domingo, novembro 20, 2022

O mercado não tem Comitê Central




É uma teia complexa de intercâmbios pela qual flui o sangue das economias

Por Demétrio Magnoli (foto)

O Povo (famélico) contra o Mercado (rico, ganancioso, especulativo) –o tema circulou desde o esboço da PEC da Transição, nos discursos de Lula, dos dirigentes petistas e da torcida uniformizada na imprensa e nas redes sociais. Neles, o Mercado emerge como um sujeito político: o inimigo do "governo dos pobres". É investimento especulativo (ops!) na ignorância do público.

A política populista, ao contrário do que se pensa, não nasceu na América Latina, mas nos EUA. Seu protagonista icônico foi Andrew Jackson, o sétimo presidente (1829-1837), eleito sob o lema "a vontade do Povo". De lá para cá, o discurso populista fixou-se no mítico confronto entre Main Street (a rua popular do comércio) e Wall Street (a rua dos bancos). A cristalização da imagem geográfica desdobrou-se nas procissões de charges que opõem o "homem comum" ao banqueiro concupiscente. O mercado (financeiro) tornou-se o retrato do Mal.

O mercado, porém, não tem endereço, rosto ou Comitê Central. Não é seis carinhas milionários da Faria Lima. É uma teia complexa de intercâmbios pela qual flui o sangue das economias de mercado (ou seja, de todos os países, inclusive a China, com exceções insignificantes como a Coreia do Norte).

São centenas de milhões de agentes econômicos espalhados pelo mundo. Da teia, participam desde magnatas das finanças até metalúrgicos aposentados cuja poupança repousa em fundos de investimentos. Você e eu, que temos modestos patrimônios aplicados em produtos financeiros, somos parte do tal mercado.

O mercado não é um partido. O paralelo melhor talvez seja com o trânsito: sua dinâmica reflete inumeráveis ações individuais derivadas do interesse próprio. Ninguém fala em nome do mercado (ou do trânsito). Há apenas os que tentam interpretá-lo, de modo objetivo ou interesseiro. Lula gabou-se muitas vezes de suas (reais ou supostas) façanhas econômicas, "comprovando-as" por menções a altas na Bolsa. No discurso populista, o mercado só é malvado quando pune os atos do governo populista.

O mercado é uma bússola imprecisa, tendente a bruscas oscilações determinadas por ataques especulativos e movimentos de manada. Contudo, num horizonte mais extenso, sua agulha revela as direções corretas. Quando Lula 2 e Dilma 1 ignoraram a bússola, o Brasil ingressou na areia movediça de uma depressão histórica. No fim da linha, o líder populista tira dos pobres, com a mão direita, o que lhes deu com a esquerda.

O mercado não tem ideologia. Ele condenou a PEC Kamikaze, mesmo com a ultra-oportunista limitação temporal dos gastos extras. O que nunca veio foi a punição política, pelo voto dos parlamentares. É que a indômita oposição, PT incluído, preferiu a adesão.

O mercado sem ideologia apeia governos, inclusive da direita ultraliberal. A prova mora no Reino Unido e chama-se Liz Truss. Seu gabinete thatcherista, que jurava amar o mercado, durou 49 dias. O Povo ("unido, jamais será vencido") nunca saiu às ruas para derrubá-lo. A queda humilhante começou quando anunciou-se um pacote de corte de impostos (especialmente para os ricos) baseado em emissão de dívida pública. O mercado reagiu, recusando-se a comprar ativos em libras. Caput.

O mercado move-se ao sabor de fatos: não se impressiona com declarações balofas, principalmente as falsas ("sempre, nos meus governos, guiei-me pela responsabilidade fiscal"). "Nunca vi mercado tão sensível como o nosso", reclamou Lula, fazendo eco a Truss. A torcida uniformizada foi atrás, cumprindo o papel subordinado que lhe cabe. A arrogância é péssima conselheira, ainda mais no atual cenário econômico internacional. O mercado topa o Bolsa Família e a extinção do teto de gastos –mas com uma pesada âncora fiscal.

Que ninguém se engane: o camarada Lira, neo-aliado, pulará fora de um barco à deriva. Melhor prestar atenção na agulha da bússola

Folha de São Paulo

Conservadorismo versus propaganda neocon




No pós-Guerra Fria, a direita dita neoconservadora (ou neocon) dos EUA inventou que, se o comunismo era coisa de esquerda, a democracia era coisa de direita. 

