Xi Jinping e Vladimir Putin em Samarcanda, em 15 de julho de 2022, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO).
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, se reuniram nesta quinta-feira (15) na cidade uzbeque de Samarcanda, à margem de um encontro de cúpula com outros líderes da região, considerada um contrapeso à influência global do Ocidente. Para especialistas ouvidos pela RFI, o encontro representa o retorno da Guerra Fria e sela a aproximação dos dois países.
Para Emmanuel Lincot, professor do Instituto Católico de Paris, “significa para esses estados uma forma de criar uma sociedade de ajuda mútua, que permitirá a criação de um eixo reunindo Ancara, Teerã, Pequim e Moscou”. Em entrevista à RFI, o especialista em história política afirma que “assistimos claramente ao retorno de uma Guerra Fria, com uma Eurásia dominada por Moscou e Pequim, frente ao Indopacífico sob domínio dos americanos e seus aliados”.
Esta é a primeira viagem ao exterior do presidente chinês, desde o início da pandemia de Covid-19. Já para Putin, é uma oportunidade de demonstrar que a Rússia não pode ser isolada internacionalmente, apesar da invasão da Ucrânia, onde suas tropas sofreram consideráveis derrotas militares.
“É uma confirmação da aproximação de Pequim e Moscou, mas não podemos esquecer que em regimes ditatoriais como o da China e da Rússia, toda iniciativa de política externa leva em consideração a política interna”, observa Lincot.
Para Xi, é uma oportunidade de exibir suas credenciais como dirigente global antes do importante congresso do Partido Comunista, em outubro, no qual buscará o terceiro mandato. “É uma forma de Xi Jinping anunciar, antes do Congresso do Partido Comunista Chinês, que é ele quem manda. E uma forma de dizer que Moscou e Pequim são contrários a organizações de um só polo”, explica, sobre o que considera um recado claro aos americanos.
O professor ainda destaca que os chineses já pagam em rublos os seus contratos com Moscou e acredita que ambos os países possam até mesmo pensar em uma cripto moeda sino-russa, para contornar as sanções ocidentais.
Nesta quinta-feira, Xi Jinping disse que Pequim está disposto a trabalhar com Moscou para “apoiar os interesses fundamentais um do outro”, de acordo com um comunicado da mídia estatal.
O presidente russo, por sua vez, criticou os Estados Unidos, que lideram a ajuda militar à Ucrânia, bem como as sanções internacionais contra Moscou. "As tentativas de criar um mundo unipolar tomaram, recentemente, uma forma horrível e são completamente inaceitáveis", disse Putin. "Apreciamos muito a posição equilibrada de nossos amigos chineses em relação à crise ucraniana", acrescentou.
O encontro de cúpula é uma oportunidade para Moscou e Pequim desafiarem o Ocidente, em particular os Estados Unidos, país que liderou a adoção de sanções contra a Rússia, por causa da guerra na Ucrânia, e que irritou a China com demonstrações de apoio a Taiwan.
Vladimir Putin aproveitou para reiterar o apoio de Moscou a Pequim em relação a Taiwan, onde as visitas de autoridades americanas provocaram a ira chinesa. "Condenamos a provocação dos EUA", disse o líder russo, enfatizando que Moscou adere ao princípio de "uma China", segundo o qual Taiwan é parte do território chinês.
Alternativa ao Ocidente
Sediado no Uzbequistão, nesta antiga escala da Rota da Seda, o encontro da Organização de Cooperação de Xangai (SCO na sigla em inglês) conta com as presenças dos líderes da Índia, Paquistão, Turquia, Irã e de outros países.
Em um sinal de sua reaproximação diante das tensões ocidentais, navios russos e chineses realizaram uma patrulha conjunta no Oceano Pacífico, nesta quinta-feira, para "fortalecer a sua cooperação marítima". Até agora, a China não apoiou abertamente a guerra na Ucrânia, mas desenvolveu laços econômicos e estratégicos com a Rússia nesses meses de conflito e Xi Jinping expressou apoio à "soberania e segurança" do gigante eurasiático.
