A família Bolsonaro e seus aliados mentem. Essa conclusão parece óbvia, mas uma parte da imprensa parece ter se esquecido dela nesta semana. A Pública, não.
O primeiro erro aconteceu na terça-feira, quando o derrotado nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro, sumiu. Veículos brasileiros e estrangeiros cravaram uma manchete imaginária: ele já estaria nos Estados Unidos. Alguns afirmavam que Flávio já teria se encontrado com o irmão igualmente fujão, Eduardo.
As reportagens eram baseadas em declarações de fontes, que apareciam anônimas para o público. Ora, isso não é um problema em si: o jornalismo pode e deve proteger o sigilo da fonte quando isso é imprescindível para a segurança de quem denuncia.
Contudo, por vários motivos, o jornalismo muitas vezes usa e abusa dessa prerrogativa, deixando o noticiário se montar com um coral de declarações em off que parafraseiam realidades hipotéticas. E o pior, que interessam a essas mesmas fontes.
O caso de terça foi exatamente um deles. Flávio não estava naquele momento nos Estados Unidos. Nem mesmo havia embarcado rumo ao país. As tais fontes aliadas de Bolsonaro ou do governo Trump, que foram consultadas por diversos veículos, estavam ou mentindo deliberadamente, ou haviam sido enganados previamente e repassaram a mentira.
Uma delas, a do advogado Simón Levy, foi ainda mais insidiosa. O aliado de Trump postou na tarde de terça que Bolsonaro já estaria nos EUA. Mentira. Além disso, ele linkou na falácia um chamado para a tal Operação Alba, que mostraria o plano de manter a dominação mundial de Trump e reverter a vitória de Lula. O tal plano, curiosamente, reconhece a vitória de Lula. E mais: ainda tenta vender uma análise paga por US$ 4,99 e oferece a opção do leitor se tornar “aliado” com direito a cashback.
A Pública decidiu nesse dia não tomar essas falas mequetrefes como verdade. Foi somente na manhã do dia seguinte, na reportagem do diretor Thiago Domenici e editada pela editora Ana Magalhães, que publicamos a confirmação: Flávio saiu da Argentina, passou pelo Equador e estava naquele momento em direção aos EUA. Enquanto vários outros veículos já haviam cravado a viagem horas antes, decidimos apurar e só trazer para o nosso público o que fosse confirmado, sólido, real.
Na quarta, quando finalmente aterrissou na Flórida a aeronave levando Flávio e a família, a imprensa novamente foi pega refém do movimento dos mentirosos. Vários jornais estamparam na manchete a declaração golpista de que Flávio se auto proclamava presidente do país, junto a mais mentiras sem lastro algum de fraude nas eleições.
Ora, assim como o jornalismo não deve tornar mentiras em off em reportagens, não podemos transformar mentiras em on em títulos. O golpismo deslavado da família Bolsonaro não pode ser replicado automaticamente para o leitor, ele deve ser chamado pelo que é: golpe, mentira, falsidade.
Como mostrou a repórter Amanda Audi, em entrevista com a jornalista, professora e nossa conselheira Fabiana Moraes, após críticas, praticamente todos os portais corrigiram seus títulos. Os complementos “tom golpista” ou “golpista” foram acrescentados às manchetes. Palavras que você já deve ter se acostumado a ler na Pública.
A conclusão é óbvia: apoiadores de Bolsonaro e de Trump mentem, e suas falas interesseiras não podem ser usadas pelo jornalismo acriticamente. Nem como ferramenta de apuração, nem para dar títulos jornalísticos. O jornalismo não pode se comportar como um megafone que fique à disposição de grupos que chegaram ao poder sabendo usar muito bem das fraquezas do jornalismo “imparcial” ou declaratório. Nosso trabalho é ser rigoroso, checar, apurar, contrapor.
A Pública sempre fez isso, com coragem e independência mesmo antes de “virar modinha”, como se diz por aí. E vamos seguir fazendo.
Neste momento, precisamos do seu apoio para seguir investigando as articulações da família Bolsonaro nos Estados Unidos. Precisamos arrecadar R$ 30 mil até o dia 15 de novembro para bancar essa cobertura. O Brasil vai seguir em frente, mas Flávio e Eduardo continuarão lá, tramando contra nosso país.