domingo, setembro 18, 2022

Voto no escuro




Como retomar investimentos e consumo? Como elevar os gastos em programas sociais com o governo quebrado e endividado?

Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Quanto mais distante o candidato está da vitória, mais detalhadas são suas propostas de governo. Inversamente, quanto mais perto do poder, mais vagos tornam-se seus programas.

Tome-se o caso do endividamento. Cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas. Claro, há dívidas boas (como aquelas para compra da casa própria) e dívidas péssimas, como as do cheque especial ou o rotativo do cartão de crédito.

Mas, como as taxas de juros estão em alta e devem permanecer elevadas por muitos meses, avançando até 2024, toda dívida torna-se perigosa, ainda mais com inflação alta e renda real em queda.

Muitos lares já foram atropelados. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio, em agosto passado 30% das famílias tinham alguma conta em atraso — o maior percentual da série iniciada em 2010.

O que dizem os candidatos?

Ciro Gomes, empacado nos 8%, tem uma proposta ampla para a renegociação meio forçada de todas as dívidas de pessoas e empresas. Tecnicamente, é de implementação muito difícil, praticamente impossível, mas de todo modo revela a preocupação do candidato em buscar os instrumentos para isso.

O favorito Lula só entrou no assunto por causa de Ciro. Sua campanha percebeu como o tema levantado pelo candidato do PDT era sério e trazia apelo eleitoral. Mas no que deu a proposta petista? Uma vaga promessa de renegociação.

É nada. Credores, de bancos a empresas de varejo, estão negociando o tempo todo. Há empresas especializadas nisso. Se for para apresentar algo de novo, algum tipo de financiamento barato e garantido, seria preciso mostrar o dinheiro e a modalidade de empréstimo.

Complicado, claro. O presidente da República não pode mandar o Banco Central reduzir os juros na marra. Pela nova lei, o BC é uma agência independente. Seu presidente atual, Roberto Campos Neto, tem mandato até dezembro de 2024 e precisa operar de acordo com regras bem definidas — a principal delas, colocar a inflação na meta. Como está longe da meta, manterá juros muito elevados. Isso é fato a limitar qualquer política econômica para os próximos dois anos, no mínimo.

Como retomar investimentos e consumo nesse ambiente? Como elevar os gastos em programas sociais — incluindo o salário mínimo, indexador das aposentadorias — com o governo quebrado e endividado? Lula, e insistimos nele por ser o favorito, tem resposta pronta quando se colocam essas questões:

— Olhem para meus governos anteriores.

Não faz o menor sentido. As situações são completamente diferentes. Para começar, o primeiro Lula foi beneficiado por uma onda de crescimento mundial, que derrubou os níveis de pobreza em todo o mundo emergente. Com o crescimento dos mais desenvolvidos e da China, os preços dos produtos de exportação dos emergentes atingiram níveis inéditos. Choveram dólares.

Hoje, Estados Unidos e Europa caminham para a recessão. O motor chinês se engasgou com a política de Covid Zero, que sempre deixa milhões de pessoas em lockdown, interrompendo atividades econômicas.

Internamente, o primeiro Lula recebeu de FH um governo arrumado: o real instalado, a regra da responsabilidade fiscal e do superávit primário, inflação domada. Agora, receberá o oposto disso tudo.

E o candidato favorito ainda fala em reestatizar a Eletrobras. Com que dinheiro? Só se confiscar as ações que foram vendidas, inclusive a milhares de pessoas físicas, que puderam usar parte de seu FGTS para comprar papéis da empresa de energia. Farão como? Devolverão o dinheiro ao FGTS? Seria uma quebra de confiança, um golpe jurídico que desmoralizaria o governo por muito tempo.

Finalmente, há outra bomba na praça: as finanças estaduais, destruídas por reduções compulsórias de ICMS. Aliás, o que os candidatos a governador dizem sobre isso? Tomar dinheiro do governo federal, que não tem.

Tudo considerado, o favorito Lula deve respostas, especialmente agora que quer tomar eleitores de Ciro e Simone. Estes aceitariam voto no escuro?
 
O Globo

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