Por Bruna Frasolla (foto)

Um dos males do Brasil é a substituição de pensamento por tradução. O pensamento vem pronto de fora; o que há de se fazer é traduzir e aplicar ao Brasil. Foi assim com o comunismo, é assim com o liberalismo e – para a minha surpresa – até com o conservadorismo. O caso do conservadorismo é uma surpresa porque não existe uma obra clássica que pretenda lançar receituários conservadores para o mundo. O comunismo oferece receita de bolo. O liberalismo desde o século XIX vem sofrendo muitas distorções; mas, considerando-se que o liberalismo é o liberalismo de Locke e da Revolução Gloriosa, podemos dizer que é possível extrair dele um receituário, a saber: o de que o poder nunca deve se concentrar numa única autoridade. Com base nisso, pode-se defender o capitalismo como uma separação entre poder político e poder econômico (como fez o liberal Hayek no século XX). Com base nisso, pode-se defender a democracia, na medida em que ela delega o poder da escolha a trocentos cidadãos. Com base nisso, pode-se atacar a democracia do século XXI alegando-se que ela concentra poder demais ao Judiciário e a agências reguladoras. O liberalismo tem um princípio abstrato que pode ser aplicado em vários contextos. Podemos dizer que tal solução é liberal ou iliberal de modo objetivo, sem que isso implique juízo de valor.

E o conservadorismo?

Burke, reacionário e revolucionário

O livro que costuma ser apontado como obra inaugural do conservadorismo são as 'Reflexões sobre a Revolução Francesa', do irlandês Edmund Burke. Parece-me um bom marco, já que é uma reação ao grande marco político da Modernidade; cronologicamente, é impossível ser uma reação a algo que não aconteceu ainda. Assim, mesmo que São Tomás seja um autor apreciados por conservadores, não sei se faz sentido colocar São Tomás como conservador, pois isso implicaria a estranha noção de que existia conservadorismo na Idade Média.

Também no texto de Burke creio que podemos reconhecer o princípio conservador: o respeito à tradição. A Revolução Francesa foi a precursora dos vícios mais perigosos do século XX, já que o totalitarismo sempre parte da ideia de que a ordem vigente é arbitrária e pode ser substituída por outra tirada da cachola de um demiurgo. A tradição é considerada espúria e deve ser substituída na marra.

O princípio do conservadorismo não é passível de ser aplicado sem atenção ao contexto, e é indissociável de juízo de valor. Nenhum conservador afirma que a ordem deve ser mantida sem alterações. O próprio Burke critica a Revolução Francesa não por ser uma mudança, mas por ser uma mudança feita do jeito errado, ou seja, em completo desrespeito à tradição. Assim, toda vez que um conservador optar por conservar, sempre estará baseado num juízo de valor: de uma cultura que não é perfeita, ele está optando por realçar tais e tais características que ele julga boa. Dificilmente um conservador encontrará uma cultura ou instituição tão perfeita que deva ser congelada para sempre.

Para voltamos a Burke, ele era “reacionário” em relação à Revolução Francesa, porém “revolucionário” em relação às colônias inglesas na América. Apoiara a decisão dos colonos de se livrarem da Coroa, que se tornava cada vez mais opressiva. A criação dos EUA teve muito de experimental e de utópico. Ainda assim, é possível defendê-la dentro de uma chave conservadora, alegando que ela foi feita para preservar a liberdade que a Coroa tirava. Por outro lado, também seria possível ser contra a independência dos EUA dentro de uma chave conservadora, alegando que a unidade do Império deveria ser preservada. Cabe ao conservador decidir, caso a caso, o que é importante.

Burke considerou que, no caso americano, a liberdade deveria ser preservada. Daí se segue que a liberdade deva sempre ser preservada? Então vamos lá: um conservador deve ser favorável a uma maior liberdade nas relações amorosas, aprovando, por exemplo, a legalização e a aceitação social das uniões poliamorosas? Não é possível defender tal coisa sob uma chave conservadora, porque é totalmente experimental. Tampouco creio que faça sentido defendê-la de um ponto de vista liberal, mas aí é outra história.

