Tim Maia definia a demagogia como a pior das mentiras, chamando-a de "mentira mentirosa" ou "mentira da mentira", por considerá-la uma forma enganosa e hipócrita de manipulação.
Hipocrisia? Não. Isso é cinismo gélido, sem disfarce.
Imagine, por um segundo, um presidente iraniano — daqueles que o Ocidente ama odiar — convocando friamente um embaixador americano. Ele abre uma pasta, mostra nomes: Joe Biden, Nancy Pelosi, generais do Pentágono, chefes da CIA. Com voz calma, declara: “Vamos eliminá-los. Um por um. Não é ameaça: é plano.”
Em poucas horas, o mundo entraria em colapso controlado de fúria. Sessões de emergência no Conselho de Segurança da ONU. Manchetes histéricas 24 horas por dia: “Ameaça existencial ao Ocidente!”. Sanções devastadoras, bloqueio de ativos, ameaça de guerra preventiva. Tudo embrulhado no discurso sagrado da “lei internacional”, da “ordem global”, da “defesa da democracia”.
Agora olhe para o Brasil. Olhe bem.
Aqui, listas de alvos circulam abertamente em grupos bolsonaristas radicais há anos — e seguem circulando em 2025-2026. Nomes de ministros do STF (Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, outros), jornalistas incômodos, influenciadores de esquerda, cidadãos comuns que ousaram criticar. Ameaças explícitas: morte, estupro, linchamento digital e físico.
Perfis como Luciana (@lucianaisac) incentivam, com prints e prints, perseguição coordenada a pessoas após inclusão delas em “listas de alvos” criadas por militantes fanáticos. Deputado federal ameaça abertamente no plenário: “Alexandre de Moraes, o seu fim está próximo, nós vamos acabar com a sua vida”. Grupos de extermínio são desmantelados pela PF: tabelas de preços para eliminar ministros, drones, táticas de guerra, militares envolvidos.
E o que acontece?
Silêncio cúmplice da mesma plateia que gritaria “terrorismo islâmico!” se viesse do Irã. Relativização: “É só bravata de internet”, “Todo mundo ameaça”, “É reação ao lawfare”. Ou pior: aplauso velado, memes celebrando.
Enquanto isso, o saque continua:
- Desvios bilionários de verbas da saúde em plena pandemia.
- Dinheiro das vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul evaporando em mãos de secretários e aliados.
- Governadores e parlamentares mantendo ICMS altíssimo em meio à crise energética e inflação.
- Refinarias e distribuidores de combustíveis lucrando fortunas com preços abusivos enquanto a população queima no posto.
- “Bolsolão”, “Bolsomaster”, emendas parlamentares virando propina organizada.
Regras? Existem, sim. Mas só para os adversários. Impunidade? Reservada exclusivamente aos aliados. Moral? É tribal: o que é crime no outro lado vira “perseguição” quando acontece no nosso. Não é hipocrisia — porque hipocrisia ainda carrega vergonha, um resto de consciência. Isso é algo pior: um colapso moral calculado, frio como aço.
As regras são armas seletivas. A decência é moeda de troca. A verdade é o que convém no momento. E a população? Que se exploda. Bolsonaristas radicais apostam no caos porque acreditam que, das cinzas, eles governarão. Destruir o país para reinar sobre os escombros.
Como dizia Cecília Meireles, com uma tristeza que dói mais hoje do que nunca:
“Hoje eu queria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações... hoje eu queria apenas ver uma flor abrir-se, desmanchar-se (...).”
Porque as vozes humanas, no Brasil de agora, só ecoam ódio calculado, mentiras organizadas e cinismo sem pudor.
E nós, que ainda queremos um país decente, assistimos — anestesiados, exaustos — enquanto o abismo avança, passo a passo, lista a lista, desvio a desvio. Chega de anestesia.
Ou confrontamos isso, ou nos acostumamos ao inferno que estamos construindo.
Jornalista Luis Celso