terça-feira, maio 10, 2022

Polícia Federal aponta que a Abin, Ramos e Heleno agiram na ofensiva contra urnas

Publicado em 10 de maio de 2022 por Tribuna da Internet

Live de 29 de julho de 2021 em que Jair Bolsonaro atacou sem provas a segurança das urnas eletrônicas

Em 2021 Bolsonaro atacou a urna eletrônica sem ter provas

Fabio Serapião
Folha

O uso das instituições públicas para buscar informações contra as urnas eletrônicas vem desde 2019 e envolve o general Luiz Eduardo Ramos e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), atrelada ao Gabinete de Segurança Institucional chefiado pelo também general Augusto Heleno, mostra o inquérito da Polícia Federal. A investigação da PF, relatada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), foi aberta para apurar a live presidencial de 29 de julho de 2021.

Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro (PL) fez seu maior ataque ao sistema eleitoral, apresentando uma profusão de mentiras e teorias da conspiração sobre as urnas. O caso agora tramita dentro do inquérito das milícias digitais.

DESDE SEMPRE – Bolsonaro ataca o sistema eleitoral desde quando era deputado e aumentou o tom das críticas na Presidência, em especial após a sua popularidade diminuir com as seguidas crises de sua gestão. Foi quando passou a levantar suspeitas sobre os resultados desta próxima eleição.

No embalo de Bolsonaro, as Forças Armadas passaram a questionar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre supostas fragilidades no sistema eletrônico de votação e criaram tensão com o Judiciário por causa do alinhamento às teses conspiratórias do presidente da República.

Com o aumento das críticas, o TSE deu prazo para que Bolsonaro apresentasse provas sobre as supostas fragilidades do sistema eleitoral. Quando se aproximava o fim do prazo, estipulado para agosto de 2021, o presidente convocou a live de 29 de julho em que atacou diretamente o sistema eleitoral e, entre outros fatos, levantou sem provas a suspeita de fraude na eleição de 2014, quando Dilma Rousseff (PT) venceu o tucano Aécio Neves.

ANÁLISE SIMPLÓRIA – No caso de 2014, Bolsonaro utilizou como prova uma análise simplória sobre o suposto padrão nos números da apuração dos votos que deu a vitória para a petista. O material, uma planilha com os números de votos, foi elaborado pelo técnico em eletrônica Marcelo Abrieli.

Chamado para depor no inquérito aberto pela PF, Abrieli relatou como foi procurado ainda no primeiro ano de governo, em 2019, pelo general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, para convidá-lo a participar de uma reunião com Bolsonaro no Planalto. O tema do encontro era “indícios de fraudes” nas urnas.

“No final de 2019, o general Ramos entrou em contato, por telefone, com o declarante para agendar uma reunião no Palácio do Planalto com o presidente Bolsonaro. Que a reunião teria como tema indícios de fraude nas urnas eletrônicas e que o declarante falaria sobre as informações descobertas em 2014 sobre as eleições”, disse Abrieli no depoimento.

OITO PARTICIPANTES – De acordo com a versão dada por Abrieli, além do general Ramos e Bolsonaro, participaram da reunião de aproximadamente uma hora de duração cerca de oito pessoas. O técnico em eletrônica disse à PF que relatou suas descobertas sobre a possível fraude no pleito de 2014 e que as outras pessoas também apresentaram informações sobre possíveis falhas nas urnas.

Questionado pela PF sobre quais informações seriam essas, Abrieli disse não se recordar do conteúdo das apresentações, mas afirmou “saber informar que tudo girava sobre o mesmo tema, ou seja, possível fraude das urnas eletrônicas”.

Ainda em seu depoimento, o técnico em eletrônica afirmou que, entre junho e julho de 2021, foi novamente procurado pelo general Ramos. Segundo ele, o contato foi feito quando Bolsonaro estava junto com o general e a ligação foi colocada no viva voz.

TRABALHO CONJUNTO – “Durante essa conversa foi avisado que estavam reunindo várias informações sobre possível fraude nas urnas eletrônicas. O general Ramos pediu para o declarante falar um pouco sobre as informações que descobriu”, disse Abrieli à PF.

Logo após a conversa, segundo Abrieli, outro militar, o coronel Eduardo Gomes da Silva, responsável por apresentar as suspeitas de fraudes na live, entrou em contato com o argumento de que estava trabalhando com Ramos “na coletânea das informações” sobre as urnas.

Além de Ramos, Augusto Heleno, militar que chefia o Gabinete de Segurança Institucional e, por consequência, a Abin, também atuou para obter desinformação contra as urnas.

ABIN FOI ACIONADA – No mesmo inquérito, o perito criminal da PF Ivo Peixinho, especialista em crimes cibernéticos e responsável por testes nas urnas eletrônicas, disse que, entre 2019 e 2020, o governo federal, por meio da Abin, buscou informações sobre a segurança no sistema eleitoral brasileiro.

O perito conta que “em 2019 ou 2020” a Abin, sob o comando de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro e chefiado por Heleno, enviou uma consulta “sobre informações sobre ocorrências ou atividades envolvendo urnas eletrônicas nas eleições”.

Segundo ele, nessa ocasião, produziu um informe com todas as atividades da PF sobre o tema e os relatórios de análise no código fonte das urnas e testes públicos do TSE.

SEM PROVAS – Embora não apontasse nenhuma possibilidade de fraude, o material produzido nos testes por Peixinho e outros peritos da PF foi utilizado na live presidencial pelo ministro Anderson Torres (Justiça).

Apesar desses depoimentos, os generais de Bolsonaro não entraram até agora na mira desse inquérito da PF. Ao concluir a apuração, a delegada Denisse Ribeiro entendeu que a busca por informações para desacreditar o sistema eleitoral é mais um evento relacionado à organização criminosa investigada no inquérito das milícias.

