sábado, setembro 17, 2022

Pesquisas eleitorais deveriam levar em conta a abstenção - Editorial




Comparecimento menor entre mais pobres e menos escolarizados não deveria ser desprezado nos cálculos

Apesar de o voto no Brasil ser um dever cívico obrigatório, os índices de abstenção têm sido crescentes nas últimas eleições gerais (em média 19% no primeiro turno e 21% no segundo). Um em cada cinco eleitores registrados não tem votado. Várias são as causas: viagens, desinteresse ou desilusão com a política, problemas familiares ou burocráticos e, acima de tudo, as sanções ridículas para quem deixa de comparecer. A justificativa para a ausência pode ser feita por aplicativo e, se esquecer ou não fizer, o eleitor tem no máximo de pagar uma multa irrisória — R$ 3,51 por turno — e ficará impedido de emitir passaporte ou prestar concurso público. Nada de dramático.

Na prática, é como se o voto não fosse obrigatório. Isso gera uma distorção cujas consequências vêm se tornando mais relevantes com o passar do tempo. Como mostrou reportagem do GLOBO, as ausências se concentram nos grupos sociais menos escolarizados e de menor renda. Analfabetos foram 4,4% do eleitorado, mas 11,1% dos ausentes em 2018. Eleitores com superior completo eram 9,2% do total, mas apenas 5,5% dos faltantes. A abstenção passou de 40% nas cidades remotas do Amazonas ou de Minas Gerais e alcançou 22% no Sudeste, o maior percentual entre todas as regiões. É justamente a que concentra mais eleitores e será decisiva nesta eleição presidencial.

Apesar de ser um problema com uma medida precisa, fornecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção não é levada em conta pelos institutos que realizam pesquisas de intenção de voto. A campanha do presidente Jair Bolsonaro tem usado os índices de abstenção do passado para alardear que a distância entre ele e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será menor na urna do que sugerem as pesquisas, pois o público que mais se abstém — mais pobre e menos escolarizado — concentra mais eleitores de Lula que de Bolsonaro. É um argumento na essência correto, embora seja difícil medir essa discrepância e saber se ela será mesmo decisiva como supõe a campanha bolsonarista (Lula pode obter menos votos do que sugerem os números, mas ganhar ainda assim).

Ao deixar de levar em conta as projeções de abstenção no cálculo dos percentuais de voto, os institutos supõem que ela se distribui uniformemente por todos os segmentos do eleitorado. Pode ser que esse equilíbrio corresponda à verdade no passado, mas não há garantia de que sempre se repita. De acordo com o estatístico Raphael Nishimura, diretor de amostragem da Universidade de Michigan, nos países onde o voto é facultativo, as pesquisas costumam avaliar a propensão de cada tipo de eleitor ir votar para obter níveis de intenção de voto mais confiáveis (nos Estados Unidos, há pesquisas apenas com “eleitores prováveis”). E nem isso garante o resultado. O exemplo mais citado é a eleição de Donald Trump em 2016, quando os institutos subestimaram o voto trumpista entre eleitores sem formação universitária no Meio-Oeste do país. Foi esse o principal motivo para as projeções errarem o resultado da eleição naquele ano.

Não há nenhuma evidência de que algo semelhante possa acontecer no Brasil, com a abstenção em massa dos eleitores mais pobres e menos escolarizados favorecendo Bolsonaro. Mas o exemplo americano mostra por que, para retratarem a realidade eleitoral de modo mais fiel, é essencial que os institutos passem a levar em conta a abstenção em seus cálculos.

O Globo

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