Quando o planejamento não vem, a conta chega com a força das águas
Por José Montalvão
Tudo o que é feito sem planejamento e sem estudos técnicos cobra seu preço mais cedo ou mais tarde. E, no caso do Distrito do Canché, essa conta tem chegado em forma de enchente, prejuízo e sofrimento para agricultores e pecuaristas ribeirinhos.
Até onde se tem conhecimento histórico, o Canché jamais havia enfrentado inundações dessa magnitude antes da construção do Açude de Cocorobó, também conhecido como Açude de Canudos. A obra, que deveria representar segurança hídrica e desenvolvimento, passou a ser motivo de apreensão sempre que o céu escurece e as trovoadas anunciam o inverno.
Em 2024, a combinação de chuvas intensas com a condução tardia da abertura das comportas de sangramento resultou em uma tragédia anunciada. Segundo relatos dos próprios ribeirinhos, as águas não foram liberadas de forma gradual e preventiva. As comportas só teriam sido abertas quando o reservatório já se encontrava em situação crítica — depois do leite derramado. O resultado foi devastador: plantações perdidas, rebanhos comprometidos, cercas destruídas, casas invadidas pela água e um prejuízo que, até hoje, muitas famílias não conseguiram superar.
Agora, com o reinício das chuvas de trovoadas, dois riachos já começam a sangrar, reacendendo o medo coletivo. Caso o açude volte a sangrar de forma descontrolada, e dependendo da intensidade das chuvas, há o receio concreto de que a história se repita. E não se trata de alarmismo, mas de um temor fundamentado na experiência recente.
O Distrito do Canché e os ribeirinhos não querem paliativos. Não querem migalhas, nem promessas emergenciais após a tragédia consumada. Querem soluções estruturais e definitivas. Querem planejamento técnico, monitoramento permanente do nível do reservatório, protocolos claros de abertura gradual das comportas e, sobretudo, diálogo transparente com a comunidade que vive às margens do rio e sente primeiro o impacto de qualquer decisão equivocada.
Barragens e açudes exigem gestão responsável. O controle de comportas não pode ser improvisado, nem conduzido apenas quando a pressão da natureza já se tornou insustentável. É preciso antecipação, estudos hidrológicos atualizados e articulação entre órgãos estaduais e federais responsáveis pela operação do reservatório.
A esperança da população está na capacidade de articulação do prefeito Tista de Deda, para sensibilizar as autoridades competentes e buscar providências definitivas. Não se trata de politizar a dor, mas de evitar que ela se repita. A cada ano, o prejuízo acumulado enfraquece ainda mais o pequeno produtor, compromete a economia local e amplia a vulnerabilidade social.
Planejar não é luxo; é obrigação. Estudar impactos não é burocracia; é prevenção. Quando o poder público falha na antecipação, quem paga é o povo — e paga caro.
Que 2024 sirva de lição. Que as chuvas deste ano não encontrem omissão, mas responsabilidade. Porque, quando o planejamento falta, a água não perdoa.
José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025