Segundo a delegada, a live presidencial foi realizada com o “nítido propósito de desinformar e de levar parcelas da população a erro quanto à lisura do sistema de votação” e “alimenta teorias que promovem fortalecimento dos laços que unem seguidores de determinada ideologia dita conservadora”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A briga entre o Planalto e o Supremo está entrando em clima de temperatura máxima. Bolsonaro ataca a votação eletrônica e a resposta da Justiça é o vazamento desse tipo de informação, que deprecia o presidente e os generais que o cercam. É bom comprar pipoca para ficar assistindo a essa briga, que vai ser demorada e é sensacional. (C.N.)

Juro alto engorda caixa de Estados e municípios




Receita de aplicações financeiras mais que dobra em 12 meses, ajudada também por arrecadação maior

A combinação de maior arrecadação, disponibilidade de caixa e taxa de juros básica ascendente permitiu a Estados e municípios elevar as receitas de aplicações financeiras nos últimos meses. Esses rendimentos somaram R$ 17,7 bilhões no agregado de Estados e capitais entre fevereiro do ano passado e fevereiro deste ano. O valor é mais que o dobro em termos reais dos R$ 7,8 bilhões nos 12 meses anteriores. Em relação a igual período encerrado em fevereiro de 2020, período pré-pandemia, a alta real é de 25%.

Após dez altas consecutivas, a Selic saiu de 2% no início de 2021 para os atuais 12,75%. Com a disponibilidade ainda grande de caixa em prefeituras e Estados, a perspectiva é que o aumento das receitas com aplicações prossiga neste ano, dado o esperado alongamento do ciclo de aperto monetário.

No caso das capitais, que somaram receita de rendimentos de R$ 3,9 bilhões em 12 meses até fevereiro deste ano, o valor equivale a 8,5% da receita em igual período do ISS, principal tributo dos municípios. Nos Estados, o valor é menos representativo. Foram R$ 13,8 bilhões no mesmo critério, que em comparação semelhante, corresponde a pouco mais de 2% do ICMS, imposto que não só é o mais importante dos cofres estaduais, como também o que mais arrecada no sistema tributário brasileiro, com recolhimento equivalente a 7,6% do PIB em 2021.

“Vamos ver essa receita com aplicações financeiras bombar ainda mais este ano”, diz Juliana Damasceno, economista da Tendências e pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O cenário de alta em 12 meses até fevereiro deste ano reflete o forte ciclo de aperto monetário no decorrer do ano passado, quando a Selic estava escalonando, afirma ela. “Em 2022 já entramos com a taxa de juros na casa de dois dígitos.”

Isso, acrescenta a economista, levará ao crescimento das receitas com rendimentos, ainda que não haja mais a mesma ajuda do ciclo de receitas, que avançaram ao longo do ano passado com algum crescimento econômico, mas com “contribuição inflacionária muito forte”.

No caso das capitais, diz ela, houve também retomada gradual de serviços após o forte declínio em 2020, sob o impacto da pandemia de covid-19. O cenário foi propício para a melhora do fluxo de receitas e de maior disponibilidade de caixa de Estados e capitais.

Juliana destaca que o ciclo de alta de juros e o crescimento de receitas têm a “mesma raiz, que é a alta da inflação”. E acrescenta: “Não devemos comemorar ajuste fiscal por inflação ou pelo remédio usado para combatê-la, que é a alta de juros. Sabemos do efeito nocivo que o alongamento do ciclo de aperto monetário tem na economia”, diz, mencionando o impacto no consumo e no endividamento das famílias em meio a um cenário social muito crítico.

Os dados de receitas com rendimentos de aplicações financeiras foram levantados pelo Valor a partir dos relatórios fiscais entregues à Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Foram consideradas as receitas realizadas de 24 Estados, Distrito Federal e 22 capitais, com atualização pelo IPCA dos períodos de 12 meses encerrados em fevereiro de 2020 e 2021.

Para Giovanna Victer, secretária da Fazenda de Salvador e presidente do fórum que reúne secretários municipais de Fazenda no âmbito da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), grande parte das prefeituras deve se beneficiar do efeito da alta da Selic nas receitas com aplicações. A exceção fica para os que estão mais endividados porque neste caso o aumento da taxa de juros e da inflação eleva o serviço da dívida. Na capital baiana, segundo os relatórios fiscais, esses rendimentos da prefeitura somaram R$ 130,2 milhões entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2022, quase o triplo em termos reais dos R$ 45,5 milhões nos 12 meses anteriores. O valor é 7% maior que o de 12 meses até fevereiro de 2020.

Entre as capitais, se destaca também São Paulo, que somou R$ 1,6 bilhão em receitas com aplicação financeira em 12 meses até fevereiro deste ano contra R$ 517,8 milhões nos 12 meses anteriores. Em relação ao período de março de 2019 a fevereiro de 2020, a alta real foi de 93,3%.

A grande vantagem dessas receitas de rendimentos é que elas são desvinculadas, explica George Santoro, que foi secretário de Fazenda de Alagoas até o último dia 4. Os rendimentos em sua maioria são livres e não se submetem às destinações constitucionais para saúde e educação. A exceção são recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e de transferências de convênios, exemplifica ele. Nesse caso as aplicações seguem regras mais limitadas e os rendimentos têm a destinação dos recursos que deram origem.

Segundo os relatórios fiscais de Alagoas, a receita com rendimento de aplicações no Estado somou R$ 251,7 milhões em 12 meses encerrados em fevereiro deste ano, ante R$ 73,8 milhões nos 12 meses anteriores. Em relação a igual período até fevereiro de 2020 a alta real foi de 70,3%.

Felipe Salto, secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, diz que os recursos devem contribuir para a execução dos investimentos planejados para este ano. Ele ressalta que a alta da receita com aplicações financeiras foi propiciada pela elevação de arrecadação resultante do crescimento econômico do Estado, possibilitando disponibilidade de caixa atual próxima a R$ 34 bilhões. Segundo os relatórios do Estado, as receitas de aplicações financeiras somaram R$ 3,1 bilhões em 12 meses encerrados no primeiro bimestre de 2022, quase quatro vezes os R$ 802,41 milhões em 2021 e quase o dobro do R$ 1,63 bilhão de 2020, sempre em termos reais e considerando os 12 meses até fevereiro.

