segunda-feira, setembro 12, 2022

O mau sinal da queda do petróleo - Editorial




Cotação do petróleo é termômetro da atividade econômica global; queda reduz inflação, mas indica possível recessão

As cotações do petróleo continuam a surpreender. Depois de terem ultrapassado US$ 120 o barril em março, baixaram há dias para a faixa entre US$ 81 (tipo WTI) e US$ 88 (tipo Brent). A queda de cerca de 30% é, de fato, impressionante e de grande impacto. Há seis meses, o petróleo assustava o mundo e impulsionava a inflação nas principais economias, e também no Brasil; agora, ajuda a aliviar a pressão. Convém, porém, moderar o entusiasmo. O petróleo ficou mais barato porque a economia mundial vai mal. E em algum momento a crise externa terá reflexo na atividade econômica no Brasil.

No Brasil, em particular, a queda da cotação do óleo associou-se a medidas populistas do governo Bolsonaro. O governo fez fortes pressões sobre a Petrobras e os governos estaduais, o que, com a queda do preço do petróleo, resultou em redução substancial do preço da gasolina nas refinarias e, em particular, nas bombas.

O impacto sobre a inflação foi impressionante. Embora o preço da comida continue a subir, houve duas deflações mensais sucessivas e a variação acumulada de 12 meses caiu para menos de dois dígitos. Isso fez a inflação transformar-se de pesadelo para o presidente Jair Bolsonaro em tema para animar sua campanha pela reeleição – que, não obstante, continua sob risco em razão da má qualidade de sua gestão que prejudica a maioria da população.

A retomada da atividade econômica, que levou os analistas do setor privado a elevar as projeções do crescimento do PIB brasileiro em 2022, igualmente beneficia a campanha de Bolsonaro. As projeções para o desempenho da economia em 2023, no entanto, continuam sendo revistas para baixo. O novo cenário mundial, que faz cair as cotações do petróleo, justifica a cautela desses analistas.

Aos efeitos da pandemia, agora prejudicando fortemente a atividade econômica na China, seguiram-se medidas dos bancos centrais para conter a alta dos preços. A guerra na Ucrânia adicionou mais problemas a um mundo às voltas com uma crise sanitária sem precedentes que prejudicava a circulação de importantes bens e insumos.

Projeções de organismos internacionais já indicavam a desaceleração da economia mundial. O desaquecimento das atividades pode se intensificar. O endurecimento da política monetária nos principais países já produz efeitos sobre o consumo e a atividade econômica, e ainda não terminou. Em sua reunião de setembro, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou os juros em 0,75 ponto porcentual e já avisou que novas altas deverão ser decididas em suas próximas reuniões, para conter a inflação na zona do euro, que “está muito alta”.

O endurecimento da política monetária se estende para outros países, o que intensifica as projeções de uma recessão mundial. Declarações recentes do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, foram interpretadas como indicação de que a instituição não desistirá de combater a inflação, ainda que à custa de um aperto monetário mais forte, o que afeta a atividade econômica e a geração de emprego.

O Estado de São Paulo

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