sexta-feira, outubro 21, 2022

De padre pró-armas a cardeal ambientalista: como eleição divide a Igreja Católica




'Padre Edivaldo Betioli grava orações e novenas em seu canal no YouTube. O padre diz ser a favor do uso de armas de fogo em legítima defesa'

Os gritos que ecoaram dentro de uma igreja católica e interromperam uma missa em Jacareí (SP) no domingo (16/10) não revelaram apenas sua discordância com o sermão do padre Everton Machado. "O senhor não vai falar de Marielle Franco dentro da casa de Deus. Uma esquerdista do PSOL, uma homossexual, que quer a ideologia de gênero dentro da escola das crianças", disse.

Por Leandro Prazeres, em Brasília

A interrupção da missa aos gritos pela mera citação ao nome de Marielle Franco, um ícone da esquerda, assassinada no Rio de Janeiro em 2018, colocaram à mostra como a Igreja Católica está sendo afetada pela disputa acirrada pelo voto dos seus fiéis na reta final do segundo turno.

"O abuso da religião para fins eleitorais nestas eleições deixou exposta uma fratura na Igreja Católica", disse a antropóloga e coordenadora acadêmica do Instituto de Estudos da Religião (ISER), Regina Novaes.

E em meio a essa disputa, a diferença de posicionamento entre religiosos explicita ainda mais essa "fratura". De um lado, padres como Edivaldo Betioli defendem abertamente o voto em Jair Bolsonaro e pautas como o uso de armas para legítima defesa. Do outro, o cardeal da Amazônia e arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, conhecido por suas posições em prol do meio ambiente e por críticas ao presidente Bolsonaro, ataca a transformação da religião em "ideologia".

Corrida eleitoral acirrada

A disputa pelo voto católico se acirrou nas últimas semanas.. No primeiro turno, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 48,43% dos votos contra 43,20% do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na sua tentativa de tirar uma diferença de 6,1 milhões de votos, Bolsonaro vem intensificando suas participações em eventos católicos enquanto Lula tenta manter a vantagem.

A estratégia de Bolsonaro tem como base a noção de que a maioria do eleitorado católico declara voto em Lula e não no presidente e a constatação de que o volume de eleitores católicos é maior que o evangélico, onde Bolsonaro já aparenta ter uma vantagem consolidada.

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha de 2020, 50% dos brasileiros se autodeclaram católicos, contra 31% que afirmam ser evangélicos.

Segundo a pesquisa de intenção de voto mais recente do Ipec (ex-Ibope), 56% dos entrevistados afirmam que votariam em Lula, enquanto apenas 38% apoiam Bolsonaro. O cenário se inverte no segmento evangélico.

De acordo com a mesma pesquisa, 60% afirmam que votariam em Bolsonaro contra 32% de Lula.

Ao longo desse esforço pelo voto católico, Bolsonaro participou, recentemente, da procissão em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, e à Nossa Senhora de Aparecida (padroeira do Brasil), em Aparecida do Norte (SP).

A passagem de Bolsonaro pela cidade paulista, no entanto, chamou atenção pelo tumulto causado por apoiadores do presidente que hostilizaram uma equipe de reportagem de uma TV local e uma pessoa que usava uma camisa vermelha. Apoiadores do presidente também vaiaram o arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, que disse, na sua homilia, que o Brasil precisava vencer os "dragões" do ódio e da violência.

A fissura

A antropóloga Regina Novaes avalia que episódios como a interrupção de missas em São Paulo e no Paraná são reflexo de um processo que ela classificou como "religiogização (sic) da política".

"Isso acontece quando as identidades religiosas são acionadas e se sobrepõem ao debate político. É como se a identidade religiosa passasse a ser mais importante que as questões meramente políticas", disse a antropóloga.

Novaes explica que, historicamente, a Igreja Católica, tanto no clero quanto entre os seus fiéis, sempre foi dividida.

"Sempre houve divisões dentro do catolicismo. Nos anos 1970, líderes religiosos mais progressistas tiveram mais espaço. Depois, houve uma reação mais conservadora nos anos 1980 e 1990. Agora, há um momento mais progressista por conta do papado de Francisco, mas as divisões continuam existindo. E elas também são vistas entre os fiéis", explicou a antropóloga.

Regina Novaes disse, no entanto, que a "religiogização da política" fez com que essas divergências deixassem de ser tratadas nos "corredores" e passaram a ser vistas na "sala de estar" do catolicismo, em uma alusão às missas.

"No catolicismo, o padre é alguém que exerce certa hierarquia sobre os fiéis. Quando você vê um fiel interrompendo uma missa e desafiando o padre, é porque há uma ruptura muito grande do laço que havia antes. E essa ruptura só ocorreu por conta do processo político", afirmou a antropóloga.

Essa "ruptura" mencionada por Regina Novaes pode ser exemplificada na diferença com a qual dois religiosos se manifestam sobre o atual momento político do Brasil.

Oficialmente, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - principal representação da Igreja Católica no país - manteve a neutralidade e não declarou voto em nenhum candidato, mas isso não vem impedindo que padres de diferentes correntes ideológicas se posicionem sobre as eleições.

Armas x meio ambiente

De um lado estão padres como Edivaldo Betioli, que defende o acesso a armas de fogo para a legítima defesa e diz que o Brasil viveria uma suposta ameaça comunista. Ele declara seu voto a Jair Bolsonaro.

Do outro há padres como Frei David Santos e Júlio Lancelotti, que já declararam seus votos em Lula. Há também sacerdotes com o cardeal Dom Leonardo Steiner, que não declara seu voto, mas faz críticas a Bolsonaro, ainda que sem mencionar o seu nome diretamente.

Betioli ficou conhecido em 2018 quando foi fotografado com um revólver e por defender o acesso a armas de fogo nos casos de legítima defesa. Por conta disso, ele passou a ser associado ao presidente Jair Bolsonaro, que apoia abertamente a pauta armamentista.

