segunda-feira, setembro 12, 2022

É louvável a iniciativa dos EUA em prol do combate à corrupção - Editorial




Casa Branca apoiará iniciativas de jornalistas, promotores e cidadãos que enfrentem regimes de ‘cleptocracia’

Se governantes descuidados com a preservação ambiental já enfrentam problemas com os Estados Unidos e a Europa, aqueles que fazem vista grossa ao desvio do dinheiro público e enriquecem com recursos do Erário enfrentarão mais dificuldades com o governo do presidente americano, Joe Biden. As missões da Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, em inglês) americana e seus parceiros acabam de receber um guia sobre como enfrentar a corrupção nos outros países.

A intenção da Casa Branca é dar apoio onde houver roubo de dinheiro público — em particular nos regimes classificados como “cleptocracias” — a iniciativas e a cidadãos que enfrentem a roubalheira. É o caso de jornalistas investigativos que desnudam oligarcas, empreendedores cansados de pagar propina, promotores honestos, políticos que lutam pela transparência ou quem quer que seja. O alvo principal do recado americano não é o Brasil, mas as iniciativas de combate à corrupção por aqui também entrarão na mira.

A ideia de dar apoio a países cuja sociedade quer desmantelar sistemas políticos e governos dominados por elites corruptas surgiu a partir do exemplo da Ucrânia. As reformas executadas depois de 2014 — ano da derrubada do presidente ligado a Moscou, Viktor Yanukovich, pela Revolução da Dignidade — são uma das principais fontes do guia americano. Foi naquele ano que tropas russas invadiram a Crimeia, sem maior resistência do Exército ucraniano, devido aos anos de corrupção e aos baixos investimentos na defesa. Uma explicação para a resistência que a Ucrânia demonstra agora contra as forças russas de invasão está na motivação das tropas para lutar por um país sem o nível de corrupção do passado.

Quem enfrentará mais dificuldades em razão das diretrizes americanas é a Rússia de Vladimir Putin, transformada num paraíso de oligarcas vinculados ao Estado. O enriquecimento de empresários que frequentam o Kremlin nos 23 anos de poder de Putin macula faz tempo a imagem do presidente russo. A corrupção também é citada como causa do avanço do Talibã no Afeganistão, onde militares passaram a receber propina para não lutar por um governo que viam como corrupto.

A política contra corrupção de Biden, lançada em dezembro do ano passado, não traz nenhuma receita extraordinária para ajudar os países interessados em acabar com as falcatruas. Há, porém, iniciativas essenciais para enfrentar o mundo do caixa dois e do dinheiro sujo, como ampliar a troca de informações e garantir transparência nos sistemas contra lavagem de dinheiro.

É louvável que o país mais poderoso do mundo queira ajudar quem quer ser honesto. Um dos efeitos mais deletérios da corrupção é impedir que sociedades atinjam um padrão mais elevado de desenvolvimento em saúde, educação e meio ambiente. O tema foi deixado de lado no Brasil com o desmantelamento da Operação Lava-Jato. Deveria voltar à agenda, sobretudo pelo histórico de escândalos que macula a imagem dos líderes na corrida presidencial.

O Globo

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