Ex-capitão da PM baiana espalhou informações falsas para despistar fuga de Flávio Bolsonaro
Por Política Livre
01/11/2026 às 12:37
Foto: Reprodução
André Porciúncula
O ex-capitão da Polícia Militar da Bahia André Porciúncula, aliado de primeira hora da família Bolsonaro, teve participação na disseminação de informações falsas à imprensa durante a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, após a derrota para o presidente Lula (PT) no segundo turno das eleições.
A estratégia, segundo reportagem da jornalista Bela Megale, do jornal O Globo, reafirmadas hoje pela Folha de S> Paulo, foi articulada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro para despistar o verdadeiro paradeiro do irmão, que deixou o Brasil descumprindo uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na tarde da última terça-feira (27), Porciúncula informou a jornalistas que Flávio Bolsonaro já estava em um voo com destino a Miami. Horas depois, voltou a falar com profissionais da imprensa para assegurar que a aeronave havia pousado nos Estados Unidos e que o senador já estava reunido com Eduardo Bolsonaro e outros familiares.
As informações, entretanto, eram falsas. Naquele momento, Flávio ainda estava em território brasileiro, deslocando-se em direção à fronteira com a Argentina. Segundo a apuração de Bela Megale, as versões divulgadas por Porciúncula haviam sido repassadas a ele pelo próprio Eduardo Bolsonaro, que coordenava a estratégia para confundir a imprensa e dificultar o acompanhamento da fuga.
A operação incluiu outras informações desencontradas sobre o trajeto do senador. Aliados de Eduardo chegaram a sustentar que Flávio havia utilizado uma rota pela Venezuela, quando, na realidade, a saída ocorreu pela Argentina.
A participação do baiano chama atenção pela proximidade que mantém há anos com o núcleo mais fiel da família Bolsonaro, especialmente com Eduardo, de quem se tornou um dos principais aliados políticos.
Enquanto Porciúncula divulgava que Flávio já havia chegado aos Estados Unidos, o senador seguia em direção à cidade paranaense de Foz do Iguaçu. Segundo informações das autoridades migratórias argentinas, Flávio atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, às 22h50 de terça-feira (27). O parlamentar estava acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas do casal.
Para entrar na Argentina, utilizou um passaporte italiano. De lá, embarcou em uma aeronave particular que fez escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami, onde chegou na manhã de quarta-feira (28).
A fuga ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou que Flávio entregasse seus passaportes e ficasse proibido de deixar o território brasileiro. O senador descumpriu a decisão judicial, e a Polícia Federal passou a investigar as circunstâncias de sua saída do país.
As informações falsas circularam justamente quando as autoridades brasileiras tentavam localizar o parlamentar. A Polícia Federal investiga a fuga, mas não há confirmação pública de que Porciúncula tenha sido formalmente acusado de participação criminosa na operação.
*Biografia -* Nascido em Salvador, André Porciúncula Alay Esteves, de 41 anos, ingressou na Polícia Militar da Bahia em 2005 e alcançou o posto de capitão. Ganhou projeção nacional durante o governo Jair Bolsonaro, quando passou a ocupar funções na área cultural da administração federal.
Porciúncula integrou a equipe do então secretário especial de Cultura Mário Frias e assumiu a Secretaria Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, responsável pela gestão de recursos da Lei Rouanet.
Sua passagem pela pasta foi marcada por embates com representantes do setor artístico e pela defesa de mudanças na política federal de financiamento à cultura. Em 2022, chegou a defender a destinação de recursos da Lei Rouanet para produções de conteúdo favorável ao armamento civil. No final daquele ano, foi nomeado secretário especial de Cultura, cargo que ocupou nos últimos dias do governo Bolsonaro.
A atuação na administração federal consolidou sua proximidade com a família do ex-presidente, particularmente com Eduardo Bolsonaro. Os dois também mantiveram relações empresariais nos Estados Unidos. Em junho deste ano, Porciúncula foi transferido para a reserva remunerada proporcional da Polícia Militar da Bahia, após responder a procedimentos administrativos relacionados à ausência de retorno às atividades na corporação.
O caso também chegou à Justiça Militar, onde tramita um processo que pode resultar na perda de seu posto.
Além da carreira militar e da atuação no governo federal, Porciúncula tentou ingressar na política partidária pelo PL. Em 2022, disputou uma cadeira de deputado federal pela Bahia. Recebeu 82.693 votos, mas não conseguiu se eleger.
Dois anos depois, concorreu ao cargo de vereador de Salvador. O resultado foi ainda mais modesto: 2.758 votos, insuficientes para conquistar uma vaga na Câmara Municipal.
A ligação com Eduardo Bolsonaro também ganhou destaque em reportagens sobre a aquisição de um imóvel nos Estados Unidos. Em maio, uma reportagem do O Globo revelou que Porciúncula havia adquirido uma residência no Texas, avaliada em aproximadamente R$ 3,8 milhões, por meio de um fundo administrado por um advogado de imigração ligado a Eduardo.
O patrimônio chamou atenção porque, em sua candidatura a vereador de Salvador, em 2024, o ex-capitão havia declarado à Justiça Eleitoral bens avaliados em apenas R$ 164 mil. Questionado na ocasião sobre a origem dos recursos utilizados na aquisição do imóvel, Porciúncula afirmou que se tratava de questões pessoais e que, por não ocupar cargo público, não precisava prestar esclarecimentos.
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