O padre mantém um canal no YouTube em que grava novenas e orações. Em agosto deste ano, ele liderou uma novena virtual cujo fim culminaria no Dia da Independência em que pedia a intercessão de Nossa Senhora de Nazaré contra o "comunismo", o "ateísmo" o "laicismo", corrente que sustenta a ideia de estado laico presente na Constituição Federal de 1988.

"Livrai-nos, mãe de Deus e nossa, do flagelo do comunismo", diz um trecho da oração.

À BBC News Brasil, Betioli disse que rechaça o rótulo de "pró-Bolsonaro", mas admite que apoia a reeleição do presidente para evitar o retorno do PT ao poder.

"O atual presidente não é o candidato perfeito, e está longe da perfeição, mas ainda assim é a única alternativa contra o projeto de poder petista, que é mau e destruidor. O Partido dos Trabalhadores é publica e notoriamente favorável ao assassinato de bebês no ventre materno e seu líder defende o aborto como questão de saúde pública", disse o padre.

A descriminalização do aborto não aparece nas diretrizes do programa de governo que o PT divulgou na internet. Em abril, Lula disse, durante o evento, que o aborto deveria ser tratado como uma questão de saúde pública. Na terça-feira (18/10), em entrevista ao podcast Flow, ele disse ser contra o aborto e que a questão deveria ser decidida pela "lei".

Outro ponto no qual Betioli ecoa as pautas de Bolsonaro é com relação à pauta armamentista e o suposto risco de uma ameaça comunista ao Brasil.

Ele diz não defender medidas que facilitem o acesso a armas, mas sustentou que defende o direito ao uso de armas para a legítima defesa e diz não acreditar que a maior circulação de armas possa trazer perigo.

"Sobre os dez mandamentos: o não matar diz respeito ao homicídio voluntário. A legítima defesa não se configura como um. Não temo que mais armas gerem mais violência", disse.

Questionado sobre o comunismo, ele diz acreditar que o país vive sob ameaça de implantação do regime.

"Em relação ao Brasil, basta lermos todos os documentos do Partido dos Trabalhadores, desde sua fundação, cadernos de teses, resoluções, atas de congressos, bem como declarações do seu candidato e suas relações de amizade e inspiração com líderes socialistas para percebermos para onde querem levar o país. O comunismo é um perigo real", disse o padre.

'Dom Leonardo Steiner foi empossado cardeal pelo Papa Francisco. Ele é arcebispo de Manaus e conhecido por posições pró-meio ambiente'

Dom Leonardo Steiner, por sua vez, vai na contramão do que disse Betioli. Empossado cardeal pelo Papa Francisco, o sacerdote critica a pauta armamentista defendida por Bolsonaro, rechaça a ideia de que o país vive sob uma ameaça comunista e ataca o uso da religião como instrumento político.

"Não sei de que comunismo estão falando. Eu tenho 72 anos e não acho que nós tenhamos corrido esse risco nem mesmo em 1964 (ano do golpe militar) [...] quando se coloca uma questão ideológica como essa é quase impossível discutir determinadas acusações", disse Steiner à BBC News Brasil.

Ao criticar a pauta armamentista, Dom Leonardo Steiner cita o exemplo de São Francisco de Assis, que teria pedido a seus seguidores que andassem desarmados.

"Não é em armas que criamos novas relações. A agressão só cresce. Achamos que estamos protegidos, mas não estamos protegidos. Veja nos Estados Unidos a quantidade de morte causada por armas legalmente adquiridas [...] vivemos uma realidade em que a fraternidade está ficando esquecida", disse o sacerdote.

Conhecido por sua defesa do meio ambiente, o cardeal criticou a política ambiental do governo Bolsonaro em entrevista publicada nesta semana ao jornal O Globo.

"A depredação da Amazônia preocupa. O governo não tem feito muito coisa, eu diria que até tem incentivado, por meio das palavras, o descuido em relação à Amazônia", disse.

Abuso da fé

A intensificação da corrida pelos votos católicos fez com que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitisse uma nota oficial na véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida condenando o que classificou como "exploração da fé como caminho para angariar votos no segundo turno".

"A manipulação religiosa sempre desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco os reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados em nosso Brasil", diz um trecho da nota.

Para Regina Novaes, o padrão de abuso da fé conduzido por Bolsonaro fez com que Lula também aderisse à prática.

"Hoje, a gente vê um abuso do uso da religião para fins políticos dos dois lados. Mas não podemos deixar de mencionar que Lula faz esse movimento como uma reação ao padrão adotado por Bolsonaro", disse a antropóloga.

Para Regina Novaes, a Igreja Católica não está preparada para lidar com esse fenômeno.

"A Igreja Católica é marcada pela hierarquia. Ela não está equipada para lidar com a contestação direta pelos fieis ou mesmo entre o clero causada por motivos políticos. A lógica que a gente via nas denominações evangélicas foi transferida para o meio católico", disse.

Dom Leonardo Steiner, por sua vez, diz acreditar que os danos causados pelas eleições deste ano não irão prejudicar a Igreja.

"A Igreja Católica é uma instituição milenar. Já atravessamos coisas muito mais complicadas que isso. Acredito que depois das eleições, a situação vai se normalizar", disse. 

BBC Brasil

Próximo governo terá de enfrentar grupos de interesse - Editorial




Principal teste para quem for eleito será promover uma reforma tributária que desmonte a teia de privilégios

Um dos principais testes que o próximo presidente terá de enfrentar, independentemente de quem seja eleito em 30 de outubro, será libertar o Estado brasileiro do sequestro por grupos de interesse. Para o eleitor, o melhor termômetro será a disposição de cada candidato em realizar mudanças profundas e urgentes no sistema de cobrança de impostos. A barafunda de tributos, alíquotas, regras, exceções, isenções e subsídios é uma das principais causas do nosso atraso.

