Publicado em 4 de novembro de 2026 por Tribuna da Internet

Não se pode aplaudir irresponsavelmente os erros de Lula
Roberto Rachewsky
Brazil Journal
Há um número impressionante de pessoas incomodadas com quem ficou inconsolável com o resultado das eleições. O argumento costuma vir embrulhado em serenidade: não adianta sofrer, o Brasil sempre foi assim, governos passam, empresas continuam funcionando e a vida segue. Parece sabedoria. Em boa medida, é resignação racionalizada.
Luiz Gustavo Bichara publicou no Brazil Journal o artigo “Coragem. O Brasil é isso aí”. Concordo com a primeira palavra. Discordo profundamente do resto.
CONSEQUÊNCIAS – Seu texto começa reconhecendo algo importante. Decisões tomadas em Brasília têm consequências “geralmente desastrosas”. Governos fazem diferença. “E muita”, escreve ele. Logo depois, começa a anestesia: fazem diferença, “mas talvez não tanta quanto gostamos de imaginar”.
Esse “talvez” carrega o artigo inteiro nas costas. Se decisões governamentais podem destruir capital, aumentar impostos, gerar insegurança jurídica, alterar contratos, impedir investimentos, criar privilégios e submeter quem produz à vontade de burocratas, não há exagero em atribuir importância ao governo. Há causalidade.
Reconhecer uma causa relevante não é conceder poderes sobrenaturais aos políticos. É reconhecer a realidade.
NÃO É ISSO – A primeira evasão aparece quando uma constatação histórica se converte, sem ponte lógica, numa afirmação metafísica: “O Brasil é isso aí mesmo”. Não. O Brasil está assim. Talvez esteja assim há muito tempo. Pode continuar assim por muito tempo. “Mas nada disso permite concluir que o Brasil é assim”.
Trocar “estar” por “ser” parece detalhe gramatical, mas é uma fraude conceitual. Transforma instituições criadas por homens em fenômenos da natureza. A neve não cair no Rio de Janeiro decorre de fatos geográficos e climáticos. A burocracia, a insegurança jurídica, a irresponsabilidade fiscal e a impunidade foram criadas, mantidas e toleradas por pessoas. É muito diferente.
O Natal provavelmente continuará sem neve. Já o Código Tributário não foi escrito pelas placas tectônicas.
PAÍS DO COITADINHO – A frase de Beto Sicupira, citada no artigo, sofre do mesmo problema. O Brasil seria “o País do coitadinho”, “do direito sem obrigação”, “da impunidade”. Isso seria cultural. Portanto, não mudaria. A ideia deles é determinismo cultural.
Como algo existe há muito tempo, continuará existindo. Cultura, porém, não é DNA. É um conjunto de ideias, valores, hábitos e instituições criados por seres humanos. Ideias podem ser rejeitadas e substituídas.
Há ainda uma confusão importante na expressão “direito sem obrigação”. Direitos individuais não são recompensas concedidas a quem cumpriu previamente algum dever perante a sociedade. Meu direito à vida não depende de uma obrigação coletiva, nem meu direito à propriedade da aprovação de um burocrata. Direitos delimitam a esfera de ação do indivíduo que os outros, inclusive o governo, não podem violar.
“ISSO AÍ…” – Bichara admite que teremos governos melhores e piores, alguns mais responsáveis, outros menos, “mas o Brasil continuará sendo isso aí”.
A conclusão não decorre das premissas. Se governos melhores e piores produzem consequências diferentes, escolhas institucionais importam. Logo, não estamos diante de uma essência brasileira imutável, mas de alternativas humanas. “O Brasil continuará sendo isso aí” não é uma conclusão. É uma desistência colocada no lugar dela.
Depois vem um argumento sedutor de Bichara: apesar da burocracia, do Estado dispendioso e da insegurança jurídica, há empresários que aprenderam a produzir riqueza. Claro que há. E daí?
E OS OBSTÁCULOS? – O fato de alguém sobreviver a um obstáculo não demonstra que o obstáculo seja irrelevante. Empresas que prosperam apesar de impostos, insegurança e burocracia provam alguma coisa sobre os empresários. Não provam nada em favor do ambiente que os castiga.
Pior: esse raciocínio enxerga os sobreviventes e ignora o invisível. Não vemos as empresas que nunca foram abertas, os investimentos que não foram feitos, os empregos que não existiram, o capital que foi embora e os talentos que desistiram.
A adaptação humana é extraordinária. Transformá-la em atenuante para aquilo a que foi preciso adaptar-se é um erro.
SEM INJUSTIÇA – A realidade deve ser aceita. A injustiça, não. Aceitar a realidade significa reconhecer que A é A. Se o governo é gastador, reconhecê-lo como gastador. Se a lei é arbitrária, reconhecê-la como arbitrária. Se uma política destrói riqueza, identificar sua causa e suas consequências.
Resignação é outra coisa. É transformar aquilo que homens fizeram naquilo que homens supostamente não podem mudar. A vida precisa de razão, propósito, autoestima, produtividade e liberdade para que cada indivíduo possa buscar seus próprios valores.
O Brasil não “é isso aí”. Não existe uma essência metafísica chamada Brasil condenada à burocracia, à insegurança jurídica, ao estatismo ou à irresponsabilidade fiscal. Existem ideias, instituições e escolhas feitas por indivíduos. Algumas boas. Outras desastrosas. O fato de uma injustiça ser antiga não a transforma em natureza das coisas. Apenas significa que já demoramos demais para corrigi-la.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG. Um artigo instigante, enviado por Mário Assis Causanilhas. Realmente, não se pode aceitar que governos errem, porque “o Brasil é assim”. Cabe aos eleitores criticar erros dos governantes e tudo fazer para corrigi-los, e essa prerrogativa é uma das principais bases da democracia. (C.N.)