Variação cultural

Outra coisa que dificulta a aplicação abstrata e objetiva do conservadorismo é a variação cultural. Se as culturas diferem, o arcabouço de coisas a serem conservadas difere. O mundo anglófono tem uma tradição liberal – muito mais liberal e muito menos conservadora do que o mundo lusófono. Assim, impor uma ditadura centralizadora seria algo especialmente contrário ao conservador nesses países. No entanto, caso se tratasse de impor liberalismo à Rússia, aí sim também se estaria violando ideais conservadores, haja vista o fato de que a Rússia não tem nenhuma afinidade com a tradição liberal. É no mínimo tão razoável (ou antes irrazoável) um conservador russo apoiar o comunismo quanto apoiar o liberalismo. O comunismo trouxe muita desordem à Rússia, especialmente na área rural. Mas no âmbito do desenho político, o czarismo não é tão diferente assim do estalinismo. E quando se impôs à Rússia o formato da democracia liberal, ela só se estabilizou com o Presidente Pútin, que está longe de ser impopular em seu próprio país.

A Reforma Protestante é a coisa mais avessa ao conservadorismo que há. No entanto, como muitas igrejas protestantes se provaram estáveis após as convulsões, e como muitas famílias mantêm a fé há gerações, nada seria mais contrário ao conservadorismo do que fechar essas igrejas na marra, alegando que têm origem espúria. De todo modo, mesmo no mundo anglófono, majoritariamente protestante, há uma vinculação entre catolicismo e conservadorismo. O próprio Burke pode ter sido criado e batizado como católico graças à mãe, contra a vontade do pai; o maior conservador inglês do século XX é um católico convertido (Chesterton). Nos EUA, as grandes objeções ao progressismo não foram feitas sob uma chave liberal; em vez disso, vieram do “atraso” católico, ao qual só mais tarde se somaram algumas seitas protestantes.

A propaganda neocon dos EUA

Voltemos à vaca fria. No pós-Guerra Fria, a direita dita neoconservadora (ou neocon) dos EUA inventou que, se o comunismo era coisa de esquerda, a democracia era coisa de direita. E como a esquerda tinha perdido, o mundo não tinha outra opção senão se tornar uma democracia – nem que fosse na base da bala, como no caso do Oriente Médio. Francis Fukuyama decretara que o Fim da História é um mundo globalizado com democracias e livre mercado; restava dar uma apressadinha tacando bomba na cabeça dos outros. Mutatis mutandis, é o que os comunistas faziam: pegaram uma profecia e resolveram dar uma apressada.

Nos EUA, essa postura é ambidestra. (Trump foi uma exceção, com sua política de não-intervenção no exterior, que lhe valeu a acusação de russófilo por parte dos Democratas.) Hoje está em evidência graças aos esforços dos Democratas em “vigiar” essa coisa hiper-regulada que eles entendem por democracia, dando pitado inclusive na eleição brasileira. Eles abandonaram o Afeganistão, cuja “democracia” tinha quotas para mulheres no parlamento, e passaram a defender a “democracia” de um país tido por corrupto e de extrema direita até ontem, graças ao seu Exército, que inclui uma milícia neonazista revolucionária. Refiro-me à Ucrânia de Zelensky, onde a bandeira do Batalhão Azov, neonazista, pode ser vista lado a lado com a bandeira do Orgulho Gay.

Ainda assim, vemos uma certa direita algo desmiolada disposta a importar qualquer besteira que a direita norte-americana chame de conservadora. (Alguns direitistas desmiolados inclusive falavam em “ucranizar” o Brasil, como Sara Winter.) O exemplo mais recente disso foi um texto que me mandaram traduzir nesta Gazeta, de Dennis Prager. Propaganda pura.

Mitos propagandísticos

O texto intitulado “Por que o valor mais importante do conservadorismo é a liberdade” é ruim demais para ficar sem desmentido.

Prager afirma que “Todo genocídio do século XX, o século dos genocídios, foi cometido pelo governo grande. Sem o governo grande, 100 milhões de pessoas não seriam nem poderiam ter sido assassinadas, e um bilhão não seriam nem poderiam ter sido escravizadas. (Houve uma exceção: o genocídio hutu dos tútsis em Ruanda, que foi de natureza tribal. A cultura tribal, tal como a esquerdista, enfatiza o grupo em detrimento do indivíduo.)” É uma temeridade afirmar que todo genocídio, excetuado o de Ruanda, foi cometido por governos. Isso implica um conhecimento global do século XX que dificilmente um mortal tem. Eu sei que o Sendero Luminoso, em sua tentativa de fazer uma revolução comunista no Peru, foi genocida. Ele não tinha o Estado, mas conseguiu criar uma quantidade imensa de cadáveres. Cartéis de droga podem se mostrar genocidas também, caso suas atividades sejam bem apuradas.