É difícil exagerar sobre quanto o Brasil é lerdo na corrida global. Em 1980, o PIB per capita brasileiro — medido pelo critério de paridade do poder de compra, que permite comparações internacionais — era US$ 11.400 dólares. Nas quatro décadas seguintes, aumentou míseros 29%. No mesmo período, cresceu 2.500% na China. Na Coreia do Sul, 729%. Alguém poderá argumentar que os países asiáticos têm histórias e vivem circunstâncias distintas das nossas. Pois no Chile a alta foi de 188% e na Colômbia de 108%. A Colômbia foi a última a ultrapassar o Brasil. É uma vergonha.

A razão para nosso atraso não é a falha no diagnóstico, mas a dificuldade em enfrentar os interesses contrariados pelas mudanças necessárias. Os avanços costumam ocorrer apenas em momento de dor extrema — como foi o caso do controle da inflação ou da implantação de um arcabouço jurídico para controle fiscal. Mas em seguida o Brasil costuma repetir um padrão recorrente fadado ao fracasso.

Diante da crise, o governo, de esquerda ou de direita, até faz o que é preciso. Mas, quando os resultados positivos começam a aparecer, ressurge o que o economista Marcos Lisboa definiu como “pacto da mediocridade” numa conversa com os colunistas do GLOBO Vera Magalhães e Carlos Andreazza no podcast “Dois+Um”. Há sempre retrocesso, com diferentes grupos de interesse se digladiando para abocanhar nacos dos recursos públicos. Exemplos recentes são abundantes: a PEC dos Precatórios, a PEC Eleitoral, que concedeu auxílios injustificáveis a caminhoneiros e taxistas, a legalização da corrupção via orçamento secreto e tantos outros.

O próximo governo terá mais uma oportunidade de quebrar a escrita. Dentre todas as amarras que prendem a economia brasileira, sua prioridade deveria ser simplificar os impostos. Temos a legislação tributária mais complexa do mundo, que impõe um limite aos investimentos e a nossa capacidade de crescer. Empresas perdem um tempo absurdo para administrar o que deve ser pago e gastam fortunas em disputas na Justiça. Pior: muitas vezes tomam decisões com os olhos em vantagens tributárias, não no mais racional economicamente. Claro que há os que lucram com essa situação. Basta ler o relatório periódico de subsídios tributários para saber quem são. Tais grupos se negam a perder privilégios, fazem lobby para deixar tudo como está e fecham acordos em troca de financiamento aos políticos.

É urgente acabar com esse pacto de mediocridade. Não há saídas mágicas. Na feliz metáfora de Lisboa, muitos que se opõem, com razão, aos defensores de cloroquina no combate à Covid-19 têm uma reação benevolente quando examinam os negacionistas na área econômica, à esquerda ou à direita. Não há razão para isso. O remédio para o problema é conhecido. Decerto será amargo para alguns, mas o Brasil não será curado sem tomá-lo.

O Globo

Fachin prorroga inquérito que liga Calheiros e Jucá a propina da Odebrecht


Romero Jucá e Rena Calheiros


O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, atendeu pedido da Procuradoria-Geral da República e prorrogou por mais 60 dias um inquérito que mira os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros por suposta propina de R$ 5 milhões, paga pela Odebrecht em troca de aprovação de uma medida provisória sobre benefícios fiscais que favoreciam subsidiárias da empreiteira no exterior. Os parlamentares alegam justa causa na investigação, que já dura cinco anos. Do outro lado, a PGR contrariou relatório da Polícia Federal e requereu diligências consideradas 'imprescindíveis' à conclusão do inquérito.

A decisão foi proferida em meio a julgamento, no plenário virtual do Supremo, sobre o envio de parte da investigação, que atinge o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, ao Juízo da 1ª Zona Eleitoral de Natal. A defesa do petebista questionou a decisão de Fachin de mandar o inquérito para a Justiça Eleitoral, alegando que os fatos sob suspeita já teriam sido investigados na Operação Manus.

A análise sobre o destino de tal parte da investigação, iniciada na sexta, 14, foi suspensa nesta quarta-feira, 19, por um pedido de vista do decano Gilmar Mendes. Apenas o relator, Fachin, e a ministra Cármen Lúcia haviam apresentado seus votos, no sentido de negar o pedido dos advogados de Cunha para manter o inquérito no STF.

Relator, Fachin ponderou que a ação penal a qual Cunha responde na esteira da Operação Manus trata de suposta propina pela atuação no interesse da OAS. Segundo o magistrado, o inquérito que foi enviado para a Justiça Eleitoral se debruça sobre possível pedido de propina envolvendo outra empreiteira interessada na MP 627/2013.

Quanto à decisão de prorrogar a parcela do inquérito que ainda tramita no Supremo, atingindo os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, Fachin entendeu que o fato de o Ministério Público Federal sugerir novas diligências no caso 'sinaliza a compatibilidade de seu proceder com as balizas jurisprudenciais relativas à interpretação do valor constitucional da duração razoável do processo'.

Já com relação à duração do inquérito, o relator considerou que as diversas diligências e desdobramentos do caso 'perfizeram-se em ritmo compatível com o porte e a complexidade dessas investigações'.

Nessa linha, o ministro assinalou que não poderia determinar o arquivamento do caso. "Assentada a compreensão da existência de substrato mínimo de autoria e de materialidade, o caminho investigativo deve seguir o seu curso na sequência das investigações rumo à formação da opinião conclusiva do titular da ação penal", destacou.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO LUÍS HENRIQUE MACHADO, QUE REPRESENTA RENAN

"A Polícia Federal investigou o caso com profundidade e manifestou-se no sentido de que não foram encontrados indícios de autoria e de materialidade. Todavia, se a PGR deseja continuar, resta a defesa do Senador Renan se colocar à disposição para colaborar com as investigações no que for necessário e espera a conclusão do inquérito da forma mais rápida possível".

