domingo, setembro 18, 2022

O bolsonarismo tem futuro?




O conservadorismo tem tradição no Brasil, mas o bolsonarismo é reacionário, não conservador

Por Demétrio Magnoli (foto)

O vírus da Covid-19 estará com a humanidade pelo futuro previsível. Mas e o outro vírus, a extrema direita bolsonarista, terá um futuro após a quase certa derrota eleitoral? Depois dela, permanecerá na cena política brasileira ou se dissolverá na irrelevância?

A tese da permanência tem bons argumentos. Cerca de um terço dos eleitores mantém fidelidade a Bolsonaro, especialmente o núcleo do eleitorado evangélico. No 7 de Setembro, o bolsonarismo comprovou, mais uma vez, sua capacidade de mobilização popular. Ancorado no apoio de parcela similar da população, o PT sobreviveu a devastadoras intempéries e prepara-se para retornar ao Planalto. Será, porém, que popularidade basta?

Os partidos da extrema direita europeia que ascenderam recentemente deitam raízes em correntes profundas das histórias nacionais. A Reunião Nacional francesa deriva tanto da nostalgia do regime colaboracionista de Vichy quanto do neocolonialismo poujadista —e Marine Le Pen tenta expandir sua base para os saudosistas do nacionalismo gaullista. O Vox, na Espanha, nutre-se da memória do franquismo. O Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni, engaja-se na reforma e atualização do mussolinismo. O bolsonarismo, por outro lado, carece de chão histórico.

O conservadorismo tem extensa tradição no Brasil, mas o bolsonarismo é reacionário, não conservador. O Partido Militar da nossa história republicana organizou-se em torno do positivismo, um ramo ideológico da modernidade rejeitado pela extrema direita de Bolsonaro. A ditadura militar, cantada em verso e prosa pelo presidente inculto, acalentava o planejamento econômico geiseliano, não o fetichismo do livre mercado personificado por Paulo Guedes.

Pelo mundo afora, a aposta da direita populista que contesta a democracia é antiliberal. Le Pen, Meloni e seus congêneres prometem a proteção estatal aos "órfãos da globalização" —ou seja, à classe média e aos trabalhadores fragilizados pela revolução tecnológica. Já o discurso bolsonarista contra o "globalismo" não encontra contrapartida na doutrina econômica de Guedes. A aliança brasileira entre reacionários e ultraliberais é um ponto fora da curva. O carnaval ideológico do bolsonarismo não forma um alicerce sólido para sustentá-lo, quando fora do poder.

Na capa da The Economist, Bolsonaro é descrito como "o homem que seria Trump". O paralelo, já clássico, assenta-se na "Grande Mentira": a acusação antecipada de fraude eleitoral. A diferença, enfatiza a revista, é que, entre os militares brasileiros, a lealdade às instituições democráticas parece mais fraca que entre os militares americanos.

Trump perdeu, mas o trumpismo vive —e tenta voltar ao poder. Por que o bolsonarismo não percorreria trajetória similar?

Há fortes semelhanças e agudas diferenças entre os dois movimentos. Bolsonaro idolatra e imita Trump em quase tudo —menos no tema crucial do partido. Trump tomou de assalto a máquina político-eleitoral do Partido Republicano. Bolsonaro, pelo contrário, desistiu de erguer um partido de extrema direita e concorre por uma legenda de ocasião.

Trump precisa do Partido Republicano porque o sistema bipartidário dos EUA não comporta uma "terceira via". No Brasil, contudo, existe apenas um partido nacional coeso e centralizado, que se chama PT. Bolsonaro não criou seu partido porque é contra a democracia representativa, cuja espinha dorsal são os partidos políticos.

A extrema direita brasileira sonha febrilmente, noite e dia, com a ditadura. É esse sonho que a impede de constituir-se em partido. Qual é a chance de um movimento político perpetuar-se sem uma estrutura partidária sólida?

Bolsonaro não deixará o Planalto serenamente, conclui a The Economist. Isso é uma certeza: a transição enfrentará solavancos e arruaças. Mas o veredito sobre o futuro do bolsonarismo continua em suspenso.

Folha de São Paulo

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