terça-feira, setembro 01, 2026

Maior praga é a desigualdade social, que preocupa os filósofos desde Platão


Charge do Duke (Rádio Itatiaia)

Hélio Schwartsman
Folha

Gostei de “The Greatest of All Plagues”, de David Lay Williams, em que o autor procura mostrar que a preocupação com a desigualdade socioeconômica se faz presente no cânone filosófico do Ocidente há mais tempo e de forma mais fundamental do que muitos poderiam supor.

Para tentar provar sua tese, Williams resgata passagens francamente igualitárias de um pool bem ecumênico de filósofos. São eles Platão, Jesus Cristo, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Ok, Cristo entra um pouco de contrabando, já que não é propriamente um filósofo e não deixou obra escrita, mas não vejo maiores problemas nisso.

PEDACILHO – Williams é generoso ao nos fornecer o contexto histórico em que cada um desses autores desenvolveu suas ideias e as expõe com didatismo. Creio, porém, que, ao tentar enquadrar todos esses filósofos em sua tese, ele acabe incorrendo em pecadilhos historiográficos.

Tomemos o caso de Platão. Para vendê-lo como um campeão da igualdade, Williams rebaixa um pouco o estatuto de “A República” para valorizar “As Leis”. É desse texto, aliás, que ele tira o título do livro “A maior de todas as pragas”.

Ocorre que uma das questões mais difíceis nos estudos de Platão é justamente a de como classificar “As Leis”. O texto é tão pouco platônico e diverge tanto do restante da obra que, no século 19, filólogos sugeriram que se tratava de um escrito apócrifo. Não é, mas qual Platão representa Platão?

OUTRO LAPSO – Algo parecido vale para os demais. Em Rousseau e Marx, a igualdade ocupa lugar central, mas será que podemos dizer o mesmo de Hobbes, que defendia poder quase total para o soberano?

Meu ponto é que é legal mostrar os trechos quase esquecidos em que alguns dos mais importantes filósofos do Ocidente criticaram a desigualdade econômica, mas não dá para ignorar os consensos dos comentadores.

Se vários desses filósofos não se celebrizaram como igualitários radicais, isso talvez se deva ao fato de que a questão não teve tanto peso assim na economia geral de suas obras.


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Mendonça descarta trégua com PF e crise leva Fachin a agir nos bastidores


Ministro se queixa de demora da PF na investigação

Luísa Martins
Catia Seabra
Ana Pompeu
Folha

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), sinalizou a auxiliares que não vê margem para uma trégua com a Polícia Federal nas tensões que envolvem os inquéritos contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

A situação tem preocupado o presidente da corte, Edson Fachin, que articula um modo de evitar o agravamento da crise. A interlocutores ele disse que é seu dever preservar as instituições e, com discrição, tentar dialogar com todos os envolvidos.

MOBILIZAÇÃO – O assunto mobilizou os bastidores do Supremo ao longo da última semana, em um cenário classificado por um magistrado aliado de Mendonça como “um corre-corre para baixar a temperatura”. Mendonça se queixa da demora da PF em apurações sobre as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e vê uma tentativa de impedir que elas avancem sobre aliados e familiares do presidente Lula (PT), candidato à reeleição em 2026.

Já a corporação vê intromissões do relator na sua autonomia para conduzir os trabalhos, ao determinar, por exemplo, que qualquer mudança na equipe de investigadores lhe seja comunicada de antemão. Integrantes da cúpula da PF afirmam que o pedido de abertura de três frentes de investigação contra Lulinha e uma operação policial contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) —no caso do Banco Master— demonstram que não há uso político das apurações.

Também dizem que Mendonça levou menos tempo para autorizar diligências contra Wagner do que contra aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, como o presidente do PP Ciro Nogueira e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro.

REUNIÕES – Fachin se reuniu recentemente com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington Lima e Silva, em reuniões descritas por um interlocutor como “audiências para aparar arestas”. Nos dias seguintes, contudo, cresceu o receio de que Mendonça pudesse proferir decisões drásticas, aptas a ampliar a erosão interna que já predomina no STF pelo menos desde o início do ano.

Um ministro chegou a alertar Fachin sobre a possibilidade de Mendonça estar sendo influenciado pelos delegados da PF que estão lotados em seu gabinete, e que são críticos da postura de Andrei como diretor-geral. O relator da Operação Sem Desconto, por outro lado, afirma a pessoas próximas que atua com cautela e independência e que seu objetivo principal é garantir a integridade das investigações, respeitando o devido processo legal.

A mobilização de Fachin continuou quando ele se encontrou novamente com Lima e Silva e com o ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, para tratar do assunto, mas não houve encaminhamentos concretos.

RECOMPOSIÇÃO – No início de agosto, Messias intermediou uma audiência entre Mendonça e o ministro da Justiça, que se dispôs a atuar como ponte para a recomposição da relação. Na ocasião, o magistrado do STF se mostrou disposto a isso, mas agora tem dito não ver mais espaço.