De todo modo, é um acinte Dennis Prager omitir o Congo Belga, que é notório. Diferentemente das outras coroas europeias, o Rei Leopoldo da Bélgica fez do “Estado Livre do Congo” sua propriedade privada e não pôs Estado lá. Em vez disso, deixou companhias privadas de capital inglês atuarem livremente para coletarem o máximo de borracha possível. Resultado: não havia salário, todo trabalho era forçado. E como as empresas queriam gastar o mínimo possível de balas, solicitaram aos seus mercenários que levassem uma mão para cada bala gasta, provando que usaram-na para matar alguém. Resultado: mãos de gente viva eram decepadas para acertar as contas com o patrão.

As empresas de capital inglês chegaram também à Amazônia e fizeram negociações com o Peru e a Bolívia para locar territórios sem lei e explorar os índios do mesmo jeito. No Peru, deu certo e o resultado foi o Genocídio do Putumayo. Na Bolívia, o acordo não foi adiante porque o Acre foi vendido para o Brasil. A área já estava cheia de seringueiros nordestinos e revolucionários gaúchos.

Esses fatos são conhecidos graças ao trabalho de Roger Casement, um nacionalista católico irlandês que foi enforcado pela Inglaterra, país cujos empresários estavam envolvidos nesse jeito espúrio de obter borracha. Casement foi imortalizado na literatura por Joseph Conrad em No coração das trevas e por Vargas Llosa em O sonho do celta.

Essa omissão é um acinte. Na virada do século XIX para o XX, as empresas privadas cometiam genocídio. Os genocídios estatais viriam depois — e entre eles é bom não esquecer as bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki.

Outra falsidade é que os EUA veem pela primeira vez sua liberdade de expressão ameaçada. Isso é falso. Como já mostrei em resenha do excelente livro Liberal Fascism, de Jonah Goldberg, os EUA foram pioneiros em estratégias totalitárias de propaganda e delação. Pelas leis de 1917 e de 1918, um cidadão dos EUA poderia ser delatado e preso por criticar o governo dentro do seu próprio lar. Segundo Prager, censura é coisa de esquerda. Mas quem fez isso foi um governo defensor da democracia que guerreava contra o Kaiser.

Outra afirmação estapafúrdia é que só existe liberdade individual. Isso é coisa de quem nunca teve seu país ocupado, ou que acha que países não são importantes – daí não vê nada de mais em tacar bomba nos outros para instaurar o paraíso de indivíduos livres. Não, senhor Prager. A liberdade do Brasil é uma pré-condição para a liberdade dos brasileiros. Por mim, podem levar embora as nuvens da Oracle, bem como essa montanha de ONGs de capital que ofendem e caluniam o meu país.

Gazeta do Povo (PR)

Vamos perder mais uma década?



Esqueçamos de vez o ‘Brasil Grande Potência’ – aquela que nos levou a perder a década de 1980 – e cuidemos da vida

Por Bolívar Lamounier* (foto)

Mais uma década perdida nos levará a outras mais, isso é óbvio. Podíamos ter perdido a de 1980? Noves fora, penso que sim, pois, embora o general-presidente não pudesse ter previsto a guerra de 1976 no Oriente Médio e o abrupto impacto financeiro que ela teve sobre nós, não teríamos caído no despenhadeiro dos anos 80 se ele, em vez de tentar industrializar o Brasil “em marcha forçada”, tivesse dado ouvido a pessoas mais sensatas. Mário Henrique Simonsen, por exemplo, sabia que natura non facit saltus. A insistência na estratégia faraônica custou-nos um longo período de inanição econômica e desemprego furando o teto. Por sorte, dispúnhamos da inteligência de que precisávamos para brecar uma inflação de 33 anos, coisa de que já não podemos estar certos.