Estadão / Dinheiro Rural

TSE manda Jovem Pan conceder resposta a Lula e abre investigação contra emissora




O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou, em três decisões, que o grupo Jovem Pan conceda direito de resposta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em razão de declarações de comentaristas da emissora consideradas distorcidas ou ofensivas ao petista. A Corte também abriu uma investigação eleitoral a pedido do PT para que seja apurado se a emissora tem tratado Lula com falta de isonomia em relação ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em editorial, a Jovem Pan afirmou que está sob "censura". Internamente, a emissora enviou uma ordem aos comentaristas para que se abstenham de utilizar termos ofensivos contra o petista.

Segundo as decisões, para cada reiteração de comentários tidos como ofensivos pela Corte haverá multa de R$ 25 mil. O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Benedito Gonçalves, também aceitou um pedido da campanha de Lula para que seja investigada a conduta do grupo por suposta promoção de Bolsonaro.

No recado distribuído aos comentaristas, a direção da emissora adverte: "Não devemos fazer qualquer associação entre o candidato Lula ao crime organizado". "A direção de jornalismo reforça que aqueles que não se sentirem confortáveis com essa determinação com base em decisão da Justiça, devem nos informar para que possam ser substituídos."

Em um editorial, a emissora afirmou estar sob censura. "É preciso lembrar que a atuação do TSE afeta não só a Jovem Pan e seus profissionais, mas todos os veículos de imprensa."

Estadão / Dinheiro Rural

É perigoso usar religião como instrumento de poder, alerta dom Odilo Scherer




Dom Odilo foi criticado por seguidores porque, em sua foto no Twitter, usava trajes religiosos vermelhos

Por Edison Veiga, De Bled (Eslovênia)

O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, figura aos 73 anos no alto da hierarquia católica. Com um currículo sólido, ele mantém um relacionamento muito próximo com os que vivem no Vaticano — papa Francisco, inclusive.

Scherer comanda a Arquidiocese de São Paulo desde 2007 e, no mesmo ano, foi feito cardeal — atualmente, há apenas oito brasileiros nesse seleto grupo da alta cúpula da Igreja. Em tempo de nomeação, só perde para o arcebispo-emérito de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo, que ascendeu ao colégio de purpurados em 2001.

No último domingo (16/10), Scherer foi alvo de ataques nas redes sociais motivados pelo atual clima político do país, em que a religião vem ganhando cada vez mais espaço na campanha eleitoral.

Ele foi criticado por seguidores porque, em sua foto no Twitter, usa trajes religiosos vermelhos. De acordo com os detratores, isso significaria um apoio ao Partido dos Trabalhadores (PT), do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, pela coincidência com a cor da legenda.

"Se alguém estranha minha roupa vermelha, saiba que a cor dos cardeais é o vermelho (sangue), simbolizando o amor à Igreja e a prontidão ao martírio, se preciso for. Deus abençoe a todos", escreveu ele.

Ainda na rede social, Scherer demonstrou preocupação com o atual momento político. "Tempos estranhos esses nossos! Conheço bastante a história. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora!", postou no mesmo dia.

Em entrevista à BBC News Brasil na quarta-feira (19/10), dom Odilo explicou como vê a cena política atual. "Os ânimos estão muito acirrados. Há um envolvimento muito claro, eu diria assim, com as religiões. As igrejas, sobretudo as cristãs, foram arrastadas para dentro do debate. Não só do debate, o que seria legítimo, mas para a briga política."

Na visão do cardeal, há sinais de fascismo na cultura brasileira atual. "É uma doutrinação, eu diria até mesmo, de ideias fascistas ou fascistoides, que agora se expressam de alguma forma dentro dessa polarização política", afirma, citando o exemplo do debate político em que candidatos são retratados como "o bem" e "o mal".

"Existem claramente causas em que precisamos ter uma definição: não podemos ser mais ou menos a favor da vida, mais ou menos a favor da justiça; a gente precisa ser a favor. Porém, isso não nos deve levar a demonizar quem pensa diferente ou quem tenha argumentos diferentes".

Dom Odilo vê riscos para a democracia do Brasil, mas diz esperar que ela resista. "Tem havido manifestações, não agora simplesmente neste momento, mas de mais tempo para cá que apontam para esse risco. Por exemplo, o questionamento das instituições. Não um questionamento qualquer, mas uma forma de ameaça às instituições democráticas", afirma.

"Isso, sim, indica um risco, um risco para as instituições democráticas. Mas eu espero que isso não aconteça. O Brasil tem resistido a essas, digamos, ameaças. Creio que nossa democracia aguentou bastante e vai aguentar também essa. E vai se sair melhor."

Ao longo de toda a conversa, Scherer demonstrou um especial cuidado em não mencionar, nominalmente, nem o candidato a reeleição Jair Bolsonaro (PL), nem o seu oponente, Lula. "Os clérigos, aí me refiro aos diáconos, aos padres, aos bispos, eles devem se abster de expressar opção partidária e até mesmo por candidatos."

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Nos últimos dez dias, observamos uma série de acontecimentos de natureza político-partidária no meio da Igreja Católica. Houve a confusão quando a comitiva de Bolsonaro esteve na Basílica de Aparecida, no dia 12 de outubro, missas interrompidas por manifestações partidárias e, no último domingo, o senhor foi atacado porque demonstrou preocupação com acirramento dos ânimos no contexto eleitoral. O que está acontecendo com os cristãos brasileiros?

Dom Odilo Scherer - Estamos em campanha eleitoral, este é o contexto. E o que está acontecendo é que os cristãos acabaram sendo envolvidos na polarização político-ideológica que é geral, que não é só brasileira, e isso está se expressando agora de maneira toda especial na proximidade do segundo turno das eleições presidenciais. Os ânimos estão muito acirrados. Há um envolvimento muito claro, eu diria assim, com as religiões. As igrejas, sobretudo as cristãs, foram arrastadas para dentro do debate. Não só do debate, o que seria legítimo, mas para a briga política.

BBC News Brasil - No Twitter, o senhor citou uma preocupação como avanço do fascismo no Brasil. Que setores fascistas seriam esses? O que seria esse avanço?