“Esse rendimento é importante, mas não é tendência no médio prazo”, diz ele, considerando os fatores conjunturais que contribuíram ao aumento de arrecadação em 2021. Ele lembra que no ano passado o recolhimento de ICMS saltou 17% em termos reais contra 2020 e para este ano a perspectiva é de “crescimento bem mais brando”, entre 3% e 4% reais.

Além do caráter conjuntural que levou ao crescimento de receitas dos entes subnacionais, Juliana Damasceno diz que é preciso que os Estados tenham no radar que inflação e juros beneficiam as receitas num primeiro momento, mas depois trazem a conta para as despesas. “O cenário provoca pressões por reajustes não somente de servidores, como temos visto desde o início do ano, como também de fornecedores.” O efeito nos gastos, diz, pode acontecer mais no médio e longo prazos. “Não se pode chegar lá endividado e tendo gasto toda essa receita. Pode haver um ‘delay’, mas esse ajuste vai acontecer”, diz.

Giovanna, de Salvador, diz que, apesar de as receitas do município ainda refletirem retomada do setor de serviços, o quadro não é de tranquilidade e a cautela é necessária para não comprometer recursos “sazonais e temporários” com despesa permanente.

O cenário mais recente de melhor fluxo de receitas levou os Estados a uma melhor gestão nas aplicações financeiras, aponta Santoro. Uma dos desafios, porém, são as limitações do poder público para acessar os instrumentos financeiros. Ele lembra que no início do ano passado Alagoas fez licitação para conseguir melhor retorno de aplicações para cerca de R$ 400 milhões em sobras de caixa.

O edital, recorda o ex-secretário, impôs várias restrições às instituições participantes. Venceu, lembra ele, um banco privado que ofereceu rendimentos acima de 110% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). A Procuradoria-Geral do Estado, porém, entendeu que o governo estava impedido de contratar com instituições privadas. Os bancos públicos, diz, ofereciam na época 95% do CDI. O assunto chegou a ser levado ao Ministério da Economia, em busca de regras mais flexíveis, mas não houve sucesso, e o Estado acabou contratando outros investimentos com os bancos públicos.

Após divulgar a possibilidade de pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) com criptomoedas a partir de 2023, a prefeitura do Rio de Janeiro estuda agora investimentos nesse novo ativo.

A Fazenda carioca afirma que órgãos da prefeitura estudam “uma política de investimento em criptoativos e em um modelo de governança para a tomada de decisão”. Afirma também que será criado um Comitê Municipal de Criptoinvestimentos (CMCI) para refinar a metodologia. O município diz que em março chegou a saldo de R$ 9 bilhões em caixa, resultado de processos de revisão de custeio, contenção de despesas e medidas estruturantes, como novo regime fiscal e reforma tributária.

Valor Econômico

"Competição com bolsonarismo nas redes sociais é injusta"




David Nemer, pesquisador da Universidade de Harvard

Para pesquisador de Harvard, enquanto bolsonarismo gera engajamento com mentiras, campo democrático é cobrado a seguir ética e moral. Com resposta institucional insuficiente, fake news vão rolar soltas na eleição, prevê.

Por João Pedro Soares

Nas eleições de 2018, as instituições brasileiras foram surpreendidas pelo fenômeno das fake news. Desde então, o Legislativo vem discutindo medidas para enfrentar o problema, enquanto o Judiciário apresentou medidas concretas, por meio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A resposta, porém, é insuficiente para transformar o cenário na eleição deste ano.

A avaliação é do antropólogo David Nemer, pesquisador da Universidade de Harvard, no Berkman Klein Center para a Internet e Sociedade, e autor do livro Tecnologia do Oprimido: desigualdade e o mundano digital nas favelas do Brasil.

Nemer classifica o esforço das instituições como "bem-vindo e bem-intencionado", mas pouco eficaz, uma vez que não é acompanhado por um compromisso real das plataformas digitais no combate à desinformação.

"Essas plataformas prometem muita coisa e tendem a passar uma mensagem de que são democráticas e prezam pelo bem-estar social. Eles falam muito que não são os árbitros da verdade, e que prezam pela liberdade de expressão dentro do entendimento da lei”, afirma.

"Só que, diversas vezes, a lei é quebrada dentro dessas plataformas. Os termos de serviço das próprias plataformas são quebrados o tempo todo. A gente não as vê agindo energicamente, principalmente em um tema tão delicado e que é a coluna da nossa democracia, que são as nossas eleições", acrescenta.

O pesquisador acredita que o cenário de crise econômica deverá impulsionar a disseminação de notícias falsas pela campanha de Jair Bolsonaro. Em busca da reeleição, o presidente terá que maquiar a realidade apresentada aos eleitores, avalia Nemer – que, desde 2018, está imerso em grupos bolsonaristas no WhatsApp e Telegram.

"A única forma de recriar essa realidade é pela desinformação, pelas fake news. O volume de desinformação necessário para tentar fantasiar essa realidade real que o brasileiro está vivendo vai ter que ser muito intenso. Por isso, eu prevejo que vai ser novamente uma ansiedade social muito grande, a desinformação vai correr solta", diz.

Ele também classifica que a disputa entre o bolsonarismo e o campo democrático nas redes sociais é injusta. "Não é só o Lula ou o PT que tem dificuldades, todo o campo democrático tem dificuldade de competir com o bolsonarismo, porque este não tem qualquer apreço pela ética, ou até mesmo pelas leis, para conduzir seu conteúdo. Eles estão o tempo todo engajando em conteúdos mentirosos, desinformação, sendo que o outro campo é colocado em uma lente de escrutínio, pela qual eles precisam seguir a regra, a ética, a moral."

DW Brasil: Em 2018, a difusão massiva de notícias falsas teve um peso decisivo na eleição. Desde então, o ambiente digital se modificou muito, com novas regras sobre essa prática. Qual cenário devemos ver na eleição deste ano?

