Pnud trabalha com a expectativa de que o brasileiro terá 8,1 anos de estudo, mas as informações estão defasadas.

Indicação de como o governo põe a educação em plano secundário é o tratamento da área dentro do Orçamento do próximo ano. A ONG Todos pela Educação alertou que o projeto orçamentário retira quase R$ 1 bilhão dos recursos destinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que cobre despesas de diversas unidades orçamentárias do Ministério da Educação (MEC), incluindo a administração direta da pasta e instituições de ensino federais, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o programa de pós-graduação Capes e o FNDE. O Ministério da Educação foi o mais contemplado com despesas discricionárias, que podem ser cortadas e manejadas. A pasta tem previstos aproximadamente R$ 20,6 bilhões em despesas discricionárias do total de R$ 98,9 bilhões previstos pelo Executivo para o ano que vem. Isso mostra a escassa disposição do governo de melhorar os indicadores de desenvolvimento humano do país.

Valor Econômico

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