E a década de 2010, era evitável? Essa, com certeza, não, por causa da profundeza dos pilares sobre os quais a assentamos desde o princípio. As etapas de nossa descida morro abaixo podem ser facilmente recapituladas. Começou com entendimentos não tão republicanos, como seria de desejar, envolvendo uma fração infinitesimal do eleitorado brasileiro. Com uma crise internacional batendo às portas e as compras chinesas dando sinais de desaceleração, um seleto grupo formado por pessoas investidas em cargos públicos, empreiteiros de altíssimo coturno e ao menos um dotado de excepcional talento publicitário decidiram, recebendo em troca favores ainda não inteiramente esclarecidos, que o mandato de 2011-2014 haveria de ficar nas mãos de Dilma Rousseff e Guido Mantega.

Abstenhamo-nos de jogar toda a culpa na pandemia, pois sabemos que a “nova matriz econômica” chegou bem antes dela. Veio trazendo a maior recessão de nossa história e dispensando os préstimos de milhões de trabalhadores. O impeachment da suprema mandatária, estilhaços da Lava Jato, um sistema político esmigalhado e a substituição da civilidade pelo esmurro generalizado, a partir da eleição de 2018, demonstram que o Brasil é capaz de manter a democracia, mesmo sem a desejável galhardia.

Faremos bom uso da presente década? Pode ser que sim, pode ser que não. Tendo a crer que sim, porque acredito piamente que o medo e o bom senso se dão muito bem. Nem sempre, mas em geral se entendem. Se um dia discernirmos o espectro da guerra civil, o mais provável é que saudaremos com entusiasmo a chegada do juízo. Após meio século de vida política, Lula parece ter adquirido algum. Formando um bom ministério, terá condições de pacificar o País. E, se o fizer nos próximos quatro anos, a década estará salva, pois não é crível que cometamos o disparate de repetir esse enredo.

Mas certas hipóteses colaterais devem ser examinadas. Sabemos todos que Lula venceu Bolsonaro por um fio de cabelo. Se tivesse angariado, digamos, 70% dos votos válidos, o problema estaria resolvido. Nem em seus piores pesadelos ele aceitaria ser visitado pelo comandante-general Juan Domingo Perón. Com Bolsonaro, acontece o contrário. Se tivesse tido só 30% dos votos, meteria a viola no saco e iria cuidar de sua vida. Mas chegou quase ao empate. Nessa faixa, há lugar para muito ressentimento e para as mais descabidas alucinações. Para piorar as coisas, uma parcela de seus adeptos – entre os quais os caminhoneiros – o acoimará de traidor se optar por sombra e água fresca. Se Lula não conseguir desarmar a bomba do rancor com certa brevidade, o coquetel Bolsonaro + caminhoneiros + telefone celular poderá se constituir até com certa facilidade: nitroglicerina pura.

A esta altura, os leitores com certeza estarão me cobrando o que prometi no título deste artigo: o que poderemos fazer para evitar uma terceira década perdida? À primeira vista, começamos mal. Lula poderia ter dito qualquer coisa, menos que “equilíbrio fiscal causa sofrimento às pessoas e impede as crianças de tomar um copo de leite na hora de dormir”. Por sorte, a turma do deixa-disso entrou em cena e ficou combinado que a fala de Lula fora só uma brincadeirinha. Adentrando, então, o recinto das coisas sérias, qual deve ser nosso primeiro passo, além da já dita e repetida pacificação? Meus caros leitores hão de me desculpar, mas é o óbvio ululante. Precisamos ter um mínimo de ideia, um rabisco que seja de que país queremos e somos capazes de construir. Evito, por pura antipatia, a expressão “projeto nacional”. 

Precisamos cair na real de que nunca atingiremos o nível de vida da Alemanha, da Suécia ou dos Estados Unidos. Mas por que pensar nesses termos? Podemos perfeitamente pensar num país mais modesto, que cultive a normalidade de uma renda anual por habitante aceitável e bem distribuída, no qual todas as crianças possam “tomar seu copo de leite” e a educação e a segurança pública sejam prioridades absolutas. Um país que enfrente de peito aberto o desafio da reforma política e se livre da esparrela em que a Constituição de 1988 o meteu, a ponto até de impedir o combate à corrupção. Esqueçamos de vez o “Brasil Grande Potência” – aquela que nos levou a perder a década de 1980 – e cuidemos da vida.

*Sócio-Diretor da Augurium Consultoria, é membros das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências

O Estado de São Paulo

Sangue, suborno e bola.




No Qatar, as mulheres gozam da liberdade compatível com o islã, que permite a existência delas. O tráfico de crianças é corriqueiro. Não sei a que título alguns protestam contra o “mundial” do Qatar. 