O entorno de Messias avalia que, devido ao perfil conciliador e republicano de Fachin, o presidente do Supremo pode ser um bom intermediador na busca de uma solução para esses conflitos.

O filho do presidente Lula (PT) é suspeito de cometer tráfico de influência no âmbito do governo. A defesa dele afirma que setores bolsonaristas da PF apresentaram um “quebra-cabeças de ilações” para tentar prejudicar a campanha do seu pai à reeleição.

CONFRONTO – Os atritos entre Mendonça e o diretor-geral da PF vêm desde o início das apurações da Operação Sem Desconto. Mendonça reclamou, por exemplo, de mudanças feitas na equipe e na estrutura da investigação sem o seu conhecimento prévio.

Uma troca na coordenação dos inquéritos, que levou a uma mudança dos delegados responsáveis, desagradaram o ministro, assim como a saída de um perito e supostos atrasos na juntada de materiais resultantes de ordens de quebra de sigilo.

O magistrado decidiu determinar que todos os atos da investigação sejam imediatamente anexados pela PF ao processo que tramita em seu gabinete, o que incomodou a cúpula da PF.

NOTA DE APOIO – Os 27 superintendentes lançaram uma nota em apoio ao diretor-geral, afirmando ser “indispensável a preservação da independência técnica das investigações e da autonomia necessária à gestão eficiente de seus recursos e prioridades”.

Andrei também pediu que a AGU entre em cena para impedir as medidas ordenadas por Mendonça, por entender que elas representam uma intromissão do magistrado e uma violação à autonomia e à independência da corporação.

Messias, no entanto, resiste a apresentar um recurso formal em nome da PF contra a decisão de Mendonça. O advogado-geral avalia, segundo um auxiliar, que a saída para o atrito não passa por um ato jurídico, mas por uma construção política.

IMPARCIALIDADE – Na última sexta-feira (28), o diretor-geral da PF disse que “a atuação técnica, imparcial e livre de qualquer viés político é o que nos permite defender a instituição de qualquer ataque, não importa de onde venha”. Ele não citou Mendonça.

Em entrevista à TV Globo na última semana, Lula disse que as investigações sobre tráfico de influência são “ilações tiradas de telefonemas”, mas que Lulinha precisa se defender. Afirmou, ainda, que não haverá interferências do seu governo para blindar o filho.

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Alcolumbre indica Pacheco ao TCU e tenta acelerar aprovação no Senado


Indicaçãoprecisa ser aprovada pelo Senado e pela Câmara

Gabriella Soares
Caetano Tonet
Vinícius Cassela
G1

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), indicou nesta segunda-feira (31) o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), para o Tribunal de Contas da União (TCU). A vaga foi aberta com a saída antecipada do ministro Bruno Dantas.

Bruno Dantas decidiu formalizar sua saída do cargo, em ofício encaminhado nesta segunda-feira (31) ao presidente da Corte, Vital do Rêgo Filho. A indicação foi assinada pelo presidente do Senado e por 19 senadores, incluindo a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), e o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN).

“NOVOS PROJETOS” – Em nota e vídeo divulgados nesta segunda, Bruno Dantas afirmou que decidiu deixar o cargo para se dedicar a “novos projetos” e disse encerrar o ciclo no tribunal com a convicção de que “a rotatividade nos altos cargos do país é uma virtude”.

A vaga de Bruno Dantas é da cota de indicação do Senado Federal. Segundo o blog do Valdo Cruz, Alcolumbre, estava esperando apenas a formalização da decisão de Bruno Dantas para articular a ida de Rodrigo Pacheco para o TCU. Agora, a indicação deve ser encaminhada para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, onde Pacheco passará por uma sabatina e terá que ter o nome aprovado pelos senadores.

APROVAÇÃO – Em seguida, a indicação passará por votação no plenário da Casa. A expectativa é que o nome seja analisado nesta quarta-feira (2). Além disso, o candidato ainda precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados. Caso o nome seja aprovado nas duas casas, o presidente da República nomeia o novo ministro.

O presidente do Senado também apresentou um requerimento de urgência para que a indicação siga para o plenário sem passar por sabatina na CAE. Recentemente, o ex-deputado federal Jhonatan de Jesus também foi indicado ao cargo pela Câmara dos Deputados sem que passasse por sabatina.

Galípolo, Andrei e Gonet também estão envolvidos com Vorcaro, no caso Master


Tribuna da Internet | “Pirâmide” do Master/Will vai prejudicar mais  investidores do que se pensava

Charge do Takeshi Gondo (O Hoje)

José Marques, Luísa Martins e João Gabriel
Folha

Dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), se deveria deixar o país segundo mensagens reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo e obtidas também pela Folha.

Os documentos da Polícia Federal mostram que Vorcaro também pediu encontros com Moraes às vésperas de ser preso, justamente para tratar dos negócios que o fizeram ser investigado.

