sexta-feira, setembro 16, 2022

Sucesso da contraofensiva ucraniana muda perspectiva da guerra para Putin - Editorial




Retomada de território pela Ucrânia redesenha mapa do conflito e impõe dilema político e diplomático à Rússia

A rápida contraofensiva da Ucrânia iniciada na semana passada resultou até agora na retomada de amplas faixas da região de Kharkiv, no norte do país. O êxito militar da operação ucraniana não apenas traz implicações militares desfavoráveis à Rússia, mas também tem desdobramentos na política interna russa e no campo diplomático.

A estratégia ucraniana foi atacar nos dois extremos invadidos pelos russos: ao sul, na área de Kherson, e com grande rapidez ao norte. As tropas russas foram surpreendidas a ponto de, segundo a Inteligência britânica, ter sido aberta uma linha de 500 quilômetros em que as tropas de Moscou ficaram vulneráveis perto de Kharkiv. O comandante em chefe das tropas ucranianas, general Valery Zaluzhny, informou ter retomado 3 mil quilômetros quadrados do território invadido em menos de uma semana. Ao bater em retirada de forma desorganizada, principalmente ao norte, as forças russas deixaram para trás tanques, blindados e munição, que deverão ser usados pelos ucranianos.

Várias razões explicam o sucesso da contraofensiva ucraniana. Uma é o moral da tropa, superior ao da Rússia, que tem enfrentado dificuldades para substituir soldados por combatentes descansados, física e mentalmente. Outra, indiscutível, é o apoio do Ocidente. Não só financeiro, mas sobretudo militar. Destacam-se as armas sofisticadas fornecidas pelos Estados Unidos, uma delas os mísseis inteligentes atraídos por sinais de radar. É o motivo por que a Força Aérea russa, ativa no início da invasão, não tem podido dar o apoio necessário às tropas do Kremlin.

Enquanto o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, aproveita a boa fase na guerra para afastar a possibilidade de abrir negociações, aumentando seu poder de barganha, especula-se sobre a melhor alternativa para o presidente russo, Vladimir Putin. Convocar mais jovens para a guerra seria impopular. A artilharia russa tem respondido ao ataque ucraniano sem conseguir contê-lo. Resta a opção de um ataque nuclear “limitado”, desfecho catastrófico para o mundo, incluindo a Rússia e o próprio Putin.

Em Moscou, Putin tem de lidar com uma oposição cada vez maior a sua aventura militar. No início da semana passada, Ivan Safronov, jornalista especializado em assuntos militares, detido em 2020 sob a acusação de divulgar “segredos de Estado”, foi condenado a 22 anos de prisão. No mesmo dia em que recebeu a draconiana sentença, o governo fechou o mais independente e crítico jornal russo, o Novaya Gazeta, dirigido por Dmitry Muratov, Prêmio Nobel da Paz do ano passado.

Perseguir e encarcerar adversários na Rússia não resolve as dificuldades militares de Putin na Ucrânia. Tampouco cortar o fornecimento de gás à Europa. Por ora, ele parece contar com o apoio tácito da China de Xi Jinping e tem uma situação econômica mais confortável do que as sanções decretadas em razão da guerra sugeriam. Mas, com ventos desfavoráveis a Putin no campo de batalha, o tempo agora funciona a favor da Ucrânia.

O Globo

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