sexta-feira, setembro 16, 2022

Os planos dos presidenciáveis para a educação




Escola em Sobral, no Ceará, cidade considerada um caso de sucesso na educação. Ciro Gomes é conhecido por sua atuação na área como governado do estado

Por Vinícius De Andrade

Ciro tem o plano mais completo, mas com propostas que podem ser utópicas; Bolsonaro tem o pior, com frases clichês e perigosas; e Lula decepciona com um plano raso demais, analisa o colunista Vinicius De Andrade.

Estamos a poucos dias de uma das mais importantes e decisivas eleições do país. Sinto que tudo está sendo considerado para decidirmos em quem votar, menos o plano de governo de cada candidato, e não culpo a maioria das pessoas por isso. Não somos ensinados a votar de forma crítica. Eu nunca fui ensinado a procurar os planos de governo de cada candidato, meus pais também não foram e posso assumir com segurança que a maioria da população brasileira também não.

O contexto acima é fértil para a disseminação de fake news e propício para que a maioria das discussões se resuma a direita e esquerda como sinônimos de bem e mal.

São discussões muito rasas e carecem de mais informações. No site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), está disponibilizado o documento oficial do plano de governo de todos os candidatos à presidência. Neste texto trarei os planos para a educação de três candidatos: Bolsonaro, Lula e Ciro Gomes. Por que esses três? A razão é simples e não subjetiva: são os mais bem colocados nas últimas pesquisas do Datafolha. Apenas no final do texto farei minha análise e trarei minha opinião pessoal.

Ciro, o mais ousado

Para Bolsonaro, a educação é um dos eixos estratégicos do seu governo. Ciro é mais ousado e pretende apresentar o mais revolucionário programa de educação pública da história brasileira. Já Lula pretende colocar o povo no orçamento e fortalecer a educação pública universal, gratuita e de qualidade. Todos prometem investimentos na área.

A população negra e demais grupos que carecem de políticas públicas de inclusão através de cotas está presente de forma clara e objetiva em todos os planos, exceto no de Bolsonaro. O candidato do PT vai além, e engloba as pessoas com deficiência.

Ciro planeja expandir o ensino integral e frisa a importância da alfabetização. Já Bolsonaro, por outro lado, fala bastante sobre o ensino profissionalizante e repete, inúmeras vezes, que a educação precisa estar a serviço da economia e da geração de empregos. Nesse ponto ele difere dos seus adversários, que a interpretam como instrumento para o desenvolvimento da nação, e é o único a ter como meta a inclusão do ensino à distância, alinhado com o presencial.

O candidato do PT e o atual presidente entendem que as sequelas da pandemia na educação podem limitar qualquer avanço e consideraram isso no planejamento que fizeram. O plano do petista é mais completo e propõe um caminho claro: "Um programa de recuperação educacional concomitante à educação regular".

Sabemos que nenhum avanço pode ser feito na educação sem a devida atenção para nossos professores da educação básica. Felizmente, todos os planos consideram esses tão importantes agentes e entendem que eles também precisam ser contemplados pelas mudanças. Nessa pauta, o plano de Lula é o mais raso e se resume à "valorização e reconhecimento". Os outros dois vão além e planejam oferecer formação, capacitação e melhores salários. Ciro inclusive continuou: "Adoção de processos seletivos, através de concurso público, para professores e diretores."

Lula tem o plano de investimentos mais completo

É comum ouvirmos nos debates discussões sobre crescimento econômico. Economistas entendem que um dos ingredientes para garantir que um país cresça no longo prazo é investir em ciência e tecnologia. Os candidatos estão alinhados nesse entendimento. O plano de Ciro Gomes é o mais raso para a área. Já Bolsonaro mostrou uma maior preocupação, mas apenas com as "áreas estratégicas". Lula trouxe o plano mais completo e promete "recompor o sistema nacional de fomento do desenvolvimento científico e tecnológico, via fundos e agências públicas como o FNDCT, o CNPq e a Capes".