Scherer - Existem sinais, que não são de agora, naturalmente, que vêm de mais tempo, de certa tendência fascista, sim, que está na cultura. É uma doutrinação, eu diria até mesmo, de ideias fascistas ou fascistoides, que agora se expressam de alguma forma dentro dessa polarização política. Isso se expressa de forma muito especial nessa absolutização de um pensamento sem permitir interlocução serena com quem pensa diferente. Essa absolutização é configurada como luta entre "o bem" e "o mal", de modo genérico, e como tal se apresenta alguém que é detentor ou identificado como aquele que é promotor "do bem" e outro identificado como o promotor "do mal". E quem adere politicamente ao que promove "o bem" é tido como "do bem". E quem é identificado como apoiador de quem supostamente promove "o mal" é tido como "do mal".

Isso é absurdo. O próprio papa Francisco tem dito que o bem não está todo de um lado nem o mal está todo de um lado. A coisa não é tão simples nem tão clara, tão preto no branco. Existem claramente causas em que precisamos ter uma definição: não podemos ser mais ou menos a favor da vida, mais ou menos a favor da justiça; a gente precisa ser a favor. Porém, isso não nos deve levar a demonizar quem pensa diferente ou quem tenha argumentos diferentes e levar à instrumentalização das massas em função do pensamento, digamos, ideológico e, claro, com o objetivo de alcançar o poder, tornar as massas irrefletidamente fanáticas em torno de uma proposta ou de um determinado projeto.

Isso claramente não está dentro do esquema democrático, está indicando mais para regimes totalitários do que para sistemas democráticos, abertos, que aceitam o contraditório e que aceitam conviver com o plural, sem a pretensão de eliminar, pelo menos culturalmente ou idealmente, quem pensa diferente. Nossa sociedade é pluralista em todos os aspectos, temos de reconhecer e aceitar. A manipulação da religião é o que está acontecendo muito fortemente. A meu ver este é um fator preocupante.

O que se queria evitar de nossa parte, pelo menos da parte da Igreja Católica, acabou acontecendo: o envolvimento mais explícito, até mesmo de clérigos, que devem se abster. Isso não significa que o povo católico não tenha posição política, partido, candidato… Claramente, é um direito do povo católico fazer isso. Mas os clérigos, aí me refiro aos diáconos, aos padres, aos bispos, eles devem se abster de expressar opção partidária e até mesmo por candidatos. Isso é da norma da Igreja, porque divide a comunidade. Temos de promover a comunhão da comunidade na sua pluralidade e não podemos pôr a perder valores maiores por causa de uma disputa política.

'O uso [político-partidário] da palavra na igreja, no púlpito, na hora da celebração é proibido, até pela lei [eleitoral] brasileira'

BBC News Brasil - A manifestação partidária de clérigos é inclusive proibida pelo Código de Direito Canônico, certo?

Scherer - Sim. É contrário às normas da Igreja.

BBC News Brasil - E o que vem sendo feito, no caso da sua arquidiocese, para coibir ou punir casos de padres e bispos que estejam se manifestando a favor de algum candidato?

Scherer - As coisas estão acontecendo. Depois de acontecidas, a gente vai resolver o que faz. Naturalmente, estamos no fervor dos fatos, mas isso merecerá claramente uma reflexão de nossa parte, na medida que estiver em nosso alcance. A gente está tentando justamente controlar isso, mas, claramente, fugiu do controle.

BBC News Brasil - Existe punição prevista para casos assim?

Scherer - O uso [político-partidário] da palavra na igreja, no púlpito, na hora da celebração é proibido, até pela lei [eleitoral] brasileira. E, portanto, tem sim, sanções canônicas que podem ser de uma censura até de uma suspensão se o caso for para tal.

BBC News Brasil - Os casos concretos ainda serão analisados?

Scherer - Claro, os canonistas precisam olhar claramente. Mas, no momento, não estamos, porque, claramente, o assunto ainda está acontecendo. Não tem como fazer isso agora… Esta iniciativa será tarefa para depois.

BBC News Brasil - No mês passado, o senhor esteve no Vaticano com o papa Francisco. Ele demonstrou alguma preocupação com o período eleitoral brasileiro?

Scherer - Certamente o papa está muito informado sobre o que vem acontecendo em todo o mundo e, portanto, antes que nós falássemos, ele já sabia. Está acompanhando o que está acontecendo com o Brasil. Isso foi assunto também de nossa conversa com o papa em nossa visita a ele.

BBC News Brasil - Algo de concreto dessa conversa pode ser tornado público?

Odilo Scherer - Não há nada de especial a não ser informações sobre o que se passa na campanha eleitoral, sobre as tendências que estão presentes e como o povo católico está se posicionando… Essas questões…

BBC News Brasil - Voltando à questão de que os padres não podem se manifestar partidariamente: em um contexto em que determinados religiosos estão pedindo votos abertamente, quem fica em silêncio não pode dar a entender que toda a Igreja está fechada com determinado candidato? Qual a postura mais adequada, então, nesse caso específico?

Scherer - Permanece válido o que a Igreja continua a dizer. Infelizmente, nem sempre isso é observado. No calor da campanha eleitoral, muitas vezes se esquece essa recomendação, que não é só uma recomendação, para os padres. Agora, a Igreja não deve ser identificada somente como os clérigos. A Igreja é o povo. E o povo tem o direito e até o dever de participação política, partidária, de se manifestar em favor de candidatos. Isso está no pleno direito do povo católico. São os clérigos — os diáconos, os padres e os bispos — que não devem, para não dividir a comunidade.

BBC News Brasil - Em períodos eleitorais, acabam sendo explorados com mais força alguns temas que são caros à doutrina católica, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como tratar disso?

Scherer - Nas igrejas, essas temas são tratados como temas morais, e, naturalmente, a posição da Igreja em relação a eles é conhecida. E, mesmo em tempo de campanha eleitoral, nada impede que se trate e continue a tratar desses temas, que são temas morais, não são temas políticos em primeiro plano. Claro que, no tempo da campanha eleitoral, acabam sendo politizados, o que é uma pena. Pareceria que quem ganha a eleição então ganha a posição política em relação a determinado tema. Não, os valores morais são universais, não são valores de partido ou de governo. São valores universais que devem valer para todos os partidos, independentemente de quem ganha a eleição.