David Nemer: Em 2022, a gente vai viver uma ansiedade social muito maior, já que a disputa eleitoral vai estar muito acirrada. Teremos, na disputa direta, dois personagens que são vistos como completos opostos – não extremos opostos, mas opostos no entendimento do que seria o representante da direita e o representante da esquerda. É claro que o Lula não é um extremista como o Bolsonaro, mas eles se encontram em lados opostos. Bolsonaro se fez criando o Lula como seu grande inimigo, só que nunca enfrentou o Lula. Em 2022, eles se enfrentam. Além disso, Bolsonaro entrega o país em uma crise sem precedentes. Vivemos a maior inflação dos últimos 28 anos, o retorno da fome, e uma crise institucional que nunca esteve tão intensa.

Para convencer a sua base ou até mesmo expandi-la para votar nele, o Bolsonaro vai precisar recriar uma realidade, e essa realidade não condiz com a que o brasileiro vive. A única forma de recriar essa realidade é pela desinformação, pelas fake news. O volume de desinformação necessário para tentar fantasiar essa realidade real que o brasileiro está vivendo vai ter que ser muito intenso. Por isso, eu prevejo que vai ser novamente uma ansiedade social muito grande, a desinformação vai correr solta.

Essas diferenças que a gente vai ver em 2022 são sutis. Eu não consigo ver nada que vai acontecer como extraordinariamente diferente de 2018. A desinformação vai continuar acontecendo, pessoas vão continuar sendo pagas para produzir desinformação, os mesmos personagens que promoveram a desinformação em 2018 vão estar engajados em 2022. Eles viram que o modelo dá certo, já que eles foram eleitos e muitos continuaram nesse modus operandi de campanha durante esses quatro anos. Portanto, irão continuar operando esse mesmo modelo. É claro que, hoje, nós somos muito mais atentos, mais conhecedores de que as redes sociais estão inundadas de fake news. Mas isso não quer dizer que as fake news não evoluíram para se tornarem mais convencíveis, por exemplo, que técnicas novas, para promover desinformação, também não tenham sido desenvolvidas. Como eu falei, vamos ter mudanças sutis, mas com o mesmo tipo de modelo de desinformação.

Embora pesquisas de intenção de voto mostrem uma ampla vantagem de Lula, Bolsonaro tem muita superioridade nos indicadores de engajamento no ambiente digital. Por que Lula e o PT têm dificuldade para alavancar sua presença nas redes?

Vamos pegar o Twitter como exemplo. É uma plataforma em que diversas bolhas estão inseridas. Elas se tocam o tempo todo, e no conflito. Quase todos os posts do Bolsonaro são desconstruídos ou criticados por diversas outras bolhas, ou então aclamados pela sua própria bolha. Ou seja, tudo o que ele produz tem um engajamento, independentemente de ser crítico ou favorável. Isso já coloca ele em uma posição que não é de vantagem, mas de maior engajamento, se comparado ao Lula.

Como falei há pouco, não é possível confiar no número de usuários do Twitter, porque não se traduz em número de pessoas votantes, pessoas que vão necessariamente votar em Bolsonaro. Como sabemos, conta inautêntica e robô não votam. Por isso, deve-se tomar muito cuidado para fazer essa correlação, porque ela não se traduz em pessoas que votariam em Lula ou Bolsonaro.

Não é só o Lula ou o PT que tem dificuldades, todo o campo democrático tem dificuldade de competir com o bolsonarismo, porque este não tem qualquer apreço pela ética, ou até mesmo pelas leis, para conduzir seu conteúdo. Eles estão o tempo todo engajando em conteúdos mentirosos, desinformação, sendo que o outro campo é colocado em uma lente de escrutínio, pela qual eles precisam seguir a regra, a ética, a moral.

É claro que, em campanha política, todo mundo vai fazer o seu jogo, isso não é novidade. É o período em que mais temos acesso a mentiras brandas ou até mesmo pesadas. Isso é da tradição das campanhas políticas, infelizmente. Mas, quando a gente fala dessas campanhas de fake news que ficaram muito famosas em 2018, a gente vê o bolsonarismo agindo pesadamente nessa disputa, enquanto o outro lado é colocado em um pedestal onde não pode errar, não pode quebrar as regras. É muito difícil competir, porque é uma competição injusta, na qual um lado pode fazer o que quiser, e o outro lado precisa seguir as regras. Por isso, é difícil o Lula, ou qualquer outro do campo democrático, competir nas redes com o Bolsonaro, porque o bolsonarismo está compartilhando conteúdo que vai gerar esse engajamento. É um conteúdo raivoso, que gera muito medo, e disputa, por exemplo, a questão das urnas eletrônicas. Isso gera muito engajamento e quem está no campo democrático jamais vai disputar as questões das urnas eletrônicas em um sistema eleitoral. Então, é uma disputa injusta.

É possível enfrentar o bolsonarismo nas redes sem fazer o "jogo sujo" da desinformação?

É aí que a esquerda ou o campo democrático precisam se reinventar, dentro do seu marketing digital, das suas abordagens digitais, para competir com quem não segue as regras. Existem várias formas de engajar. O Lula tem ido muito bem, por exemplo, em engajar com influencers, youtubers ou até instagramers que são muito conhecidos e aclamados pelas classes mais populares. Recentemente, tivemos o engajamento dele com a Dra. Deolane, advogada, e o post deles foi o com maior engajamento no Instagram. A Anitta não fala especificamente do Lula, mas ela fala de causas que se alinham ao campo progressista, e também ao Lula. Isso traz muito engajamento e atenção para quem se alinha com essas ideias que a Anitta posta e que remetem à campanha do Lula.

Essa forma de se engajar, não pela ideologia política, mas por causas, é muito eficiente para atingir os jovens, as pessoas que não querem falar de política, mas estão preocupadas com a questão ambiental, com a questão de raça, a questão de classe. Apesar de eu achar que tudo isso é político, as pessoas não querem lidar com essa politicagem das redes sociais, um estresse social que lida com muita fake news. Elas estão mais preocupados com a causa. Portanto, ter esses políticos do campo democrático ligando diretamente com essas causas, com quem já comunica com o público sobre essas causas, é uma forma de vencer, de passar a frente de quem só sabe engajar com raiva e mentira.