Por Alberto Gonçalves 

2006 foi o último ano em que, até ver, o campeonato do mundo de futebol se realizou num país sob regime aborrecido, a Alemanha. Desde então, tem sido um pagode.

Em 2010, o “mundial” viu-se entregue à festiva África do Sul, que distraidamente pagou aos senhores da FIFA uma quantia apreciável e que, a fim de acomodar o evento, passou os meses anteriores ao mesmo a escorraçar e prender mendigos e outros elementos susceptíveis de perturbar os visitantes. 

Em 2014, a honra coube ao soalheiro Brasil da dona Dilma e do sr. Lula, que possivelmente pagou aos senhores da FIFA uma quantia apreciável e patrocinou viçosos subornos e “derrapagens” na construção dos estádios, a exploração de inúmeros trabalhadores, a morte de uma pequeníssima percentagem desses trabalhadores, o desalojamento de largos milhares de desgraçados das suas casas e, no geral, uma operação de propaganda que revelou à Terra o esplendor da corrupção local e um “time” capaz de encaixar sete golos. 

Em 2018, coube a vez da impoluta Rússia (sim, essa Rússia) do sr. Putin (sim, esse sr. Putin), que inevitavelmente pagou aos senhores da FIFA uma quantia apreciável, desatou a explorar nacionais e a escravizar norte-coreanos para erguer estádios, e orientou o espancamento e o sumiço dos indigentes que poluíam as cidades onde os estádios estavam.

Perante tal currículo, seria um desconsolo que o anfitrião do torneio de 2022 baixasse as expectativas. Se possível, a FIFA subiu-as: escolheu o Qatar. É verdade que o Qatar ajudou à escolha, pois evidentemente pagou aos senhores da FIFA uma quantia apreciável, incrementou a escravatura de imigrantes para produzir infra-estruturas modernaças e, no processo, matou-os em quantidades discutíveis (entre 3 – três – segundo as autoridades indígenas e 6500 – seis mil e quinhentos – ou 10000 – dez mil – segundo a imprensa estrangeira).

O engenho do Qatar não se esgota aqui. O território é uma teocracia nas mãos de uma família eleita pelos céus e guiada pela Sharia, onde a apostasia é punida com cadeia, chicotadas e, nos casos graves, fuzilamento; onde a blasfémia é punida com cadeia, chicotadas e, nos casos graves, fuzilamento; onde a homossexualidade é crime punido com cadeia, chicotadas e, nos casos graves, fuzilamento; onde o adultério… etc. No Qatar, as mulheres gozam da liberdade compatível com o islão, que do alto da sua bondade permite a existência delas e, com leviandade discutível, o respectivo voto.

Mas nem tudo é bom no Qatar. Também há coisas óptimas. Os naturais do ermo, perdão, emirado têm dinheiro. Consta que os shoppings são impecáveis. Os arranha-céus são homenagens solenes à foleirice. Os carros de luxo abundam nas ruas. O tráfico de crianças é corriqueiro. E isto sem referir os elevados padrões da península na política internacional, com o histórico ódio a Israel, a devoção pela “causa” palestiniana, a instigação do “jihadismo” no Médio Oriente e o suporte diplomático e financeiro à Irmandade Muçulmana e ao Hamas. Não sei a que título alguns protestam contra o “mundial” do Qatar.

Certas federações da bola, pelo menos as dos EUA, da Austrália e da Dinamarca, mostraram-se chateadas com a questão dos direitos humanos. Um jogador português, Bruno Fernandes, confessou-se chateado com a questão dos direitos humanos e, sobretudo, com a tenebrosa interrupção da época e o sinistro horário dos jogos. Por sorte, nenhum dos queixosos compreende bem o conceito de discórdia, que no caso consistiria em não participar naquilo que nos repugna. Assim, sem excepção, todas as selecções apuradas e todos os futebolistas convocados estarão presentes no Qatar, recebidos em histeria por claques falsas.

Ainda bem. Os “mundiais” acontecem apenas a cada quatro anos e, para lá dos merecidos retornos para a FIFA e os organizadores, são uma oportunidade episódica para que os profissionais da bola exibam habilidade técnica, tatuagens sublimes e penteados na vanguarda do universo capilar. Além disso, a exposição global permite a milionários remediados a assinatura de contratos que os tornem milionários sem remédio. E lembre-se os biliões de adeptos, que contam com a celebração do “beautiful game” para despachar cervejas e inspirar os filhos nos nobres valores do desporto.