Por isso, é uma pena que se faça politização de valores morais. Esses deveriam valer para todos, e não simplesmente serem trazidos para a campanha político-partidária. Mas é inevitável que isso aconteça. Então, ao se falar de valores e posições da Igreja em relação a valores morais, nem por isso a Igreja está fazendo campanha partidária. Está falando de suas convicções e de sua doutrina, e isso vale tanto para clérigos quanto para leigos.

"Jesus não está convidando ninguém a fazer guerra contra os outros", diz Dom Odilo

BBC News Brasil - Mas há alguma orientação aos católicos, no sentido dos valores morais, para ajudar a nortear a escolha dos candidatos?

Scherer - Como em tudo, a moral não se impõe. Ela se propõe. Como uma questão de princípio. E cada um deve escolher, em sua consciência, e aderir a esses valores em consciência e depois responder em consciência, diante de si, diante dos outros e diante de DEus.

BBC News Brasil - O posicionamento da Igreja é o mesmo quando a gente coloca a questão do armamentismo?

Scherer - Certamente. Esta também é uma questão moral, sim.

BBC News Brasil - Muitos cristãos que defendem o porte de armas acabam citando uma passagem do evangelho de Lucas, onde Jesus orienta seus seguidores a venderem suas capas e comprarem uma espada. Como explicar esta passagem à luz do atual debate?

Scherer - Tem que estudar melhor o significado dessa expressão no contexto do Evangelho. Jesus não justifica de forma nenhuma o armamentismo com isso. Jesus, naquele momento, fala da força interior que se deve ter para testemunhar em favor da fé, do Reino de Deus que ele está trazendo e convidando a aderir. Jesus não está convidando ninguém a fazer guerra contra os outros.

BBC News Brasil - Por que a pauta religiosa se tornou tão preponderante neste ano eleitoral?

Scherer - Na verdade, ela aparecia antes também. Mas acredito, interpretação minha, que é porque o uso da religião, do nome de Deus e assim por diante é muito frequente por parte de um dos candidatos. Isso é público e é conhecido. E isso se tornou argumento da campanha eleitoral.

BBC News Brasil - Este mesmo candidato, que o senhor não cita nominalmente, insiste que há uma perseguição a cristãos no Brasil. O senhor concorda?

Scherer - Existe, de fato, sim. Ultimamente, tem aparecido. Até na Basílica de Aparecida, houve uma forma de desrespeito ao momento religioso, ao momento de culto dentro da Basílica [aqui, Scherer se refere aos apoiadores do candidato à reeleição Jair Bolsonaro que causaram confusão durante as celebrações de Nossa Senhora Aparecida no feriado alusivo a ela, no último dia 12]. Há outros momentos em que pessoas interrompem missas para provocar ou, então, criar arruaça dentro da celebração. Isso são manifestações de intolerância, se não são de perseguição. São de intolerância. E a intolerância é muito preocupante. Por isso mesmo é perigoso tornar a religião de alguma forma instrumento de busca do poder e argumentar com base em argumentos religiosos para conseguir o voto das pessoas. Isso é perigoso e pode desencadear consequências incontroláveis depois.

BBC News Brasil - Consequências incontroláveis? O senhor enxerga algum risco para a democracia no Brasil?

Scherer - Tem havido manifestações, não agora simplesmente neste momento, mas de mais tempo para cá que apontam para esse risco. Por exemplo, o questionamento das instituições. Não um questionamento qualquer, mas uma forma de ameaça às instituições democráticas. Um poder contra outro poder. Ou até pretender ter um controle total sobre o Judiciário, por exemplo. Isso, sim, indica um risco para as instituições democráticas. Mas eu espero que não aconteça. O Brasil tem resistido a essas, digamos, ameaças. Creio que nossa democracia aguentou bastante e vai aguentar também essa. E vai se sair melhor.

BBC News Brasil - Qual o papel da Igreja Católica na contribuição ao fortalecimento desse processo democrático?

Scherer - Primeiramente, a Igreja tem um papel próprio. Não é um papel político-partidário. A Igreja, e aí também a Conferência dos Bispos [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB], não é um partido, não é uma facção a favor ou contra o governo. A Igreja é povo. E, na Igreja, existem pessoas de várias cores partidárias, legitimamente. A Igreja, por isso mesmo, é inclusiva. Não é seletiva de ideologias ou de partidos, de posições partidárias. A Igreja está no meio do povo, é o povo. É dos que aderem a ela e estão batizados, portanto, fazem parte dela. Por isso, a Igreja está na sociedade, é parte dela, e, através da ação da Igreja, ela procura educar — a palavra parece meio inadequada neste contexto, mas o trabalho de evangelização é, sim, um trabalho de formação das pessoas em função de valores, de reconhecimento do próximo e da dignidade humana, dos valores de justiça e retidão. Este é o papel formador que a Igreja tem na sociedade.

A Igreja, através de suas múltiplas formas de presença, está na sociedade como colaboração. Ela não substitui nem a sociedade nem o governo. A Igreja não é uma coisa separada da sociedade, está dentro da sociedade, com creches, hospitais, escolas, com inúmeras iniciativas de presença junto aos pobres, doentes, etc. Então, dessas formas, a Igreja está colaborando, contribuindo para uma vida melhor na sociedade. Com o governo, a Igreja está disponível para colaboração naquilo que é legítimo e possível. E aí não tem o governo A ou B. Com qualquer governo, quando isso seja possível e coerente com aquilo que é a sua convicção.

BBC News Brasil - E qual o papel da Igreja no período eleitoral?