O crescimento do Telegram foi a grande novidade no meio das plataformas digitais desde 2018, com grande adesão entre os bolsonaristas. Como a popularização desse aplicativo pode impactar a eleição?

Embora o Telegram seja uma grande novidade, isso não quer dizer que os aplicativos como WhatsApp e Facebook estão descartados. Pelo contrário: o Telegram é a novidade, mas não quer dizer que é a plataforma mais importante. O Facebook ainda continua, por exemplo, como a segunda maior rede social do Brasil, e líder na faixa etária de 40 a 65 anos. O WhatsApp, por sua vez, continua dominando o mercado de mensageria e das redes sociais – 96% dos celulares que estão conectados à internet usam o WhatsApp como o meio de comunicação principal. Isso mostra o poder do aplicativo.

O Telegram vem crescendo: na última pesquisa, 60% dos celulares com internet tinham o Telegram, mas esse uso não é exclusivo, ou seja, as pessoas não saem do WhatsApp para ir para o Telegram. Quando entram no Telegram, mantêm as suas contas. Então, o WhatsApp continuou como a rede social mais utilizada, de suma importância. A capilaridade do WhatsApp no Brasil inteiro é surreal, não tem outro aplicativo ou outra tecnologia que seja tão inserida no Brasil profundo, país afora.

O Telegram tem novas funcionalidades, que trazem novas capacidades. Dentre elas, os famosos canais, que não têm limite de número de usuários. O Bolsonaro é o político com o maior canal do mundo. Esses canais mudam um pouco a intenção desses aplicativos de mensageria. Por quê? O aplicativo de mensageria geralmente é visto como um aplicativo de comunicação privada. Os canais saem dessa comunicação privada e vão para a comunicação broadcasting. Ou seja, comunicação em massa, que é de um para muitos. Remete muito aos meios de comunicação tradicionais, como a televisão, já que você não tem esse feedback dos usuários como há nos grupos de WhatsApp e de Telegram. Ali, dentro desses canais que falam de um para milhares, consegue-se controlar qual tipo de mídia a sua audiência vai consumir.

As instituições brasileiras têm se movimentado para demonstrar empenho no combate à desinformação. Além do PL das Fake News, no Legislativo, uma série de medidas foi apresentada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para enfrentar o problema. Como você avalia a efetividade dessa resposta?

O esforço do TSE é muito bem-vindo, e é o que resta ao TSE fazer, já que é responsável pelas eleições nacionais e tem o compromisso de garantir a integridade do processo. Cabe ao TSE também agir proativamente para tentar conter e mitigar os danos da desinformação. Esse acordo que o TSE propôs às redes sociais é de excelente intenção. O problema é que as soluções propostas pelas próprias plataformas no combate à desinformação ficam muito aquém de uma resposta efetiva. Por exemplo, o YouTube se comprometeu a identificar e remover todo vídeo que falar que as eleições de 2018 foram fraudadas. Ok, mas a gente já não quer saber de 2018, que já passou, a gente quer saber de 2022, porque o que está em risco agora são as eleições de 2022. De repente, vai ser bem-vindo retirar essa mentira, já que não houve fraude, mas a preocupação principal tem que ser com 2022. Isso não há.

O Google se comprometeu a criar um doodle que celebraria o dia das eleições. O doodle é aquela animação que aparece na página principal do Google, geralmente em datas comemorativas. Ok, mas o que isso de fato vai ajudar na contenção da desinformação? Nada, não acontece nada. O próprio Telegram teve essa novela com o STF e o TSE, sem conversar, e finalmente respondeu depois de ter sido banido, falando que vai monitorar os grupos.

Esta é a questão: essas plataformas prometem muita coisa e tendem a passar uma mensagem de que são democráticas e prezam pelo bem-estar social. Eles falam muito que não são os árbitros da verdade, e que prezam pela liberdade de expressão dentro do entendimento da lei. Só que, diversas vezes, a lei é quebrada dentro dessas plataformas. Os termos de serviço das próprias plataformas são quebrados o tempo todo. A gente não vê as plataformas agindo energicamente, principalmente em um tema tão delicado e que é a coluna da nossa democracia, que são as nossas eleições. Eu acho que esse esforço é muito bem-vindo e bem-intencionado, mas vejo os esforços das redes sociais muito aquém do que tem que ser feito.

Você costuma criticar o conflito entre a lógica do lucro e o compromisso das plataformas digitais contra a desinformação. Por quê?

Porque os conteúdos que mais geram engajamento são aqueles que engatilham uma comoção negativa, seja ela de medo, ou de raiva. Isso é da natureza humana. Sabendo que é isso que irá fazer as pessoas engajarem um conteúdo e passar mais tempo nas plataformas, os algoritmos estão priorizando esse tipo de conteúdo. Foi isso que a Frances Haugen falou no testemunho dela no Congresso dos EUA, que o algoritmo do Facebook priorizava conteúdo que gerava medo e raiva, porque é o tipo de conteúdo que as pessoas mais vão compartilhar.

Como isso significa monetização ou lucro para as plataformas? Elas vendem o tempo de atenção que as pessoas prestam nas plataformas, ou seja: o usuário passa x horas na minha plataforma, então consigo vender isso falando "olha, nossos usuários estão passando x horas por dia, então eu acho que você deve anunciar aqui, porque é o máximo que você consegue de atenção, comparado a outras plataformas, comparado à televisão".

É claro que as redes sociais querem otimizar esse número de x horas e a melhor forma de deixar a pessoa pregada ali na sua rede social é priorizando conteúdo que vai forçar essa atenção dos usuários. O algoritmo já entendeu que o conteúdo que vai gerar isso é o que gera raiva, medo. Não surpreende que as fake news mais virais, que mais tomam a atenção das pessoas, são as que geram medo e raiva. Então, não é de se surpreender que as plataformas tenham virado esse antro tóxico e não saudável, que compromete a saúde mental das pessoas justamente porque é um modelo que gera mais lucro para as empresas.