Clube anti-OTAN
Para alguns especialistas, essa aliança estratégica é uma espécie de "anti-Otan" criada pela China para combater a influência de Washington. “É uma organização fechada aos Estados Unidos, fechada ao Oeste e ao Japão, e que faz propaganda da boa vontade sino-russa, contando com as repúblicas da Ásia Central”, explica à RFI Emmanuel Véron, geógrafo e pesquisador associado à escola naval e à INALCO (sigla em francês para o Instituto de línguas e civilizações orientais).
“Mas devemos chamar atenção para o peso da China nessa organização, já que é uma iniciativa das autoridades chinesas, e a instrumentalização desse círculo diplomático pela China e pela Rússia para criar um contrapeso à Otan”, completa o especialista. “Porém, não há uma coordenação absoluta entre Moscou e Pequim, em que os dois estejam de acordo sobre todos os assuntos. Veja, por exemplo, a grande prudência da China sobre o conflito na Ucrânia,” destaca Véron.
Esta reunião é a primeira entre Xi Jinping e Putin desde que se encontraram em Pequim, em fevereiro, para os Jogos Olímpicos de Inverno, pouco antes de a Rússia lançar sua ofensiva contra a Ucrânia. Com esta viagem, Pequim mostra a vontade de reforçar a influência da China na região.
O presidente chinês também se reúne, no Uzbequistão, com o seu colega bielorrusso, Alexander Lukashenko, um aliado próximo da Rússia, que é membro da SCO como observador.
Formada em 2001 por China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tajiquistão, a SCO foi criada como uma organização política, econômica e de segurança para rivalizar com as instituições ocidentais. Não se trata, contudo, de uma aliança militar formal, como a Otan, ou um bloco integrado, como a União Europeia, mas seus membros trabalham juntos em questões de segurança, cooperação militar e promoção comercial.
Além de Xi Jinping, Putin se reuniu, nesta quinta-feira, com o presidente iraniano, Ebrahim Raisi. Para o líder de Teerã, “a cooperação entre os países sancionados por Washington os tornará mais fortes”. O Irã esperou mais de dez anos para obter a sua adesão à SCO, pois vários membros não desejavam ter no grupo um país sancionado pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas por causa de seu programa nuclear.
Vladimir Putin também teve encontros bilaterais com o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, e do Turcomenistão, Serdar Berdymoukhamedov. A programação desta sexta-feira prevê encontros com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.
China e Rússia reafirmam influência regional; Taiwan alerta para instabilidade da paz mundial
Em um encontro de cúpula regional na cidade de Samarcanda, no Uzbequistão, os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, se posicionaram, nesta sexta-feira (16), como um contrapeso à influência ocidental. Outros Estados que mantêm relações tensas com os Estados Unidos participam das discussões da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na siga em inglês). Porém, Taiwan advertiu que os crescentes vínculos entre a Rússia e a China prejudicam a estabilidade e a paz mundial.
Formado por China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão, o grupo foi fundado em 2001 como uma organização de cooperação política, econômica e de segurança, que pretende rivalizar com as instituições ocidentais.
O presidente chinês pediu aos líderes dos países participantes para "trabalharem juntos a fim de promover uma ordem internacional que siga em uma direção mais justa e racional". "Devemos promover os valores comuns da humanidade e abandonar a política de criação de blocos", disse Xi Jinping. O líder chinês não citou nenhum país, mas Pequim costuma utilizar essa linguagem para criticar os Estados Unidos e seus aliados.
Já Vladimir Putin celebrou a influência crescente dos "novos centros de poder" que, segundo ele, estão se "tornando cada vez mais evidentes". O presidente russo afirmou que a cooperação entre os países membros da SCO, ao contrário do Ocidente, está baseada em princípios "isentos de egoísmo". Durante um encontro com Xi, o russo agradeceu ao colega chinês por sua "posição equilibrada" sobre o conflito na Ucrânia e prometeu "explicações" sobre suas "preocupações".