Scherer - A Igreja tem dado orientações quanto a parâmetros, balizas que devem orientar a busca do voto, ou então a quem dar o voto. A escolha dos candidatos, quais os critérios que, segundo a convicção da Igreja, deveriam ser levados em consideração na escolha. Isso a Igreja faz, tem feito.

Damos, naturalmente, critérios que possam ajudar os cristãos que queiram ter referências. E o povo espera isso, pede, quer referências para a escolha dos candidatos. Claro que o povo queria muitas vezes ouvir "vote em A", "vote em B". Normalmente, não fazemos isso, porque a gente sabe que a nossa indicação já introduziria a divisão na comunidade. Oferecemos critérios pelos quais as pessoas devem se orientar. São aqueles que normalmente já são conhecidos. Primeiramente, olhar a capacidade, a idoneidade moral do candidato que se apresente. Depois a sua, diria assim, sua ficha, seu histórico, se ele merece a nossa confiança, se ele representa nossas convicções.

Depois, por outro lado, claro, aquele programa que ele tem ou defende, ele ou o partido ou o conjunto de partidos. Esse programa vai bem? Ele contraria nossas convicções? São essas coisas que a gente propõe normalmente. Além de ter oferecido critérios que, esperamos, tenham todos, agora a gente está fazendo o papel de acalmar os ânimos. Para evitar que, no calor da campanha, se produzam lacerações nas relações sociais, humanas e até mesmo dentro das famílias, comunidades cristãs que, depois, dificilmente serão superadas.

Entendemos que há valores que vão além de uma campanha eleitoral. Claro que, em uma campanha, temos muitas coisas em jogo e muitas coisas apreciáveis. Porém, depois da eleição, temos de continuar vivendo, temos de continuar a viver juntos. E só um pode ganhar. Quem ganha deve governar, e esperamos que governe bem. E quem perde vai para a oposição, que controle quem governa e faça seu papel. Por outro lado, é preciso compreender que, no Brasil, temos um regime democrático, republicano, presidencialista. Não somos parlamentaristas e muito menos imperial, portanto o presidente não pode tudo. O presidente não governa de maneira absoluta, e nem queremos que governe de maneira absoluta. Tem de levar em conta os outros dois poderes, o Congresso e o Judiciário. E levar em conta a população. O grande poder é o povo, e o próprio povo deve controlar quem governa, em todas as instâncias e acompanhar as ações do governo e ver se estão de acordo com aquilo que o povo pretende. Que o povo se manifeste também depois das eleições. Nosso voto é apenas uma parte do processo político. Nossa participação política não termina na urna. Ela continua depois, ao longo de todo o governo.

BBC News Brasil - Quando o senhor diz "nossa participação", inclui também a Igreja como instituição?

Scherer - Exatamente, o papel político dos organismos da Igreja é legítimo, não é negado. Ele é previsto e reconhecido pelas instituições da sociedade. Gostaria de acrescentar uma palavra que o papa Francisco tem usado e que se aplica bem ao período eleitoral: que os adversários não sejam considerados inimigos. Adversários políticos pensam diferentes. Mas não devem ser considerados inimigos, porque isso depois cria situações realmente não só constrangedoras, mas insuportáveis e insustentáveis. Deve prevalecer a amizade social, o respeito e a tolerância. E cada um que lute por aquilo que acredita. Esperamos que seja assim.

BBC Brasil

Eleição vai ser decidida na moedinha




Quase empate entre Lula e Bolsonaro é uma possibilidade; guerra da abstenção é decisiva

Por Vinicius Torres Freire 

"Vai ser na moedinha", diz um amigo cientista social a respeito das pesquisas do segundo turno da eleição. Isto é, a eleição está tão apertada que o Imponderável da Silva das estatísticas nos diz que não se pode descartar um resultado próximo do empate entre Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

Não é possível fazer projeções sobre o número de abstenções e votos válidos, o que vai ser relevante e provavelmente decisivo. A batalha do transporte público grátis (ou não) vai se intensificar. O assédio eleitoral está sendo denunciado aos montes, mas também não sabemos a extensão dessa violência em empresas, serviço público e, quem sabe, em áreas controladas por milícias e outras facções criminosas.

Vai aumentar ou diminuir? Quem tem medo de punição? Os crimes eleitorais são julgados tardiamente, quando o são. Há gente que perde mandato quase no final do governo.

A abstenção no segundo turno costuma ser maior. Em média, o número de pessoas que vai às urnas na segunda rodada de votação é 2,6% menor do que na primeira. Pelo menos tem sido assim desde 2006, para ficar apenas em eleições mais recentes (e lembrando que em 1994 e 1998 não houve segundo turno na disputa presidencial). O ambiente político-eleitoral mudou tanto que as eleições anteriores parecem ter acontecido em outro país —na verdade, foi esse o caso.

Se o aumento médio de abstenção entre os dois turnos se repetisse nesta eleição de 2022, seriam 3,2 milhões de eleitores a menos. Pode bagunçar totalmente o resultado das pesquisas.

Mas esses números servem apenas para indicar o quão imprevisível se tornou a disputa. Note: a diferença entre Lula e Bolsonaro anda agora em torno de 4 pontos percentuais na pesquisa Datafolha. A diferença no primeiro turno ficou entre 4 e 5 pontos, a depender do modo que se faça a conta com os resultados do TSE.

Enfim, esse aumento médio de abstenção é apenas isso: médio. Variou de no mínimo 1,2% no segundo turno da eleição de 2018 (Bolsonaro contra Fernando Haddad, PT) até 4,3% em 2010 (Dilma Rousseff, PT, contra José Serra, PSDB). O que vai ser neste 2022?

Como dizia Manuel Bandeira sobre outro assunto de vida e morte, esse "cálculo das probabilidades é uma pilhéria". Além de não podermos prever que tipo de eleitor vai deixar de votar no dia 30 de outubro, não sabemos também se o voto do segundo turno vai ser tão decidido como no primeiro. Isto é, não temos como saber da quantidade de nulos e brancos, que foi a mais baixa desde 1989.

