O supremo Toffoli acordou nesta quarta com uma vocação que ninguém viu chegar: a de se declarar suspeito de absolutamente tudo que chegasse na sua mesa. Primeiro se declarou suspeito para relatar a CPI do Master. Depois, na sequência, se declarou suspeito para votar na Segunda Turma — o julgamento que decide se o banqueiro das festinhas de Trancoso, Daniel Vorcaro, continua ou não na gaiola na sexta-feira. Um dia histórico, darling. Um homem. Dois processos. Um foro íntimo muito ocupado.
A treta é a seguinte.
De manhã, Toffoli foi sorteado relator da ação que pede a instalação da CPI do Master na Câmara. À tarde, devolveu o caso com um despacho de sete páginas: motivo de foro íntimo, amigo íntimo ou desafeto não revelado, segredo guardado a sete chaves. Cristiano Zanin foi o sorteado seguinte e ficou com a relatoria.
Até aqui, tudo previsível. O interessante é o que veio logo depois: no mesmo dia, na mesma tarde, Toffoli também se declarou suspeito para participar do julgamento da Segunda Turma sobre a prisão do Vorcaro — marcado para sexta. Foro íntimo, mesma justificativa, mesmo caso, mesmo banqueiro. Isso depois de semanas ele dizendo que ia votar sim, que ia mostrar presença, que jamais tinha tido amizade com o Vorcaro, que os pagamentos à empresa dona do Tayayá eram legítimos e blá, blá, blá.
(Já começo a achar que o foro íntimo do ministro tem uma agenda própria e não avisa ninguém.)
Para os perdidos. A Polícia Federal entregou ao supremo-mor Fachin um relatório com mensagens do celular do Vorcaro mostrando conversas com o pastor Zettel — cunhado do banqueiro e seu operador financeiro — discutindo pagamentos à empresa Maridt, aquela do Resort Tayayá, aquela que Toffoli é sócio. Em fevereiro, os dez ministros assinaram nota coletiva dizendo que Toffoli não estava suspeito nem impedido, que tudo estava ótimo, que todos os atos eram legítimos. Ahã, claro, claro. O ministro saiu da relatoria assim mesmo.
Agora o foro íntimo avançou. O supremo Toffoli está suspeito para tudo no caso Master. E otrascositasmas.
“Ciro”, com C de Celular do Banqueiro
O telefone do banqueiro das festinhas de Trancoso continua sendo a fonte jornalística mais generosa do Brasil. Desta vez rendeu o nome “Ciro” — sem sobrenome, com uma lista de pagamentos autorizados pelo próprio Vorcaro em conversa com o pastor Zettel.
Cirão Nogueira, nosso senador amigo do trigrinho, foi questionado sobre isso na saída de um evento e respondeu com a profundidade filosófica de quem não quer falar do assunto: “Quem cometeu ilícito deve pagar de forma exemplar.” Dito assim, pro universo. Pra humanidade inteira. Sem se incluir nem se excluir.
Nogueira nega proximidade com Vorcaro e qualquer pagamento recebido. Em nota, lembrou que existem mais de 11 mil pessoas chamadas Ciro no Brasil, incluindo um advogado da própria defesa do banqueiro. Tecnicamente correto, darling. Mas o celular também trazia mensagens em que Vorcaro chamava Nogueira de “grande amigo de vida” e comemorava uma emenda do senador que elevava o limite do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. Ah, essa medida iria beneficiar o Master, né? Curioso.
Não há investigação formal contra Nogueira. O “Ciro” da lista segue sem sobrenome oficial. A investigação ainda apura os dados bancários. E o amigo do trigrinho segue falando em exemplaridade punitiva para os outros.
R$ 3,6 Milhões de Consultoria Política-Econômica, Darling
ACM Neto confirmou. Uma das empresas dele recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da gestora Reag (aquela ligada ao dinheiro do PCC na Faria Lima) entre 2022 e 2024. A explicação: consultoria em gestão empresarial e análise da agenda político-econômica nacional, com contratos formais, impostos recolhidos e reuniões com o corpo técnico e jurídico dos contratantes.
O Coaf, que não é exatamente o tipo de órgão que elogia o seu extrato bancário, disse que a empresa “movimentou recursos expressivos, acima de sua capacidade financeira declarada.” ACM Neto disse estar “totalmente seguro” e reclamou do “vazamento seletivo e fragmentado” do documento.
Mas o Master tem sido bastante democrático nos vazamentos, é o Toffoli, é o amigo do trigrinho e agora o ACM Neto, tudo numa semana. O banqueiro das festinhas de Trancoso tinha uma rede de “grandes amigos de vida” de dar vergonha em qualquer coach de networking corporativo.
Flavitcho em Valparaíso, Lula em Casa com Birra
O governo mais à direita do Chile desde o fim da ditadura de Pinochet tomou posse nesta quarta. José Antonio Kast recebeu a faixa de Gabriel Boric com o rei Felipe 6º da Espanha, Javier Milei e Flavitcho na plateia. Lula tinha confirmado presença e cancelou na véspera.
Flavitcho não perdeu nem um segundo. Falou para a imprensa chilena que Lula “foi muito pequeno”, que tem “ódio no coração”, que coloca “birra e rancor em primeiro lugar.” Disse isso com a serenidade de quem aparece empatado com o presidente numa pesquisa de intenção de voto e sabe muito bem que está sendo filmado.
O senador e filho 01 também encontrou María Corina Machado, Nobel da Paz que deu o Nobel pro Trump — que o chamou de “grande inspiração para os brasileiros.” Os dois prometeram manter contato e se ajudar “pela justiça e pela democracia.” Encontrou Milei. Agradeceu o homem da motosserra argentino por ter concedido refúgio a um foragido do 8 de janeiro. Defendeu a inocência do pai preso. Fez mais coisa em um dia de posse no Chile do que muita gente faz em uma semana de campanha.
Lula, em casa, com birra.
41 a 41 — Só Respira
A pesquisa Genial/Quaest divulgada hoje trouxe o número que vai animar a direita pelo resto da semana: pela primeira vez, Lula e Flavitcho aparecem numericamente empatados no segundo turno — 41% a 41%.
Lula caiu dois pontos. Flavitcho subiu três. A margem de erro é de dois pontos pra mais ou pra menos, a eleição é em outubro, estamos em março — mas o empate simbólico chegou num dia em que Flavitcho estava em Valparaíso sendo chamado de inspiração e Lula estava explicando por que não foi.
Nos outros cenários testados, Lula venceria todos: Ratinho Jr, Zema, Caiado, Eduardo Leite, Renan Santos, Aldo Rebelo. A corrida real, por ora, é entre ele e Flavitcho — com Tarcísio no corredor fingindo que não está olhando o relógio.
É isso, BRASEW. Vou ali comprar um pão doce e pensar no que nos aguarda até sexta.
