Publicado em 5 de novembro de 2026 por Tribuna da Internet
Clubes apelam a terrorismo para reaver dinheiro das bets
Bernardo Mello Franco
O Globo
A cartolagem resolveu apelar ao terrorismo para tentar reaver o dinheiro das bets. Em audiência pública no Supremo, dirigentes de clubes de futebol falaram em demissão, calote e quebradeira. Queriam convencer a Corte a derrubar a medida provisória que proibiu a jogatina.
O vice-presidente do Flamengo, Flávio Willeman, alegou que a MP traria “riscos para a institucionalidade”. “O Brasil não pode romper com os ideários de liberdade econômica”, dramatizou, como se o país estivesse prestes a adotar o comunismo.
AMEAÇA – O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, ameaçou demitir funcionários do clube. “O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai sofrer os efeitos do desemprego”, discursou.
O advogado do Cruzeiro, José Francisco Manssur, vaticinou que as equipes brasileiras perderão força em torneios sul-americanos. Difícil acreditar. Nos últimos sete anos, a Libertadores da América foi monopólio de times nacionais.
Os cartolas martelaram os mesmos argumentos por duas horas. “A proibição deu errado”, sentenciou o representante da Ponte Preta, Bernardo Freire. O clube campineiro mostra que nem a grana das apostas é capaz de salvar gestões ruinosas. Neste ano, a Ponte conseguiu ser rebaixada duas vezes: caiu para a segunda divisão do Campeonato Paulista e para a Série C do Brasileiro.
AUMENTO DAS VENDAS – A farra das bets se revelou uma tragédia para a saúde pública e a economia popular. A Associação Brasileira de Supermercados, insuspeita de conspirar contra a ordem capitalista, informou que as vendas do setor subiram 6,5% após a edição da MP. Sinal de que o dinheiro da comida estava sendo drenado para a jogatina, em benefício de poucas empresas bilionárias e com sede em paraísos fiscais.
O governo merece críticas pelos pecados da medida, como o uso eleitoral e o prazo exíguo para a retirada dos patrocínios. No falatório de ontem, os clubes mostraram que só estão preocupados com a perda de receitas. Em vez de propor alternativas que não dependam do vício em apostas, os cartolas ameaçaram empurrar a conta para os mais fracos. “As categorias de base e o futebol feminino serão os primeiros a sofrer”, disse o advogado do Botafogo, Bichara Abidão Neto.