terça-feira, fevereiro 15, 2011

O etanol invadirá os Estados Unidos?

Carlos Chagas

A vinda de Barak Obama ao Brasil, em março, faz acender luzes de euforia no palácio do Planalto mas gera cones de sombra na Petrobrás. Porque o presidente dos Estados Unidos, se não mudar de idéia, deverá propor monumental exportação do nosso etanol para o seu país. Pretende, de início em cinco estados americanos, adicionar etanol à gasolina e ver se seus patrícios aceitam a mistura. Dando certo a operação, importará tudo o que pudermos produzir, até levantando certas barreiras alfandegárias hoje existentes por lá.

Claro que Obama exigirá compensações, a maior delas que as montadoras americanas instaladas em nosso território venham a ser aquinhoadas com facilidades, benefícios e incentivos maiores do que os já existentes, de forma a triplicarem sua produção de veículos, para grande exportação. A azeitona na empada será o aumento de empregos no Brasil. É possível que a pimenta envolva a compra dos caças F-18.�

A superprodução de etanol fará a alegria dos usineiros, mas já começa a ser vista de soslaio pela Petrobrás, interessada em concentrar os esforços nacionais no pré-sal e temerosa de que o governo possa entregar toda a energia não poluente à Eletrobrás.

De qualquer forma, é bom não contar com o ovo enquanto na barriga da galinha. O cartel internacional do petróleo é poderoso e não quer ouvir falar do ingresso maciço do etanol no seu quintal.

TERCEIRIZAÇÕES EXAGERADAS

Pode ser que o governo volte suas atenções para o exagero das terceirizações, que se eliminaram encargos trabalhistas na administração direta e nas empresas estatais, vem servindo para penalizar trabalhadores de todas as categorias, além de enriquecer ilicitamente grupos e pessoas empenhadas em tirar tudo do governo e repassar muito pouco para os contratados.

Essa observação vale para as mais variadas atividades, desde serviços de limpeza e de segurança em órgãos públicos à prestação de serviços de imprensa e construção de imagem em ministérios. Até a Polícia Federal vale-se desse expediente: nos aeroportos e repartições de contato com o público, trabalham funcionários terceirizados, sem garantia de emprego e mal remunerados. O exagero também atinge, e muito, os poderes Legislativo e Judiciário, tendo se espalhado pelos estados e municípios. Continuando as coisas como vão, logo pensarão em terceirizar as forças armadas.

FALTA UM PROJETO ESTRATÉGICO

A menos que o ministro Moreira Franco se encontre trabalhando em silêncio, falta ao governo Dilma Rousseff um projeto estratégico. Para onde vamos? Que metas e objetivos essenciais estão sendo traçados, além da extinção da pobreza absoluta e da miséria? Qual nosso papel no continente e no mundo desenvolvido a que aspiramos? O poder nacional, onde anda?

No governo Lula a tarefa foi entregue a Mangabeira Unger, que começou a trabalhar nesse sentido mas estranhamente demitiu-se antes de completar um ano no cargo de ministro de Assuntos Estratégicos. Talvez tenha reagido à superposição de tarefas.

TODOS NA ENCOLHA

Pela primeira vez em muitas décadas e variados governos, deixamos de assistir ministros batendo cabeça e disputando no tapa as atenções da mídia e da opinião pública. Andam todos na encolha, preferindo ocultar-se e deixando de divulgar planos, projetos e realizações. É de supor-se que se encontrem trabalhando e produzindo, mas estranhamente escondem-se no fundo de seus gabinetes. Não deve ser por descaso da mídia, sempre ávida por notícias. Pelo jeito, o ministério anda temeroso de desagradar e por isso não agrada. Some.

Para decifrar o enigma, há uma chave com nome próprio. Chama-se Dilma Rousseff. A turma tem medo dela, que em poucos dias de governo desautorizou Guido Mantega, o general José Elito Siqueira, Mirian Belquior, Fernando Haddad e Nelson Jobim. De lá para cá, nem eles nem ninguém mais abre a boca.

Tribuna da Imprensa

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