Após o anúncio da aquisição do Twitter pelo empresário Elon Musk, temos observado um boom de perfis bolsonaristas. Esse fenômeno aumenta o risco de que a plataforma seja utilizada para a desinformação?

Que vai ser usada, isso com certeza, porque já está sendo usada para a desinformação. É claro que, dependendo do momento e do contexto, a desinformação vai se adequar a isso. Mais perto das eleições, é claro que vai ter muita desinformação relacionada a isso. Isso vai aumentar quando começar o período oficial das campanhas. A gente vai ver esse boom de desinformação relacionada às eleições, já que em 2018 foi a mesma coisa, então não se trata de novidade. Até hoje, o  Twitter não explicou direito por que houve esse boom de contas, principalmente direcionadas a personagens da extrema-direita ou conservadores, que se utilizam da desinformação para se promover ou emitir opiniões polêmicas. O Twitter não conseguiu explicar, falou que foi um crescimento orgânico, mas não foi.

Eu consegui analisar uma amostra de 25 contas, que não é nada, já que foram milhões de contas que foram criadas. Essa pequena amostra era de contas que não tinham fotos, com login alfanumérico – ou seja, aquele nome que não faz muito sentido, sem nenhum seguidor, só seguindo exatamente as mesmas coisas. Isso é característico de um movimento não orgânico, e o Twitter insiste em falar que não é. O Twitter precisa falar que é orgânico, porque tem que prestar contas aos investidores. Recentemente, eles foram pegos mentindo sobre o número de usuários, contaram a mais já que um usuário pode ter duas contas. Eles falavam que, na verdade, cada conta é um usuário.

Então, não dá para confiar nas relações públicas dessas plataformas, porque elas vão utilizar a narrativa para se beneficiarem, já que devem prestar conta aos investidores. A gente nunca vai saber do Twitter, oficialmente, por que essas contas aconteceram. É aí que a gente precisa do trabalho dos pesquisadores, da imprensa, para questionar, pressionar, porque isso não virá deliberadamente das plataformas, como não tem vindo.

Deutsche Welle

Bolsonaro tumultua a campanha eleitoral com os dados obtidos no TSE pelo Exército




Por Vinicius Sassine e Marianna Holanda

Os relatórios que o Exército produz sobre as urnas eletrônicas, usados pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) para contestar a lisura do processo eleitoral em 2022, são compartilhados com a cúpula do Ministério da Defesa por um integrante do Alto Comando da Força. O mesmo general foi chamado para uma reunião com Bolsonaro, ocasião em que as eleições foram discutidas.

O compartilhamento de dados que acabam municiando a ofensiva de Bolsonaro é feito pelo general de Exército Guido Amin Naves, que comanda o DCT (Departamento de Ciência e Tecnologia), no QG da Força em Brasília.

ACABOU ENVOLVIDO – Interlocutores de Amin descrevem-no como reservado e dizem que o general tratou com seriedade e sigilo o trabalho compartilhado com a cúpula da Defesa. E que acabou envolvido na ofensiva de Bolsonaro de politizar a participação dos militares no processo eleitoral.

Ao DCT está vinculado o Comando de Defesa Cibernética, unidade do Exército responsável pela produção dos documentos que acabam, numa etapa final, sendo usados por Bolsonaro para tumultuar o processo eleitoral.

O comandante de Defesa Cibernética é o general de Divisão Heber Garcia Portella, o responsável por formular questionamentos e sugestões na comissão de transparência das eleições montada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).  Os pontos levantados por Portella coincidem com as contestações habitualmente feitas por Bolsonaro.

NO ALTO COMANDO – Amin é um general quatro estrelas na ativa. Por ter a mais alta patente, e por seguir na ativa, integra o Alto Comando do Exército, o colegiado que assessora o comandante na tomada de decisões.

Portella, por sua vez, é um general três estrelas. Integrantes do Ministério da Defesa afirmam, sob condição de anonimato, que não cabe a ele participar de reuniões que envolvem as cúpulas militares.

Por isso, esse papel é desempenhado por Amin. O chefe da Defesa Cibernética não se encontra com Bolsonaro, segundo militares que atuam na pasta.

ESCOLHA PESSOAL – Como a Folha mostrou, Portella foi a escolha do então ministro da Defesa Walter Braga Netto para o posto no TSE.  Quando o convite foi feito às Forças Armadas, a corte eleitoral esperava que um almirante da Marinha especializado em tecnologia da informação fosse o nome indicado para integrar a comissão de transparência das eleições.

Ele era visto no TSE como uma referência na área e chegou a ser convidado pelo ministro para integrar o colegiado. No entanto, Braga Netto enviou o nome de Portella à corte. Também filiado ao PL, Braga Netto é hoje o principal cotado para ser vice de Bolsonaro na campanha pela reeleição.

No último dia 3, uma reunião no Ministério da Defesa envolveu Bolsonaro, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, os comandantes das três Forças Armadas, o general Laerte de Souza, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças (um cargo de confiança na Defesa), Braga Netto e Amin.

Nota do blog Tribuna da Internet – A reportagem de Vinicius Sassine e Marianna Holanda esclarece que os problemas encontrados são técnicos e podem ser corrigidos a tempo. Mesmo assim, Bolsonaro faz uso político desses dados. Por fim, os jornalistas assinalam que o ministro da Defesa não deseja a ruptura entre os Poderes e vem agindo como conciliador. Ou seja, está atuando dentro das quatro linhas, enquanto Bolsonaro chuta a bola para fora. (C.N.)

Folha de São Paulo / Tribuna da Internet

Carestia que marcou fim do regime militar está de volta

 






Por Miguel de Almeida (foto)

Bastam alguns dias de caminhada pelas ruas de Manhattan ou do Brooklyn, em Nova York, com um pit stop estratégico na livraria Strand, para adaptar de Francis Fukuyama uma definição: a democracia brasileira passa por profunda crise cognitiva.

