segunda-feira, agosto 25, 2025

Eduardo Bolsonaro e o jogo contra a democracia

 

Publicado em 25 de agosto de 2025 por Tribuna da Internet

Eduardo tenta o mesmo sistema democrático que o legitimou

Pedro do Coutto

Eduardo Bolsonaro tem ampliado seus movimentos fora do país, numa ofensiva que já o levou aos Estados Unidos e agora aponta para a Europa. Seu objetivo, segundo aliados e interlocutores, é buscar apoio junto a partidos e governos da extrema-direita europeia, como Hungria, Itália e Espanha, para pressionar o Supremo Tribunal Federal e desgastar o governo Lula.

A viagem, prevista para setembro, revela um alinhamento com figuras como Viktor Orbán e Matteo Salvini, num tabuleiro político que transcende fronteiras e tenta internacionalizar a narrativa de “perseguição” contra a família Bolsonaro. O paradoxo é evidente: eleito no Brasil dentro das regras democráticas, Eduardo recorre ao exterior para minar o mesmo sistema que o legitimou.

ESCUDO RETÓRICO – A democracia, nesse caso, torna-se um escudo retórico, útil para acusar o Judiciário de autoritarismo, mas dispensável quando os interesses familiares e políticos estão em jogo. Ao deslocar sua atuação para palcos internacionais, o deputado cria uma espécie de diplomacia paralela, voltada não à defesa do país, mas à tentativa de reverter investigações e enfraquecer instituições. O gesto, mais do que uma viagem, simboliza o caminho perigoso de quem vê no poder um fim em si mesmo, ainda que à custa do próprio pacto democrático.

Não é a primeira vez que líderes políticos tentam se apoiar em redes internacionais para fortalecer causas domésticas, mas o movimento de Eduardo Bolsonaro chama atenção pela clareza do seu propósito: confrontar ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes, e construir no exterior uma base de legitimidade para o discurso de que o Brasil estaria sob ameaça de um “tribunal autoritário”.

O risco, porém, é que essa retórica não encontra eco real em governos estrangeiros, servindo mais como combustível para o público interno e como instrumento de pressão sobre as instituições brasileiras. O que se observa é uma espécie de encenação política transnacional, em que o deputado se apresenta como vítima de perseguição, enquanto estreita laços com forças políticas conhecidas por tensionar valores democráticos em seus próprios países.

CONVENIÊNCIA – Essa escolha não é acidental: orbitar ao lado de Orbán, Salvini ou Vox, na Espanha, significa compartilhar não apenas uma estética política, mas também uma visão de mundo que reduz a democracia a uma ferramenta de conveniência. Para além da retórica, a questão central é até onde essa narrativa pode corroer a confiança da sociedade brasileira em suas próprias instituições.

Cabe, por fim, refletir sobre o impacto de tais movimentos no futuro político do país. Ao buscar respaldo externo, Eduardo Bolsonaro parece apostar em um cenário de permanente instabilidade, no qual o confronto com o Judiciário se sobrepõe a qualquer agenda construtiva.

Essa estratégia pode mobilizar setores mais radicalizados, mas também expõe o Brasil a um constrangimento internacional: que democracia é essa em que um parlamentar eleito prefere atuar como embaixador da discórdia, em vez de representar os interesses nacionais. A resposta a essa pergunta definirá muito mais do que o destino de uma família política — pode marcar a solidez, ou a fragilidade, do nosso próprio pacto democrático.

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