domingo, setembro 18, 2022

‘Só se Lula for doido vai nomear um neoliberal na Fazenda’, diz o coordenador da campanha

Publicado em 18 de setembro de 2022 por Tribuna da Internet

Entrevista com Luiz Dulci, ex ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República - CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação

Dulci admite que haverá segundo turno e será muito duro

Guilherme Balza
GloboNews

O ex-ministro Luiz Dulci, coordenador da campanha de Lula, afastou a possibilidade de Lula indicar, num eventual terceiro mandato, um ministro da Fazenda de viés liberal. Dulci afirmou que a vitória petista no primeiro turno é improvável e mesmo a eleição de Lula, para ele, não está garantida. Ainda assim, o ex-ministro já enxerga um movimento do mercado financeiro de tentar pautar um possível futuro governo petista.

“Os nomes indicados [pelo mercado] são todos expressões do pensamento econômico neoliberal. Armínio Fraga etc. Não estou negando que essa grande soma eleitoral seja importante para ganhar a eleição, mas só se o Lula for doido que vai designar um Ministério da Fazenda – com a crise econômica que ele vai enfrentar se ele ganhar as eleições tomando posse –, nomear um economista neoliberal, que pensa o contrário do que todos nós pensamos, mas eles vão pautar”, disse.

REUNIÃO VIRTUAL – A declaração foi dada em uma reunião virtual com mais de 600 intelectuais do campo de esquerda na noite desta sexta-feira (16). Estavam presentes os economistas Luiz Gonzaga Belluzo e Luiz Carlos Bresser-Pereira, o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos e a jurista Carol Proner, além de ex-reitores e representantes de movimentos e entidades.

O ministro citou o primeiro mandato de Lula, quando o escolhido para o cargo foi Antonio Palocci, um quadro histórico petista, mas que executou uma política econômica considerada liberal. “Em 2003, de certa forma, eles [o mercado] pautaram e conseguiram impor os seus objetivos.”

Há um entendimento na coordenação da campanha de que o principal predicado para o titular da Economia seja capacidade de diálogo com o Congresso. A escolha, no entanto, será de Lula.

ATÉ ALCKMIN? – Especula-se que no radar do ex-presidente estejam o ex-senador Wellington Dias e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha. Ambos têm participado de conversas com setores do mercado financeiro e do empresariado há alguns meses.

O nome de Geraldo Alckmin também é especulado, mas a escolha criaria um embaraço para Lula se eventualmente precisar demiti-lo do cargo.

Dulci participou de todas as coordenações das campanhas presidenciais petistas de 1989 até hoje, à exceção da disputa em 1994, quando ocupava o cargo de Secretário de Governo na Prefeitura de Belo Horizonte. Ele foi ministro-chefe da Secretaria-Geral nos dois mandatos de Lula, além de ser um dos principais conselheiros do ex-presidente.

MAIS ENGAJAMENTO – Na reunião com os intelectuais, Dulci convocou os presentes a se engajarem nas eleições. “Mesmo pesquisas feitas por nós mostram que há dificuldades eleitorais a serem superadas, sobretudo a vitória no primeiro turno não está garantida (…) Acho que o mais provável neste momento é ter segundo turno. Vai depender muito do esforço nosso nessa reta final pra ganhar no primeiro.”

O coordenador da campanha disse que está em curso uma ofensiva de Jair Bolsonaro e que muitos eleitores de Lula estão com medo de se exporem.

“As mentiras políticas em escala industrial estão fortíssimas. Eles estão mandando para 15 milhões de endereços eletrônicos, sobre os quais nós não temos controle. Há muitos desses endereços que nós não temos acesso. Uma parte, sim. Em 2018 não tínhamos nada. Agora temos a uma parte. No Rio de Janeiro, a informação que a gente tem de gente séria, criteriosa, é de que haveria 50 mil pessoas contratadas nas igrejas evangélicas, pentecostais, algumas delas, fazendo campanha de casa em casa. Tem o risco de ter segundo turno. Se tiver segundo turno eles vão chegar bastante legitimados.”

CORRELAÇÃO DE FORÇAS – Dulci prevê que a disputa eleitoral, se superada, vai apenas preceder um outro embate, mais difícil ainda, na avaliação dele.

“Nosso desafio é ganhar eleição? é. No primeiro turno? é. É tomar posse? é. Mas o desafio também é de construir uma correlação de forças que sustente Lula, eu insisto nisso, para fazer reformas moderadas, mas são reformas. As oligarquias brasileiras já estão tentando dizer que não dá para ser Bolsonaro, então tem que ser Lula, mas um Lula com uma política econômica atrasada, que não pode ser progressista, com menos políticas sociais, que não crie, por exemplo, impostos sobre grandes fortunas, impostos sobre dividendos, eles não querem.”

Em uma autocrítica dos governos Lula e Dilma, Dulci afirmou que o PT não foi capaz de criar mobilização popular para reformas mais ambiciosas ou mesmo para evitar o impeachment de 2016.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Bem, se o próprio coordenador da campanha de Lula, apoiado em pesquisas internas feitas pelo PT, garante que vai haver segundo turno, é impressionante que ainda haja quem pense (?) que Lula vai ganhar no primeiro turno… Como diziam os irmãos Ringling, os reis do circo, a cada 30 segundos nasce um otário. O mais interessante na matéria, porém, é Luiz Dulci admitir que a eleição não será fácil no segundo turno. (C.N.)

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