O sociólogo forjou décadas atrás o conceito de “fim da História”, ao ver a derrocada da União Soviética, saudar a prevalência da democracia liberal e a superação do modelo econômico estatista da esquerda marxista. A História, a China e algumas crises, em especial a de 2008, o tornaram motivo de exacerbada desconfiança.

Não sei se Fukuyama conhece a jabuticaba, mas deve estar informado de que a democracia brasileira, desde a derrubada da ditadura, está presa num labirinto incapaz de encontrar o futuro.

Passados mais de 30 anos, talvez por deficiência cognitiva, ainda se digladiam as principais forças que sustentavam e derrubaram o regime militar. O feitiço do tempo faz o país reviver o falso enredo de escolha entre uma extrema direita subserviente ao atraso produtivo e uma velha esquerda corporativa. Ambas se conectam na prática do patrimonialismo de quatro costados e agora estão de mãos dadas perfiladas na defesa de Putin. Portanto cinicamente solidárias à chacina na Ucrânia.

Talvez seja o caso de pensar no atraso tardio da primeira previsão de Fukuyama, não apenas pela incapacidade de não ter ocorrido renovação política no Brasil, mas também pelas ideias envelhecidas escandidas desavergonhadamente pelos dois principais candidatos. O fim da História, como a jabuticaba, é coisa nossa ao permanecer uma visão de desenvolvimento econômico de cepa militar-nacionalista-esquerdista. Um angu da TFP com o MR-8.

Embora escondido, o desastre Dilma Rousseff não foi acaso nem quimera, mas um fato ideológico da velha esquerda. Como Bolsonaro, reincidência da extrema direita militar e da histeria religiosa — dois mandatários a serviço do pensamento corporativista que impregnou o Brasil desde o golpe de 64, corroborado desde o apoio de Luís Carlos Prestes a Getúlio Vargas.

Um pouco de História sempre ajuda.

Em 1973, a oposição ao regime militar batia na tecla da volta das liberdades democráticas — havia censura na imprensa, tortura, assassinato de presos políticos. O governo Médici vendia a ideia de que se vivia um crescimento econômico e, portanto, liberdade ou eleições diretas eram detalhes irrelevantes.

Sempre é bom lembrar: boa parte da população engolia o discurso oficial. Além da necessidade humana de acreditar em Papai Noel, havia a manipulação do regime. O general Médici nadava em popularidade, e ninguém desconfiava das estatísticas oficiais. O pessoal ia ao supermercado, via que o preço do tomate subia a cada semana, só que não ligava o nome à coisa: inflação.

Mesmo sob censura, mas sem dados alternativos, a imprensa buscava passar elementos de que a construção econômica comandada pelos militares e dirigida pelo ministro da Fazenda, Delfim Netto, era um embuste.

Até que surgiu o Dieese, comandado por um seminarista, economista de profissão que colocou o ovo em pé. Walter Barelli, criado por uma mãe viúva na periferia paulistana, levantou dados dos salários dos trabalhadores, cruzou preços dos alimentos, contratação de empregados e chegou a números diferentes dos divulgados pela ditadura militar.

Era o que faltava para a oposição mais moderna conseguir mobilizar a população: o bolso, o bolso. O bordão da democracia podia não empolgar, ao contrário da inflação, que era compreendida independentemente de ideologia.

A grande vitrine da ditadura — o sucesso econômico, o controle da inflação detonada desde JK — estava enfim eclipsada por números reais. Em torno deles, se juntaram os velhos e novos líderes sindicais — Lula entre eles —, o movimento estudantil, as organizações de defesa de direitos civis e ainda as lideranças religiosas ligadas à oposição, como Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo e glorioso defensor dos presos políticos.

Bem que o governo tentou desmobilizar a oposição e seu novo eixo de luta, até que começaram defecções entre suas fileiras. Políticos governistas, mesmo direitistas e capazes de enxergar comunismo até no camundongo Mickey, viram o barco à deriva quando o Banco Mundial confirmou que os índices oficiais brasileiros eram enganosos, mentirosos — fake news!

O Brasil já estava sob um descontrole inflacionário como atestavam os números do Dieese e, sim, havia perdas salariais. Os índices que regulavam os dissídios roubavam os trabalhadores.

O Dieese de Walter Barelli forneceu à oposição régua e compasso para ir às ruas com uma bandeira: “Abaixo a carestia!”.

Foi o início real da derrocada da ditadura militar. Mesmo proibidas, começaram a ocorrer greves e manifestações de rua. Embora reprimidas, foram montadas passeatas, a oposição ganhou fôlego e aderência à população — a inflação come o salário da esquerda e da direita!

É a mesma carestia dos militares de antes, agora sob os generais de pijama, que em 2022 condena mais da metade da população a níveis calamitosos de pobreza.

Barelli era de esquerda, católico praticante, estudou sempre em escola pública e várias vezes recusou se filiar ao PT — preferiu o PSDB. Quando o presidente Itamar Franco pediu-lhe sugestão de um nome para seu Ministério do Trabalho, em 1992, Lula não pensou em Aloizio Mercadante ou Guido Mantega. Cravou:

— É o Barelli, Itamar.

O Globo

Linhagem de dengue que eleva risco de casos mais graves é identificada no Brasil




Um novo genótipo da dengue foi detectado pela primeira vez no Brasil. Trata-se da linhagem cosmopolita, a mais disseminada no mundo, rastreada pela segunda vez no continente americano. Em 2019, o Peru registrou um surto de casos de dengue após a identificação dessa linhagem.

A identificação foi feita em fevereiro em uma amostra referente a um caso de novembro, na cidade de Aparecida de Goiânia, em Goiás, pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em parceria com o Laboratório Central de Saúde Pública de Goiás (Lacen-GO).

O virologista e coordenador da pesquisa, Luiz Alcantara, explica que a entrada de um a nova linhagem no País preocupa, pois aumenta a diversidade do vírus dentro do País, aumentando assim as chances de casos mais graves, uma vez que a dengue severa costuma acontecer em indivíduos que já tiveram uma infecção prévia por outro sorotipo da dengue.