O plano de Ciro é o que traz mais projetos para a área. Dentre eles: financiamento da dívida do FIES, criação de um programa de alfabetização na idade certa, programa de metas de aprendizagem em cada ciclo e um sistema de incentivo financeiro para colégios alcançarem bons resultados. Ele pretende alinhar um conteúdo teórico de qualidade, novas formas de financiamento e novas tecnologias de ensino. Além disso, sinaliza a importância do uso efetivo das avaliações de aprendizagem, do acompanhamento escolar, do ambiente familiar e busca ativa por alunos faltosos e aulas de reforço.

Propostas de Ciro são utópicas demais?

As informações expostas acima foram retiradas do plano de cada candidato e preferi não as misturar com minha opinião para ser fiel aos planos. No entanto, este ainda é um texto de opinião e trarei a minha a seguir. Você, leitor, tem todo o direito de discordar.

Ciro teve o plano mais completo e coeso com as demandas da educação brasileira. Bolsonaro apresentou o pior, e Lula trouxe um raso demais.

Já havia ouvido falar muito sobre a atuação ativa do Ciro Gomes na educação do Ceará. Uma das cidades do estado, Sobral, é um grande caso de sucesso. Estive em Fortaleza neste ano e fiquei admirado com alguns colégios que conheci. O plano apresentado pelo candidato é o mais completo, mas confesso que isso também me assusta.

Ele pretende colocar a educação pública brasileira entre as dez melhores do mundo no período de 15 anos, e suas metas me parecem bem difíceis de serem viabilizadas, necessitando de uma grande mobilização nacional e do envolvimento de muitos agentes na mesma agenda: algo que parece ser bem utópico em nosso país. Além disso, espero que ele considere que há diferenças regionais que podem ser grandes obstáculos para a replicação do êxito cearense.

Fiquei desapontado com o candidato petista. Senti falta de projetos e metas mais claras. Talvez ele tenha confiado demais na associação de sua imagem com a valorização da educação, construída em outros mandatos, e achou que bastaria.

Por que Bolsonaro já não fez isso no primeiro mandato?

Bolsonaro apresentou o pior plano, e é engraçado, pois foi o que mais falou sobre a agenda. Me incomodou a quantidade de vezes que a educação foi associada a uma posição de estar a serviço da economia e da geração de empregos. O problema é que o plano apresenta uma imagem chamada "ciclo da pobreza" e segundo eles o termo "direito do trabalhador" é utilizado para enfraquecer a geração de emprego e acabar com empregos como Uber e Ifood. 

É uma pena ler isso no plano de um candidato e mais triste ainda saber que foi nosso presidente nos últimos anos. A palavra "direito" faz justiça ao significado e, se não fosse por esses direitos tão arduamente conquistados, nossos trabalhadores estariam em condições piores do que já estão.

Há também a frase: "Alunos possam exercer um pensamento crítico sem conotações ideológicas que apenas distorcem a percepção de mundo, em particular aos jovens, e geram decepções no cidadão que busca se colocar no mercado após concluir sua formação."

Não está explícito a qual ideologia ele se refere, mas, pensando no contexto geral e na agenda de seu governo, me parece que é justamente a questão de direitos trabalhistas. Me parece não querer pessoas que pensam e questionam e isso foi, mais uma vez, corroborado quando indicou as áreas de pesquisas que merecem investimento e as humanas não foram citadas.

Ele afirma que sem professores valorizados e motivados não é possível um ensino de qualidade e que ações para isso serão reforçadas no segundo mandato. Por que não aconteceram no primeiro? Por que devemos acreditar agora?

Acredito que a escola precisa fazer sentido para o jovem e ser sim um instrumento para um futuro melhor, com emprego e boa remuneração. No entanto, eu desejo um futuro para esses jovens com direitos, que não sejam explorados e que possam questionar e pensar de forma crítica. Um plano que não está alinhado com isso e que esconde suas verdadeiras intenções, utilizando frases clichês e perigosas como "rodar a economia e facilitar a geração de empregos" para estar a serviço de grandes corporações e não do povo, para mim não é um bom plano.

Deutsche Welle

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