Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia
A Polícia Federal (PF) conclui nesta quinta-feira (19/03/2026) a elaboração de um relatório preliminar com base em mensagens e arquivos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, que podem implicar figuras políticas com foro privilegiado. O documento será encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso envolvendo o Banco Master, e poderá embasar a eventual abertura de novo inquérito na Corte.
As análises iniciais apontam menções ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e a outros agentes políticos, em contextos que sugerem possível atuação institucional em benefício do banco. Investigadores avaliam se há elementos suficientes para caracterizar eventual prática de crime no exercício do mandato, condição necessária para a tramitação do caso no STF.
Mensagens indicam articulação política e interesse em medidas legislativas
Entre os conteúdos analisados, destacam-se mensagens em que Daniel Vorcaro comemora a apresentação de uma emenda constitucional proposta por Ciro Nogueira, em agosto de 2024. A iniciativa previa a elevação do teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em aplicações financeiras, como CDBs.
Nos diálogos, o banqueiro registra reação imediata do mercado à proposta e celebra o impacto da medida. A emenda, contudo, não avançou no Congresso, sendo rejeitada por falta de apoio político.
Em outra frente, durante tratativas para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), surgiram indícios de articulação política paralela. O deputado Cláudio Cajado (PP-BA) teria atuado para acelerar a tramitação de um projeto que permitiria ao Congresso destituir dirigentes do Banco Central, em meio a sinais de resistência da autarquia à operação.
A iniciativa não prosperou após reação negativa do mercado financeiro, que interpretou a proposta como tentativa de interferência institucional.
Relações pessoais e rede de influência sob análise
Mensagens pessoais também revelam a proximidade entre Vorcaro e figuras políticas. Em uma delas, o banqueiro descreve Ciro Nogueira como “um dos meus grandes amigos de vida”. O senador, por sua vez, afirmou manter relações com empresários em caráter institucional, negando qualquer favorecimento indevido.
A Polícia Federal tem adotado critério restritivo na análise do material, descartando conteúdos de natureza privada que não apresentem indícios de irregularidade. O foco da investigação permanece em elementos que possam indicar tráfico de influência, favorecimento indevido ou uso da função pública para benefício privado.
Negociação com o BRB e suspeitas sobre atuação institucional
Outro eixo da investigação envolve a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB, operação estimada em cerca de R$ 2 bilhões, que acabou rejeitada pelo Banco Central. Posteriormente, a autoridade monetária decretou a liquidação da instituição, diante de indícios de fraudes e incapacidade de honrar compromissos financeiros.
Mensagens entre Vorcaro e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, mencionam contato com o dirigente partidário Antônio Rueda, presidente do União Brasil. O diálogo sugere tentativa de interlocução política durante as negociações.
Em resposta, Costa afirmou que as conversas ocorreram no âmbito de suas funções institucionais. Rueda, por sua vez, confirmou ter prestado serviços jurídicos ao Banco Master, classificando a atuação como técnica, regular e compatível com a legislação.
Pagamentos a ACM Neto entram no radar da investigação
A relação entre o Banco Master e o meio político também inclui o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que ele recebeu R$ 3,6 milhões entre março de 2023 e maio de 2024, provenientes do banco e da gestora Reag.
O ex-prefeito confirmou os valores, afirmando que os pagamentos decorreram de serviços de consultoria regularmente prestados, sem irregularidades.
Requisitos para manutenção do caso no STF
Para que o caso permaneça sob competência do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal precisa demonstrar a existência de indícios concretos de envolvimento de autoridades com foro privilegiado em práticas ilícitas relacionadas ao Banco Master.
Caso tais elementos não sejam comprovados, a investigação poderá ser remetida à primeira instância da Justiça Federal.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.
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