O pesquisador da Fiocruz afirma, por outro lado, que ainda não se sabe se a transmissão do genótipo cosmopolita é mais eficiente ou mais rápida do que a das demais linhagens encontradas no Brasil, pois não há estudos que comparem a disseminação entre os sorotipos. "Não é motivo para desespero ainda, porque há apenas um caso detectado", diz. Ele informou ainda que em junho a Fiocruz fará o mapeamento genético de todas as amostra de dengue tipo 1 e 2 de Goiás desde 2019 para constatar se há mais casos de infecção pela linhagem.

Alcantara reforça que a transmissão da dengue, diferentemente do que acontece com a da covid-19, depende de um vetor (o mosquito Aedes Aegypti). Por isso, ainda não é possível quantificar o impacto que a linhagem cosmopolita terá no Brasil. No Peru, após um ano da detecção do primeiro caso, houve um aumento de casos graves, mas não de mortos, explica o virologista.

Origem

Já foi constatado que a origem do genótipo cosmopolita é de Bangladesh, na Ásia - continente com maior disseminação da linhagem -, mas o cientista explica que ainda não é possível saber como se deu a chegada no Brasil. "Não dá para saber se veio do Peru para cá, precisamos de mais amostras para identificar a origem do vírus e quando ele entrou no País", diz.

Ele conta ainda que o indivíduo em que a linhagem foi detectada não relatou eventos de viagem no ano em que foi infectado, mas que ele trabalha no setor de zoonoses. "Ele faz trabalho em campo, então tem contato com vetores, o que faz com que seja alta a possibilidade de ele ter sido picado pelo mosquito com o vírus".

Informações repassadas pelo município de Aparecida de Goiânia à Secretaria Estadual de Saúde de Goiás dão conta de que o paciente não teve maiores intercorrências de saúde, inclusive, recebendo cuidados em casa.

A relação entre o surto de dengue em Goiás - Estado é o segundo maior em casos da doença no País - e o novo genótipo encontrado é descartada com base no sequenciamento genético de amostras realizado na região. Os casos daquela áreas são da linhagem 3, e a linhagem cosmopolita pertence ao sorotipo 2, explica o coordenador da pesquisa. A dengue tem quatro sorotipos, cada um com diferentes linhagens.

Ele explica que a dengue é uma virose endêmica no Brasil, cujo principal fator de disseminação é a densidade vetorial - isto é, a quantidade de mosquitos Aedes Aegypti. "A densidade vetorial depende de fatores ambientais e climáticos, que favorecem a proliferação do mosquito".

As condições de vida da população também afetam a disseminação da dengue, cuja principal forma de prevenção é a diminuição dos focos de mosquitos, não deixando água parada, e o uso de repelentes em áreas de grande circulação do Aedes. "Precisamos de uma vigilância epidemiológica muito ativa para tentar encontrar mais casos da nova linhagem", conclui.

Estadão / Dinheiro Rural

'Bolsonaro, seus dias estão contados. Não adianta desconfiar de urna. O que você tem é medo de perder as eleições e ser preso', diz Lula em Belo Horizonte




Pré-candidato do PT à presidência esteve em evento no Expominas, na tarde desta segunda-feira (9) em BH.

Por Maria Lúcia Gontijo

Belo Horizonte - O ex-presidente Lula, pré-candidato à Presidência da República, afirmou nesta segunda-feira (9) em Belo Horizonte que o presidente Jair Bolsonaro está com os "dias contados" no cargo e que faz ataques às urnas eletrônicas porque teme ser preso. Lula (PT) esteve no Expominas, no bairro Gameleira, Região Oeste da capital, em evento que reuniu líderes de partidos, músicos e artistas.

    'Bolsonaro, seus dias estão contados. Não adianta desconfiar de urna. O que você tem é medo de perder as eleições e ser preso', disse Lula em discurso.

O ex-presidente oficializou a sua pré-candidatura no último sábado em São Paulo. O vice será o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB).

Lula afirmou também que Bolsonaro representa a "ignorância", a "violência" e o "fascismo" no Brasil. E que será necessário reconstruir o Brasil. Ele disse que é possível aumentar o salário mínimo e incentivar a pequena e média agricultura.

Emprego e comida

"É por isso que eu queria dizer que nós, que pensamos em educação, nós, que pensamos em emprego (...) Nós que pensamos em desenvolvimento da ciência e tecnologia. Nós que queremos aumentar a qualidade de vida do povo, nós que queremos almoçar e jantar, e tomar café todo dia, nós que queremos viver para fazer com que o humanismo prevaleça sob o ódio, haveremos de ganhar as eleições no dia 02 de outubro de 2022".

Salário e educação

"Esse país nós precisamos descontruir para construir o país que nós já tínhamos construído quando eu ganhei as eleições em 2003. É possível aumentar o salário mínimo, nós provamos que é possível cuidar da pequena e média agricultura, nós provamos provar que é possível colocar as pessoas da periferia na universidade brasileira, provamos que é possível colocar as crianças nas escolas técnicas, provamos que é possível mandar os filhos dos trabalhadores estudar no exterior no programa ciências sem fronteira".

Viagem de avião

"Que alegria que eu tinha quando um companheiro de outro estado vinha a Minas Gerais de avião, não queria vir mais de ônibus. Ah, que alegria, que eu tinha quando o rico falava: "Ah, esse Lula é uma desgraça, porque o aeroporto virou uma rodoviária, tem muito pobre no aeroporto".

Poder de compra

"O trânsito está carregado em Belo Horizonte, o trânsito está carregado em São Paulo. O trânsito está carregado no Rio de Janeiro, porque esse Lula foi fazer com que pobre pudesse comprar um carro, pudesse andar dirigindo. As mulheres pobres agora estão inflacionando o mercado de perfume, porque a empregada doméstica pode utilizar na segunda-feira o perfume que a patroa usou na sexta pra ir num jantar"

G1

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