terça-feira, março 08, 2022

O impacto da guerra sobre a economia brasileira




Para o mundo, o conflito significa mais inflação e menos crescimento, combinação desfavorável para o Brasil, que já lida com pressões inflacionárias e atividade fraca

Por Sergio Lamucci

A guerra entre Rússia e Ucrânia tornou o cenário para a economia brasileira em 2022 ainda mais complicado. Para o mundo, o conflito significa mais inflação e menos crescimento, combinação desfavorável para o Brasil, que já lida com pressões inflacionárias resistentes e uma atividade econômica fraca. Há muitas dúvidas envolvendo o confronto, a começar pela duração da guerra, mas é provável que as tensões geopolíticas sejam prolongadas, com efeitos negativos sobre a economia global cujo alcance é difícil de estimar, mas que não serão nada desprezíveis.

Para o Brasil, o impacto mais forte deverá ser uma inflação mais alta do que se projetava antes da guerra. O Barclays revisou a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano de 5,3% para 5,8%, ao incorporar os acontecimentos mais recentes tanto no front doméstico quanto no externo, especialmente a aceleração das cotações das commodities, como o petróleo. Em relatório divulgado no sábado, o banco avalia que a Petrobras teria que elevar os preços internos dos combustíveis em quase 40% para corrigir a defasagem em relação aos preços externos. Embora considere improvável um reajuste dessa magnitude, o Barclays estima que a pressão potencial para a inflação ao consumidor é de 0,8 a 0,9 ponto percentual. Ao mesmo tempo, pondera o banco, pode haver alguma redução de impostos sobre combustíveis, uma vez que há discussões a respeito no Congresso. Também pode dar algum alívio inflacionário a redução de 25% da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), com exceção do cigarro. Isso pode tirar de 0,2 a 0,3 ponto da inflação nas próximas semanas, a depender do repasse aos consumidores desse corte de tributos, avalia o Barclays, que tem Roberto Secemski como economista-chefe para o Brasil. Há, porém, outras fontes de pressão sobre os preços, como as altas dos preços do trigo e dos fertilizantes.

Nesse cenário, o Barclays vê o risco de a Selic subir mais do que projeta atualmente. Para o banco, a taxa, hoje em 10,75% ao ano, deve alcançar 12,25% em maio, mas uma eventual piora das expectativas de inflação para 2023 pode levar a aumentos mais fortes. O Barclays elevou a previsão para o IPCA do ano que vem de 3,4% para 3,6%, distanciando-se um pouco mais da meta a ser perseguida pelo Banco Central (BC) em 2023, de 3,25%. O alvo deste ano é de 3,5%.

O J.P. Morgan também elevou na semana passada as projeções para o IPCA de 2022 e 2023, aumentando a previsão deste ano de 5,6% para 6% e a do ano que vem de 3,25% para 3,5%. Nesse quadro, a nova estimativa da equipe liderada por Cassiana Fernandez é que a Selic, em vez de subir até 12,25%, vai avançar até 12,75%.

A combinação de inflação mais elevada e juros possivelmente ainda mais altos é um mau presságio para a atividade. Além disso, 2022 é um ano de eleições presidenciais, o que tende a diminuir a disposição de muitas companhias em investir.

Na sexta-feira, foi divulgado o PIB do quarto trimestre de 2021. O resultado foi mais forte do que apontava o consenso de mercado - o PIB cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, mais que a mediana de 0,2% das projeções dos analistas ouvidos pelo Valor Data. Com isso, crescimento no ano passado ficou em 4,6%, deixando uma herança estatística de 0,3% para 2022. Isso significa que, se a economia brasileira não crescer nada em relação ao nível do fim de 2021, o PIB vai avançar 0,3% neste ano.

Esse maior carregamento estatístico levou o J.P. Morgan a melhorar um pouco a previsão para o desempenho da economia em 2022 - em vez de uma contração de 0,4%, o banco agora espera retração de 0,1%. Na visão dos economistas do J.P. Morgan, janeiro deve ter registrado um desempenho fraco da atividade, com recuo da produção industrial, vendas no varejo e serviços. Para fevereiro e março, a expectativa é de alguma recuperação da economia, levando o primeiro trimestre a pequeno crescimento. Os analistas do banco, contudo, veem agora uma retração mais forte da atividade no segundo e no terceiro trimestres, devido aos efeitos negativos da guerra e da inflação mais alta. “Nós reconhecemos que os riscos em torno das nossas projeções são mais altos que o habitual, mas julgamos que os eventos geopolíticos recentes serão liquidamente negativos para o crescimento do PIB do Brasil”, escrevem eles. Enquanto uma melhora nos termos de troca (a relação entre preços de exportação e importação) ajuda a economia, o choque causado pelos preços mais altos de combustíveis e alimentos vai reduzir a renda disponível dos consumidores, dizem os economistas do J.P. Morgan. Além disso, observam, também devem atrapalhar o PIB brasileiro o crescimento global mais fraco, principalmente da Europa, o segundo maior parceiro comercial do Brasil, e os juros domésticos mais altos, para combater as pressões inflacionárias. Por fim, o setor agrícola brasileiro pode sofrer aumentos de insumos e talvez até mesmo restrições à produção, uma vez que o país é um grande importador de fertilizantes, um produto que tem a Rússia como um grande fornecedor global.

O cenário internacional, desse modo, se tornou ainda mais complexo. A grande expectativa para este ano era de aumento dos juros nos EUA, o que seria negativo para países emergentes. Com a guerra, a incerteza na economia global aumentou muito. Talvez os juros americanos subam menos, mas a situação externa se tornou mais delicada.

Para o mundo, a guerra entre Rússia e Ucrânia deve implicar um choque estagflacionário, com menos crescimento e inflação, como descrevem os economistas do Barclays. Os principais canais de contágio são a alta forte dos preços de commodities e a aversão a risco nos mercados financeiros, segundo a equipe de Christian Keller, chefe de pesquisa econômica do banco. Os analistas do Barclays acreditam num conflito militar prolongado, com extensas sanções à Rússia.

Com os preços mais altos de commodities, a inflação global de 2022 deve ser mais elevada, o que vai pesar sobre a renda e, com isso, sobre o crescimento, aponta o Barclays. A equipe de Keller ressalta que, além de um consumo mais fraco, o investimento tende a ser afetado negativamente pela incerteza muito mais alta, especialmente na Europa. Nesse ambiente, o Barclays reduziu a estimativa para a expansão da economia global neste ano de 4,3% para 3,4%. Para o Brasil e outros emergentes, um mundo ainda mais difícil do que se desenhava há algumas semanas.

Valor Econômico

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