Na primeira rodada de 2022, a parcela de votos inválidos foi de apenas 4,4%, ante uma média de quase 9% desde 2006. É uma diferença brutal. Outra vez: é tão grande quanto a diferença de Lula e Bolsonaro no Datafolha divulgado nesta quarta-feira.

De 2006 a 2014, o número de votos inválidos diminuiu no segundo turno. Na eleição passada, em 2018, aumentou. Sinal de rejeição maior aos dois finalistas? É um chute. O fenômeno vai se repetir neste ano? É um chute piorado.

A diferença entre Lula e Bolsonaro seria quase zero, no limite improvável da margem de erro da pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira. Mas há outros erros. A camuflagem do eleitor bolsonarista mais militante, o voto enrustido ou a recusa de responder à pesquisa, ainda é uma hipótese sobre a mesa, entre outros possíveis problemas. Pode ser que os novos adeptos de Bolsonaro, que votaram em outros candidatos no primeiro turno, sejam menos propensos a recorrer à camuflagem. Mas a campanha contra as pesquisas eleitorais pode ter engajado novos eleitores.

Estamos bem no escuro.
 
Folha de São Paulo

Lula tenta reduzir desvantagem entre os evangélicos




Como fenômeno eleitoral, o presidente Bolsonaro emergiu da periferia ancorado nas comunidades evangélicas, porque capturou o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Quem visita os bairros de periferias ou favelas das grandes cidades brasileiras, com muita facilidade consegue identificar uma família evangélica por meio da simples observação visual. Geralmente, moram nas casas mais bem cuidadas, mesmo que menores e com aparência mais pobre. A principal razão costuma ser o fato de que seus ocupantes integram uma família estruturada, cuja rotina de trabalho e estudo está sustentada na harmonia familiar, na disciplina, na resiliência, na austeridade e na ordem. Existe uma funcionalidade na presença das igrejas pentecostais na organização da sociedade nas periferias que não pode ser ignorada.

É óbvio que há católicos, espíritas, umbandistas etc. com família unicelular e casas bem organizadas, mas estamos falando de famílias desestruturadas. O eixo da atuação dos evangélicos nas comunidades pobres é a preservação da família unicelular patriarcal e a defesa dos seus costumes tradicionais, o que leva à formação de uma base cultural conservadora, facilmente capturada pelas narrativas políticas reacionárias. Há setores reacionários na Igreja Católica, mas a doutrina católica é menos conservadora e sua presença como organização nas periferias é muito menor, porque suas igrejas fisicamente estão fora da maioria dessas comunidades. Por força da nossa própria formação como nação, os católicos até são a maioria nessas comunidades, mas não representam uma força organizada a partir do cotidiano de seus moradores, ao contrário dos evangélicos.

O presidente Jair Bolsonaro, como um fenômeno eleitoral de massas, emergiu da periferia em 2018 ancorado nas comunidades evangélicas, porque capturou o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal. Com uma narrativa conservadora, confrontou a revolução dos costumes, que é identificada pelos evangélicos como uma das causas da sua desestruturação, cujas consequências são dramáticas para uma família de baixa renda, porque bagunça a vida de todos os seus integrantes do ponto de vista até da sobrevivência física, ao contrário do que ocorre com um núcleo familiar de classe média, que sofre consequências sérias, mas tem mais mecanismos de defesa.

A agenda identitária da renovação dos costumes serviu de plataforma para que o PT e outros setores de esquerda, após o impeachment de Dilma Rousseff, reagrupassem suas forças e iniciassem o resgate de sua influência na sociedade, que havia sido fragilizada pela cooptação dos movimentos sociais durante os governos Lula e Dilma. A centralidade dessa pauta na luta contra Bolsonaro, porém, foi um erro em 2018, quando já estava em jogo a questão democrática, o que por muito pouco não se reproduziu nas eleições deste ano. Isso fez com que o apoio dos evangélicos se tornasse a principal ferramenta de Bolsonaro para penetrar nas camadas mais pobres da população, ainda que seja rejeitado pela maioria dos mais pobres e das mulheres.

Pesquisa

O Datafolha divulgado ontem, por exemplo, mostra que Bolsonaro lidera a disputa contra Lula entre os evangélicos, por 66% a 28%, enquanto a liderança do petista entre os católicos é de 58% a 37%. Lula vence entre os mais pobres, com renda de até dois salários mínimos, de 57% a 37%, mas perde em todas as faixas de renda acima disso, inclusive entre os que ganham entre dois e cinco salários mínimos, em que Bolsonaro lidera por 53% a 41%, faixa com forte presença evangélica.

Lula manteve a liderança geral, com 49% de intenções de votos, mas diminui a distância para Bolsonaro, como 45%. Só manteve a dianteira por causa da maioria das mulheres (51% a 42%), do Nordeste (67% a 29%) e dos negros (58% a 38%), além dos católicos e dos mais pobres.

Não à toa Lula, divulgou ontem a sua carta aos evangélicos, na qual reiterou a defesa do Estado laico e da liberdade religiosa. “O respeito à família sempre foi um valor central na minha vida, que se reflete no profundo amor que dedico à minha esposa, aos meus filhos e netos. Por isso, compreendo o lugar central que a família ocupa na fé cristã”, diz o documento. “Também entendo que o lar e a orientação dos pais são fundamentais na educação de seus filhos, cabendo à escola apoiá-los dialogando e respeitando os valores das famílias, sem a interferência do Estado”, completa.

O documento procura repelir a acusação de que pretende fechar as igrejas evangélicas, muito difundida pelos pastores que apoiam Bolsonaro para disseminar ojeriza ao PT e ao ex-presidente Lula nas comunidades evangélicas: “Todos sabem que nunca houve qualquer risco ao funcionamento das igrejas enquanto fui presidente. Pelo contrário! Com a prosperidade que ajudamos a construir, foi no nosso governo que as igrejas mais cresceram, principalmente as evangélicas, sem qualquer impedimento, e até tiveram condições de enviar missionários para outros países.”

Correio Braziliense

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