ESTAVA FUGINDO – Vorcaro foi preso pela PF no dia 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Documentos mostram que no dia 14 ele pergunta ao ministro se está “marcado amanhã lá em casa” ou se “prefere deixar para semana que vem”. Minutos depois, confirma: Vou chegar 14:30 ok! La em casa marcado”.

Na noite do dia 15, pelo horário brasileiro, dois dias antes da prisão, o ex-banqueiro pede um novo encontro com Moraes que “pode ser bem rápido”. “As 14 então. Passo na sua casa ou na minha?”, completa. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro teria enviado a Moraes a mensagem: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionando sobre a necessidade de fugir do país.

No dia seguinte, 16, um domingo, avisa: “Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”

MUITAS MENSAGENS – As trocas sobre os encontros aconteceram simultaneamente a outras mensagens, nas quais Vorcaro questionava Moraes sobre o andamento do processo contra ele e o Master.

Durante as trocas de mensagens, o dono do Master questiona diversas vezes sobre as apurações contra ele, se mostra indignado e diz que está tentando resolver todas as pendências para evitar problemas.

A revelação amplia o conjunto de mensagens entre Vorcaro e um interlocutor que a Polícia Federal suspeita ser Moraes. Parte desses diálogos está em documento foi enviado ao STF e sobre o qual o ministro André Mendonça, do STF, pediu manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da

DISSE MENDONÇA – Em decisão no final de agosto, Mendonça disse que conversas que Vorcaro teve com “outra pessoa ainda não identificada” comprovam que o ex-banqueiro soube, com significativa antecedência, da decisão que determinaria a sua prisão.

De acordo com o ministro, os diálogos reforçam a hipótese investigativa segundo a qual Vorcaro “demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios”.

A identificação do interlocutor de Vorcaro, prossegue o relator do caso Master, é fundamental para mapear “integrantes da suposta rede de influência e monitoramento” gerenciada pelo empresário.

GENTE GRAÚDA – Sem citar nomes ou suspeitas, Mendonça indica que nessa rede pode haver pessoas com foro especial e sujeitas a julgamento pelo próprio plenário do STF, como ministros da corte e o procurador-geral da República.

“Uma vez identificados os destinatários e demais mencionados nas referidas mensagens, devem ser igualmente fornecidas a íntegra de todas mensagens e interações existentes que envolvam as mesmas pessoas”, determina o ministro.

Um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro, em 16 de novembro, Vorcaro também perguntou ao ministro Moraes: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.

NO AEROPORTO – A ordem de prisão preventiva foi assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, às 15h29 de 17 de novembro. Horas depois, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo.

No dia 15, Vorcaro perguntou a Moraes: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o [Gabriel] Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. Já às 17h26 do dia em que acabou preso, teria enviado: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro não permitem saber o conteúdo de eventuais respostas de Moraes. Os dois usariam imagens de visualização única com capturas de textos escritos no aplicativo de notas, e a extração teria recuperado apenas conteúdos enviados pelo banqueiro.

ANDREI E PAULO – A investigação da PF apresenta uma série de mensagens enviadas por Vorcaro a partir de 30 de outubro de 2025. Em outros diálogos já revelados, o banqueiro pede a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” a seu favor. As referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

A pessoa para quem a mensagem foi enviada não havia sido identificada inicialmente, mas a PF aponta suspeita de que o interlocutor seja Moraes. A informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles e confirmada pela Folha.

Em uma das mensagens, Vorcaro afirma que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”. Em outra, pede que o interlocutor tente adiar uma ação da PF: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”.

PRAZO FATAL – Mendonça deu prazo de cinco dias para que a PGR se manifeste sobre o documento da PF. A Folha procurou nesta terça-feira (1º) Andrei, Gonet e Moraes, que ainda não haviam se manifestado.

Informações obtidas pela PF também apontam que Moraes fez edições em uma minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. Em nota, o escritório afirmou que seu setor de compliance solicitou informações ao ministro, “na condição de marido da sócia diretora”, sobre eventuais impedimentos legais para a contratação.

 

Segundo o escritório, não havia impedimento porque não estava prevista atuação perante o STF e Moraes não havia julgado causas envolvendo o Master. O contrato previa pagamentos de R$ 129 milhões ao longo de três anos, a R$ 3,6 milhões por mês.

OUTRAS MENSAGENS – Em março, O Globo revelou que Vorcaro trocou mensagens de WhatsApp com Moraes ao longo do dia de sua primeira prisão. A informação foi confirmada pela Folha.

À época, Moraes afirmou que “não recebeu essas mensagens” citadas em reportagens e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que elas teriam sido enviadas a ele.

Vorcaro foi preso em 17 de novembro, quando se preparava para embarcar para o exterior. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Master.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Em tradução simultânea, também estão envolvidos Andrei Rodrigues (PF), Paulo Gonet (PGR) e Gabriel Galípolo (BC). Com diz o genial samba de Ari do Cavaco e Bebeto Di São João, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão…”. (C.N.)


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