As declarações de Xi e Putin ilustram as turbulências na esfera internacional, há vários meses. Moscou e Pequim enfrentam relações muito complicadas com os Estados Unidos em consequência da invasão russa na Ucrânia e do apoio americano a Kiev. Além disso, os países ocidentais adotaram uma série de sanções econômicas contra a Rússia, que olha cada vez mais para a Ásia em busca de apoio econômico e diplomático. "Estamos abertos à cooperação com o mundo inteiro", disse Vladimir Putin.
Xi Jinping, que faz a sua primeira viagem ao exterior desde o início da pandemia de coronavírus, espera, por sua vez, reforçar a sua imagem antes do congresso do Partido Comunista Chinês, em outubro, no qual aspira obter um novo mandato.
Outros encontros
O presidente chinês se encontrou com o seu colega turco, Recep Erdogan. Em várias ocasiões, o presidente da Turquia demonstrou preocupação com a população uigure, uma minoria chinesa muçulmana que fala turco e mora, principalmente, no noroeste da China. Organizações humanitárias acusam Pequim de oprimir essa população. O comunicado oficial da China sobre a reunião bilateral, contudo, não menciona se essa questão foi abordada pelos dois líderes.
Xi Jinping também teve uma reunião bilateral com o presidente iraniano. Ibrahim Raissi disse que seu país não cederia à intimidação dos Estados Unidos. "A República Islâmica do Irã não vai recuar diante da intimidação americana de forma alguma", disse, referindo-se às sanções de Washington contra Teerã, principalmente por seu programa nuclear.
Moscou busca alternativas
Moscou tenta reforçar os vínculos com a Ásia para contra-atacar as sanções ocidentais impostas em represália à invasão russa da Ucrânia. Com esse objetivo, Putin participou de várias reuniões bilaterais à margem da cúpula.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, cujo país compra cada vez mais combustíveis de Moscou, apesar das sanções ocidentais, disse a Putin que “não é hora de guerra”. O presidente russo garantiu ao primeiro-ministro indiano que queria encerrar o conflito na Ucrânia "o mais rapidamente possível", e que entendia as "preocupações" da Índia sobre o assunto.
"Infelizmente, o lado oposto, a liderança da Ucrânia, recusou qualquer processo de negociação e indicou que queria alcançar seus objetivos por meios militares, no campo de batalha", continuou Putin. O chefe do Kremlin também afirmou que as relações entre a Índia e a Rússia estão "se desenvolvendo" e que os dois países têm uma "parceria privilegiada".
Putin ainda tem na agenda um encontro com o turco Erdogan, com quem pretende examinar o acordo que desbloqueou as exportações de grãos da Ucrânia, paralisadas pela guerra.
O presidente russo conversará, também, com o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, após os confrontos entre este país e a Armênia, que deixaram mais de 200 mortos e provocaram o temor de uma nova guerra no Cáucaso, uma tradicional zona de influência de Moscou.
Taiwan reage
Frente à aproximação da Rússia e da China, Taiwan advertiu, nesta sexta-feira, que os crescentes vínculos entre esses dois países prejudicam a estabilidade e a paz mundial. "A Rússia chama de provocadores aqueles que mantêm a paz e o status quo, o que demonstra claramente o dano causado pela aliança entre os regimes autoritários chinês e russo para a paz internacional, a estabilidade, a democracia e a liberdade", afirmou o ministério das Relações Exteriores de Taiwan, em um comunicado.
Desde a quinta-feira, Xi e Putin vem expressando sua vontade de estabelecer um apoio recíproco e reforçar seus vínculos, em plena crise com os países ocidentais. Putin reiterou o apoio às reivindicações de Pequim em Taiwan. A China considera a ilha parte de seu território e prometeu retomar o controle à força se for preciso.
A invasão russa da Ucrânia reavivou os temores de Taipei de sofrer algo parecido com Pequim. Taiwan "condena de modo veemente a Rússia por seguir o governo autoritário e expansionista do Partido Comunista Chinês em suas declarações falsas nas reuniões internacionais que atentam contra a soberania de nosso país", afirmou o ministério taiwanês no texto.
RFI / DefesaNet