Como antes os ligeiros deslizes de Rússia, Brasil e África do Sul (e da Argentina, em 1978, e da Itália, em 1934), os pecadilhos do Qatar não devem ser susceptíveis de comprometer os desafios no relvado. 

O totalitarismo político, o esclavagismo, a homofobia, a subalternização das senhoras, o racismo, o terrorismo, o anti-semitismo e maçadas similares são só pechisbeques retóricos com que, em determinados contextos sociais, as almas sensíveis enchem a boca – para a esvaziarem mal o árbitro sopre o apito inicial. Por cá, o prof. Marcelo já deu o mote: esqueçamos as irrelevâncias, que o importante é concentrarmo-nos no essencial, ou seja, em gritar por valentes que vão legitimar uma simpática e sangrenta ditadura, e em achar normal que o PR, o PM, o presidente da AR e resmas de sumidades viajem a nossas expensas para observar e apoiar e comentar ao vivo a “equipa de todos nós”.

A mim, por exemplo, ninguém poderá acusar de ignorar o “mundial” e a “selecção” por causa das minúsculas idiossincrasias do Qatar. Ignoro o “mundial” e a “selecção” porque tenho mais que fazer.

Observador (PT)

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Lula não tem problema com militares e nem militares têm problema com Lula

Publicado em 20 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Em Portugal, Lula afirmou que comando está tranquilo

Pedro do Coutto

Reportagem de Gian Amato e Gabriel Sabóia, O Globo deste sábado, destaca uma afirmação do presidente eleito, Lula da Silva, em Portugal, em que diz não ter problemas com militares e que os militares não têm qualquer problema com ele.

O relacionamento foi sempre cordial e positivo ao longo dos dois mandatos que exerceu quando presidente da República.Lula acentuou também estar seguro que no próximo mandato o relacionamento se repetirá a exemplo daquele que existiu de 2003 a 2010.

DEFESA – A dúvida ainda existente, segundo fontes da equipe de transição, é se o futuro ministro da Defesa será um civil, como aconteceu quando governou, ou se será um militar. “As Forças Armadas têm compromisso constitucional e tenho a certeza que vão cumpri-lo, como já cumpriram quando fui presidente da República”, acrescentou Lula. O presidente eleito lembrou que ao assumir a Presidência resolveu problemas orçamentários das Forças Armadas que enfrentavam questões financeiras refletidas até na alimentação dos soldados. Faltavam recursos incompreensíveis em qualquer administração.

As declarações do presidente Lula que assume em 1º de janeiro foram feitas durante sua a estadia em Portugal e destinam-se de forma indireta para os grupos estranhamente financiados por opositores depois das eleições que se concentram em frente aos quartéis e criam constrangimentos tanto na área militar quanto na área civil porque reivindicam um golpe militar no país e a implantação de uma ditadura.

O tempo vai passando, a posse no Palácio no Planalto se aproximando e os manifestantes finalmente começam a compreender que a campanha que desenvolvem não causa reflexo ou repercussão política maior e, com isso, o movimento vai se exaurindo.

ELON MUSK – Manchete principal da edição de ontem de O Globo, o tema envolvendo o conflito trabalhista entre o bilionário Elon Musk e dezenas de milhares de funcionários do Twitter está ameaçando o desempenho da própria empresa que Musk, segundo sua própria versão, adquiriu por US$ 44 bilhões. Musk havia dirigido um ultimato aos funcionários condicionando as suas permanências nos empregos ao cumprimento de uma carga de trabalho mais elevada.

A resposta foi uma debandada em massa de funcionários da empresa. Musk determinou o fechamento de escritórios que somente vão reabrir na segunda-feira.  Os engenheiros de software foram convocados para uma reunião urgente com o bilionário. Elon Musk, de outro lado, publicou na sua plataforma uma enigmática comunicação  ameaçando o enterro do Twitter. Funcionários estão respondendo com milhares de mensagens de despedida.

O Washington Post publicou reportagem revelando que 1500 funcionários optaram por se desligar da empresa. Na realidade, na minha opinião, o episódio em si não possui o menor sentido, na medida em que um bilionário anuncia uma aplicação de US$ 44 bilhões numa empresa de comunicação e ameaça fechá-la com uma rapidez impressionante entre a compra e o aviso aos trabalhadores.  

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